A TORRE DO DIABO DO CASTELO DE MONTFORT - Conto Clássico Sobrenatural - M. de Thibiage



A TORRE DO DIABO DO CASTELO DE MONTFORT
M. de Thibiage (séc. XIX).

Seriam duas horas da madrugada quando a ponte levadiça do castelo desceu para dar entrada a um jovem de 25 anos de idade, descendente da nobre família dos Montfort. O mais profundo desespero apoderara-se de seu semblante, em que as paixões violentas já haviam impresso inumeráveis rugas; andava de um para outro ponto, correndo as longas galerias ornadas com os retratos dos seus antepassados, e olhava com raiva para todos os pontos como quem esperava algum auxílio sobrenatural.

Quando Arthur — assim se chamava o jovem — completou 18 anos, tomou conta de todos os seus bens. Seu pai, que tinha morrido na última guerra das cruzadas, não lhe tinha deixado uma pessoa que o pudesse guiar com segurança, um tutor honrado e hábil; sua mãe, senhora de branda índole, era o único obstáculo aos desvarios de uma mocidade tempestuosa como era a de Arthur, cujas inclinações eram sobremaneira extravagantes, mas esta mãe tão indulgente e tão boa já não existia e, nestas circunstâncias, fácil é adivinhar qual seria o comportamento do rapaz: entregou-se a todos os vícios de uma vida devassa, tomou por amigos e companheiros os jovens mais dissolutos da província, dos quais abraçou o pérfido exemplo. Assim, por maior que fosse a fortuna herdada, seria impossível que esta durasse muito, e assim aconteceu. Em vão, um velho mordomo, que permanecera em sua família, levantara a voz para lhe fazer ver o abismo imenso que todos os dias ele ia cavando e que, por fim, o haveria de tragar. Mas o velho homem foi despedido, sem que Arthur esboçasse a mínima consideração à sua idade e aos serviços que à casa prestara, por longos anos, com a maior fidelidade. Foi substituído por um criado condescendente, e do qual não temia qualquer conselho respeitoso e indesejável.

Em menos de cinco anos, a imensa fortuna dos Montfort tinha desaparecido, e o infeliz Arthur, numa noite de extravagância, perdeu no baralho até mesmo o sepulcro de seus pais. A ricas salas, que ainda atravessava como dono, já não lhe pertenciam.

Logo ao amanhecer do dia seguinte, o seu feliz adversário viria ditar as regras num palácio que, havia mais de 500 anos, não tinha recebido senão senhores e pessoas distintas. O quarto onde ele tinha nascido, as galerias onde tinha dado vigor aos seus passos, o lindo jardim que tanto havia custado a seu pai, tudo isso ia ser manchado pela presença de um dono ignóbil, um devasso, um jogador, um homem sem nome, sem consideração, talvez um antigo criado. Iria ele sentar-se diante do retrato de seu pai, deitar-se na sua cama e, finalmente, desfrutar dos direitos que nunca deveriam sair da sua família. E o sepulcro de sua mãe? Quem dali em diante cuidaria dele? Arthur pensava nestas coisas, e estava quase decidido a suicidar-se, a acabar com uma vida que só lhe oferecia desgraças e desespero. Mas, por outro lado, vendo-se jovem ainda, considerou que, se mudasse de atitude, poderia ser feliz. A princípio — tal era a sua alucinação — pensava que tudo era um sonho. Mas quando, já fatigado, recordou todos os passos que tinha dado, e com efeito se convenceu de que estava realmente perdido , disse consigo:

— Eu preciso muito dinheiro para me livrar da aflitiva situação em que me encontro e resgatar a hipoteca que pesa sobre as minhas propriedades. Somente Satanás poderá valer-me, caso queira comprar a minha alma!

Mal acabara de proferir estas palavras, ouviu uma voz sonora, que lhe respondeu:

—Arthur, tu és desgraçado, e talvez ainda mais do que julgas. Não refletiste na hedionda sorte que te espera. Que será de ti, criado com tanto mimo e sem conhecimento do mundo? Quem tu acharás, ao saíres deste palácio, que te dê abrigo e se compadeça da tua posição? Aqueles que, enquanto foste feliz e tiveste que repartir, te faziam centenas de cortesias, e te ofereciam os seus serviços, hoje, que tudo perdeste, já não te conhecem: portanto, arruinado como estás, sem meios de resgatar os bens de teus antepassados, arrastando de cidade em cidade a tua pesada existência, poderás fazer ideia do futuro que te espera? Mas eu aqui estou, uma vez que é da tua vontade, estou pronto a reparar a tua perda. Há pouco, dizias que precisavas de ouro, eu te darei quanto quiseres. Amanhã, ao romper o dia, pendura esta bolsa no ponto mais alto da torre do castelo, e eu a encherei em teu favor, obrigando-me a mantê-la sempre no mesmo estado, e confia na minha palavra. As condições deste serviço, que vou prestar-te, foram por ti propostas. A tua alma me pertencerá logo que eu tiver enchido de ouro a tua bolsa e, quando morreres, reclamarei os meus direitos.

Era Lúcifer quem assim falara.

— Muito bem — respondeu Arthur —, eu não hei de faltar ao que prometi.

De novo ele se achou no seu quarto. Aquilo não fora uma ilusão! Amanhã ele poderá ocultar as suas loucuras, e com o ouro tornará a comprar este palácio, rica herança que deveria ter sempre conservado. Não se esquecerá desta noite de tormentos, e há de se afastar, para sempre, dos indignos companheiros da sua libertinagem. Já não teme deixar esses quadros de seus avós, e sobretudo o de sua mãe, que lhe parecia animado e pouco satisfeito com o seu procedimento. Mas Arthur, gelado de susto, ficou como que entorpecido diante deste retrato que lhe fazia recordar as sábias lições que a sua mãe costumava dar-lhe; e ele, insensato, tinha dado a sentença irrevogável que para sempre o separava desta prezada mãe! Novos tormentos se apoderaram de sua alma e, deitando-se de joelhos, pediu a proteção que tinha guiado os seus primeiros passos.

De repente, ocorreu-lhe uma ideia. Lúcifer tinha-se obrigado a encher a bolsa de ouro: se lhe fosse possível impedir que tal promessa se efetuasse, anularia os direitos que lhe linha dado sobre a sua alma. O jovem Montfort tomou o expediente de tirar o fundo de uma bolsa e foi por suas próprias mãos pendurá-la na torre mais alta do seu castelo, porque assim impossível seria a Lúcifer enchê-la. Logo que a bolsa foi pendurada, uma chuva de peças de ouro, entrando nela, caía junto ao alicerce da torre, e com tanta abundância que o ouro chegava já a meia altura do edifício. E já ameaçava atingir, com brevidade, o lugar mais alto, quando Arthur, chamando os seus criados e outras pessoas dependentes da sua casa, todos munidos de enxadas e pás, lhes ordenou que pusessem todo o empenho em espalhar aquelas peças, o que executaram de maneira tal, ajudados pelo mesmo Montfort, que frustraram os desejos de Lúcifer. Deram Ave-Marias e, então, ouviu-se um estampido tão forte que todos os trabalhadores fugiram. Porém, Lúcifer ficou vencido, e Montfort, aproveitando a ocasião, pagou as suas dívidas, exigindo recibos dos seus credores. Estes levaram o dinheiro para sua casa, e guardaram-no. Mas, quando quiseram fazer uso do dinheiro, não o acharam.

A torre desmoronou e esta foi a única vingança que Lúcifer tomou contra o rapaz; pois, entrando Montfort no verdadeiro caminho, tomando juízo depois desta lição, por mais esforços que fez para reedificá-la, isto nunca lhe foi possível, pois de noite caía toda a obra que se fazia de dia.




Passados alguns meses, Montfort casou-se, e tendo dois filhos que lhe sobreviveram e intentaram fazer levantar a torre, nunca foi possível aos pedreiros achar a obra que tinham feito no primeiro dia e, por isso, desistiram. Ficaram, assim, as ruínas no estado em que se acham atualmente com o nome que o povo lhe pôs: a Torre do Diabo.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “O Novo Correio das Modas”, 1854.


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