FANTASMAS DE PESSOAS ASSASSINADAS - Narrativas Clássicas Verídicas Sobrenaturais- T. F. Thiselton Dyaer

FANTASMAS DE PESSOAS ASSASSINADAS

T. F. Thiselton Dyaer

(1848 – 1823)

Tradução de Paulo Soriano


O Sr. Sullivan, em seu livro “Cumberland e Westmoreland”, relata como, alguns anos atrás, um espectro apareceu a um homem que morava em Henhow Cottage, Martindale.

Saindo bem cedo para o trabalho numa manhã, o homem não chegara a percorrer cem jardas de casa, quando seu cão deu sinais de alarme. Ao olhar em volta, viu o espectro de uma mulher levando uma criança nos braços.

Indagado sobre o que o afligia, o fantasma respondeu que havia sido seduzido e que seu sedutor, para ocultar sua culpa e sua pusilanimidade, lhe dera uma poção cujo efeito consistia em matar mãe e filho.

Seu destino era vagar por cem anos, dos quais quarenta já haviam transcorrido. Acredita-se que o ocorrido tenha causado uma duradoura impressão no velho homem que, segundo Sullivan, “até recentemente fora pastor nas colinas. Não há dúvida de que ele viu e falou com a aparição; mas qual foi o papel de sua imaginação nisso — ou como ela foi estimulada — constitui-se num mistério, e assim provavelmente permanecerá”.


*


Desde tempos remotos, os fantasmas dos assassinados têm ocasionalmente aparecido aos vivos, revelando o culpado — ou culpados — pelo crime.

Assim, Cícero relata que “dois arcádios chegaram juntos a Mégara; um hospedou-se na casa de um amigo, o outro numa estalagem. Durante a noite, este último apareceu ao seu companheiro de viagem, implorando-lhe ajuda, pois o estalajadeiro tramava sua morte; o adormecido despertou assustado, mas, pensando que a visão não tinha importância, voltou a dormir. Pela segunda vez, o seu companheiro apareceu-lhe, suplicando-lhe que, já que não o poderia ajudar, ao menos o vingasse, pois o estalajadeiro tinha-o morto e escondido seu corpo numa carroça de esterco. Em razão disto, encarregou o seu o seu companheiro de viagem de estar, na manhã seguinte, bem cedo, no portão da cidade, antes que a carroça saísse. Como lhe fora pedido, o viajante foi e lá encontrou a carroça. O corpo do homem assassinado estava nela, e o estalajadeiro foi conduzido à justiça.


*


Dentre os diversos curiosos casos registrados de homicídios desvendados pelo fantasma da vítima, podemos citar um acontecimento relatado nas “Miscelâneas” de Aubrey.

Conta-se que, na segunda-feira, 14 de abril de 1690, William Barwick caminhava com sua esposa perto do Castelo de Cawood quando, por motivos não revelados no julgamento, decidiu assassiná-la e, encontrando um lago próximo, jogou-lhe o cadáver na água.

Todavia, na terça-feira seguinte, enquanto seu cunhado, Thomas Lofthouse, “aproximadamente ao meio dia e meia, regava uma cerca viva, e, ao buscar o segundo balde, apareceu diante dele uma aparição na forma de uma mulher, 'com o rosto semelhante ao da irmã de sua esposa'. Logo depois, ela se sentou em uma colina verdejante, em frente ao lago.”

Ele passou pela dama quando seguia ao lago e, ao retornar, observou que ela carregava “algo semelhante a um embrulho branco” no colo, evidentemente sugerindo o bebê que a mulher esperava e que fora morto juntamente com ela.

A circunstância causou-lhe tal impressão que ele imediatamente suspeitou de Barwick — especialmente porque este havia feito declarações falsas sobre o paradeiro da esposa —, e obteve um mandado de prisão contra ele.

O culpado, ao ser preso, confessou o homicídio, e se viu que o corpo da mulher assassinada, ao ser recuperado, vestia roupas aparentemente semelhantes às usadas pela aparição. Por fim, Barwick foi enforcado pelo seu crime.


*


Um caso similar, ocorrido no condado de Durham, em 1631, e que é objeto de uma investigação histórica crítica na “História de Durham” de Surtees, pode ser assim resumido:

Um certo Walker, pequeno proprietário rural de boa situação, viúvo, residente em Chester-le-Street, tinha a seu serviço uma jovem parenta chamada Anne Walker.

O resultado de um romance, que se desenvolveu entre eles, levou Walker a enviar a moça aos cuidados de um certo Mark Sharp, um mineiro de carvão, a pretexto de que ela seria tratada de acordo com sua condição; todavia, ela fora encaminhada, na realidade, para que não causasse mais incômodos ao seu amante.

Nada mais se soube dela até que, numa noite do inverno seguinte, um tal James Graham, enquanto descia ao andar inferior de seu moinho, encontrou uma mulher ali parada, com o cabelo solto em volta da cabeça, na qual havia cinco ferimentos sangrentos.

Conforme depoimento do homem, ela relatou o que lhe acontecera: havia sido morta por Sharp no pântano, durante a viagem, e jogada em uma mina de carvão próxima, enquanto que o instrumento de sua morte — uma picareta — havia sido escondido sob um barranco, junto com as roupas dele, que estavam manchadas com o sangue dela. Ela exigiu que Graham denunciasse o seu homicídio, o que ele hesitou em fazer, até que ela apareceu para ele mais duas vezes, a última ostentando uma expressão ameaçadora.

Tendo o corpo, a picareta e as roupas sido encontrados conforme Graham havia descrito, Walter e Sharp foram julgados em Durham, perante o Juiz Davenport, em agosto de 1631. Os homens foram considerados culpados, condenados e executados.


Fonte: “The Ghost Word”, Ed. Ward & Downey, Londres, 1893.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault

O HOMEM QUE VIU O DIABO - Conto Clássico de Terror - Gaston Leroux

O MACHADO DE PRATA - Conto Clássico de Terror - Arthur Conan Doyle