UMA VINGANÇA CRUEL - Conto Cássico Cruel - Honoré de Balzac.



UMA VINGANÇA CRUEL

Honoré de Balzac (1799 – 1850)

(Texto adaptado)


A cem passos de distância da pequena vila de Vendôme, jaz, sobre as margens do Loire, uma casa antiga e arruinada, coroada de altos tetos, solitária, sem asquerosos cortumes, sem péssimas estalagens por vizinhos.

Em frente a essa habitação há um jardim que olha para o rio, mas o buxo, que no passado desenhava as a aleias, cresce ali hoje a seu bel-prazer; os salgueiros que o Loire alimenta, elevaram-se rapidamente; as plantas parasitas enfeitam com a sua bela vegetação o talude da ribanceira, e as recortadas árvores frutíferas de há muito que não são podadas.

Contudo, fácil é perceber, do alto da montanha, onde jazem as ruínas do vetusto castelo dos duques de Vendôme, que essa habitação fizera, em tempos muito remotos, as delicias de algum gentil-homem de velhos pergaminhos, admirador de rosas, de dálias e de jasmins, e, por ventura, de boas frutas também. E, na verdade, vê-se ainda os restos de um caramanchão e uma mesa que a mão do tempo não destruiu inteiramente...

O aspecto desse jardim, que já não existe, vos revela as delicias da vida campestre, como o epitáfio do seu túmulo nos revela a existência do abastado comerciante; e, para completar as tristes e suaves ideias que da alma se apoderam, há em um dos ângulos do muro um relógio de sol, com a seguinte comezinha inscrição:


FUGIT HORA BREVIS


Os tetos da morada ameaçam ruína; as gelosias nunca se abrem; as andorinhas cobriram de ninhos todos os balcões; as portas sempre estão fechadas; as ervas rebentaram pelas fendas dos bancos; as fechaduras estão comidas de ferrugem; o sol, a lua, o inverno, o estio, a neve, carcomeram as traves, empenaram os pavimentos, destruíram as pinturas. O silêncio desta triste habitação somente é perturbado pelos pássaros, gatos, ratos e doninhas que aí vivem em plena liberdade. Uma mão invisível escreveu por toda a parte a palavra mistério nessa morada, que outrora fora um feudo, e a que chamam agora Forteza.

Todo o tempo que durou o meu desterro em Vendôme, a vista romântica desta casa singular era um de meus maiores prazeres. Era mais que uma ruína, porque a uma ruina ligam-se recordações históricas, fatos conhecidos, de cuja autenticidade não é permitido duvidar; mas, nesta habitação ainda em pé, e que por si mesmo se demolia, havia um segredo, um pensamento ignoto, ou pelo menos um capricho.

Muitas vezes, ao cair da noite, eu me aproximava da sebe que protegia esta tapada, e, afrontando os arranhões, entrava nesse jardim sem dono, nessa propriedade que nem era pública nem particular, e passava horas inteiras contemplando a desordem que aí reinava.

De tudo havia neste asilo: um ar de claustro, e a paz dos túmulos sem os mortos que nos falam a sua linguagem epitáfica. Muitas vezes aí chorei, e nem uma só aí ri, porque tudo era melancólico. O solo é úmido, e os lagartos, as cobras e as rãs aí passeiam em perfeita liberdade. Aquele que recear o frio, dê-se pressa em sair, que um manto de neve lhe pesará em breve sobre as espáduas, como a mão do comendador no pescoço de D. Juan... Uma noite estremeci. O vento tinha feito voltear um velho e ferruginoso cata-vento, cujos sons agudos se assemelhavam a gemidos, no momento em que eu acabava de compor um drama sobre a sorte desta lúgubre habitação.

Voltei, pois, à pousada triste e pensativo.

Quando acabei de cear, entrou a estalajadeira no meu quarto com certo ar de mistério, e disse-me:

—O Sr. Regnault quer falar-vos.

—Quem é o Sr. Regnault?

—Então não conheceis o Sr. Regnault?... Que dizeis!

E se foi.

E vi logo entrar um homem alto e magro, pálido, vestido de preto e com o chapéu na mão. A casaca era velha e ruça nos cotovelos, mas o desconhecido trazia ao peito um alfinete de brilhantes e brincos de ouro nas orelhas.

—Senhor, dizei-me a quem tenho a honrado falar —disse-lhe.

Sentou-se em uma cadeira, pôs o chapéu sobre uma mesa e respondeu-me ,esfregando as mãos.

—Senhor, chamo-me Regnault.... sou o notário de Vendôme.

—Muito bem, Sr. Regnault, que mais?

 —Devagar, senhor, lá chegaremos... — ele respondeu, levantando a mão como para impor-me silêncio. Soube que tendes por costume passear no jardim da Fortaleza.

—Sim, senhor, passeio por lá.

 —Devagar, devagar — tornou ele, repetindo o mesmo gesto. — Isso constitui uma verdadeira transgressão. Mas não sou eu um turco para disso fazer um crime. Venho somente, em nome e como testamenteiro da finada condessa de Merret, pedir-vos que não continueis vossas visitas.... Sois forasteiro, e, portanto, ignorais os motivos que tenho para deixar arruinar-se o mais belo palácio de Vendôme. Se dependesse isso de mim, eu vos deixaria entrar e sair livremente dessa casa. Mas, como testamenteiro da condessa, sou obrigado a fazer cumprir suas vontades e a pedir-vos que não torneis a entrar nesse jardim. Eu mesmo, depois que abri o testamento, não pus mais pé na Fortaleza. Ah, senhor, esse testamento fez muito barulho nesta boa vila de Vendôme.

E aqui o bom do homem calou-se para limpar o pingo que lhe caía do nariz.

Eu respeitava a sua loquacidade, porque compreendia que a herança de Madame de Merret era o acontecimento mais importante da sua vida. Já que me cumpria dizer adeus a meus belos sonhos, a meus romances, queria ouvira verdade por canal oficial.

 —Senhor — disse-lhe —, será indiscrição perguntar-vos as razões que...

 —Senhor — replicou ele, após uma pequena pausa—, três meses depois de ser despachado pelo ministro da justiça—eu ainda era solteiro —foram chamar-me, no momento em que ia deitar-me, da parte de madame de Merret. A sua criada, airosa moça que hoje serve nesta estalagem, estava à minha porta com a carruagem da senhora condessa. Cumpre dizer-vos, senhor, que o conde de Merret tinha morrido em Paris dois meses antes, por se entregar a excessos de toda espécie, e que, no dia da sua partida, a condessa saiu da Fortaleza, depois de mandar queimar todos os móveis.

“A minha curiosidade, senhor, tocou a meta quando eu soube que a condessa necessitava do meu ministério; mas não era eu o único que tomava interesse nesta história, e nessa mesma noite, embora fosse tarde, toda a vila soube que o notário ia ao palácio. Às onze horas, cheguei à Fortaleza. Dando crédito aos boatos que corriam, eu esperava encontrar uma dama formosa e presunçosa... porém, qual! Custou-me muito entrevê-la no enorme leito em que estava deitada. À força de olhar e de aproximar-me ao leito, vi, finalmente, madame de Merret. Seus olhos negros, abatidos pela febre, apenas se moviam sob suas profundas arcadas. A testa estava úmida, as mãos descarnadas, as veias e os músculos desenhavam-se perfeitamente em todo o braço. Os seus lábios estavam pálidos e, quando me falava, mal os movia.

“Ainda que estivesse habituado a espetáculos como este, confesso que o pranto das famílias, as agonias e tudo quanto tenho visto, nada eram diante desta mulher só e silenciosa neste vasto castelo. Não ouvia o menor rumor, não via mesmo o movimento que a respiração da doente devia dar à roupa que a cobria, e fiquei imóvel contemplando-a, sem saber o que diria ou o que faria.... Por fim, os seus olhos azuis se moveram. Ela tentou levantar a mão direita, e da sua boca saíram as seguintes palavras, como um sopro:

“—Esperava-vos com muita impaciência

“—Senhora... disse-lhe.

“—Eu vos confio o meu testamento — respondeu ela.

“Pegou o crucifixo, levou aos lábios e morreu.

“Quando abri o testamento, vi que a condessa me tinha nomeado seu testamenteiro. Deixou a totalidade de seus bens ao hospital de Vendôme, e fez as disposições acerca da Fortaleza. Recomendou-me que deixasse essa casa por espaço de cinquenta anos no estado em que se achava no momento da sua morte e proibiu a entrada nos quartos a quem quer que fosse. Expirando esse termo, pertence-me a casa a mim ou a meus herdeiros, se tiver sido cumprida a vontade da testadora. Eis, senhor, as razões que me moveram a vir pedir-vos que cesseis as vossas visitas.”

O notário levantou-se, fez-me uma profunda reverência e partiu.

Mal tinha saído, entrou a estalajadeira.

—Então, senhor — disse-me ela—, Regnault contou, sem dúvida, a história da Fortaleza? O que disse?

 Narrei-lhe em poucas palavras a tenebrosa história da condessa.

—Minha boa patroa — disse eu ao acabar —, parece-me que sabeis mais do que eu...

—Ah! Eu vos juro...

— Não jureis, porque os vossos olhos vos estão traindo... Conhecestes o conde?

—Se conheci! Ele tinha seis pés de altura. Não era possível vê-lo de uma vez: era fidalgo antigo, oriundo da Picardia... E a condessa.... Oh, era bela como um anjo, e tinha quarenta mil francos de renda!

—Eram felizes?

— Creio que sim. O conde era assomado, porém era fidalgo, e como tal tinha direito de o ser...

— Vamos à historia.

—Da história nada sei. Porém, como vos tenho por homem lido, subi para consultar-vos acerca de um assunto que nem ao vigário quis confiar. Quando o imperador mandou para cá alguns prisioneiros de guerra, tocou-me alojar, por conta do governo, um jovem espanhol. Era um grande da Espanha!... Não me recordo do seu nome. Só me lembro que acabava em os e em dia. Era muito formoso para espanhol que, como sabeis, são quase todos feios. Era-lhe muito afeiçoada, se bem que ele nem duas palavras proferisse por dia: lia o seu breviário como num padre, ia à missa todos os dias, e ficava sempre ao lado da condessa de Merret, mas não havia nisso intenção má, pois que nunca ninguém o viu levantar os olhos do livro.

“À noite, ia passear nas ruínas do castelo. Era o seu maior divertimento, porque essa montanha lhe recordava o seu país. Dizem que há tantas montanhas na Espanha! Algumas vezes, recolhia-se muito tarde. Inquietava-me vendo-o voltar à meia noite, mas habituamo-nos à sua fantasia, e como ele tinha a chave da porta, não nos incomodava. Enfim, um dia de manhã não o achamos no quarto. À força de procurar, encontrei na gaveta de sua mesa uma bolsa que continha cinco mil francos em ouro, e uma caixinha com brilhantes, que valeriam dez mil. Na bolsa havia um bilhetinho que dizia o seguinte:

“’No caso de eu não voltar, pertence o que eu possuo à minha boa patroa.’

“O Espanhol não apareceu mais. Alguns julgaram que morrera afogado. Eu, porém, tenho para mim que ficou na Fortaleza, pois que Rosália me disse tê-lo visto lá algumas vezes. Dizei-me, agora, senhor, não é verdade que o dinheiro do Espanhol me pertence de direito, e que não devo ter remorsos de o haver guardado?”

—Não há dúvida. Porém, dizei-me: nunca questionastes Rosália? — perguntei.

—Oh, muitas vezes! Mas essa moça não diz nada. Sabe por certo alguma coisa, mas não há como fazê-la falar.

A patroa retirou-se, deixando-me entregue a mil pensamentos vagos e tenebrosos, a uma curiosidade romântica, a um terror religioso, semelhante ao sentimento profundo que de nós se apodera quando entramos de noite em uma igreja sombria.

Rosália era, a meus olhos, o ente mais interessante de Vendôme. Quando, ao cessar a causa do meu desterro, me trouxe ela mesma a carta que me restituía à liberdade, encarei-a com olhos tão interrogadores que a rapariga corou e empalideceu sucessivamente.

—Rosália? — disse-lhe.

—Senhor?

—Não sois casada ?

Corou até os olhos, e estremeceu
.
— Oh, não me faltarão homens quando me der na cabeça fazer-me desgraçada! — respondeu ela.

—A vossa formosura vos dará por certo mais de um amante.... Porém, dizei-me por que razão viestes para esta pousada, saindo da casa da condessa?

—Porque é a melhor casa em que eu podia estar.

—Contai-me, eu vos suplico, tudo que sabeis acerca da condessa.

—Oh— respondeu-me ela, toda tremula —, não me pergunteis por isso!

—Dou-vos palavra de guardar segredo.

—Bem, já que assim o quereis... Mas lembrai-vos que deveis guardar segredo.
Se quisesse reproduzir fielmente a difusa eloquência de Rosália, um volume inteiro não me bastaria. E como o acontecimento que ela me referiu se acha colocado entre a bacharelice do notário e a loquacidade da patroa, do mesmo modo por que os termos médios de uma proporção aritmética se acham entre os seus dois extremos, preciso é que seja formulado singelamente.

Portanto, irei resumi-lo. A câmara que madame de Merret ocupava na Fortaleza era situada ao rés do chão. Na parede havia um pequeno gabinete, de quatro pés de cumprimento, que servia de guarda-roupa. Três meses antes da noite em que ocorreu o fato que vou narrar, madame de Merret adoeceu, e seu marido, a fim de não incomodá-la, mudou a sua cama para o primeiro andar.

Por um desses acasos impossíveis de prever, voltou ele, essa noite, duas horas mais cedo que de costume, do salão onde ia ler os jornais e falar sobre política com os burgueses de Vendôme. A invasão da França tinha sido objeto de muita animada discussão. A partida de bilhar fora muito disputada e o conde perdeu quarenta francos, soma enorme para Vendôme, onde todo o mundo entesoura. Ainda que, de há muito, o conde se contentasse de perguntar a Rosália, ao entrar, se a condessa estava deitada, e que, ao ouvir a resposta sempre afirmativa, subisse imediatamente para o seu quarto, com essa bonomia criada pelo hábito e pela confiança, deu-lhe na cabeça entrar essa noite na câmara da condessa para contar-lhe o seu infortúnio e talvez também para que ela o consolasse.

Em vez de chamar Rosália, que, neste momento, conversava na cozinha com a cozinheira e o cocheiro, dirigiu-se o conde para a câmara de sua mulher. Na ocasião de dar volta à chave do quarto, pareceu-lhe ouvir fechar-se a porta do gabinete: quando entrou, madame de Merret estava em pé perto da lareira.

Então disse ele com os seus botões que Rosália estava no gabinete, mas uma suspeita que lhe zuniu ao ouvido o fez desconfiar, e, fitando os olhos na condessa, notou nas suas feições tal ou qual inquietação.

—Vieste tarde! — disse-lhe ela com voz um pouco trêmula.

O conde não lhe deu resposta, porque nesse momento entrava Rosália. A sua aparição foi como um raio que o assombrou. Sem dizer palavra, pôs-se a passear com os braços cruzados.

—Tivestes alguma notícia triste? Estais incomodado? — perguntou-lhe a condessa.

O conde não respondeu.

—Retirai-vos —disse a condessa à criada.

Adivinhando sem dúvida alguma tormenta, quis ficar só com seu marido.

Mal Rosália saiu, aproximou-se o conde de sua mulher e disse-lhe com indiferença, porém com os lábios trêmulos e o rosto pálido:

—Senhora, há alguém no vosso gabinete...

A condessa olhou para o marido com ar tranquilo, e respondeu-lhe com simplicidade:

 —Não, senhor!

Este não cortou-lhe o coração, porque não lhe dava crédito e nunca sua mulher lhe parecera mais pura e mais religiosa.

Levantou-se para abrir o gabinete, mas madame de Merret pegou-lhe na mão, deteve-o, e, contemplando-o com ar tocante e melancólico, disse-lhe com voz sumida:

—Se aí ninguém encontrardes... lembrai-vos que nos separaremos para sempre...

A incrível dignidade da condessa fez vacilar o conde, e inspirou-lhe uma dessas resoluções que passaria por sublime se em mais vasto teatro fosse praticada.

-- Sim, Josefina, tendes razão, não abrirei o gabinete. Em qualquer dos casos nossa separação seria infalível. Escutai: conheço a pureza do vosso coração, e sei que a vossa vida é a de uma santa. Não quere- réis, por certo, cometer um pecado mortal que vos custaria a vida. Eis o vosso crucifixo... Jurai-me, perante Deus, que ninguém está no vosso gabinete... Eu vos darei credito e nunca abrirei essa porta.

Madame de Merret pegou no crucifixo... e disse:

 —Assim o juro.

 —Mais alto —tornou o marido — e repete: juro, perante Deus, que não há ninguém nesse gabinete.

A condessa repetiu a frase sem se perturbar.

—Muito bem! —respondeu com indiferença o conde e depois, após um momento de silencio:

—Tendes aí um belo traste que eu ainda não tinha visto...

E examinou curiosamente esse crucifixo que era de ébano guarnecido de prata e de primoroso lavor.

 —Comprei-o a Duvivier, que o obteve de um religioso espanhol.

 —Ah !... — disse o conde.

E, pondo o crucifixo sobre a pedra da chaminé, tocou a campainha. Rosália entrou logo. O conde foi ao seu encontro e, levando-a para a janela, disse-lhe em voz baixa:

—Sei que Gorenflot quer desposar-te, e que o único obstáculo à vossa união é a vossa mutua pobreza. Tu lhe disseste que não casarias com ele em quanto o não visse mestre pedreiro... Pois bem, vai chamá-lo. Diz-lhe que venha aqui com as suas ferramentas. A sua fortuna excederá vossos desejos; sai sem proferir uma palavra, senão...

E franziu as sobrancelhas. Rosália saiu.

—João! — bradou o conde com voz estridente.

João, que era ao mesmo tempo cocheiro e criado confidente, não se fez esperar.
 —Ide deitar-vos todos... disse o conde.

E, depois, fazendo-lhe um gesto, aproximou-se João, e o amo acrescentou em voz baixa:

— Quando todos estiverem dormindo — dormindo, entendes-me? — desce e vem dizer-me.

O conde, que não perdera de vista sua mulher, veio sentar-se junto dela. Foi então, sem dúvida, que lhe contou os acontecimentos da partida de bilhar e as discussões do clube, pois que, voltando Rosália, deu com eles conversando muito amigavelmente. O conde tinha mandado estucar, poucos dias antes, todos os quartos que ficavam no térreo. Ora, como o gesso é deveras raro em Vendôme, mandou ele vir de Paris grande quantidade. Em casa tinha ainda uma barrica cheia, e essa circunstância lhe inspirou o desígnio que pôs em execução.

 —Já chegou o Sr. Gorenflot — disse Rosália.

—Mandai-o entrar!

Madame de Merret empalideceu quando viu o pedreiro.

—Gorenflot — disse o conde —, ide buscar alguns tijolos na cocheira para murar a porta desse gabinete... No quarto imediato achareis uma barrica de gesso e com ele emboçareis o muro...

E chegando-se a Rosália e ao pedreiro, disse, em voz baixa:

—Escuta, Gorenflot, tu dormirás aqui esta noite. Amanhã eu te darei um passaporte para país estrangeiro, e te entregarei seis mil francos para as despesas da jornada. Passarás por Paris, onde irás esperar-me, e aí te assinarei uma promissória para pagar-te mais seis mil francos daqui a dez anos, se antes desse período não voltares à França. Por este preço deveras guardar o mais profundo silencio sobre tudo o que aqui fizeres esta noite. Quanto ti, Rosália, eu te darei dez mil francos que somente te serão pagos no dia do teu casamento, mas cumpre-te guardar silencio... Senão, adeus dote...

—Rosália — disse a condessa —, vinde pentear-me...

O conde passeava de uma extremidade à outra da câmara, vigiando a porta, o pedreiro e sua mulher, sem, contudo, dar sinal da menor desconfiança.

Gorenflot foi obrigado a fazer algum barulho. Então Madame de Merret, aproveitando o momento em que o pedreiro descarregava alguns tijolos e em que seu marido se achava do outro lado da câmara, disse a Rosália:

—Cem escudos de renda, minha amiga, se puderes dizer-lhe que deixe uma abertura embaixo.

E depois disse-lhe em voz alta com horrível sangue-frio:

—Ide ajudá-lo !

O conde e a condessa conservaram-se silenciosos, enquanto Gorenflot murava a porta. Este silencio era cálculo no marido, que não queria dar à condessa o menor pretexto de proferir palavras equívocas, e da parte de Madame de Merret era talvez prudência ou altivez.

Quando o muro estava em metade da sua altura, o astuto pedreiro, aproveitando o momento em que o conde tinha as costas voltadas, quebrou um dos vidros da porta. Esta ação fez conhecer a Madame de Merret que Rosália tinha falado com Gorenflot. Então ela e o pedreiro viram, não sem profunda emoção, uma figura de homem moreno, de cabelos negros, olhos de fogo...

Antes de seu marido se voltar,  a condessa pôde  fazer-lhe um gesto dizia: “Esperai...”

Às quatro horas da manhã, estava concluída a obra.

O pedreiro foi entregue à guarda de João, e o conde deitou-se na câmara de sua mulher.

Quando se levantou, disse:

—Ah! Esquecia-me que tinha de ir à casa do maire buscar o passaporte.

Pegou o chapéu e encaminhou-se para a porta; porém, voltando atrás, tomou o crucifixo.

Vendo isto, pulou a condessa de contente.

—Irá à casa de Duvivier! —disse ela.

Mal saiu o conde, chamou a condessa pela criada, e com voz terrível, bradou:

— A alavanca! A alavanca! E mãos à obra!... Teremos tempo de abrir um buraco e tapá-lo.

Em um abrir e fechar de olhos, Rosália trouxe uma espécie de alavanca, e a condessa começou a trabalhar com o maior ardor.

Tinha feito já cair alguns tijolos, quando, voltando, viu o conde junto dela, pálido e em altitude ameaçadora.

Madame de Merret desmaiou...

—Deitai a condessa no leito! — disse o conde.

Prevendo o que deveria acontecer durante a sua ausência, tinha armado um laço para a sua mulher. Tinha escrito ao maire e mandado chamar o Sr. Duvivier.

O ourives chegou no momento em que deitavam a condessa na cama. —Duvivier, perguntou-lhe o conde, comprastes algum crucifixo a um religioso espanhol?

—Não, Sr. conde.

— É quanto desejo saber. Fico-vos obrigado. — João —acrescentou ele voltando-se para o criado —, a Sra. condessa está doente e não sairei do seu lado em quanto a não vir restabelecida.

O cruel fidalgo ficou por espaço de quinze dias ao lado de sua mulher. Durante os seis primeiros dias, quando havia algum rumor no gabinete, e que ela queria implorar a sua clemência em favor do desconhecido, respondia-lhe ele sem lhe deixar proferir nenhuma palavra:

—Vós jurastes que ninguém existia naquele gabinete!

  


Tradução/adptação de autor(es) desconhecido (s) do séc. XIX (fizeram-se breves e novas adaptações textuais).

Fontes: Museo Universal, 1838 / The United States Democratic Review, Volume 13, p. 34.



Share:

O CARRASCO DE JEAN-LUC CHIENDENUIT - Conto de Horror - Aldo Addobbati



O CARRASCO DE JEAN-LUC CHIENDENUIT

Por Aldo Addobbati


Se tens disposição, embora não gostes nem um pouco de vinho tinto da Campanha, batizado às escondidas por Pauline, a filha mais jovem de Madame Desmoulins (e sob as ordens desta), bem podes abandonar a Praça da Revolução, onde o verdugo acabara de exibir ao público a última cabeça decepada da tarde, e, quebrando pela Rua de Mondovi, penetrar na obscura Taverna do Dragão.

É claro que não é o vinho batizado o que te atrai, nem é a umidade das paredes de pedra crua o que te impele ao inevitável. Não te seduz a escuridão implacável e pegajosa que, poeticamente, abafa e suga o lume dos castiçais e candelabros de ferro retorcido. Tudo isto, decerto, aprofunda o enlevo da doce melancolia de um estudante apaixonado. Não estás, porém, neste antro pestilento, insalubre até a alma, para embriagar-te do vinho aguado da Campanha, ou afogar-te nas trevas de tão inspirador ambiente — cuja sórdida beleza só as almas mais taciturnas e melancólicas como a tua podem admirar e dela comprazer-se —, mas para inebriar-te na beleza rude e alucinante de Pauline. Nesta noite, todavia, não é a jovem normanda quem atende às mesas enodoadas, de madeira quase podre, com a sua habitual indiferença de musa inacessível. Quem o faz, para a tua loucura, é mãe Desmoulins em pessoa. Mas a afabilidade campesina de Madame Desmoulins, acentuada pelos sorrisos contidos de viúva recatada, ainda mais aprofunda a tua decepção, ainda mais te exaspera a alma impaciente, e tenho certeza que já estarias na soleira da porta, prestes a ir embora, se não fosse por aqueles dois cavalheiros de meia idade, cujo ar respeitável contrasta vivamente com toda esta atmosfera doce e pestilencial. Mas é inevitável, já não podes debandar: eles fisgaram a tua atenção — assim como a minha — com as histórias mais tenebrosas que já tiveste, jovem e trágico poeta, a oportunidade de escutar.

O que parecia ser o mais velho dos cavalheiros — um homem pálido, extremamente magro, de penetrantes olhos azuis e finíssimo nariz aquilino — escutava atentamente o desfecho da caliginosa história que o amigo acabara de contar.

— À tua história, Trésor — disse o senhor macilento —, não falta verossimilhança alguma, embora eu não acredite que tenha ela realmente acontecido ou, se de fato aconteceu, se passou conforme ma narraste. Mas eu posso contar-te uma história sem sombra de dúvida verídica. Pela minha honra e pela honra de meus pais — que Deus os tenha! — posso assegurar-te de que tudo aconteceu exatamente na forma em que eu te irei narrar.

“Em janeiro de 1794, um cidadão chamado Jean-Luc Chiendenuit, um brutamontes de pavio curto e mãos de ferros, conhecido na vizinhança de Faubourg Saint-Marcel pela extrema valentia e brutalidade, foi condenado à morte por ter assassinado, após um rompante de incontrolável fúria, a mulher e dois de seus cinco filhos pequenos.

“Conta-se que, após ouvir o veredito, Chiendenuit desferiu um potente murro em seu defensor, deixando o advogado desacordado, semimorto, sobre o tablado. Foram necessários cinco ou seis gendarmes e meirinhos para subjugá-lo. Manietado e amordaçado — se não lutava com os punhos, empregava perigosamente os dentes, por onde escapavam impropérios não de todo audíveis a cada mordida — foi o réu conduzido à prisão de Bicêtre e metido, por imprescindível cautela, numa cela individual, embora não fosse ele um prisioneiro político.

“Apesar da injúria física, que lhe custou um nariz fraturado e dores lancinantes, o defensor do brutamontes recorreu, debalde, a Robespierre, que presidia o Comitê de Segurança Geral. O gesto magnânimo do advogado foi uma afronta à susceptibilidade de sua própria família. Um de seus filhos, num arroubo típico de um mancebo recém-saído de uma intranquila adolescência, jurou que, não fosse a condenação de Chiendenuit à guilhotina, retalharia o seu peito com as próprias mãos.

“Há aqui, meu nobre Trésor, um quê de retribuição... de justiça divina.

“Passada a ira, e percebendo a terrível dimensão de seu drama, Jean-Luc, o impávido operário de pedreiras, que aterrorizava, com o seu olhar endemoninhado, a todos que cruzavam o seu caminho, caiu numa brutal melancolia. O santo abade Duplessis — nessa época, era ele o capelão das prisões —, seriamente advertido pelos carcereiros da brutalidade de Chiendenuit, e do perigo que este representava a quem ousasse defrontá-lo, surpreendeu-se, admirado, ao encontrar na cela não um gigante iracundo e destemperado, mas uma criança amedrontada, encolhida no canto mais tenebroso daquele cubículo infecto. O prisioneiro quase nada disse e coisa alguma confessou, apesar da pacífica insistência do dedicado sacerdote. Limitou-se o prisioneiro a lançar ao abade um olhar vazio e distante, no qual, vez por outra, assomava, junto ao súbito despertar da consciência de uma tragédia inexorável, a fugidia expressão de um súbito terror, cintilante como um mísero instante, mas profundo e incompreensível como a eternidade da própria morte. ‘Quando ele finalmente disse alguma coisa, concluí que a irremediável perda da própria identidade’, afirmou, categoricamente, Duplessis ao defensor de Chiendenuit, ‘parecia-lhe amesquinhada diante do inexaurível horror do perpétuo vazio’.

“Quando, na manhã seguinte, um gendarme anunciou que ele — o apavorado Chiendenuit — seria conduzido imediatamente à guilhotina, uma síncope repentina e violenta o atirou ao chão. Ao desmaio, seguiram-se convulsões incontroláveis. Estas, porém, pouco duraram. Ao cabo de alguns segundos, o experiente gendarme, sabendo que o ataque não era mais uma farsa vulgar, tão comum aos condenados à morte, encostou o ouvido ao peito do prisioneiro, e nada ouviu.”

—Meu caro Barde — interrompeu o outro cavalheiro, um senhor moreno e de aparência sossegada —, creio que este Chiendenuit, sem dúvida um homem de brutalidade inexcedível, e que realmente merecia pagar pelos seus crimes, foi muito bem dotado pela Providência. Morrer assim, provavelmente vítima de um ataque fulminante do coração, parece-me uma alternativa bem mais aceitável que a de enfrentar os horrores que precedem uma execução na guilhotina. A tão só contemplação da máquina sanguinária, o simples e regelante lampejo daquele sombrio monumento de morte mais frio e taciturno que um túmulo — significa um horror somente comparável com a horrenda consciência de que, dali a poucos minutos — se tanto — a tua cabeça oscilante, aspergida de sangue, indefesa como um pingente réprobo atado pelos cabelos às mãos asquerosas de um carrasco inclemente, será exposta ao escárnio e à execração públicos, enquanto o teu corpo ensaia, como o de uma galinha degolada, as últimas e lastimáveis convulsões. Diante das circunstâncias, vejo Jean-Luc Chiendenuit como um perfeito aventurado.

—Sem dúvida, meu amigo Trésor, tens razão em tuas sábias premissas — disse Bard, sem se importar com a interrupção do bom amigo. — Mas é preciso que eu conclua a minha história. Somente assim, saberás se foi justa ou não a recompensa que os céus — ou, quem sabe, os infernos — reservaram ao bruto assassino.

— Sou todo ouvidos, então.

— O professor Beaufort, célebre anatomista, e, naquele dia, o médico visitante de Bicêtre, foi chamado, às pressas, para acudir o condenado. Examinou perfunctoriamente o paciente. Atestou, corriqueiramente, mais um óbito e recomendou que o corpo fosse imediatamente conduzido ao morgue da escola de Medicina. Como a sede de sangue da guilhotina era insaciável, nunca se viam, nas faculdades, cadáveres íntegros de condenados à morte. À família dos executados, a lei não admitia que reclamassem os corpos, ao contrário da dos miseráveis que, a cada dia, tombavam, às dezenas, de fome e frio, no fundo de seus casebres e nas ruelas imundas de Paris. A Ciência clamava pela raridade daqueles despojos numa aula de necropsia. Por isso, na manhã seguinte, o professor Beaufort, o seu auxiliar de necropsia, e alguns poucos alunos obstinados que, convocados às pressas, não temiam a gelada e persistente curva de inverno, reuniram-se em torno do corpo de Jean-Luc Chiendenuit.

“Nu, estendido sobre a laje, aquele corpo robusto de não mais de vinte e cinco anos era um espécime raro. Os alunos sabiam que Beaufort não perderia a oportunidade de fazer, ele mesmo, as primeiras incisões. Mas o professor, ao encostar na carne lívida do paciente o bisturi, talvez porque acossado por um arrebatador e urgente ditame de consciência, deteve-se.

“—Senhores — disse ele —, eu vos prometi que era chegada a hora de vos passar o escalpelo. Acabo de vencer a tentação de descumprir o meu solene voto.

“E, dirigindo-se a um dos estudantes, a quem estendeu o escalpelo, disse:

“— Honoré, tendo em vista a tua assiduidade e constante dedicação, a honra é tua.

“É preciso que saibamos que este jovem era um dos mais promissores estudantes de Medicina de Paris. Filho de um respeitável advogado parisiense, não hesitou em frustrar as expectativas paternas, argumentando que não podia trair — e muito menos sacrificar — a sua verdadeira e única vocação. Foi, portanto, com uma certa empáfia que o jovem Honoré tomou o bisturi da mão do professor e, dobrando-se sobre o corpo do condenado, com a destra segura e resoluta, e decerto rancorosa, produziu uma profunda incisão ao longo do esterno. Devemos dizer que não apenas por razões acadêmicas, mas também por motivos pessoais, o jovem Honoré aprazia-se — sim, aprazia-se! — em talhar a carne do brutamontes morto. Nada mais vunerável, mais indefeso que um facínora morto...

“O que se seguiu a este profundo corte foi um terrível e inesperado grito de dor. Um grito, um uivo pavoroso, lancinante, saído da boca escancarada de Jean-Luc Chiendenuit.

“Ficaram todos gelados de terror.

“O jovem estudante viu o horror nos olhos arregalados de sua vítima. Subitamente ressurreto, ululando em resposta à avidez da dor excruciante, o homem sangrava abundantemente por toda extensão do peito aberto. Honoré deixou cair o bisturi. Trêmulo, não conseguiu esboçar o menor gesto em socorro daquele a quem ferira mortalmente. O médico, o assistente e os demais alunos, recuperados do medonho susto, tudo fizeram, inutilmente, para salvar o infeliz brutamontes. Quando viu a enormidade do crime que acabara de perpetrar, o estudante, antes tão seguro de si, e tão feliz em sua secreta vindita, desfaleceu, caindo de chofre sobre o corpo do homem que acabara de matar.

“O violento Jean-Luc Chiendenuit escapara, é certo, talvez em razão de uma intervenção sobrenatural — se divina ou demoníaca, ninguém saberia dizer — ao suplício na guilhotina. Mas encontrou a pavorosa morte numa sala de autópsia, vitimado por um escapelo tão familiar ao douto homem que, precipitadamente, o declarara morto.

“Então, meu caro amigo, ainda crês que a Providência foi benéfica para com Chiendenuit ? O que me dizes?” — indagou Bard, ao concluir a nefasta narrativa.

—Longe disto, amigo! Longe disto! — respondeu Trésor, abanando desoladamente a cabeça. —A catalepsia deixa intactos a percepção e os sentidos. Evito imaginar os horrores pelos quais passou o infeliz condenado, os mesmos horrores que atormentaram, injustamente, o pobre e talentoso Abade Prévost[1]. Melhor lhe teria sido a guilhotina. Não sei se a punição que a Providência lhe reservou tenha sido proporcional ao crime cometido. Talvez, não... Mas, o que aconteceu com o professor e o seu preferido aluno?

—Apesar da indesculpável incúria, Beaufort era um homem íntegro. Participou o ocorrido ao Dr. Luimère, diretor da escola de Medicina, e prontificou-se a apresentar-se à polícia. Mas o diretor tentou dissuadi-lo, afirmando que a Universidade de Paris não poderia perder um de seus mais doutos e ilustres docentes. Ante a conscienciosa resistência de Beaufort, Lumière redarguiu, apelando ao bom senso — a rigor, ao calcanhar de Aquiles — de seu subalterno: ‘O que será de tua família, Beaufort? O que será de tua família se fores preso por homicídio culposo e destituído de teu cargo?’. Todos sabem que o diretor Lumière pouco se importava com a mulher e as filhas casadoiras de Beaufort. O que queria mesmo o digno e revolucionário diretor, cujos escrúpulos eram tão frequentes quanto as nossas etéreas sensações de déjà-vu, era evitar um escândalo e, com isto, manter a sua bela cabeça burguesa sobre os seus ombros não menos formosos e burgueses. E conseguiu. Não valia a pena manchar o nome da renomada instituição, ou arriscar tão belo revolucionário pescoço, por causa de um assassino — filicida e uxoricida — que, no final das contas, não fosse a síncope, já estaria agora morto e sepultado. O caso foi convenientemente abafado.

—Mas... O que foi feito do jovem estudante?

—Garanto que aquela experiência foi tão traumática, tão cruel, que o jovem estudante não teve outra alternativa que não a de abandonar o sonho, acalentado desde a infância, de tornar-se um médico talentoso. Para a alegria do pai, formou-se em Direito e hoje é um advogado que angaria um certo respeito, apesar de não ser um exemplo de talento e dedicação. Alguns dizem que é um fiel bonapartista, embora eu não esteja inteiramente a par disto...

— Mas, se é que me podes revelar, como se chama esse advogado, meu caro Barde?

—Ei-lo aqui, Trésor, em tua presença: Jean-Gustave-Honoré de la Barde, filho do homem a quem o condenado ferozmente agrediu em plena sala de audiências. Eu, meu querido Trésor, fui, em toda esta história, o carrasco, o terrível e único verdugo a serviço de Robespierre. Eu executei — sem que soubesse que o matava, mas com inefável prazer em retalhá-lo — Jean-Luc Chiendenuit!

Ilustração de François-Nicolas-Augustin Feyen-Perrin (1862 – 1888)



[1] O médico português Francisco d’Assis e Souza Vaz, em artigo publicado na 1ª. edição da Revista Médica Fluminense, de 1838, escreveu o que se segue: “Em 23 de novembro de 1736, o Abade Prévost, tão conhecido por suas produções literárias, teve um ataque de apoplexia atravessando a floresta de Chantilly. Julgado morto, levaram-no à residência do Maire, e a justiça fez proceder à autópsia. Um grito agudo lançado por este infeliz provou que ele estava vivo. O operador e os assistentes ficaram gelados de terror; e o desgraçado foi vítima do escalpelo!”. Antoine François Prévost (1697 – 1763) foi um escritor francês. A historiografia moderna não corrobora esta suposta morte durante a necropsia que, certamente, assim como a passagem acima descrita, inspirou o autor  desta narrativa. (N. do E.)


Share:

O JURAMENTO - Conto Clássico de Horror - Humberto de Campos



O JURAMENTO
Humberto de Campos
(1866 – 1934)

— Nunca mais, meu prezado senhor, tive tranquilidade na minha vida; e vinte séculos que viva, vinte existências que tenha na terra, serão para pagar com o remorso de cada dia, ou, antes, de cada noite, o horror daquela vingança!

Cap Finisterre havia deixado, na véspera, o porto do Havre, quando travamos relações, eu e aquele cavalheiro, no "bar" do navio. Era um homem velho, magro, de grande ossatura, tipo de Quixote dos Pampas, a que não faltava, sequer, a barbicha comprida e rala, suja como a dos bodes. Não obstante os meses passados no clima suave da Europa, a sua pele conservava aquela tonalidade escura e áspera das feias do vento e do sol. Os olhos, miúdos, vivos, desconfiados, escondiam-se órbitas fundas, sob as sobrancelhas pesadas, como duas onças em duas furnas, mascaradas de erva grosseira. Chamava-se Ramon Gonzalez y Gonzalez, e era, dizia ele, industrial à margem do rio Bermejo, no extremo norte da Argentina. Possuía, ali, serrarias de madeira, além de algumas fazendas de gado, no sul, onde vivia ultimamente, em luta, sempre, com a natureza bravia.

— O caso, porém, que me atormenta a vida, meu caro senhor, ocorreu no norte, há trinta anos. Eu tinha, então, quarenta.

A noite estava linda, como, em geral, as noites de estio, ao largo da costa francesa, à entrada do Atlântico. Uma lasca de lua, fina e loura, tomava posse do céu, em nome de Maomé, dando-lhe, com as suas estrelas, a feição de grande pavilhão turco. De baixo, do bojo do navio, subia o ronco fatigado das máquinas, no esforço esclerótico das caldeiras. E, de quando em quando, o ruído fresco de uma vaga arrebentada no costado de ferro, e caindo de novo, em forma de chuva grossa, sobre as espumas de outra onda nascida para morrer.

—Foi em Corrientes que eu a conheci — começou o ancião, enquanto virava o seu terceiro whisky and soda. — Filha de um velho amigo meu, era quase menina, quando a vi, na visita que fiz ao pai, meu antigo companheiro de colégio. E, ao regressar a Concepción del Bermejo, onde ficavam as minhas propriedades, levava-a nos olhos, na alma, no coração. Chamava-se Consuelo, era cândida e fugitiva como as espumas deste oceano que rebenta lá fora. Tamanha foi, em suma, a impressão que me deixou, que, um mês depois, eu regressava a Corrientes, para pedir-lhe a mão, em casamento.

— Casou...

— Não; não casei. Consuelo não quis, e o pai, vendo-a vinte e quatro anos mais moça do que eu — ela andava pelos dezesseis — não a contrariou. Conformei-me com isso, mas pedi-lhes que se conservassem meus amigos; que me não esquecessem; que me olhassem como um parente; que me fossem, enfim, visitar em Concepción, para que não ficasse, de tudo aquilo, o menor ressentimento. Dentro em mim, porém, rugia o jaguar do egoísmo, o despeito do leão velho, que não pudera devorar, como sonhara, a corça tenra que vira na campina. Aquele coração havia de, um dia, pertencer-me. Era o meu juramento de morte.

Bateu na mesa, com a sua grande mão de esqueleto, e pediu:

Garçon, outro "whisky"

Limpou a boca com as costas das mãos, como quem está habituado a beber nas tavernas ou no campo, às pressas, sobre o dorso de um cavalo. E reatou:

— No fim do ano, em dezembro, foram a Concepción, visitar-me, o pai e a filha. Cerquei-os de gentilezas, de festas, de carinho. Fazíamos passeios longos, os três. E foi em um destes que se deu a desgraça.

— A desgraça?

— Sim, senhor. Tínhamos planejado uma visita ao alto Soledade, onde eu havia adquirido uma grande extensão de terras, para extração de madeiras. O senhor não conhece o alto Bermejo... Conhece? Era floresta virgem, soturna, impenetrada. Desembarcamos em Guahija, pequeno porto para exportação de lenha, e entramos pela mata, viajando a manhã toda. O senhor não imagina o que são aquelas matas! Eu tenho a impressão de que as selvas do seu Amazonas são assim. Árvores que dois homens não abarcam, cerram fileiras, uma ao lado da outra, numa extensão de centenas de quilômetros. E lá em cima, sobre esses milagres de colunas poderosas, é o toldo verde e fechado, que não deixa passar gota de chuva e que o sol só atravessa, ao meio-dia, em forma de claridade... E começava a entardecer, quando fomos assaltados pelos índios xurupinás, que são os mais terríveis toda a região.

— E então?

— Então, foi o infortúnio. Presos, manietados com cipós, fomos conduzidos ao acampamento dos indígenas, sete léguas diante, mato a dentro... E como me recordo, ainda, dessa travessia pela floresta, tarde toda, e depois, noite fechada! Olhos arregalados de terror, os pulsos arroxeados pelos cipós, Consuelo não tinha uma lágrima, e caminhava mais arrastada do que pelos seus próprios pés. Os cabelos, os seus lindos cabelos negros e fartos, libertos da opressão do chapéu de feltro, rolavam-lhe pelos ombros, pelo colo, pela testa, cobrindo-lhe, às vezes, o rosto todo.

E abrindo um parêntese na narração:

— O senhor já viu coisa que mais excite um homem, despertando-lhe toda a bestialidade, do que o corpo da mulher martirizada? Seminua, com os lindos seios morenos pulando quase da camisa esfarrapada, o colo arranhado, o rosto porejando sangue, pelo esforço físico e pelo pudor, Consuelo acordava-me na alma de namorado sem esperança um pensamento diabólico. Eu marchava para a morte, mas marchava calmo, resignado, feliz. Talvez não trocasse, naquele momento, aquele caminho, recoberto de espinhos dilacerantes, pelo mais florido da terra!

Outra incidência:

— Porque, o senhor sabe, acaso, o que é amar uma criatura, sabendo que nunca a possuirá? Já imaginou, porventura, o que é ver, saber, conhecer que a mulher que se ama, que se adora, e que nos despreza, vai cair nos braços de outro homem, dando a outrem, com o seu beijo, com a flor do seu corpo moço, a felicidade que sonhamos para nós? Se sabe, se imagina isso, pode compreender a minha serenidade, ao ver na iminência de ser destruída, sem crime da minha parte, e para sempre, a taça em que eu pretendia beber... Consuelo não seria minha, não me daria o seu beijo, o seu corpo, mas também, não pertenceria, nunca mais, a ninguém...

Mergulhou as mãos, nervosamente, nos magros cabelos grisalhos, arrepiados no crânio, como penas da crista de um pavão, e reatou:

— Antropófagos, os xurupinás devoraram, nesse mesmo dia, os dois homens da condução. No dia seguinte, pela manhã, comeram o meu amigo. Restávamos eu e Consuelo.

Uma pausa, e tornou:

— A mim, eu sabia que me não devorariam tão cedo. Eu estava abatido, cadavérico. A paixão vinha-me devorando, há meses, secretamente, como o fogo ao algodão. Estava quase ossificado. E eu sabia que o índio não come, nunca, a presa nessas condições. Prefere engordá-la, cevá-la, tratando-a durante semanas, durante um ano inteiro.

— E a moça?

— Consuelo era linda e forte. Vi quando a mataram, com uma pancada vigorosa no crânio... Como são feios os miolos, aparecendo, ensanguentados, entre a pasta dos cabelos!... Vi quando um dos seus seios, tão redondo, tão rígido, tombado do jirau, rolou na areia do chão, onde um velho cachorro o tomou nos dentes, indo devorá-lo escondido... Vi quando a esquartejaram, quando a retalharam, quando a distribuíram, em pedaços sangrentos. Impassível, como num sonho, eu via tudo. E Só despertei do meu pasmo, quando um dos índios, o chefe, que tostava o seu pedaço na fogueira fumarenta de gordura, me veio perguntar, em um gesto, que pedaço eu queria. Olhei as postas de carne fria, sobre as quais as moscas zumbiam, com fúria: a mão miúda, de dedos contraídos, em um dos quais estava, ainda, um anel que eu lhe dera; um dos pés, meio devorado e com as cartilagens penduradas; as entranhas, a cabeça quase esfacelada, pendurada a um esteio pelos cabelos; a sua perna; a sua coxa; um dos seus braços, o mais lindo que eu tenho visto... Indiquei um pedaço de carne roxa, que aparecia, repugnante, entre as vísceras, o qual me foi trazido, e que eu comecei, também, a devorar.

Estremeceu todo, e concluiu, enquanto um arrepio de horror me sacudia:

— Era o coração. Havia cumprido o meu juramento...

E batendo, com força, na mesa:

Garçon, outro duplo!



Ilustração: Theodor de Bry (1528 – 1598).

Share: