MATER DOLOROSA - Conto de Horror - Paulo Soriano



MATER DOLOROSA

Paulo Soriano

Para Pop

“... e esta vida
embora não sendo minha
 é possível

Aldo de Lima

I

A súbita dor fora tão intensa, tão brutal, que Maria se viu acordada no meio da noite, dobrada sobre o próprio corpo, uma das mãos mergulhada no ventre que ardia em fogo, a outra em riste, como garras, agitando a escuridão.

Cambaleou até a janela, mergulhando a cabeça desgrenhada na noite alta, procurando ar. Mas a boca — tão aberta quanto os olhos vesgos — aspirou apenas o vácuo.

Então tossiu, como se expulsasse demônios do peito, para depois sorver, aliviada, a podridão que exalava da noite morna.

Ainda se refazia quando a criança chorou.

Maria içou, com esforço sobre-humano, a menina que jazia, inquieta, no caixote de maçã, oferecendo-lhe o seio murcho.

A criança pareceu confortada ao simples contato com a teta, que se abria em tiras de carne viva. Mas, quando sugou apenas um filete de sangue aquoso, desatou num choro redobrado, uma frustração e um protesto tão profundos que as paredes do barraco tremeram de compaixão. A mãe contorceu-se de dor, a chama do estômago subiu aos seios e ganhou garganta. Maria tossiu novamente, respirou a noite podre, e depois chorou baixinho. A criança protestava em seu colo, agitando pernas e braços, uivando para a noite como um animal faminto e feroz.

*
  
João Sabino mergulhou no ventre da coisa. Venceu, devagar, as ruelas toscas que eram o intestino do Alto da Peste. Àquela hora, já não mais se viam os pivetinhos, com seus ventres enormes pululando de vermes, correndo de um lado para o outro, brincando picula no esgoto a céu aberto. Nem se viam as mulheres com lata d’água na cabeça, rebolando as ancas flácidas enquanto ganhavam morro acima. A noite grassava, e os homens se reuniam em segurança para uma rodada de cachaça e um bom carteado.

No coração do Alto da Peste, o único prédio de alvenaria, mas sem reboco, com tijolos carcomidos pelos musgos, deitava as suas luzes elétricas sobre os copos de cachaça e a mesa de bilhar.

João Sabino foi ao balcão, pegou um copinho e aboletou-se numa mesa, onde Zé Galo e Rabicó batiam velhíssimas pedras de dominó.

Rabicó misturou as pedras com as suas mãos pretas e enormes. Quando as levantou, os jogadores caíram sobre as pedras como galinhas disputando milho.

 — O serviço foi uma porra — disse Zé Galo, com o cigarro apertado nos dentes, enquanto João Sabino conferia s pedras que acabara de escolher. Tinha o olhar desolado. Zé galo saiu com uma carroça de sena. Parecia satisfeito. Rabicó limitou-se a servir.

 — Eu toco — grunhiu João Sabino, ainda fazendo careta por causa da cana que entrara mal, acompanhando com a pedra o ritmo da música que esvaía do velho pulmão de uma radiola de fichas.

— Foi uma porra mesmo! Imagine que os danado dos pastor alemão não comero a bola. Não teve jeito de comer. Tá vendo que eu não ia me arriscar por causa de uma TV a cores? Toco também.

Rabicó cuspiu a cachaça antes de anunciar a batida, com um estalo vigoroso. Virou-se para Zé Galo:

— Tu é pé-de-chinelo, otário. E medroso. Não dá pr’estas coisas. Faz como o João, se especializa.

Alguém embaralhou as pedras. Meditabundo, Zé Galo respondeu de mansinho, olhando apenas para a sua quina-e-quadra:

— Na especialidade de João Sabino, eu não entro. Não nasci para pegar no pesado, nem para ter patrão. Meu negócio é ser autômuno.

— É autônomo — corrigiu João Sabino, que estudara no Mobral, e bem sabia que ser autônomo, para a vida que o Galo vivia, significava deitar a mão no que é alheio.

Zé Galo mexeu-se nervosamente na cadeira, quase deixou as pedras caírem, mas não ficou por baixo. Sabia muito bem o ponto fraco de todos com quem jogava, quer no jogo mesmo, quer na vida. Mas quando o respondeu, o fez pausadamente.

— Eu não como da palavra bonita. Nem tu também. E quem come tua mulher não é tu, otário. Diz se a galega não tem cicatriz de ponta de cigarro bem no morro da xereca?

Rabicó, um homem gordo e preto, e com filariose na perna esquerda, caiu num sorriso brutal. Engasgou-se, a face avermelhou-se até onde podia. Cuspiu no chão e esvaziou o seu quartinho de cachaça.

Os olhos azuis de João Sabino injetaram-se de ódio e cachaça. E o ódio era maior que a vergonha. Levantou-se num ímpeto, derrubando a mesa. Empunhou o gargalo da garrafa de cachaça que lhe caíra quase aos pés, e muito ao alcance das mãos. As extremidades pontiagudas tremeluziram.

Zé Galo saltou para trás, desembainhando a peixeira. Mas Rabicó, com os seus punhos de aço, acertou-o quase no queixo. O larápio franzino, ágil e manhoso, perdera a faca na queda, mas ganhou o beco em carreira desabalada.

— Não quero confusão em meu bar! — Gritou Rabicó para a rua, arrastando a perna inchada, enquanto o Galo descia a ladeira como um foguete. — E você, Sabino, já tá muito bêbado. Arriba para casa que eu quero fechar.

— Me dá mais um quartinho pro corno aqui ... Pro corno aqui...

— Que corno que nada. Nada de quartinho.

— Só uma lapada.

— Foi tu mesmo que dissesses, noite dessas, que apagou o cigarro no negócio de tua mulher faz anos. O negão só quer te perturbar. Não caia nessa, visse?

— Não interessa. Eu não disse nada. Ladrão filho da puta!

João Sabino engoliu, de gute-gute, a pinga que o gordo servira a contragosto. Depois pagou e saiu para o ódio, para a vergonha, para a noite imunda.

E para o destino inexorável.

*

Na noite que beirava a madrugada, a criança loura e esquálida dormia sobre ventre dolorido da mãe.

A mulher, saudosa dos bons e difíceis dias do Sertão, quando o seu homem ainda era bom, contemplou a filha sob a luz rubra que escorria do candeeiro de lata e voltou a chorar, enquanto depositava a criança no berço — um gradil de maçã forrado de trapos — e cantava baixinho, comovida, os lábios colados nos ouvidos da pequerrucha:

“Dorme Mariana
Dorme, dorme, meu amor
Painho foi pra roça
E ainda não voltou ...”

II

Maria cochilava quando ouviu os pontapés na porta do barraco. Era ele que voltava, bêbado de novo, destilando ódio e cachaça.

A dor de Maria recrudesceu. Quase vomitou, expondo o medo para fora.

Quando Maria abriu a porta, levou um pontapé no estômago, à guisa de boa-noite. Curvou-se sobre o corpo e rolou no chão de barro batido. Golfou um sangue feio e pegajoso, mas que a fez respirar e expulsar um suspiro curto, que sabia a fragilidade do alívio.

— Tu trepou com Zé Galo, sua vadia de uma molesta — foi o que disse.

A mulher gemia de dor, chorava de medo e protestava por Mariana, e isso mais irritava, mais ainda excitava o marido. Antes de levar outro pontapé, agora nas costas, que estalaram, Maria balbuciou:

— Trepei não. Trepei não, João.

— Bota comida que eu tô com fome — gritou João Sabino, aplicando um safanão no ouvido da esposa.

Maria se levantou, curvada para frente, a dor voltando a envolver sua garganta, como uma tenaz. Voltou com um prato pronto e os olhos muito assustados, prenhes de dor.

— João — disse com a voz humilde —, vamos voltar para Ouricuri. Meu leite secou, é de hoje que eu te digo. Não tem leite para a criança.

— É culpa tua se não tem leite.

Quando deu a última garfada, João parecia mais calmo. Quando bebia — e ultimamente bebia todos os dias —, costumava dar com a língua nos dentes. Diziam os mais sóbrios que se gabava das malvadezas que fazia. A história da cicatriz era troça de Zé Galo, certamente. Mas ainda tinha as suas dúvidas. Homem que é homem sempre duvida. Ao se levantar da mesa, meteu o cotovelo no estômago de Maria:

— Se vire para arranjar leite para a putinha, que eu já gastei tudo de cachaça.

Resmungando, deitou no colchão sujo e puído, que servia de cama de casal. Adormeceu imediatamente.

Lá fora, a Lua fedia nas águas infectas do Capibaribe.

*

João Sabino despertou de chofre. Ainda estava bêbado, mas a boca amargava e a cabeça latejava como se fora uma grande pústula. Bradou para que a mulher desse jeito na boca da putinha, que não parava de berrar e ele queria dormir para acordar cedo e ir trabalhar. Maria levantou, tomou a criança nos braços e ensaiou um acalanto que não dobrou a primeira estrofe.

— Já não basta esta miséria de menina e tu ainda canta! Cala a boca e faz esta peste dormir, visse?

— Você tá doido, João? Não vê que a menina está com fome? Já não te disse que meu leite secou? Desde ontem eu não peço para tu comprar o leite em pó?

— Cala a boca, porra! Eu não já disse que quero dormir?

João cobriu a cabeça com uns trapos que teimavam em ser um lençol. E esperou, impaciente, que a criança calasse. Mas ela insistia em gritar, e gritar tão forte quanto forte era a sua fome, tão alto quanto os seus pequenos pulmões permitiam que gritasse.

A mãe fazia psiu, agitava ainda mais rapidamente a criança em seu colo dolorido. Mas a fome da criança era vigorosa, crescia a cada minuto, tornava-se gigantesca como a impaciência do pai.

— Cê vai ver se essa putinha agora não cala — cuspiu João para si próprio, os punhos retesados, a voz tremendo de raiva e indignação.

João se levantou. Cambaleando, foi ao quintal. E quando voltou empunhava uma foice enferrujada.

 João delirava.

Maria, acuada como um animal, apertou Mariana contra o seio. Correu, mas foi agarrada pelos cabelos. Caiu de costas. O marido avançou, ficou de quatro sobre o vente da mulher e a espancou com uma fúria alucinada. Mas, a cada pancada que saía da destra retesada, mais ainda a mulher comprimia a criança contra o peito. Uma golfada de sangue escorreu do nariz fraturado de Maria, que, num reflexo fatídico, levou a mão ao rosto. Depois se arrependeu. O gesto facilitou o trabalho de João. O Homem arrancou a criança do braço de Maria, jogando a menina no chão de barro batido, como se fora um fardo inútil. A criança, por um longo momento, parou de chorar. João arquejava. Afrouxou a mão que empunhava a foice, certo da vitória. O problema parecia finalmente resolvido. Mas Mariana, para o desespero da mãe, e ensandecimento do pai, recrudesceu no choro. Agora berrava de fome e de dor. João pensou na última cartada.

A foice deslizou.

João ergueu a criança com ambas as mãos. E apertou, com seus dedos vigorosos, até ouvir o estalido de costelas quebrando. A criança arregalou os olhos, e desatou a uivar como um filhote de cachorro ferido.

A mãe arremessou contra o homem, cingindo-o por trás, à altura do peito, mergulhando as unhas afiadas. Num ímpeto, gemendo de dor, João Sabino largou a criança e investiu contra a cabeça da mulher com um punho cerrado. Neste momento, lembrou-se — com um prazer quase sensual — do dia em que, numa aposta, entre os colegas do canteiro de obras, enfiara um prego no compensado com o dorso da mão fechada. João sorriu ao ouvir o barulho oco que a pancada fazia. Depois chutou a mulher, antes mesmos que ela atingisse o chão.

— Vamos ver se eu não durmo agora! — Foi o que disse João, enquanto tateava o chão escuro, até encontrar a foice. E ergueu o ferro recurvo, à altura da nuca, baixando violentamente, decepando a mão da menina. A foice voltou a descer, indignada, pois errara o alvo. Mas agora, com a satisfação de quem se redime vitorioso de um deslize inconsequente, o golpe presto atingiu a putinha na barriga, partindo-a ao meio. Antes que o ódio arrefecesse, o chão de terra batida precipitou-se, empapou-se do sangue que agora escorria do pescoço da criança, logo em seguida ao golpe certeiro, que fez a cabecinha rolar, parando com os olhos vítreos mirando para o lado, onde estava a mãe. Maria, semiacordada, encolhida de tantas e tantas dores, viu a foice subir e descer freneticamente. Aos poucos, as mãos de João Sabino vergaram-se ao peso do cansaço. Quando parou, o homem estava exausto.

— Chora agora, descarada — disse a coisa, ao se afastar.

*

Maria ergueu a cabecinha decepada contra a luz do candeeiro. Os olhinhos azuis, muito abertos, haviam, decerto, congelado a imagem do pai, quando a foice descia sobre o pescoço. Os lábios, porém, pareciam sorrir.

A mãe beijou os lábios da filha, envolveu a cabecinha no colo, juntou alguns trapos para aquecê-la, e a ninou, vagarosamente (como se só a cabeça bastasse), sussurrando-lhe aos ouvidos o acalanto interrompido:

“...Dorme, dorme, meu amor
Painho foi pra roça
E ainda não voltou...”

E o Recife adormecia, ficava a sonhar, ao som da triste melodia ...

III

Depois de arrebatar, dos braços de Maria, a cabecinha que o amor maternal acalentava, João recolheu os pedacinhos da putinha, e os enterrou no quintal, junto à bananeira, cujos frutos douravam, foscamente, à luz opaca da Lua.

Mas não os sepultou de todo. No chão, semioculta na escuridade, uma mãozinha esboçava o apodrecer. A mãozinha da putinha Mariana.

João voltou para cama, para dormir, finalmente, o sono dos justos.

IV

Quando o Sol da manhã incidiu sobre o barraco, e o calor insuportável do telhado de zinco arrancou o Homem da cama, Maria já trouxera a marmita, pousando-a sobre a mesa puída. Não havia ódio, desespero. Havia mistério em seu olhar. E na marmita também. Mariana estava morta. Mas, mesmo assim, a menina saberia o que fazer.

João ainda não sabia, ao certo, o que fizera. A roupa tingida do sangue coagulado pouco ajudou para aliviar a memória, recolhida em algum lugar na cabeça, que lhe doía e latejava como um grande abcesso. Apenas quando saiu ao quintal, para tomar um merecido banho, foi que ele percebeu, ao pé da bananeira que frutificava, um montículo inchado no chão. Parecia uma barriga grávida de feto morto, insinuando-se das entranhas da terra. Maria, cheia de mistérios, o ouviu comentar:

—Ah! Matei a putinha.

V

A hora do rancho era a mais esperada. João preparara argamassa a manhã inteira, ouvindo a ladainha do pedreiro mal-humorado, enquanto bebericava a cachaça, às escondidas, para afugentar a ressaca que não queria ceder.

Os colegas de pá e esquadro avolumaram-se num patamar voltado para o nascente, sob a sombra. Alguns traziam marmitas, outros se contentavam em roer um sanduíche de pão dormido, com a carne mui gentilmente cedida por um camarada mais abastado.

João foi o último a chegar. Os mais esfomeados chegaram-se junto a ele, que, como sempre, fazia suspense e ria, antes de abrir a marmita.

E João Sabino abriu a marmita. Para a sua desgraça, abriu a marmita. Amaldiçoou a putinha. Xingou a mulher. E maldisse o pão nosso de cada dia.

Porque, acima do arroz e do feijão, pousada sobre a farinha de mandioca, alguma coisa, algo lânguido, cianótico, parecia se agitar aos olhos de João Sabino, mais eloquente que um choro esfomeado.

Pedreiros, ajudantes e carpinteiros recuaram de pavor.

Sobre a farinha de mandioca, estrategicamente posta no lugar onde deveria estar a carne seca, com o polegar afundado no feijão, e o indicador revirado para cima, em riste para João, reluzia, azulada, uma mãozinha delatora.

A mãozinha da putinha Mariana.



Nota: “Mater Dolorosa”, o segundo conto escrito pelo autor, foi uma das narrativas laureadas no “Prêmio Asabeça”, edição de 2007.  O que o inspirou escrevê-lo, em meados da década de 90, foi uma notícia de jornal. Subjacente, estava a leitura recente de “Meninos da Areia”, de Jorge Amado, itabunense como ele.

Ilustração: Jean-Léon Gérôme (1824 - 1904).


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CURIOSO TROFÉU DE NOBREZA BÁRBARA - Narrativa Clássica - Narrativa Cruel



CURIOSO TROFÉU DE NOBREZA BÁRBARA

Pálias Moxife

(Pseudônimo de autor desconhecido do séc. XX)


A ilha de Bornéu, que pertence à Inglaterra e à Holanda[1], é a maior ilha do mundo, depois da Nova Guiné. Numa superfície de 735.000 quilômetros quadrados, abriga uma população de dois milhões de almas. Quando Fernando de Magalhães a descobriu, em 1518[2], ali já existia o bizarro costume indígena que a tradição oral vem mantendo até hoje com a simples explicação — “Adate niquite”, que quer dizer: “costume dos meus pais”.

Essa tradição consiste em se enobrecer cortando cabeças. Desde criança, o indivíduo de Bornéu, na sua gabolice infantil, a contar a importância paterna, mede-a pelo número de cabeças humanas cortadas pelos seus ancestrais.

Ali corre a seguinte lenda, entre os dajaques[3]:

Um rapaz, da alta nobreza dajaquena, amava uma donzela da mesma estirpe. Mas esta não via ainda no pretendente à sua mão atos que demonstrassem seu valor pessoal, não obstante sua aparente virilidade. Querendo o rapaz dar provas do seu valor, internou-se na floresta, trazendo de lá um grande cervo. Não bastou. Novamente se internou na mata o intrépido rapaz, trazendo dessa vez um feroz e enorme orangotango, do qual muitos heróis tinham fugido. A donzela dajaqueana não se satisfez. Queria uma cabeça humana. O rapaz, desesperado, partiu, voltando pouco depois com a cabeça de uma mulher ainda sangrando.

—Agora, sim, meu amado, és um homem! (exclamou a donzela em êxtase). Podes levar-me contigo!

A cabeça cortada era a da própria mãe da donzela, da futura sogra do herói...


Ilustração: F. Boyle.
Fonte: Careta, edição de 26 de junho de 1941.



[1] Hoje, a ilha de Bornéu integra os seguintes países independentes: Indonésia (desde 1945), Malásia (desde 1957) e o Brunei (desde a extinção do protetorado britânico em 1984).
[2] Na verdade, no ano de 1821.
[3] Ou dayaks. A etnia dayak era especialmente temida por sua antiga tradição e prática de caçadores de cabeça. 





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O LOBO - Conto Clássico de Terror - Horace van Offel



O LOBO
Horace van Offel
(1876 – 1944)

Um dia recebi uma carta de Chabannes, pedindo-me que fosse vê-lo e que levasse meu aparelho fotográfico. Chabannes vivia em uma casa isolada na orla da floresta de Marly, para os lados de Saint Germain e, embora eu o visse raras vezes, estimava-o muito. Era um esquisitão, com a mania de viver naquele deserto, e não vinha a Paris senão para comprar livros e material para caçador. Os que o não conheciam intimamente, como eu, consideravam-no um desequilibrado. Mas eu sabia que seu gênio misantropo se formara nos longos anos que ele passara nos sertões da América do Norte caçando o jaguar e a onça...  

Eram quase três horas da tarde quando cheguei Saint Germain e, como o tempo estava esplêndido, segui a pé, cantarolando pelo caminho.

Havia uma paz imponente na floresta, um silêncio majestoso, cortado apenas, de vez em quando, pelo grito soturno de alguma ave. Mas, quando entrei na zona de carvalhos, senti o peso dessa majestade com uma sensação física angustiante.

Que pequeno eu era, no meio daqueles gigantes, que torciam no ar galhos nodosos, como braços musculosos contraídos numa cólera furiosa! Mas, um pouco adiante, formou-se um cenário maravilhoso. A folhagem tornou-se leve como uma rede decorativa e faceira. Era ali que Chabannes vivia em um antigo pavilhão de caça, que só alcancei já ao anoitecer. O pavilhão estava fechado e silencioso, dando uma impressão de abandono. Chamei por meu amigo e tive de repetir esse grito para que ele aparecesse à porta.

Mal o reconheci, tão velho e abatido me pareceu ali. Havia mesmo um não sei quê de sinistro em sua fisionomia. Demais, eu sempre o conhecera correto, de uma elegância um pouco rude, mas que revelava um constante cuidado consigo mesmo. Agora, via-o vestido como um vagabundo.

Sem uma palavra, Chabannes fez-me entrar e fiquei estupefato ao ver como estava o interior de sua morada. Os moveis caíam aos pedaços. Nas janelas, as teias de aranhas substituíam as costuras e, nas paredes, os espelhos cobertos de pó refletiam apenas imagens confusas e sombrias. Na sala de jantar, interessei-me por uma tela pendurada diante do bufê. Mas estava tão estragada pela umidade que em pouco perdi o interesse de decifrá-la. Mas Chabannes notara minha atenção e explicou:

—É um retrato de meu bisavô Louis-Adéodat de Chabannes, que foi monteiro-mor do rei e famoso perseguidor de lobos.  Teve aventuras que... Mas, primeiramente, vamos jantar.

A mesa não tinha toalha e os talheres estavam maltratados.

—Vive aqui sem criados? — perguntei, interdito.

— Fugiram todos — respondeu ele com um risinho de escárnio. — A floresta enche-se de pavor... Verdade seja que ela está se tornando maligna. As arvores... Mas, você não come?...

De fato, eu não me atrevera a levar o garfo à boca. Achava em meu amigo maneiras tão estranhas que começava a perguntar a mim mesmo se "os outros" não teriam razão, julgando Chabannes louco.

Já era completamente noite e nós comíamos uma miserável refeição de conservas e pão dormido à luz de uma vela. Essa chama minúscula e vacilante iluminava o rosto estreito de Chabannes e projetava nossas sombras enormes, reproduzindo nossos gestos com exagero desordenado. A de Chabannes dominava a minha e seus cabelos produziam duas sombras em ponta, como duas orelhas móveis e pontudas.

Entrementes, ele dizia-me:

— Não quer comer estes cogumelos? Tem medo de que sejam venenosos? Eu como-os todos sem escolher. De resto, o veneno é um recurso natural e um meio de defesa de que a floresta se serve muito justamente. A floresta é inteligente e esperta. Observa o homem e zomba dele. Há de acabar por invadir todo o mundo. Mas venenos, no sentido em que entendemos essa palavra, não existem. Algumas plantas sugerem que são venenosas. Nós acreditamos e morremos de medo. Você não conhece as histórias dos faquires da índia?

—Que histórias?

—Esta, por exemplo: um faquir reúne os fiéis em torno de si e chama o tigre. O tigre sai do juncal, vem, aproxima-se dele, e deixa-o acariciá-lo. Um dia, um viajante europeu lembrou-se de fotografar essa cena, que todos viam.  Pois bem, no negativo apareceram o faquir e os curiosos... mas não se via tigre algum. Como explica você isso?

—Hipnotismo ?

—Provavelmente. O faquir sugere àquela gente que vai ver um tigre e todos veem... Agora ouça. Você trouxe a máquina fotográfica. Aqui tenho magnésio para fotografar à noite. Vou lhe explicar o que desejo. Receio estar convencido de que sou um lobisomem.

 — Hein?

— Sim. À noite, há uma força estranha, irresistível, que me obriga a sair o andar até o amanhecer, correndo pela floresta... Estou convencido de que, durante essas horas, eu me transformo em lobo... Então, quero que você me fotografe nesse momento. Se não é verdade...

— Mas não pode ser verdade — atalhei com indignação. — Você não pode acreditar em semelhante disparate.

 — Espere — murmurou Chabannes, apertando-me o braço com uma força espantosa. — Não posso ouvir mais. Chegou a hora.

E, com os cabelos eriçados, a boca cheia de espuma, os olhos exorbitantes, abriu a porta e desapareceu aos saltos entre as árvores. Quase imediatamente, ouvi um grito selvagem erguer-se lá fora. Senti um terror tamanho que corri a fechar a porta e passei-lhe a tranca solidamente. Depois, fiquei refletindo e, pouco a pouco, recobrei o sangue-frio. Não havia dúvida: o meu pobre amigo estava louco. Mas que estranha forma tomara sua loucura...  Enfim, o que tinha a fazer era esperar que a crise passasse, depois...

Mas, de súbito, ouvi arranhar a porta com força. Aproximei-me pé ante pé, e senti o resfolegar do robusto de animal através das tábuas. Recomecei a tremer, mas envergonhei-me de dessa fraqueza e, subindo ao sótão, curvei-me à janela.

Um lobo enorme, horrendo, gigante, estava imóvel diante do pavilhão e seus olhos chamejantes fitavam-me. Todo o meu terror dissipou-se e eu imaginei um disfarce, uma fantasia de louco...

—É boa — resmunguei. — O pobre Chabannes está de fato sofrendo do miolo e pensa assustar-me com essa mascarada.

Fui buscar o aparelho. O fulgor do magnésio surgiu de repente e o lobo fugiu.

Pela manhã, Chabannes entrou esfarrapado, imundo, mas com o olhar cheio de esperanças.

—Então? Viu o lobisomem? — perguntou ele com uma expressão de zombaria.

— Vi e fotografei.

— Então vamos revelar — disse ele.

E levou-me a uma câmara escura, que tinha preparado em um cubículo junto à cozinha.

Esperou, com impaciência, que eu terminasse a operação. E quando, afinal, lhe entreguei a fotografia, correu a examiná-la diante da janela. A figura do lobo destacava-se nítida, perfeita. Chabannes olhou e, atordoado, desabou.

O médico, que fui buscar em Saint Germain, afirmou que morte fora devido aos cogumelos comidos na véspera e eu fingi acreditá-lo, embora soubesse que, com certeza, não era verdade.


Traduzido e adaptado por autor desconhecido do início do séc. XX. Fonte: Eu sei Tudo, edição de janeiro de 1922.
Conto publicado originalmente no jornal francês Elxcelsior, edição de 25 de outubro de 1919.
Imagem: Blingee

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A LÁPIDE DA MENTIRA - Narrativa Cássica Cruel - Narrativa Sarcástica - Bram Stoker



A LÁPIDE DA MENTIRA
Bram Stoker
(1847 – 1912)

— Mas — respondi —, seguramente você não está de todo certo quanto ao que disse, já que parte da suposição de que todas essas pobres pessoas, ou seus espíritos, terão que carregar consigo as próprias lápides no Dia do Juízo. Você acha que isso será realmente necessário?

— Bem, para que mais servem as lápides? Responda-me isso, senhorita!

— Para agradar a seus parentes, suponho.

— Para agradar a seus parentes, você supõe! — disse o velho, com uma entonação de intenso desprezo. — Como podem os parentes dos mortos sentir algum prazer, mesmo sabendo que tudo o que se escreve nas lápides não passa de mentiras, e que todo mundo aqui, neste lugar, sabe que são de fato mentiras?

Ele apontou para uma pedra aos nossos pés, que havia sido colocada à guisa de lápide, e sobre a qual o nosso banco descansava, próximo à margem do penhasco.

—Leiam as mentiras que estão sobre esta lápide — disse ele.

— De onde eu estava sentada, as letras apareciam de cabeça para baixo. Lucy, porém, estando de frente para a inscrição, inclinou-se e leu:

À sagrada memória de George Canon, que morreu, na esperança de uma gloriosa ressureição, em 29 de julho de 1873, ao cair dos rochedos em Kettleness. Este túmulo foi erigido por sua pesarosa mãe para o seu filho amado. Ele era o único filho de uma mãe viúva. —Realmente, Sr. Swales, não vejo nada de muito engraçado nisso!

Ela fez este comentário com uma expressão muito grave e um tanto severa.

—Ah, você não vê nada de engraçado nisto! Ha! ha! Mas isso é porque você não sabe que essa mãe pesarosa era na verdade uma bruxa que odiava o filho, por ser ele um incapacitado — e, lamentavelmente, ele o era —; já o filho a odiava de tal maneira que cometeu suicídio somente para impedi-la de receber o pagamento do seguro que ela fizera sobre a vida dele. Ele fez voar o topo da própria cabeça com uma velha escopeta que eles usavam para afugentar os corvos. Mas, naquela ocasião, ele não atirou para assustar os corvos, senão para atrair a si as moscas-de-cavalo[1] e as gralhas-pretas[2]. Foi assim que ele despencou dos rochedos. E, quanto às esperanças de uma gloriosa ressurreição, eu o ouvi muitas vezes dizer, senhorita, que preferia ir para o inferno, pois sua mãe era tão piedosa que seguramente iria para o céu, e ele não queria jazer onde ela estaria.  Agora, diga-me — ele golpeava a lápide com a bengala enquanto falava —: isto não é um monte de mentiras? E isto não fará Gabriel[3] gargalhar quando, ofegante, Geordie chegar-lhe, com a lápide equilibrada na corcunda, pedindo que a inscrição lhe sirva como prova?

Eu não sabia o que responder, mas Lucy mudou rumo da conversa quando, levantando-se, disse:

— Oh, por que você nos contou isso? É meu assento favorito e eu não posso abandoná-lo; e agora descubro que devo continuar sentando-me sobre o túmulo de um suicida.

— Isso não vai lhe fazer mal algum, minha linda; e pode fazer o pobre Geordie mais feliz por ter uma moça tão formosa em seu colo...


A presente narrativa é um excerto do capítulo VI de Drácula. Tradução de Paulo Soriano.



[1] As moscas-de-cavalo são assim chamadas porque costumam pousar nas bordas das feridas dos cavalos para sugar-lhes o sangue.
[2] As gralhas-pretas, aves da família dos corvos, alimentam-se frequentemente de cadáveres de outros amimais.
[3] O autor refere-se ao arcanjo Gabriel, a quem, segundo a tradição cristã, caberá tocar a trombeta, sinalizando os fins dos tempos e anunciando o Juízo Final.

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LÁZARO - Conto Clássico de Horror - Conto Fantástico - Leonid Andreiev




LÁZARO
Leonid Andreiev
(1871 – 1919)

Quando Lázaro se reergueu do túmulo, após três dias e três noites passados no misterioso reino da morte, ninguém notou, a princípio, certas particularidades que mais tarde iriam tornar terrível o seu nome. Alegremente, acorreram a saudar o redivivo parentes, amigos, vizinhos e mesmo alguns habitantes de longínquas cidades e aldeias. Certo, havia algo de estranho em sua fisionomia, palavras, gestos: isto, porém, era explicado pela estada no túmulo... Mas o gênio de Lázaro e todas as características de sua personalidade estavam mudados, do mesmo modo que o aspecto físico. Outrora, a sua alegria serena e doce havia atraído a simpatia do Mestre; agora, pouco falava e jamais ria. No entanto, felizes por terem recuperado o irmão querido, Marta e Maria coisa alguma de anormal nele notavam.

Mas eis que um dia, em meio de um dos muitos repastos festivos oferecidos pelas duas irmãs, alguém se lembrou de perguntar:

 — Por que não nos contas, Lázaro, o que Lá viste? — e todos aguardaram ansiosos a resposta.

Mas Lázaro nada disse e o amigo insistiu:

— Não falas? É tão horrível assim?

— Um pesado silêncio se fez na sala. Mortalmente pálido, os lábios e as mãos arroxeados, aquele que três dias antes ressuscitara dentre os mortos fitava os convivas. Lá fora, era azul o céu, brilhava radioso o sol e as fontes cantavam; mas, para aquele que conhecera as sombras do sepulcro, nada mais representavam o sol, o cantar das fontes, nem o azul do céu. Mais uma vez o conviva insistiu:

— Vamos, Lázaro, porque não contas o que viste do outro Lado? — E no mesmo instante aquele que interrogava e todos os outros mudaram de aspecto; seus rostos tornaram-se brancos quais sudários; emudeceram, fitando-se atônitos. Os músicos, que tocavam alegremente a um canto da sala, tomaram também um aspecto cadavérico e seus instrumentos puseram-se a emitir fúnebres sons. Pouco a pouco, retiraram-se os convidados. Ia caindo a tarde. Chegou a noite e de súbito, aos olhos de alguns parentes e amigos que haviam permanecido em casa de Marta e Maria, a figura de Lázaro revestiu-se de esplendor. Pôs-se de pé, gritou:

— Horrível!... Horrível!

Por fim, todos se foram. As duas irmãs afastaram-se também, movidas por um medo bizarro. Abandonado pelos seus — que tanto se tinham alegrado com o seu regresso —, Lázaro teria sucumbido à fome se alguns vizinhos não se tivessem apiedado dele, mandando-lhe alimentos pelas crianças: estas não lhe receavam o sinistro aspecto. Passava o tempo e a casa, da qual ninguém mais cuidava, ia tombando em ruínas. Sentado no jardim, agora invadido pelo mato, mal coberto pelos andrajos do traje festivo que não mais tirara, Lázaro, o morto-vivo, ali permanecia imóvel, silencioso, horas e horas. E aqueles que assim o viam pensavam:

— Tão intenso foi o frio, tão medonha a treva do sepulcro, que nem a luz pôde mais alegrá-lo, nem o sol aquecê-lo!

Outras vezes, Lázaro ia caminhar pelo deserto, sempre na direção do sol, qual fantasma perdido; e ninguém sabia o que ele ia lá fazer.

Um dia, alguns habitantes de um povoado distante, atraídos pelas estranhas coisas narradas acerca do irmão de Marta e Maria, resolveram procurá-lo. O seu aspecto havia mudado e o redivivo não se mostrava tão apavorante. No entanto, depois da conversa que tiveram com ele, aqueles curiosos retornaram ao povoado levando nos olhos a loucura. Outros visitantes acorreram e todos, jovens e velhos, voltaram com uma nova expressão nos rostos. Aquela sombra que Lázaro trazia em si apoderava-se de quantos dele se aproximavam. Ninguém, porém, repetia as palavras que ele poderia ter dito...

Naquele tempo, vivia em Roma um célebre escultor chamado Aurelius. Suas obras eram de rara beleza. No entanto, o artista nunca se mostrava satisfeito, e dizia sempre:

—Ainda não pude apanhar o calor da lua nem o fulgor do sol. Não existe alma no meu mármore, não há vida nos meus belos bronzes.

Quando lhe chegaram aos ouvidos os estranhos rumores acerca de Lázaro, o escultor decidiu ir à Judéia afim de ver o homem miraculoso que se reerguera dentre os mortos. Amava a vida e pensou fazê-la de novo amar pelo ressuscitado.

Achava-se o irmão de Marta e Maria sentado à porta da casa abandonada quando o rico romano, seguido por um escravo, dele aproximou-se, chamando:

— Lázaro!

O interpelado fitou em silêncio aquele estrangeiro formoso e magnificamente trajado, que prosseguiu:

— Não és belo realmente, mas não tenho medo de ti, como os demais. Permitis que aqui permaneça esta noite?

— Não tenho cama.

 — Ficarei sentado; acenderemos a luz.

 — Não tenho luz.

 — Conversaremos nas trevas como dois amigos. Deves ter vinho.

— Não tenho vinho.

Riu-se o romano:

— Compreendo agora Porque és tão sombrio e porque não aprecias a tua segunda vida.

Com um gesto, afastou o criado:

— Agora estamos sós — prosseguiu — e deves tratar bem o teu hóspede, Lázaro. Estiveste, pois, três dias no túmulo? Mas por que usas estes farrapos que devem ter sido outrora vestes de noivado? És noivo?...

O sol desaparecera no céu e a noite tudo envolvia. Em tom mais baixo, o artista continuou:

— No escuro pareces maior, Lázaro. Gostaria que tivéssemos um pouquinho de luz... estou com frio... Estás olhando para mim? Sim, sinto que me estás olhando. E agora sorris.

Silenciosa pairava a noite sobre a terra. Com voz um pouco trêmula, o escultor prosseguiu:

— Sabes? Sou um grande artista. Dou vida ao frio mármore e lanço ao fogo o poderoso bronze, a fim de trabalhar nele. Por que me tocas com tua mão gelada?

—Vem — disse Lázaro. — És o meu hóspede.

E penetraram na casa.

Na manhã seguinte, o escravo veio à procura do amo. Encontrou-o sentado ao lado da Lázaro e clamou num soluço:

— Senhor, o que te sucedeu?!...

No mesmo dia Aurelius voltou para Roma. Não falava e parecia buscar alguma coisa. Em casa, amigos e parentes estranharam-lhe o aspecto, mas ele limitou-se dizer:

— Achei! E logo se pôs a trabalhar, não permitindo que pessoa alguma se aproximasse do atelier. Mas, uma manhã, chamou os amigos e disse:

— Vejam o que eu criei.

E, vendo a obra, os amigos sentiram uma grande tristeza. Era um monstro que não possuía nenhuma forma humana, representando — sentia-se — alguma coisa que não era possível precisar. Na base da estátua, como que posta ali ao acaso, via-se, maravilhosamente talhada, uma borboleta de asas transparentes, prestes, dir-se-ia, a voar.

—Porque colocaste aqui esta maravilhosa borboleta, Aurelius? — indagou alguém.

— Ignoro — respondeu o artista.

Então um amigo disse:

 — Esta obra é horrível, meu caro. Deves destruí-la.

E, tomando do martelo, despedaçou o monstro, deixando apenas, intacta, a borboleta.

A partir daquele dia, o escultor nada mais criou. Quando alguém lhe falava em arte, em beleza, apenas respondia:

— Tudo isto é mentira.

Em seu jardim, sem que ninguém o visse, passava longas horas a embriagar-se de sol. Brancas e vermelhas borboletas voavam-lhe em torno, junto a uma cisterna de mármore onde se via um sátiro...


E um dia, pelo grande Aurelius, foi Lázaro chamado a Roma. Vestiram-lhe suntuosas vestes de noivado. E, assim, à espera de misteriosa noiva, devia ele permanecer, até que viesse a morte. Em triunfo, ao som de trombetas, foi conduzido. Mas, à sua passagem, as estradas permaneceram desertas. A seguir, foi embarcado no mais triste dos navios que jamais cruzou o azul Mediterrâneo. Muita gente estava a bordo, mas o navio guardava um funéreo silêncio e as próprias ondas calavam o seu marulhar. Lázaro permanecia mudo, de todos afastado, sentado ao sol. Mais pareciam sombras os viajantes, e se um temporal houvesse caído durante a travessia, nenhum deles faria, decerto, o menor esforço para salvar a vida. Mudos, imóveis, passavam horas contemplando o abismo do oceano. Mas o próprio abismo parecia vazio...

Grande rumor despertou na Cidade Eterna a chegada daquele que ressurgira dentre os mortos. Qual fantasma vivo, foi levado de um lado para outro. Um homem que adorava o vinho chegou-se a ele, gritando:

 —Bebe, Lázaro, bebe! Em Roma tudo é alegria!

Mas, encontrando o olhar do irmão de Marta, o amante do vinho para sempre entristeceu e, embora nunca mais bebesse, vivia embriagado por sonhos terríveis.

Um par de jovens namorados aproximou-se do recém-chegado e o mancebo assim falou:

— Vê como somos felizes. Não há nada mais forte do que o amor!

Lázaro olhou para eles... O jovem par continuou enamorado, mas aquele radioso amor tornou-se mais fúnebre do que os ciprestes dos cemitérios.

Um orgulhoso sábio foi ter com Lázaro e assim falou:

—Conheço todas as mais terríveis coisas que me possas dizer!

E poucos minutos depois, o sábio realizava que o conhecimento do horrível não é o horrível, e que a vista da morte não é a morte. E sentiu que, aos olhas do Infinito, sabedoria e loucura são a mesma coisa, porque o Infinito (o Absoluto) não as conhece. Sacudindo a cabeça, gemeu:

— Não posso pensar!

Em vista de todas essas coisas, começou-se a dizer que perigoso seria levar o ressuscitado à presença do imperador. Augusto nada quis ouvir e ordenou que lhe conduzissem Lázaro. Foi decidido, então, que se mudasse à custa de pinturas e arranjos artísticos o fúnebre aspecto daquele homem. Indiferente, submeteu-se ele àquela transformação. Apenas não ousaram mudar-lhe as vestes de noivado, nem tampouco puderam mudar-lhe os olhos. Aqueles olhos escuros onde havia escrita a medonha palavra: Lá...

Lázaro nem pareceu notar a magnificência dos apartamentos reais. Por toda parte, via sempre, imutavelmente, o deserto. César preparava-se para receber o estranho visitante. Cônscio de sua coragem e de seu poder, decidiu que havia de vê-lo a sós. E, quando ele entrou, disse:

— Não fites teus olhos nos meus, Lázaro. Disseram-me que a tua cabeça se assemelha à da Medusa, que tudo transforma em pedra. Eu, porém, quero olhar-te.

Examinou o recém-chegado e o seu traje festivo. Sorriu:

— Não é terrível a tua aparência; conversemos agora.

Sentou-se Augusto e indagou:

— Por que não me saudaste ao entrar?

— Não julguei que fosse necessário.

— És cristão?

— Não.

— Estimo — tornou César. — Não gosto dos cristãos. Mas quem és?

Com algum esforço, Lázaro respondeu:

— Eu era um morto.

— Assim ouvi dizer. Mas quem és agora?

Com maior esforço ainda, o interrogado repetiu:

— Eu era um morto.

— Ouve, estrangeiro — fez o Imperador impaciente. — Meu império é de vivos e não de mortos, és demais aqui. Não sei quem és, nem o que viste Lá. Mas, se mentes, odeio as tuas mentiras, e, se dizes a verdade, odeio a tua verdade. Em meu coração sinto a vida; em minhas mãos, o poder. Não sentes o palpitar da existência?

E, estendendo os braços, Augusto clamou:

— Bendita sejas tu, divina Vida!

E como Lázaro permanecesse silencioso, prosseguiu:

— Tua verdade assemelha-se a uma espada nas mãos de um noturno assassino e eu te condeno à morte por seres um assassino. Mas, primeiro, quero olhar em teus olhos. Não sou covarde como aqueles que te receiam. Fita-me, Lázaro!

A princípio, pensou Augusto que um amigo o fitasse, tão doces, tão atraentes eram aqueles olhos. Não revelavam horror: apenas descanso. Neles, o Infinito se refletia com a ternura de uma amante, com a meiguice de uma mãe. Depois, pareceu que tudo se tornava frio...

— Olha-me ainda, Lázaro!

E foi como se o tempo cessasse, como se as coisas atingissem ao fim.

O trono de Augusto, recentemente erguido, tombou em pedaços. Roma caiu silenciosa em ruínas. Uma outra cidade ergueu-se, mas só o vazio nela reinava. O negro invólucro do Infinito tudo envolveu.

—Chega! — ordenou o imperador.

O seu tom, porém, era indiferente. Com os olhos turvos, disse ainda:

 — Tu me matas, Lázaro!

Estas palavras de desespero foram a sua salvação. Pensou no povo cujo destino tinha nas mãos e uma angústia invadiu-lhe a alma. Via toda aquela gente transformada em sombras perdidas no Infinito e sentia por todas aquelas pobres sombras uma grande ternura. E, assim, entre a vida e a morte, pouco a pouco voltou à existência para encontrar, em seus sofrimentos e alegrias, um refúgio contra as trevas, o vácuo, o pavor do Infinito.

—Agora, não me matarás, Lázaro, mas eu te matarei. Vai.

Veio a noite e o divino Augusto banqueteou-se alegremente. Mas, por vezes, seus braços quedavam-se imóveis e seu olhar fazia-se sombrio. Um gélido horror percorria-lhe o corpo. E, no dia seguinte, por ordem do imperador, os olhos de Lázaro foram queimados e ele foi mandado de volta para a sua cidade natal. Nem mesmo o César ousara matá-lo.

Lázaro voltou para o deserto que o recebeu na ardência do sol. De novo sentou-se no sítio habitual, erguendo para o céu as pupilas mortas. Ninguém se aproximava daquele lugar; ninguém junto ao cego passava.

E, num fim de tarde, quando o sol desaparecia entre nuvens de fogo, na direção do astro que se sumia, Lázaro, tropeçando entre as pedras, os braços em cruz, pôs-se a caminho. Nunca mais voltou. Assim terminou a segunda vida daquele que, durante três dias, repousara num túmulo; daquele que, por milagre, se reerguera do mistério da morte.


Tradução de autor desconhecido do séc. XX.
Fonte: Almanaque Correio da Manhã, 1943.
Ilustração: Henry Ossawa Tanner (1859 –  1937).

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