CONVERSÃO - Narrativa Verídica Sobrenatural - Coelho Neto



CONVERSÃO

Coelho Neto, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.
(1864 —1934)


— Sim, tens razão. Combati, com todas as minhas forças, o que sempre considerei a mais ridícula das superstições. Essa doutrina, hoje triunfante em todo o mundo, não teve, entre nós, adversário mais intransigente, mais cruel do que eu.

Em casa, onde a propaganda, habilmente insinuada, conseguira fazer prosélitos, todos temiam-me, apesar da minha conhecida tolerância em matéria de fé, porque eu não deixava passar um só dos livros de preparação e opunha-me, com energia, às tais sessões reveladoras. Mas que queres?

Não tiveram os cristãos inimigo mais acirrado do que Saulo até o momento em que, na estrada de Damasco, por onde ia para a sua campanha de perseguição, o céu abriu-se em luz e uma voz do Alto o chamou à fé. E de inimigo que era tornou-se, desde logo, o tapeceiro de Tarso, o mais fervoroso e abnegado apóstolo do Cristianismo, saindo a pregar a Palavra suave ao gentio pagão. Pois, meu caro, a minha estrada de Damasco foi o meu escritório e, se nele não irradiou a luz celestial, que deslumbrou S. Paulo, soou uma voz do Além, voz amada, cujo eco não morre em meu coração.

Sabes que, depois da morte da pequenina Esther, que era o nosso enlevo, a vida tornou-se-nos sombria. A casa, dantes alegre com o riso cristalino da criança, mudou-se em jazigo melancólico de saudade. Passei a viver entre sombras lamentosas.

Minha mulher, para quem a netinha era tudo, não fazia outra coisa senão evocá-la, reunindo lembranças: roupas que ela vestira, brinquedos que a acompanharam até a última hora, entre os quais a boneca, que foi com ela para a cova, porque a pobrezinha não a deixou até expirar.

Júlia… coitada! Nem sei como resistiu a tão fundos desgostos: seis meses depois do marido, a filha.

Pensei perdê-la. Todas as manhãs lá ia ela, para o cemitério, cobrir o pequenino túmulo de flores, e lá ficava, horas e horas, conversando com a terra, com o mesmo carinho com que conversava com a filha. Ia depois ao túmulo do marido e assim vivia entre mortos, alheia ao mais, indiferente a tudo.

Propus mudarmo-nos para Copacabana. Opôs-se. Insistiu em ficar na casa em que fora feliz e desgraçada, mas onde perduravam recordações do seu tempo de ventura. Temi que a seduzissem para o Espiritismo, que a lançassem ao turbilhão do mistério em que se agitam as almas do nosso tempo, como endemoninhados da Idade Média corriam ao sabbat, nos desfiladeiros sinistros. No estado de abatimento moral em que ela se achava, seria arriscado perturbar-lhe a razão com práticas nigromânticas.

As minhas ordens, dadas em tom severo, foram obedecidas. Júlia passava os dias no quarto, que fora da pequena, e de fora ouvíamo-la falar, rir, contar histórias de fadas, exatamente como fazia durante a vida da criança.

Tais ilusões dolorosas eram bálsamos que mitigavam o sofrimento d’alma, como a morfina alivia as dores. Cessada a ilusão, o desespero irrompia mais acerbo. Era assim.

Uma manhã, porém, com surpresa de todos, Júlia apareceu-nos risonha, posto que os olhos ainda conservavam orvalho na corola, ao sol.

Interroguei-a, sorriu. Interroguei minha mulher. Nada. Confesso-te que cheguei a pensar na... volta da primavera.

Lucílio tornara-se mais assíduos nas visitas, aparecendo duas e três vezes por semana e o amor, bem sabes, renova: o amor é como o sol que abre flores nas próprias covas.

Já começava a afazer-me a tal ideia quando, uma noite, minha mulher entrou-me pelo escritório, lavada em lágrimas, e disse-me, abraçando-se comigo, que a filha enlouquecera.

—Por quê?!  perguntei.

—Está lá embaixo, ao telefone, falando com Esther.

—Que Esther?

—A filha…

Encarei-a demoradamente, certo que a louca era ela, não Júlia.

Como se compreendesse o meu pensamento, ela insistiu:

—Lá está. Se queres convencer-te, vem até a escada. Poderás ouvi-la.

Fui.

Como sabes, tenho dois aparelhos: um, no “hall”, outro, em extensão, no meu escritório. Ficamos os dois, minha mulher e eu, junto à balaustrada do primeiro andar. Júlia falava embaixo, no escuro.

Por mais esforço que fizéssemos, não conseguíamos ouvir uma palavra. Era um sussurro meigo, cortado de risinhos. O que me pareceu, por que não dizê-lo?,  foi que a conversa era de amor.

Tive ímpetos de violar o segredo de minha filha, mas o escrúpulo do meu cavalheirismo conteve-me.

—Por que dizes que ela fala com Ester? perguntei a minha mulher.

—Por quê? Porque ela mesmo me confessou e não imaginas com que alegria!

Fiquei estatelado, sem compreender o que ouvia. De repente, numa decisão, entrei no escritório, desmontei lentamente o fone do aparelho, apliquei-o ao ouvido e ouvi.

Ouvi, meu amigo. Ouvi minha neta. Reconheci-lhe a voz, a doce voz, que era a música da minha casa… Mas não foi a voz que me impressionou, que me fez sorrir e chorar, senão o que ela dizia.

Ainda que eu duvidasse, com toda a minha incredulidade, havia de convencer-me, tais eram as referências, as alusões que a pequenina voz do Além fazia a fatos, incidentes da vida que conosco vivera o corpo do qual ela fora o som…

Mistificação? E que mistificador seria esse que conhecia episódios ignorados de nós mesmos, passados na mais estreita intimidade entre mãe e filha? Não! Era ela, a minha neta, ou antes, a sua alma visitadora que se comunicava daquele modo com o coração materno, levantando-o da dor em que jazia para consolação suprema.

Ouvi toda a conversa e compreendi que nos estamos aproximando da grande era; que os Tempos se atraem —o finito defronta o infinito e. das fronteiras que os separam, as almas já se comunicam. E eis como me converti; eis por que te disse que a minha estrada de Damasco foi o escritório onde, se não fui deslumbrado pelo fogo celestial, ouvi a voz do céu, a voz vinda do Além, da outra Vida, do mundo da Perfeição…

—Ouviste-a ao telefone… E por que não a ouves no ar, como a ouviu… São Paulo, por exemplo?

—Por quê? Porque o espírito precisa de um meio em que se demonstre. Para viver conosco, encarna-se. O próprio Espírito de Jesus encarnou-se. O lume precisa de um combustível para arder e o lume é luz, eternidade: o som precisa de um órgão para vibrar. Todo o imaterial carece de um veículo para agir.

—Uma pergunta, apenas: — Como consegue D. Júlia pôr-se em comunicação com o espírito da filha? Não me consta que a “Companhia Telefônica” tenha ligação com o Além.

—Respondo-te. Quando Júlia —disse-me ela própria — deseja comunicar-se com a filha, invoca-a, chama-a com o coração, ou melhor: com o amor, e ouve-lhe imediatamente a voz. Falam-se, entretêm-se, continuam a vida espiritual. A que está lá em cima é feliz na bem-aventurança, e a que ficou na orfandade já não sofre, como dantes sofria, porque o que era esperança tornou-se absoluta certeza…

—Certeza de quê?

—De uma vida melhor e maior, de vida puramente espiritual, como a claridade, vida sem dores, sem os tormentos próprios da carne, que não é mais do que um cadinho em que nos depuramos em sofrimento para alcançarmos a Perfeição.”


Fonte: Jornal do Brasil, edição de 7 de junho de 1923, p. 9.

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CATALEPSIA - Narrativa Verídica - Narrativa de Horror - Anônimo do século XIX







CATALEPSIA
Anônimo do séc. XIX


Poucas doenças apresentam sintomas tão extraordinários como a catalepsia. Tem por causa ordinária o excesso de trabalhos intelectuais, o abuso de licores fermentados, ou qualquer alteração ou desarranjo na economia animal e, particularmente, nos órgãos do cérebro.


A catalepsia é uma doença letárgica, uma imobilidade absoluta unida à grande rigidez dos membros, que conservam a posição que tinham no momento do acesso, ou naquela em que alguém os coloca. O pulso torna-se mais fraco, sem deixar de bater; a respiração é quase insensível; o queixo fica num estado convulso, a pele esfria e os olhos conservam-se abertos, mas com imobilidade completa da pupila, e sem que a luz a faça contrair, prova de que o doente nada vê.


Embora o paciente ouça e não perca o olfato, nem os perfumes mais enérgicos podem pôr termo ao acesso. A pele perde toda a sua sensibilidade, e os ataques desta doença, que apresenta todos os sintomas de morte, duram muitas vezes doze horas. Termina quase sempre por suspiros, bocejos e por uma espécie de delírio. Os seus ataques são súbitos e imprevistos. É à catalepsia que cumpre atribuir os enterros muito numerosos de pessoas ainda vivas. Eis os pormenores de um enterro destes,  narrados por um inglês que quase foi vítima dessa terrível enfermidade, e que escapou por um acaso dos mais felizes:


“Sofri por algum tempo um ataque nervoso, as minhas forças diminuíam gradualmente, mas o sentimento da vida parecia tornar-se cada vez mais ativo, à medida que as minhas faculdades corporais diminuíam. Conheci pelos gestos do médico que havia perdido a esperança de salvar-me, e a dor muda, mas expressiva, dos meus amigos, dizia-me que todos os esforços da arte eram inúteis.


“Uma noite veio a crise. Fui atacado de um tremor geral, e de um zunido que me atordoava. Vi em volta de minha cama grande número de figuras extravagantes. Eram brilhantes, vaporosas e sem corpo. O quarto estava iluminado e apresentava um aparato solene. Procurei mover-me, mas não o pude conseguir. Uma confusão terrível me perturbou então os sentidos. Mas quando, passados alguns instantes, tornei em mim, recordei-me de tudo o que havia passado, possuía toda a minha inteligência. Em uma palavra, gozava de tudo o que pertence à vida, menos a faculdade de agir e de falar. Ouvi alguns gemidos e a voz do enfermeiro pronunciar: “Está morto!” Impossível me é descrever o que senti ao ouvir estas lúgubres palavras. Quis tentar um último esforço para mover-me, mas nem pude mexer a pálpebra. Após um curto intervalo, aproximou-se um amigo ao meu leito, agitado pela dor, e com o rosto banhado em lágrimas. Pôs-me a mão na cara e fechou-me os olhos. Fiquei, então, nas trevas. Mas podia ainda ouvir, sentir e sofrer.


“Depois que me cerraram os olhos, conheci, pelos discursos das pessoas que ficaram no quarto, que o meu amigo me tinha deixado e, pouco depois, senti os agentes funerários amortalharem-me. A sua frígida indiferença era-me mais penosa do que a dor dos meus amigos. Viravam-me de todos os lados, riam-se e tratavam com a maior brutalidade aquilo que chamavam cadáver.


“Quando esses miseráveis acabaram, retiraram-se, e então começou a formalidade das honras funérias. Por espaço de três dias, foi grande o número de amigos que veio ver-me. Eu os ouvia falar em voz baixa das minhas boas qualidades, dos meus defeitos, e sentia os dedos de muitos deles apalpando-me o rosto. No terceiro dia, falavam do mau cheiro que havia no quarto.


“Veio o caixão, meteram-me dentro, e senti as lágrimas do meu amigo caírem sobre o meu rosto.


“Passados alguns minutos, conheci que se retiravam todos os meus amigos e conhecidos, e que entravam os carpinteiros para fechar o caixão. Eram dois: um saiu antes de acabada a obra. O outro eu ouvia assobiar ao furar com a verruma, parar, calar-se, e, por fim, meter o ultimo prego.


“Fiquei só. Todos fugiam do meu quarto. Sabia, porém, que ainda não estava enterrado. Suposto estivesse imóvel e nas trevas, tinha ainda alguma esperança. Mas ela se desvaneceu bem depressa. Chegou o dia do enterro. Senti levantarem e levarem o caixão. Percebi que o colocavam no coche, e que era muita a gente que o rodeava: algumas pessoas falavam de mim com afeição. O carro principiou a andar. Sabia que me levavam para o cemitério. Parou o coche e tiraram o caixão: pela desigualdade dos movimentos, notei que era levado sobre os ombros de algumas pessoas. Houve uma pausa. Ouvi o atrito das cordas, moveu-se o caixão, e senti pouco depois que balançava. Foi descendo e parou no fundo da cova. Ouvi cair as cordas sobre o ataúde. Fiz um esforço terrível para mover-me, mas todos os meus membros ficaram imóveis.


Logo depois, lançaram alguns punhados de terra sobre o caixão, e houve uma segunda pausa. Passaram-se alguns minutos, e ouvi o som da pá. A terra caía sobre mim, e o ruído da sua queda, mais terrível que o estrondo do trovão, enchia-me de horror. O ruído diminuiu gradualmente, e, pela surdez do som, reconheci que a cova estava cheia. Terminada esta operação, ficou tudo no mais profundo silêncio.


Não tinha meio algum de conhecer o tempo que passava assim; o silêncio continuava. Eis, pois a morte, dizia eu, e ficarei debaixo da terra até o dia da ressurreição. O meu corpo vai corromper-se, os vermes virão fartar-se nos meus membros. Enquanto me ocupava com estas horríveis reflexões, ouvi sobre a terra, por cima da cabeça, um som surdo e prolongado; julguei que eram os bichos e os répteis da morte que vinham reclamar a sua presa.


“O ruído aproximava-se e aumentava. Seria possível que os meus amigos se lembrassem que me tinham enterrado antes de tempo? Fiquei cheio de esperança.


“Cessou o ruído, e senti uma mão apalpar-me o rosto. Tiraram-me do caixão pela cabeça. Senti o ar. Fazia um frio glacial. Levavam-me furtivamente talvez para o tribunal terrível! Talvez para as chamas eternas!


“Passados alguns minutos, atiraram comigo como se fosse algum fardo, mas não no chão. Um momento depois, reconheci que estava em uma carruagem e, por algumas frases soltas, soube que estava em poder desses ladrões noturnos, chamados homens da ressurreição, que profanam os túmulos para fazerem um trafico sacrílego com os cadáveres que desenterram. Logo que a carruagem principiou a rodar, começou um desses homens a assobiar e o outro a cantar algumas cantigas obscenas.


“Parou a carruagem, pegaram-me, levaram-me, e percebi, pela densidade do ar e mudança da temperatura, que estava em um quarto. Arrancaram com violência a mortalha em que estava envolto, e puseram-me cima de uma mesa. Pela conversa que ouvi desses dois homens e de outro que ali se achava, soube que devia ser dissecado essa mesma noite.


"Os meus olhos estavam ainda cerrados. Nada via, mas concluí, logo depois, pelo tropel que ouvi, que haviam chegado os estudantes de anatomia. Alguns deles aproximaram-se da mesa e examinaram-me minuciosamente. Por fim, chegou o lente.


“Antes de começar a dissecção, propôs que se fizessem no meu cadáver algumas experiências galvânicas, e preparou-se um aparelho para esse fim. O primeiro choque abalou todos os meus nervos, que ressoaram e vibraram como as cordas de uma harpa. À vista deste fenômeno, testemunharam os estudantes a sua admiração. O segundo choque fez-me abrir os olhos, e a primeira pessoa que vi foi o médico que me tinha assistido na minha enfermidade. Estava eu, porém, como um morto, ainda que pudesse distinguir entre os estudantes algumas caras que me não eram desconhecidas. Logo que os meus olhos se abriram, ouvi pronunciar o meu nome por muitos dos circunstantes em tom de compaixão, e ouvi dizer a muitos que teriam desejado que as suas experiências não fossem feitas sobre o meu cadáver.


“Logo que terminaram as suas experiências galvânicas, o mestre tomou  o bisturi e fez-me uma incisão grande no peito; senti uma sensação terrível em todo o corpo; um tremor convulso se apoderou de mim, e todo o auditório começou a dar gritos horrorosos. Os laços da morte estavam quebrados; a letargia tinha cessado. Prestaram-me todos os socorros, e, passada uma hora, recuperei todas as minhas faculdades.”



Fonte: Museo Universal, 1838. Fizeram-se breves adaptações textuais.


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O OLHO DE APOLO - Conto de Mistério/Policial - Conto Clássico - G. K. Chesterton



O OLHO DE APOLO
G. K. Chesterton
(1874 – 1936)

A neblina que se elevava do Tâmisa ia passando do tom cinza ao luminoso à medida que o sol ascendia. Dois homens atravessaram a ponte de Westminster. O alto era Hércules Flambeau, detetive particular, que se dirigia ao seu novo escritório, próximo da famosa abadia londrina. O outro era o padre Brown.

 O edifício tinha todas as comodidades modernas. Viam-se ainda os andaimes na frente, pois a construção não estava terminada, se bem que algumas peças já se achassem ocupadas: a de Fiambeau, no quarto andar e outros dois. A frente do edifício chamava a atenção: uma figura enorme e dourada que representava um olho rodeado de raios ocupando a área de duas ou três janelas.

—Que será isto? — perguntou, estranhando, o padre Brown.

—Ah — exclamou o amigo, rindo —, é uma nova religião! Dessas que perdoam os pecadores, assegurando que nunca foram cometidos. O professor Kalon alugou o quinto andar. No terceiro, abaixo do meu, há duas mecanógrafas. O professor Kalon é um novo sacerdote de Apolo.

— Mau, mau! — respondeu o padre. O sol sempre foi um Deus cruel. Que significam estes olhos?

— Creio — explicou o outro —  que, segundo a teoria desta gente, um homem de espirito forte pode resistir a qualquer coisa; por exemplo, olhar o sol de frente. Asseguram também que qualquer homem pode curar-se de todos os males físicos.

Mas Flambeau interessava-se mais pelas duas mecanógrafas do terceiro andar. Eram duas irmãs morenas; uma bastante atraente. Tinha olhos brilhante, nariz aquilino e impressionava como uma mulher capaz de abrir o seu caminho na vida. A outra era mais tímida. A primeira, Paulina, sentia-se atraída pela vida intensa e social. Conservava o seu dinheiro para aplicá-lo em fins essencialmente práticos, como a fundação de sociedade para a defesa das mulheres que trabalham. Joana não compartilhava, talvez, deste critério; mas seguiu a irmã em suas iniciativas, como um cãozinho fiel.

Flambeau divertia-se muito com Paulina, com seus ímpetos de mulher que deseja bastar-se a si mesma. Quando visitou os apartamentos pela primeira vez, viu Paulina no vestíbulo. Estava junto ao elevador, esperando o menino encarregado de manejá-lo. Mas logo a moça abriu a porta, declarando que não esperava mala e não precisava de meninos, nem de adultos. E apesar da brevidade do trajeto até o terceiro andar, Paulina teve tempo de explicar ao companheiro as suas ideias gerais sobre e a civilização atual e a existência humana. Antirromântica por temperamento, era partidária apaixonada da técnica moderna.

Flambeau subiu ao quarto andar sorrindo dos ímpetos daquela moça extraordinária e de temperamento excepcional. Um dia, Flambeau entrou no escritório das irmãs para encarregá-las de umas cópias a máquina e surpreendeu uma cena originalíssima: Paulina atirara ao chão os óculos da irmã e os pisava com fúria, ao mesmo tempo que lançava impropérios contra “os estúpidos conselhos de médicos que não sabem nada”. Flambeau perguntou:

—Mas senhorita, pois uns óculos são sinal de debilidade humana e um elevador não? A técnica ajuda os homens em todos os seus aspectos.

—O caso é muito diferente, Sr. Flambeau — protestou Paulina.  — Os acumuladores, os dínamos são sinais da força do homem... e também da força da mulher! Mas estas tolices que se vendem por aí de cumplicidade com os médicos... não, não e não! A gente supõe que necessita de óculos para ver e de muletas para caminhar porque foi educada na escola da covardia. Também as mães dizem aos filhos que não olhem para o sol!  E assim sucede que os homens não o podem olhar sem pestanejar... Eu abro os olhos e encaro o sol de frente, sem sentir nenhum mal-estar.

 —É que seus olhos, senhorita — sorriu Flambeau —, deslumbram como o próprio sol.

Isto impôs silêncio a Paulina. Flambeau, quando voltava para o seu andar, disse melancolicamente: "Esta moça caiu nas garras do charlatão de cima”. Logo o detetive notou que as relações entre os dois andares eram cada vez mais estreitas. O professor Kalon tinha a aparência de uma estátua grega; sua beleza era quase animal, mais que humana, porém suavizada pelo brilho de uma inteligência extraordinária. O que se estranhava naquele personagem, digno de figurar num ambiente de alta espiritualidade, era a sua condição de inquilino de um apartamento moderno. O professor Kalon exercia sobre os seus interlocutores uma influência misteriosa que denunciava uma alma vigorosa e excepcional. Quando se envolvia na túnica branca e colocava na cabeça um aro de ouro para saudar o sol, tinha tal imponência que a gente da rua não se atrevia a rir. Três vezes por dia o sacerdote de Apolo ia render-lhe homenagem: ao amanhecer, às doze horas e ao pôr do sol.

Davam doze horas na torre do Parlamento quando o padre Brown, que chegava com Flambeau, viu o branco sacerdote do Apolo no balcão do quinto andar. Flambeau entrou e o padre ficou mirando o novo profeta. Kalon erguia as mãos para o sol e recitava suas litanias. O extraordinário era que fitava o sol sem pestanejar.

—Oh, Sol!  — dizia. Oh, pai branco de toda brancura! Oh, primitiva pureza em cuja eterna serenidade...

Neste instante, o professor foi interrompido por uma detonação ensurdecedora e uma série de ruídos confusos. Cinco homens entraram precipitadamente no edifício, enquanto outros três saiam. Uma sensação de horror pareceu encher a rua; nesta inesperada comoção, dois homens ficaram impassíveis: o do balcão de cima, o sacerdote de Apolo; o da rua, o padre Brown.

Por fim apareceu à porta a imponente silhueta de Flambeau. Pediu que chamassem um cirurgião e desapareceu em seguida no interior do edifício. O padre Brown correu, então, atrás dele. O padre encontrou Flambeau e outras seis pessoas em volta do espaço retangular cercado de grades do elevador. Este não se achava ali, mas dentro das grades se via um corpo caído.

Flambeau examinou o corpo e observou o formoso rosto da mulher caída. Era Paulina Stacey. O auxílio médico seria inútil. A moça estava morta. O detetive olhava em silêncio para o rosto ensanguentado e pensava. Teria aquele corpo formoso e enérgico se precipitado pelo vazio do elevador, para encontrar a morte? Tratar-se-ia de um suicídio? Não, esta hipótese era absurda, dado o otimismo e a sede de vida da moça. Um assassinato, então.

—Onde está Kalon? — perguntou o detetive com voz rouca e áspera.

 —No balcão, adorando o sol —  respondeu a voz tranquila do padre Brown. Há quinze minutos que lá está.

—Então, quem poderia ter sido?

—Vamos subir e procurar averiguar. Temos meia hora antes da chegada da polícia oficial — disse o padre Brown.

O médico mais próximo chegava. Os dois amigos mostraram-lhe o cadáver e subiram pela escada para o terceiro andar. No escritório não havia ninguém. Subiram ao quarto andar. Flambeau entrou em seu apartamento e saiu.

—Parece que a irmã saiu para dar um passeio — disse gravemente.

Mas o padre Brown, como quem se recorda subitamente de uma coisa, disse:

— Que estupidez a minha! Falaremos do assunto no escritório das moças.

Flambeau desceu com o amigo. Instalaram-se em cadeiras junto da porta e esperaram. Não por muito tempo. No fim de dois minutos, duas pessoas desciam as escadas: Joana e o professor Kalon. Evidentemente, a moça estava no quinto andar quando se deu a catástrofe. Joana vestia de negro e tinha um aspecto severo que impressionava favoravelmente. Encaminhou-se com passo firme para a mesa sem ver os dois homens. O padre Brown observou-a com um sorriso e, sem deixar de mirá-la, perguntou ao professor:

—Senhor, poderia responder a umas perguntas sobre os seus ritos?

A moça voltou-se para eles. Havia em seu rosto uma expressão de angústia profunda.  O padre Brown perguntou à queima-roupa:

— Julga o senhor que o assassinato seja uma má ação?

— Isto é uma acusação?  —perguntou Kalon.  Sei o que pretendem. Mas só direi uma coisa. A mulher que acaba de morrer era minha esposa espiritual. E amava-me tanto que esta mesma manhã escreveu aqui o seu testamento. Lega-me meio milhão. Têm, pois o móvel do crime! Já veem que facilito a acusação!... Que venha a forca! Não me importo: a morte será uma viagem para o reino onde minha esposa me espera!

Flambeau e Joana escutavam-no cheio de admiração. O sacerdote, com a testa franzida num gesto de dor, olhava o solo. Kalon continuou:

— Em poucas frases acabo de dar-lhes os elementos para a acusação, a única possível contra mim. Mas destruirei esta acusação. Não cometi este crime porque Paulina Stacey caiu no buraco do elevador “às doze e cinco minutos”. Cinco pessoas poderiam declarar que a esta hora eu estava no balcão. Estive ali desde um pouco antes das doze até às doze e um quarto. O jovem Clapham, meu empregado, esteve ali toda a manhã e pode atestar do que digo...

 O professor Kalon fez uma pausa e prosseguiu logo com voz serena:

— Julgo adivinhar como morreu Paulina. Minha explicação parecerá um pouco estranha, mas não será menos verídica. É sabido que quem consegue desenvolver as suas faculdades espirituais pode às vezes elevar-se no ar desafiando a lei de gravidade. Este fato é um simples aspecto da conquista da matéria realizada por meios espirituais. A pobre Paulina era presunçosa e empreendedora, julgou ter alcançado o aperfeiçoamento suficiente para manter-se no ar. Muitas vezes, quando descíamos juntos pelo elevador, disse-me que, mediante uma vontade firme, uma pessoa pode descer no ar flutuando como uma pluma. Julgo que, num impulso, quis realizar este milagre. Sua vontade decaiu no momento decisivo... e as leis vingaram-se terrivelmente. Esta, é, meus senhores, no meu ver, a verdadeira história. Pouco me importo que acreditem nela ou não. Os detetives dirão que se trata de um suicídio, mas sei que nos achamos ante um heroico fracasso na luta do domínio da matéria pelo triunfo da espiritualidade.

Daquela vez Flambeau julgou ver o Brown derrotado. Este continuava fitando o solo, como se estivesse envergonhado. Por fim o sacerdote conseguiu dizer:

— Perfeitamente. Sendo assim, o senhor pode tomar o testamento e retirar-se. Onde esta pobre mulher deixou os papéis?

— Devem estar aí, respondeu Kalon. Quando subi pelo elevador para o meu andar, a vi aqui escrevendo.

— A porta estava aberta?

— Estava.

— Bem... E desde então continuou aberta.

Brown continuou olhando o solo. De repente, Joana disse alternadamente:

 —Aqui há um papel.

A jovem aproximara-se da mesa da irmã e tinha na mão uma folha de papel azul. No rosto de Joana havia um estranho sorriso que Flambeau notou.

O professor não mostrou curiosidade pelo papel azul. Flambeau recebeu-o das mãos da jovem e leu-o surpreso. O papel começava com os termos consagrados aos testamentos; mas, de repente, interrompiam-se as letras com traços de tinta onde era impossível ler o nome do donatário. Flambeau, perplexo, mostrou ao amigo o testamento truncado. Este passou-o ao professor.

Pouco depois, o professor atravessava o aposento colocando-se em frente de Joana e, mirando-a com seus enormes olhos azuis, que pareciam querer saltar, disse:

 —Que significa isto? Paulina escreveu algo mais!  — disse num tom de voz que surpreendeu a todos. Mas Joana respondeu serenamente:

—É a única coisa que há no escritório.

E fitou-o com sorriso agressivo.

Subitamente o professor desatou em impropérios:

 —Imagino que veem em mim um aventureiro, mas parece-me que esta senhorita é uma assassina! Sim, uma assassina! Sim, o enigma esclarece-se sem precisar-se recorrer à levitação! A pobre Paulina faz um testamento em meu favor. Chega a pérfida irmã, luta para arrancar-lhe o papel, leva-a para fora e atira-a pelo vazio do elevador. Por isso Paulina não terminou...

Flambeau e o padre olharam para a moça. Esta, calma e digna, retrucou:

—Sr. Kalon, o senhor invocou o testemunho de seu empregado para provar que não pôde cometer o crime. Este mesmo empregado dirá que estive em seu escritório, preparando alguns papéis que devíamos passar à máquina, desde cinco minutos antes da tragédia até cinco minutos depois. E o Sr. Flambeau também sabe que eu não estava aqui.

Fez-se um silêncio. Depois Flambeau explodiu, nervoso:

—Paulina estava só, aqui, no escritório? Trata-se de um suicídio, então?

 —Estava só, mas não se trata de suicídio — disse o padre Brown. Morreu assassinada.

—Mas se estava só! — insistiu o detetive.

—Morreu assassinada quando estava só —  insistiu por sua vez o padre.

Todos olharam espantados para quem fazia aquela curiosa afirmativa. O professor Kalon apoiou:

—Sim, esta assassina matou uma pessoa de seu próprio sangue e roubou-me o meio milhão que Paulina me legara!

—Que importa o dinheiro? — interrompeu Flambeau. No reino do espírito...

 —É que aqui estão em jogo os ideais sagrados de Paulina.. Para Paulina, nossa causa era sagrada. A seus olhos...

O padre Brown ergueu-se na cadeira. Estava pálido como um morto; mas seu rosto parecia iluminado por uma luz de esperança.

 —Isso! Isso!—  gritou com voz alterada. — Temos que começar por aí! Os olhos de Paulina!

—Que quer o senhor dizer? — rugiu o professor.

—Os olhos de Paulina —  repetiu. — Fale. Confesse...

—Confessar o quê? — perguntou o professor, iracundo.

—E este o criminoso? —  perguntou Flambeau.  — Prendo-o?

—Não, deixe-o sair... Que se vá.

O profeta do sol retirou-se efetivamente. Seguiu-se um longo silêncio. Joana ficou triste e pensativa. Por fim Flambeau falou:

—Padre, é meu dever averiguar o crime e quem o cometeu...

—A mim, preocupam-me dois crimes... Dois crimes muito distintos! Dois, sim! Dois crimes foram cometidos aproveitando a mesma fraqueza da vítima. Guiados pelo mesmo móvel: apropriar-se do dinheiro. O autor do crime maior encontrou em seu caminho o do crime menor. E este conseguiu o seu propósito.

—Fale claro — disse Flambeau. — Morreu alguém mais? Não! E então?

Enquanto o sacerdote falava, Joana saíra do aposento, levando o lenço aos olhos chorosos. O padre Brown olhou-a com piedade e continuou:

—A verdade está encerrada nestas palavras, Flambeau: Paulina Stacey estava cega! Estava condenada à cegueira desde o nascimento. Os dados que você me deu a seu respeito são suficientes para decifrar os dois crimes. Joana queria obrigá-la a usar lentes, Paulina não concordava. Por quê? Porque Paulina professava crenças muito estranhas. Sustentava que sua vista não era nebulosa; ou, pelo menos, procurava dominar sua cegueira com um esforço tão admirável quanto era inútil a sua vontade. Os olhos, submetidos a tais experiências, debilitaram-se cada vez mais. Paulina olhava para o sol, como o seu mestre do quinto andar... E a pobre não suspeitava que o olho de Apolo cega e mata!

Uma pausa e o sacerdote prosseguiu:

—Não creio que este homem tenha tido a intenção de deixar a moça cega definitivamente. Não, mas explorou a fraqueza de seus olhos para matar Paulina. Paulina subia e descia no elevador sem auxílio do empregado. Este ascensor moderno desliza sem ruído... pois bem, um dos crimes foi cometido assim: o professor Kalon subiu pelo elevador até este andar e viu que Paulina escrevia o testamento. Veio até aqui e disse à moça que deixava o elevador para que subisse ao quinto andar. Subiu e foi ao balcão para a sua oração. Paulina saíra, abrira a porta do elevador e...

— Não! — gritou o detetive horrorizado.

— Sim — disse o padre. — O professor julgava ganhar assim meio milhão. Seu crime era muito elegante, porque não exigia uma ação direta, um assassinato no sentido rigoroso e brutal da palavra. Mas fracassou com o outro crime.

—Já não era possível um segundo crime! — disse Flambeau.

—Outra pessoa conhecia o detalhe da cegueira — continuou o padre, sem fazer caso da interrupção.  — Viu o testamento incompleto? Mas figuram embaixo a assinatura de duas testemunhas. Uma delas era Joana; a outra, uma das empregadas que trabalham aqui. Joana assinou despreocupada, para que a irmã escrevesse depois o testamento.. Por que assinou Joana o papel?... Porque desejava que, quando Paulina assinasse, não houvesse testemunhas... Quer dizer, que não houvesse testemunhas de outra coisa... De quê? Da impossibilidade em que Paulina se acharia de assinar. Não entende? Paulina era cega. Escrevia valendo-se de uma pena forte, como todos os cegos, para evitar de ter de procurar o tinteiro a todo instante. Joana era a encarregada de encher o depósito das canetas... Notou que a primeira frase do testamento ficou interrompida por alguns traços em seco? A tinta só chegou para esta linha. E foi assim que o professor ficou sem o meio milhão!... Seu crime foi um crime inútil!

 —Para reconstituir o crime em dez minutos, você deve ter feito um grande esforço intelectual — disse Flambeau.

 —Não, maior esforço custou-me esclarecer o crime de Joana Stacey. O roubo de Joana, que se valeu da caneta sem tinta. Joana Stacey, por um meio simplíssimo, despojou o professor de meio milhão de libras esterlinas!

 — Mas a atuação do professor era também misteriosa!

—Nem tanto — sorriu o padre. Antes de saber o que se tinha passado, sabia que o professor tinha a culpa de tudo.

 —Como?

 —Muito simplesmente. O professor demonstrava um excesso de energia que me inspirou desconfiança. Houve alarido, houve estrondo e o professor ficou impassível no balcão, com o rosto para o sol. Isto queria dizer que a profeta de Apolo não se surpreendia com o que estava acontecendo. Vamos. Chegou a polícia.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Carioca, edição de 4/12/1947

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A JANELA FECHADA - Conto Clássico de Terror - Ambrose Bierce


A JANELA FECHADA
Ambrose Bierce
(1842 – 1914?)

Em 1830, a apenas umas poucas milhas do que é agora a grande cidade de Cincinati, estendia-se uma selva imensa e quase virgem. Toda a região estava escassamente povoada por gente de fronteira, almas inquietas, que mal conseguiam levantar no deserto um lar mais ou menos confortável e alcançavam esse grau de prosperidade, que atualmente chamaríamos de indigência, abandonavam tudo e, levados por um misterioso impulso de sua natureza, seguiam seu caminho para o oeste, para afrontar novos riscos e privações, com o fim de obter as mesmas comodidades às quais voluntariamente haviam renunciado.

Muitos haviam deixado essa comarca para encaminhar-se para as povoações mais remotas; porém, entre os que ficavam, havia um que tinha sido o. primeiro a chegar. Vivia só, numa cabana de troncos, rodeado pela grande espessura da mata, de cuja escuridão e silêncio parecia participar, pois ninguém o vira jamais sorrir ou pronunciar uma palavra supérflua. Atendia a suas necessidades, muito simples, com a venda ou a troca de peles de animais selvagens; porém, nada cultivava na terra sobre a qual exercia inquestionado direito de posse. Ficavam, no entanto, certos indícios de "melhoras”: vários acres de terreno adjacente à sua cabana tinham sido antanho desmontados, porém os troncos apodrecidos já estavam semiocultos pelo mato e os rebentos que já começavam a mitigar os estragos causados pelo machado em tempo distante. Era evidente que as inclinações agrícolas do homem se haviam consumido com chama vacilante, expirando em arrependidas cinzas...

A cabana de troncos, com sua chaminé de madeira, suas corroídas telhas de madeira e seu assoalho de barro batido, tinha uma só porta e, no lado oposto, uma janela. Esta, no entanto, estava fechada com tábuas desde tempo imemorial. E ninguém sabia por quê. O ar e a luz, certamente, não desagradavam ao seu ocupante, pois, nas raras ocasiões em que um caçador passava pelo lugar solitário, via o recluso ensolarando-se no umbral, como se a luz do sol fosse para ele uma necessidade que o céu satisfazia. Bem poucos, creio, conhecem o segredo dessa janela. Porém eu sou um deles, como os leitores verão no devido tempo. O homem se chamava Murdock. Aparentava uns setenta anos, porém tinha somente cinquenta. À parte a idade, havia envelhecido por outra causa. Seus cabelos e sua barba, longa e espessa, eram brancos, os olhos opacos e encovados, o rosto singularmente sulcado de rugas que pareciam pertencer a dois sistemas intersectantes. De corpo era alto e magro, encurvado de ombros como um carregador. Eu nunca o vi; esses detalhes sabia meu avô, que me contou a história quando eu era menino. Ele, sim, conheceu o solitário naquela distante época; viveu longo tempo num lugar próximo da cabana.

Um dia — muito depois — encontraram o sr. Murdock morto na cabana. Nem a ocasião nem o sítio se prestavam para as averiguações judiciais ou a curiosidade jornalística. Resolveu-se, suponho, que havia morrido por causas naturais; em caso contrário, alguém o haveria contado e eu me recordaria. Sei apenas que o cadáver foi enterrado — dadas as circunstâncias — junto da cabana, onde havia o túmulo de sua esposa, que o precedera de muitos anos: tantos que a tradição local apenas retivera a memória da sua existência.

Assim conclui o capítulo final desta verdadeira história... Assim concluiria, melhor diria, se anos mais tarde, em companhia de um amigo igualmente intrépido, não me tivesse internado na região, acercando-me até uns trinta metros da cabana... e logo fugimos, para escapar do fantasma que, como sabiam todos os meninos das imediações, frequentava aquele lugar.

Como este relato surge, naturalmente, de minha relação pessoal com o que narro, esse detalhe tem certa importância. Porém, há um capítulo anterior, que me foi contado por meu avô.

Quando Murdock construiu sua cabana e começou a trabalhar vigorosamente com o machado, desnudando o terreno para uma futura granja, era jovem, forte e ambicioso. O fuzil constituía, então, seu único meio de subsistência. No Leste, de onde procedia, casara-se, segundo o costume, com uma jovem digna, em todos os sentidos, de sua honrada devoção, que com ele partilhava os perigos e as privações, sempre com espírito disposto e animoso coração. Não ficou memória do seu nome; de seus dotes pessoais e espirituais, a tradição nada diz, e o cético tem todo o direito de alimentar suas dúvidas. Porém Deus não permite que eu também as tenha. Do afeto e da felicidade que os uniu, há provas convincentes na vida ulterior do homem solitário, pois que outra coisa senão o magnetismo de uma amada recordação teria podido acorrentar um espírito audacioso a uma sorte semelhante?

Um dia, quando Murdock voltou de caçar num lugar distante da selva encontrou sua mulher prostrada e delirante. Não havia médico em muitas milhas em redor, nem vizinhos. Seu estado era tão grave que não podia deixá-la para ir em busca de ajuda. Empenhou-se, então, em atendê-la, em curá-la, mas no fim do terceiro dia a mulher entrou em estado de coma e morreu sem recobrar por um instante sequer o mais leve vislumbre de razão.

Pelo que sabemos das naturezas afins de Murdock, podemos atrever-nos a completar com certos detalhes a estranha imagem traçada por meu avô.

Ao comprovar que sua companheira estava morta, Murdock conseguiu recordar que os mortos devem receber sepultura.

No cumprimento deste sagrado dever, errou uma e outra vez, algumas coisas que fazia mal, outras as fazia bem, porém repetindo-as interminavelmente. Sua ocasional incapacidade para executar algum ato simples e vulgar o enchia de assombro; como um ébrio que se maravilha ante a suspensão de suas familiares leis naturais. Surpreendia-o, também, o não haver chorado. Surpreendia-o e, de certo modo, envergonhava. Não chorar os mortos não significaria, talvez, dureza de alma?

— Amanhã — disse em voz alta — terei que fazer o caixão e cavar a fossa. E quando não a enxergar mais, então, sentirei de verdade... Mas agora... está morta, é verdade, mas tudo está bem, deve estar bem. As coisas não devem ser tão terríveis como parecem.

Inclinou-se sobre o cadáver, na incerta luz, ordenando-lhe os cabelos e dando os últimos retoques a um arranjo simples, tudo fazendo mecanicamente, com distraída minúcia. E, todavia, por sob a realidade consciente, abrigava a certeza de que tudo estava bem... Ela tornaria a vida e tudo estaria explicado.

Faltava-lhe experiência na dor: sua capacidade de sofrimento não estava aumentada pelo uso. Seu coração não podia conter tudo, nem sua imaginação conceber adequadamente. Não sabia que estava ferido com tanta crueldade; esse conhecimento viria mais tarde, para não o deixar nunca. A dor é um artista de faculdades tão variadas como os instrumentos em que toca seus longos dedos fúnebres, arrancando a um as notas mais agudas e desesperadas, a outros o acorde surdo e grave que palpita e se repete como o lento pulsar de um tambor distante. A alguns espíritos assombra, a outros adormece. A este fere como uma flecha, picando a sensibilidade e dando-lhe uma vida mais intensa; sobre aquele desce corno um golpe de maça, esmagando e aturdindo.

Podemos imaginar que a Murdock o tenha assim afetado, porque — e aqui entramos em terreno mais firme que o das conjecturas — apenas concluída sua piedosa faina, desmoronou num banco junto da mesa em que repousava o corpo, e vendo a brancura do perfil da morte na crescente penumbra, apoiou os braços no bordo da mesa, e neles o rosto sem lágrimas, ainda, e indizivelmente cansado. Nesse momento entrou pela janela aberta um prolongado gemido, como o grito de uma criança perdida nas profundezas do bosque escuro. Porém o homem não se moveu. Outra vez, mais próximo, palpitou nos embotados ouvidos esse grito extraterreno. Talvez um animal selvagem. Talvez um sonho. Porque Murdock dormia. Horas mais tarde, segundo lhe pareceu, o guarda infiel despertou e levantando a cabeça prestou atenção... sem saber porquê. E na negra escuridão, junto da porta, ao mesmo tempo que recordava tudo com um sobressalto, aguçou o olhar para ver... O quê? Não sabia. Seus sentidos estavam alertados, sua respiração contida, seu sangue parecera esfriar para acentuar o silêncio. Quem... Quem o havia despertado, e onde estava? De repente a mesa estremeceu sob seus braços e ao mesmo tempo ouviu ou acreditou ouvir, um passo muito leve e macio... e outro... como um eco de pés descalços. Aterrado, sem poder gritar nem se mover, forçado a esperar... esperou na treva, séculos de terror indizível. Inutilmente, quis pronunciar o nome da morta, inutilmente quis estirar os braços, através da mesa, para saber se ainda estava ali. Sua garganta estava paralisada, suas pernas e seus braços eram de chumbo. Então sucedeu algo terrível. Um corpo pesado pareceu lançar-se sobre a mesa, empurrando-a contra seu peito, com ímpeto tal que esteve a ponto de cair de costas; ao mesmo tempo  ouviu e sentiu que algo caía no soalho com tanta violência que o impacto sacudiu toda a casa. A isto sucedeu uma luta, uma batalha de sons de impossível descrição. Murdock estava de pé. O terror excessivo lhe devolvera o domínio das faculdades. Tateou com as mãos sobre a mesa. Nada!

Há um ponto em que o terror pode converter-se em loucura. E a loucura incita à ação. Sem um propósito definido, sem outro motivo que o caprichoso impulso de um louco, Murdock saltou para a parede e encontrou seu fuzil carregado e apertou o gatilho sem mesmo fazer pontaria E ao vivo resplendor do tiro viu uma enorme pantera que arrastava para a janela o cadáver de sua mulher, com os dentes cravados em sua garganta.

Depois, foi a escuridão mais profunda do que antes. Escuridão e silêncio. Quando recobrou o conhecimento, estava alto o sol e sonoro o bosque pelo canto dos pássaros.

O corpo jazia, junto da janela, onde a fera o deixara, afugentada pelo tiro. Suas roupas estavam rasgadas, seus cabelos em desordem, as pernas e os braços contorcidos. Da garganta, terrivelmente dilacerada, havia surgido um charco de sangue, não de todo coagulado ainda. O lenço com que lhe amarrara as mãos, estava desfeito. As mãos estavam crispadas.

Entre os dentes da morta ficara um fragmento de orelha do animal.

Tradução de autor desconhecido do séc. XIX.
Fonte: Eu Sei Tudo, novembro de 1956.

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