VIVA OU MORTA? - Conto Clássico Fúnebre - Rabindranath Tagore

VIVA OU MORTA?

Rabindranath Tagore

(1861 – 1941)

Tradução de autor desconhecido do séc. XX


Kadambini, a viúva da casa Saradasankar, o zemindar (proprietário de terras) de Ranihat, não tinha parentes por parte dos seus pais. Um atrás dos outros, foram morrendo. Na família do seu marido, também não havia a quem pudesse chamar verdadeiramente seu, pois não tinha tido filhos. Sua única afeição era o filho de seu cunhado Saradasankar, que tinha criado, porque a mãe esteve doente muito tempo depois de dar-lhe à luz. Quando uma mulher faz às vezes de mãe a um filho de outra, seu amor é muito forte, porque não tem direito sobre ele, quero dizer nenhum direito de parentesco, somente a simples afeição; e o amor não pode provar com documentos seu direito diante da sociedade, nem tampouco deseja prová-lo, conformando-se em adorar com dupla paixão o tesouro incerto da sua vida. Assim, pois, todo o amor da viúva concentrou-se naquela criaturinha.

Uma noite de Sraban1, Kadambini morreu repentinamente. Seu coração, sabe-se lá porque razão, deixou de bater. O mundo seguiu sua marcha em toda parte. Somente naquele terno peito, que sofria de amor, o relógio do tempo deteve-se para sempre. Para que a polícia não viesse incomodar, quatro dos criados brâmanes do zebindar levaram, sem cerimônia alguma, o cadáver para queimá-lo. O lugar onde queimam os mortos em Ranihat era bastante distante da povoação. Havia, numa cabana junto à lagoa, uma enorme figueira e nada mais. Antigamente, um rio, agora completamente seco, passava por ali, e uma parte do seu leito tinha sido cavada para formar a lagoa, para que ali se realizassem os ritos funerários. Acreditavam que aquela lagoa fosse parte do rio, por essa razão tinham por ela grande veneração. Os quatro homens colocaram o corpo dentro da cabana e sentaram-se para esperar que trouxessem a lenha. Como estavam demorando muito, dois deles, Nitai e Gurucharan, cansaram e foram ver por que razão não a traziam. Bidhu e Banamali ficaram velando o corpo. A noite de Sraban estava escura, pesadas nuvens cobriam o céu sem estrelas. Os dois homens estavam sentados no escuro, calados. De nada lhes tinha servido a lâmpada e os fósforos. Os fósforos úmidos não ardiam, apesar de todos os seus esforços, e a lâmpada tinha se apagado. Depois de um longo silencio, um deles disse:

— Irmão, não seria melhor eu ir buscar um pouco de fumo, que esquecemos de trazer com a pressa?

Respondeu o outro:

—Então irei eu correndo e trarei tudo que precisamos.

Tinha percebido por que o outro queria ir embora: o lugar das cremações são frequentados por fantasmas.

— E eu ficarei aqui sozinho?

Calaram-se de novo. Cada minuto parecia um século. Praguejavam em seu íntimo contra os que tinham ido buscar lenha e que estariam, com certeza, nalgum lugar agradável conversando. Somente ouvia-se, no meio do grande silêncio, o rumor das rãs e dos grilos na lagoa. De repente, pareceu-lhes que a cama onde estava a morta tinha rangido levemente, como se o cadáver se tivesse virado. Bidhu e Banamali murmuraram, tremendo:

— Ram, Ram!

Então ouviu-se um profundo suspiro e os vigias fugiram espavoridos, correndo em direção à aldeia. Teriam percorrido uma légua quando encontraram os seus companheiros, que vinham com uma lanterna. O que tinham feito era fumar e não sabiam nada a respeito da lenha. No entanto, garantiram que já tinham derrubado uma árvore e, logo assim que a tivessem rachado toda, trariam a lenha.

Bidhu e Banamali contaram-lhes o que tinha acontecido na cabana; mas Nitai e Gurucharan caçoaram deles e insultaram-nos por terem abandonado assim o seu dever. Os quatro voltaram depressa para a cabana. Logo da porta viram que não estava mais ali o cadáver. A cama estava vazia. Os quatro ficaram aparvalhados. Talvez o tivesse levado um chacal? Mas, em parte alguma, havia deixado vestígio. Saíram e, na lama, junto da porta, viram que havia recentes pegadas de pés de mulher.

Como Saradasankar não era tolo, e não acreditava provavelmente em histórias de fantasmas, os quatro decidiram, depois de muito discutirem, que o melhor seria dizer que o corpo tinha sido cremado.

Ao amanhecer, quando os homens que traziam a lenha chegaram, os outros disseram que, como estavam demorando muito, tinham queimado o cadáver sem esperar mais; tinham encontrado dentro da cabana alguma lenha. Não foi difícil os outros acreditarem, porque um cadáver não é um objeto tão valioso para que alguém tenha vontade de o roubar.


II


Não há quem ignore que a vida, às vezes, ainda mesmo quando não dá sinal de si, está secretamente presente, e que pode voltar a um corpo aparentemente morto. Kadambini não tinha morrido. Somente a máquina do seu corpo é que tinha parado de repente, sem saber por quê.

Quando voltou a si, uma profunda escuridão a envolvia. Pareceu-lhe que não estava deitada na sua cama. Chamou: “Irmã!”, mas ninguém respondia-lhe na escuridão. De repente, lembrou-se da dor repentina que tinha sentido no peito e da horrível sufocação. Sua cunhada estava justamente aquecendo o leite para a criança. E, sentindo-se desfalecer, atirou-se sobre a cama, dizendo com voz aflita:

—Irmã, não sei o que tenho. Traga-me o menino.

Depois, tudo se tornou preto, como quando virávamos um tinteiro sobre o livro no colégio. Sua consciência, sua memória, todas as letras do livro da vida tornaram-se em um momento uniforme. Não se podia recordar se a criança, com doce voz de amor, a tinha chamado pela última vez: “Titia!”; sim, se ao deixar o mundo familiar, para a infinda viagem desconhecida da morte, teria ela recebido esta última despedida, esse óbolo de amor.

A princípio, pensou que talvez aquele escuro e solitário lugar fosse a Casa de Yama2, onde nada se vê, nem se ouve, nem se faz nada, sendo tudo eterna vigília. Mas, ao sentir o vento frio e úmido que entrava pela porta e o coaxar das rãs, lembrou-se lucidamente de todas as chuvas da sua curta vida, e sentiu o seu parentesco com a terra. Brilhou, então, um relâmpago e apareceu, na sua luz, a lagoa, a figueira, a imensa planície, as árvores longínquas. Recordava-se de ter vindo algumas vezes ali, no tempo da lua cheia para banhar-se, e o horrível que lhe tinha parecido a morte, uma vez que tinha visto um cadáver no lugar da cremação. A primeira coisa que lhe ocorreu foi voltar para casa, mas, depois, pensou:

—Como poderei voltar, se estou morta? Atrairia sobre todos a desgraça. Abandonei o reino da vida e não sou mais que meu próprio fantasma. Se não fosse assim, como poderia ter saído do tão bem guardado zanana (lugar reservado as mulheres) de Saradasankar, e ter vindo para este lugar de cremação tão distante, e durante a noite? E, além disso, se meus ritos funerários já não se tivessem realizados, ali estariam os homens que haviam de me queimar?

Ao recordar o momento da sua morte, na alegre casa de Saradasankar, sentia-se tão só naquele lugar dos mortos, longe, deserto e escuro! Com certeza ela não pertencia mais ao mundo dos vivos. Agora era um ser de pavor, de mau agouro, seu próprio espectro.

Pensando assim, tudo que a ligava ao mundo desfez-se. Sentiu que tinha uma força maravilhosa, liberdade infinita, que podia fazer o que queria, ir para onde quisesse. Animada por esta sugestão, saiu de dentro da cabana como uma rajada de vento e deteve-se no lugar da cremação. Não lhe restava mais vestígios de timidez, nem de temor.

Mas, à medida que ia andando, seus pés cansavam-se, o corpo pesava-lhe. Diante dela estava a imensa planície. Aqui e ali, afundava-se na água, até os joelhos, nos arrozais.

Na primeira claridade da aurora, ouviu piar a uns passarinhos nos bambus, junto a umas casas que ainda ficavam um pouco distante. Um grande terror apoderou-se, então, dela. Não podia imaginar como seriam as suas relações com os vivos da terra. Enquanto estava na planície e no campo dos mortos, envolvida pela escura noite de Saraban. não tinha sentido nenhum receio, livre cidadã do seu próprio reino. Mas agora, com o dia, as casas dos homens atemorizavam-na.

Homens e fantasmas temem-se mutuamente porque suas tribos habitam margens distintas do rio da morte.


III


Suas roupas estavam enlameadas. Seu noturno caminhar, com aqueles pensamentos disparatados, tinham-lhe dado o aspecto de uma louca. Realmente, sua aparência era para amedrontar qualquer pessoa e as crianças poderiam muito bem apedrejá-la ou fugirem dela assustadas. Por felicidade, quem primeiro a viu foi um caminhante que, aproximando-se dela, disse:

—Mãe, pareces uma mulher decente. Onde vais sozinha e desta maneira?

Kadambini, sem poder coordenar suas ideias, parou, olhando em silencio o seu interlocutor. Não lhe era possível pensar que pertencia ainda a este mundo, que parecesse mulher decente, que um caminhante lhe fizesse perguntas.

O homem disse-lhe outra vez:

—Vem comigo, mãe. Levar-te-ei à tua casa. Diga-me onde vives.

Kadambini ficou pensativa. Voltar à casa do seu sogro era absurdo e ela não tinha casa paterna. De repente, lembrou-se de Jogmaya, sua amiga de infância. Não a tinha visto mais desde sua adolescência, mas tinham continuado sempre a se escreveram com discussões, como é de supor, porque Kadambini queria provar que sua amizade por Jogmaya não tinha limites, enquanto que sua amiga queixava-se de não ser bem correspondida na sua afeição. E as duas estavam certas de que, se algum dia encontrassem-se de novo na vida, seriam inseparáveis. Disse, então, ao caminhante:

—Quero ir para a casa de Sripati, em Nisindapur.

Ele ia para Calcutá e Nisindapur, apesar de um pouco desviado, ficava-lhe em caminho. Assim, levou Kadambini à casa de Sripati, e as duas amigas tornaram-se a ver. A princípio não se reconheceram, mas, pouco a pouco, cada uma foi recordando os traços da outra.

—Que alegria! —disse Jogmaya. — Pensava que nunca mais te tornaria a ver! Mas como foi isto irmã? Como te deu essa licença a família do teu sogro?

Kadambini permaneceu calada. Depois disse:

—Irmã, não me perguntes pelo meu sogro. Dê-me o pior canto da tua casa e trate-me como tua criada, que eu farei o teu serviço.

—O que estás dizendo? — exclamou Jogmaya. —Tu, minha criada? Tu, que eras a minha melhor amiga! —E assim sucessivamente.

Então entrou Sripati. Kadambini ficou algum tempo olhando para ele fixamente e logo em seguida saiu do aposento. Não cobriu a cabeça, não mostrou o menor acanhamento, nem o menor respeito. Jogmaya, temendo que seu marido não acolhesse bem a sua amiga, começou a dar-lhe uma explicação complicada; mas Sripati, que geralmente estava de acordo com o que dizia Jogmaya, cortou secamente a narração, deixando-a preocupada.

Kadambini ficou ali, mas não podia identificar-se com sua amiga, porque a morte as separava. Apesar de não ser duvidosa a sua existência, não podia sentir intimidade com os outros. Olhava para Jogmaya e ficava ruminando pensamentos:

—Ela tem marido e ocupações e vive num mundo longínquo do meu. Reparte carinhos e deveres com os deste mundo, e eu não sou senão uma vã sombra. Ela é da terra; eu, da eternidade.

Jogmaya estava também inquieta, sem que encontrasse uma explicação. A mulher aprecia pouco o mistério, porque, apesar de se poder transformar o incerto em poesia, em heroísmo, em saber, não se pode aproveitá-lo para os deveres caseiros. Tanto assim, quando uma mulher não compreende uma coisa, destrói-a, esquece-a ou torna-a apta para seu próprio serviço; se não consegue confiná-la nalgumas dessas formas, toma-lhe ódio. Enquanto mais abstraída estava Kadambini, mais irritada ficava contra ela Jogmaya, imaginando qual seria a preocupação que pesava sobre aquele espírito. Depois surgiu outro conflito: Kadambini assustava-se a si mesma e não podia fugir. Os que têm medo dos fantasmas receiam o que pode estar atrás deles e em lugares onde não se vê; mas o terror maior de Kadambini está dentro dela mesmo. À meia noite, sozinha dentro do seu quarto, gritava quando via sua sombra à luz da lâmpada. Seu medo transmitiu-se a todos de casa.

Os criados e a própria Jogmaya começaram a ver sombras. Uma madrugada, Kadambini saiu chorando do seu quarto e bateu na porta de Jogmaya, pedindo-lhe que lhe abrisse:

—Irmã, irmã — dizia ela —, deixes que me deite ao teus pés! Não me obrigues a dormir só!

A indignação de Jogmya foi tão grande quanto o seu medo. De boa vontade, teria enxotado Kadambini da sua casa naquele mesmo instante; mas o bom Sripati conseguiu, com dificuldade, tranquilizar a sua hóspede e a pôs no quarto contíguo.

No outro dia, Sripati foi chamado nas habitações da sua mulher. Jogmaya apostrofou-o:

—Dizes que és um homem? No entanto, uma mulher foge da casa do seu sogro, meteu-se na tua, passa um mês nela, sem que te passe pela cabeça fiar-lhe uma indireta para que se vá embora, nem que lhe faças o menor protesto... Fazes-me o favor de explicar o que quer dizer isto? Qual, todos os homens são iguais!

A maior parte dos homens tem um amor tão pouco razoável pelas suas mulheres que com ele dão motivo a que a razão não fique do lado deles. Porque, apesar de Sripati poder garantir que estava pronto a jurar que os pensamentos que tinha para com a linda Kadambini não se excediam de um ponto o que devia ser, não podia, no entanto, enxotá-la da sua casa. Imaginava que a família do sogro de Kadambini devia ter tratado mal a desgraçada viúva, e que ela, não podendo suportar mais, tinha-se visto obrigada a refugiar-se na casa da sua amiga. Não tendo ela nem pai nem mãe, como era possível a desamparar? E, dizendo isto à sua mulher, procurou não pensar mais no caso, pois não era sua tenção aborrecer Kadambini com perguntas desagradáveis.





Sua mulher procurou, então, outros meios de ataque contra o seu marido, até que este compreendeu que, para ter a paz, era preciso que avisasse o sogro de Kadambini. Uma carta podia não da resultado satisfatório; de modo que resolveu ir ele mesmo a Ranihat e saber exatamente como as coisas eram. Assim, pois, Sripati foi, e, nessa mesma ocasião, Jogmaya, por seu lado, disse a Kadambini:

— Minha amiga, não me parece bem que continues aqui por mais tempo. Que dirão os outros?

Kadambini, muito séria, olhou fixamente para Jogmaya e disse-lhe:

—E que tenho eu com os outros?

Jogmaya ficou abismada. Respondendo-lhe, depois, com irritação:

— Se tu não te importas com a opinião dos outros, nós nos importamos com ela! Como queres que expliquemos o sequestro de uma mulher de outra casa?

Kadambini respondeu-lhe:

—Mas onde está a minha casa?

“Maldito seja!” —pensou Jogmaya. — “Que irá dizer esta desgraçada?”

Lentamente, Kadambini foi falando:

—Que tenho eu que ver com vós outros? Sou por acaso dessa terra? Vós outros chorais, amais, enquanto eu somente olho. Porque vós outros são humanos, enquanto que eu sou apenas uma sombra. Não posso compreender por que me retém Deus neste mundo que é só vosso!

Eram tão esquisitos os seus olhares, assim como as suas palavras, que Jogmaya percebeu que não era possível despedi-la, assim como não valia a pena fazer-lhe mais perguntas. Saiu dali preocupada com seus pensamentos.


IV


Seriam dez horas da noite quando Sripati voltou de Ranihat. A chuva torrencial inundava a terra. Parecia que nunca mais deixaria de chover e que a noite não terminaria nunca mais.

Jogmaya perguntou-lhe:

—O que há?

—Depois conversaremos, tenho muito que te contar!

Dizendo isso, Sripati mudou de roupa e sentou-se para comer. Depois, pôs-se a fumar. Tudo era dúvida em seu pensamento.

Sua mulher conteve algum tempo a sua curiosidade; mas, por fim, disse-lhe:

— O que te contaram?

— Que estás completamente enganada.

Jogmaya irritou-se. Uma mulher nunca se engana e o homem sensato não deve nunca concordar com isso. Antes devia pôr o engano para cima dos seus próprios ombros. E, em tom irritado, perguntou:

—E posso saber em quê?

Sripati respondeu-lhe:

—Esta mulher que tens em tua casa não é Kadambini.

Ao ouvir isso, Jogmaya sentiu-se muito ofendida, sobretudo porque era o seu marido quem lhe dizia semelhante coisa.

—De que maneira que não conheço a minha amiga? Tenho, então, de perguntar a ti? Pensava que eras mais esperto!

Sripati disse que não era agora a ocasião de provar a sua esperteza, e que podia provar o que dizia, porque era certo que Kadambini estava morta.

—Estou certa que tu é quem está enganado. Com certeza fostes à outra casa perguntar? Ou então não compreendeste bem o que te disseram… Foi um erro teres ido. Escreve, e assim tudo ficará esclarecido.

Sripati ficou muito sentido com a pouca confiança da sua mulher na sua habilidade, e foi-lhe dando todas as provas, mas tudo sem o menor resultado. Era meia-noite e os dois ainda estavam discutindo. Já tinham os dois chegado a um acordo no que dizia respeito a despedir a Kadambini; mas Sripati estava certo que sua hóspede tinha estado todo tempo a enganar a sua mulher como se fosse a sua amiga, e Jogmaya estava convencida que era ela, mas que era uma prostituta; e nenhum dos dois queria dar-se por vencido. As suas vozes foram-se alteando, esquecidos completamente que Kadambini dormia ali perto deles. Ele dizia:

—Não sejas assim, mulher; pois te digo que ouvi com os meus próprios ouvidos.

E ela respondia, furiosa:

—E que me importa a mim isso? Por acaso não terei eu olhos?

Então, a porta abriu-se de repente, e pela brecha o vento úmido entrou apagando a lâmpada. Atrás dele entrou a escuridão, que encheu toda a casa. Kadambini estava ali. Seria uma hora e a chuva lá fora caía com violência.

Kadambini disse:

—Amiga, sou Kadambini, mas estou morta.

Jogmaya deu um grito de pavor e Sripati ficou sem fala.

—Mas, apesar de estar morta — disse Kadambini —, não te fiz o menor mal. Não me querem os vivos, nem os mortos. Ah! Para onde irei?

Chorava desesperadamente como para enternecer o Criador, e repetia:

—Ah! Para onde irei eu?

Dizendo isso, Kadambini deixou sua amiga desmaiada na casa escura, e saiu para o desconhecido.


V


Seria difícil dizer como Kadambini chegou a Ranihat. No primeiro dia, não se apresentou a ninguém; ficou metida dentro de um templo em ruína, desfalecida de fome. À tarde, a tempestade fez que escurecesse antes da hora. Quando todos, metidos dentro das suas casas, esperavam receosos a tempestade iminente, saiu Kadambini do seu esconderijo. Ao chegar à casa do seu sogro, batia-lhe o coração; pôs um véu sobre seu rosto e entrou.

Pensando que ela fosse uma das criadas, os porteiros deixaram-na passar. A chuva tinha começado a cair torrencialmente e o vento uivava.

A mulher do Saradasankar estava jogando cartas com a sua irmã viúva. Na cozinha havia uma criada e a criança doente dormia na alcova. Kadambini, procurando não ser vista, entrou no quarto da criança. Ela mesma não sabia para que tinha voltado para a casa do seu sogro. Sentia somente agora um grande desejo de ver outra vez o menino. Na alcova iluminada, viu a criança, que dormia com as suas mãozinhas fechadas e o seu corpinho esticado por debaixo da coberta. Olhando-o, seu coração começou a bater. Se pudesse apertar aquele corpinho doente contra o seu peito! Pensou em seguida:

—Como não existo, ninguém verá. Esta mãe não pensa senão em conversar e jogar cartas. Quando eu aqui estava, cuidava dele, mas, agora, quem cuidará dele?

O menino deu uma volta na cama e gritou, dormindo:

—Titia, quero água!

—Meu filho! Não se tinha esquecido da sua titia!

Kadambini, excitada, febril, foi buscar água e, levantando a cabeça da criança, a encostou contra o seu peito, e foi-lhe dando a água. Enquanto estava dormindo, a criança não estranhou de estar tomando água da mão acostumada; mas, quando Kadambini, satisfazendo o seu grande desejo, beijou-o na testa na hora em que, com todo carinho, deitava-o de novo, a criança abriu os olhos e disse-lhe:

—Tu não morreste titia?

— Sim, minha vida.

—Mas voltaste outra vez, não é verdade? Não morras outra vez!

Antes que lhe pudesse responder, chegou a catástrofe. Uma das criadas, que entrava com uma xícara com sagu, deixou-a cair e ela caiu também no chão.

Com aquele barulho, a mãe deixou cair as cartas e, ao entrar na alcova, parou, rígida como um poste, sem poder falar nem fugir. Vendo-a assim, a criança também ficou com medo e pôs-se a chorar:

—Vem titia, vem titia! — dizia ele.

Somente naquela ocasião é que Kadambini compreendeu que não tinha morrido. Na casa de Jogmaya, compreendeu que estava morta à sua amiga de infância; mas, na alcova da criança, viu que não estava morta a titia, nem coisa que se lhe parecesse.

Disse então, angustiadamente:

—Por que me temes, irmã? Não sou a mesma de antes?

Sua cunhada não pôde mais, caiu desmaiada. Saradasankar veio, então, e, juntando as mãos, pediu-lhe com voz aflita:

—Kadambini, por que fizeste isto? Não tenho senão este filho. Por que o queres levar? Nós somos teus parentes. Desde que tu fostes embora, a criança está definhando dia a dia. A toda hora, chama-te: “Titia. Titia!” Tu deixaste este mundo, mas, por que não cortaste os laços que te prendem a um ente que ainda está com vida? Faz isto, que te faremos os funerais.

Kadambini não podia com tanto sofrimento. Gritou:

—Não estou morta! Não estou morta! Que farei para convencê-los de que estou viva? Estou viva!

Apanhando no chão uma jarra de cobre, bateu com ela na sua cabeça. O sangue corria.

—Olha! — gritava. — Olha como estou viva!

Saradasankar tinha ficado imóvel como uma estátua. Então Kadambini gritou:

—Não estou morta!

Desceu os degrau s e atirou-se de cabeça para baixo dentro do poço.

Sandasankar ouviu o barulho cá de cima.

A chuva torrencial continuou caindo toda a noite e toda a madrugada.

No outro dia, ao meio-dia, ainda chovia.

Kadambini tinha sido obrigada a provar, morrendo, que não estava morta.


Fonte: “Leitura para todos”/RJ, edição de julho de 1928.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


Notas:

1Quarto mês do calendário bengali (entre 16 de julho e 15 de agosto) e um dos que compõem a estação chuvosa.

2No âmbito religioso hindu, significa, metaforicamente, o lugar de sofrimento e punição para aqueles que se desviam do caminho moral.

 

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