Postagens

A ESTRANHA MORTE DO DR. KELETI - Conto Clássico de Terror - Leo Peruta

Imagem
A ESTRANHA MORTE DO DR. KELETI Leo Peruta (Sec. XX) — Sinto muito, mas confesso que não me lembro do senhor. De resto, estou um pouco perturbado... quero dizer... surpreendido. Estava tão longe de encontrar um compatriota aqui! Na 5ª. Avenida é fácil dar com um a cada passo. Mas, neste subúrbio modesto... Diga-me: Chegou de Budapeste há muito tempo? Ah, não veio de Budapeste? Ah! Sim... de Kecsmet... Lembro-me perfeitamente... o Café Corso, o tio Jonas, a bela Aranka... “Oh! Agora eu o reconheço. O senhor é o engenheiro Kovacs. Muito prazer em revê-lo. Sinceramente, muito prazer. “Não tem outro compromisso? Então, venha almoçar comigo. Conheço um restaurante aqui perto. Modesto, mas com boa cozinha e discreto. Não se encontra ali senão gente do bairro. Só norte-americanos. Ninguém de Budapeste. Olhe, é aqui. Entre. Conhece o cardápio? Não? Então recomendo-lhe o consomé e o frango à moda da casa. É magnífico. “Então vai passar pouco tempo aqui? É uma pena! Pass...

O ESPELHO ENCANTADO - Conto Clássico Fantástico - Anton Tchekhov

Imagem
O ESPELHO ENCANTADO Anton Tchekhov (1860 – 1904) Entrei no salão acompanhado por minha esposa. Sentia-se no ar o mofo e a umidade. Quando iluminamos a peça, fato que não se dera durante todo um século, centenas de ratos e ratazanas correram de todos os cantos, procurando fugir. Uma lufada de vento entrou quando cerrávamos a porta e lançou folhas de papel para todos os lados. Gravados nesses papéis, percebemos velhos caracteres e figuras da Idade Média. Pendiam das paredes retratos de ancestrais que nos fitavam com severidade e orgulho, como se quisessem nos dizer: "Mereces uma sova, rapaz!". Nossos passos ecoavam pela casa inteira. A minha tosse era respondida por um eco, o mesmo que em algum dia remoto respondera a meus avós. O vento uivava. Alguém chorava na chaminé e em suas lágrimas percebia-se o desespero. Grossas gotas de chuva quebravam-se contra as sombrias janelas e aquele barulho nos enchia de tristeza. — Ah, ancestrais, ancestrais! — exclamei, ...

A PATA DO LOBO - Historieta Clássica de Terror - Stanilas de Guaita

Imagem
A PATA DO LOBO Stanilas de Guaita (1861 – 1897) Aconteceu no ano de 1588, em uma cidade distante duas léguas de Apchon nas altas montanhas do Auvergne, o seguinte: Um gentil-homem, de uma das janelas do seu castelo, viu passar pelas proximidades um caçador amigo e lhe pediu que, de volta, lhe trouxesse algo de sua caçada. O caçador continuou seu caminho através de uma extensa planície e ali se defrontou com um lobo enorme, contra o qual deu um tiro de arcabuz, sem conseguir feri-lo, sendo atacado pelo animal, a cujas orelhas se agarrou. Livrando-se, contudo, do lobo, recuou, sacou de um enorme facão de mato, que trazia consigo, e vibrou um golpe na fera, cortando-lhe uma das patas, que guardou no bolso, depois que o lobo fugiu. Voltou ao castelo do gentil homem para dar conta de sua promessa. O castelão pediu-lhe a parte da caça prometida, e ele, então, metendo a mão no bolso, e julgando que dali ia tirar a pata, tira uma mão que trazia em um dos dedos um a...

CROCODILOS - Narrativa de Horror - Narrativa Verídica - Anônimo do Século XX

Imagem
CROCODILOS Anônimo do séc. XX Quando embarcamos a bordo do vapor "Dulance", que devia levar-nos de volta à pátria, experimentamos enorme e dolorosa surpresa quando encontramos a Sra. Morei de cabelos brancos, com o sofrimento estampado no rosto. A   linda jovem que encontráramos, poucos meses antes, estava agora transformada numa velha, já vencida na vida. Quando alguém de nossa equipe, mais afoito, quis fazer-lhe algumas perguntas, movido por mórbida curiosidade, teve como resposta as lágrimas mais amargas que já víramos chorar. — Como? Os senhores ignoram? Meu marido... Não pôde acabar a frase, mas, por fim, diante das palavras afetuosas e dos cuidados dispensados por todos nós, acalmou-se, tomou coragem, e começou a contar o drama como ela o presenciara. UM FIO DE ÁGUA O marido transferira-se, em sua companhia, à ilha de Madagascar para uma plantação de cana de açúcar. Obtivera, como concessão do governo, uma extensão de terras nas duas...

MATER DOLOROSA - Conto de Horror - Paulo Soriano

Imagem
MATER DOLOROSA Paulo Soriano Para Pop “... e esta vida embora não sendo minha   é possível ” Aldo de Lima I A súbita dor fora tão intensa, tão brutal, que Maria se viu acordada no meio da noite, dobrada sobre o próprio corpo, uma das mãos mergulhada no ventre que ardia em fogo, a outra em riste, como garras, agitando a escuridão. Cambaleou até a janela, mergulhando a cabeça desgrenhada na noite alta, procurando ar. Mas a boca — tão aberta quanto os olhos vesgos — aspirou apenas o vácuo. Então tossiu, como se expulsasse demônios do peito, para depois sorver, aliviada, a podridão que exalava da noite morna. Ainda se refazia quando a criança chorou. Maria içou, com esforço sobre-humano, a menina que jazia, inquieta, no caixote de maçã, oferecendo-lhe o seio murcho. A criança pareceu confortada ao simples contato com a teta, que se abria em tiras de carne viva. Mas, quando sugou apenas um filete de sangue aquoso, desatou num choro redob...