O DEFUNTO QUE DESCEU PELA CHAMINÉ - Conto de Terror - Maycon Guedes


O DEFUNTO QUE DESCEU PELA CHAMINÉ

Maycon Guedes

 Querido Papai Noel, preciso da sua ajuda. Sei que não fui uma criança exemplar nos últimos meses, mas, o senhor poderia trazer meu pai de volta? Dizem que eu me tornei uma criança rebelde depois que minha mãe morreu, e papai sempre me avisou sobre o espírito maligno que pega as crianças más na noite de Natal, e que eu deveria me comportar. Então, se eu me comportei mal, por que o espírito maligno levou meu pai, e não a mim? Era para a criatura ter me levado, não o meu pai. Você sabe, Papai Noel, que sempre fui um bom garoto; sabe dos elogios que recebo dos meus professores, que sou um ótimo aluno, que escrevo muito bem e sou muito criativo; espero que o senhor tenha lido uma das minhas histórias que enviei nas cartas anteriores. Um dia serei escritor, e vou escrever muitos livros para você dar de presente para todas as crianças que se comportaram bem durante o ano.

 

Alguns dos meus amigos dizem que você não existe, e então, esperei meu pai dormir e saí de fininho, na ponta dos pés, e me escondi atrás da nossa grande árvore de Natal para saber se realmente era você que deixava os presentes para mim. Fiquei ali escondido por um bom tempo, até ouvir barulhos vindo da nossa chaminé. Fiquei feliz e assustado simultaneamente, porque eu não sabia qual seria a sua reação ao me ver; se ficaria bravo por eu estar acordado naquele horário, te espiando. Os barulhos vindo da chaminé aumentavam a cada minuto, mas você não aparecia. Imaginei que você tinha ficado entalado lá dentro e fui até a lareira dar uma olhada, aproveitando que ela estava apagada.

 

Engatinhei dentro da lareira e olhei para cima; havia dois pés descalços, sujos, se debatendo. Alguém estava entalado na chaminé, e não era você, Papai Noel. Eu não podia ver o rosto, só enxergava aqueles pés esquisitos. Comecei a ficar assustado, pois eu sabia que aquilo poderia ser o monstro do Natal vindo me buscar. Peguei uma barra de ferro pontiaguda que estava ao lado da lareira e perfurei aqueles pés, tentando fazer a coisa ir embora; cutuquei até aquela carne molenga se abrir, rasgando e liberando um monte de vermes que começaram a cair em meu rosto. Eca! O cheiro era horrível; o mesmo cheiro do meu cachorrinho Totó, quando eu o desenterrei.

 

Enquanto o pé derramava vermes, o ser gritava e se debatia dentro da chaminé, e aos poucos, ele ia descendo, mais e mais, até alcançar o solo. Corri para trás da grande árvore de Natal e ali fiquei, tremendo de medo. O monstro, com dificuldade, conseguiu sair de dentro da lareira, que era muito apertada para o seu tamanho, e logo ele estava de pé. Sua aparência era assustadora, como a de um defunto, grande e forte. Ele usava roupas brancas e encardidas, e graças às luzes que piscavam na árvore de Natal, que iluminavam o seu rosto, eu vi que sua pele tinha uma cor amarelada, e seus olhos eram enormes, completamente brancos. Seu rosto era inchado e torto, e seu nariz estava coberto de algodão. Era um defunto, eu sei que era, idêntico aos dos velórios.

 

Ele se aproximou da árvore de Natal, onde eu estava escondido; fiquei observando entre os vãos dos galhos aqueles olhos enormes e brancos; os olhos mais estranhos que eu já vi; e eles brilhavam de tão úmidos que estavam; e eu podia ver escorrer aquele líquido pegajoso e amarelo, deslizando dos olhos até o pescoço. As bolas de Natal da nossa árvore refletiam o rosto assustador daquele defunto se aproximando de onde eu estava.

 

Meu pai acordou com o rosnar do defunto e chegou a tempo daquele monstro me encontrar. Papai agarrou o pescoço daquele ser e bateu sua cabeça nos tijolinhos da chaminé, esmagando boa parte da cabeça do defunto, liberando mais um punhado de vermes que escorriam da cabeça rachada. Ali meu pai percebeu que não se tratava de um ladrão invadindo a nossa casa, e sim, de algo muito pior.

 

De dentro da chaminé um novo barulho se iniciava, e foi ficando cada vez mais alto, até que uma cachoeira de ratos negros invadiu nossa sala, descendo aos montes pela chaminé. Eram ratos enormes, muitos deles. Todas aquelas criaturas avançaram para cima do meu pai, arrancando pedaços de seu corpo em questão de segundos, e o que sobrou dele foi arrastado para dentro da lareira e levado embora pela chaminé, em companhia dos ratos e do defunto que subiram apressadamente e não retornaram até agora. Mantive a calma e antes de pedir ajuda decidi escrever para você primeiro. Se foi você, Papai Noel, que enviou esses seres para me castigar, peço que me perdoe pelo meu mau comportamento, e peço que devolva o meu pai. Prometo ser melhor daqui para frente. Com carinho, Igor.

 

“A carta do jovem e talentoso Igor jamais foi entregue ao Papai Noel. Ao terminar de escrever a carta, Igor saiu de casa, na madrugada, a caminho da casa do vizinho, pedindo ajuda; ele presenciou algo terrível que estava acontecendo naquela noite nefasta em sua cidade amaldiçoada. Naquele céu noturno, limpo e estrelado, não havia nenhum trenó sobrevoando a cidade festiva de dezembro; o que se via eram caixões, muitos caixões sobrevoando a cidade apavorada; defuntos e enormes ratos coletando pessoas; uma cena terrível para o pequeno Igor que descobriu que não só o seu pai foi levado, mas todos que estavam presentes ali. Assim foi o Natal em Franco da Rocha, sem o velhinho com seu grande saco distribuindo presentes, e sim, defuntos em seus caixões coletando cabeças para serem distribuídas no cemitério da cidade.”

 

Comentários

  1. Esse conto foi sensacional, parabéns ao autor!

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  2. Oi eu gostaria de pôr este conto em uma história minha, claro que darei os créditos a ti que é autor.

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    1. Olá, Runeth. O autor do conto é o escritor Maycon Guedes. Entratemos em contato com ele, OK?

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    2. Olá. Dando os créditos, pode sim. 😁

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  3. Conseguiu me prender do inicio ao fim. Conto simplesmente espetacular!!!!

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  4. Opa, tenho um podcast onde conto histórias de terror e queria saber se poderia contar a sua, claro que darei os créditos a você pela história

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    1. Quanto às de minha autoria e as de domínio público, por mim traduzidas, pode sim.

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