O ESPECTRO DA DAMA DESNUDA - Conto Clássico Sobrenatural - Frei Hermenegildo de Tancos
O ESPECTRO DA DAMA DESNUDA
Frei Hermenegildo de Tancos
(Séc. XIV)
Conta Vicente na História Tripartida que um carvoeiro mostrou a um conde uma tal visão. Aquele conde mudou seus trajos e foi-se com aquele carvoeiro a um mato onde fazia seu carvão.
E estando eles naquele lugar, veio um cavaleiro sobre um cavalo negro. E trazia uma buzina e tangeu-a. E então saiu do bosque uma mulher nua e começou de fugir, e o cavaleiro depois dela. E acalçou-a e atravessou-a com uma espada e lançou-a em um mui grande fogo.
E depois a tirou do fogo e a pôs ante si no cavalo e levou-a.
E o conde esconjurou-o que lhe dissesse que cousa era aquela; e o cavaleiro respondeu e disse:
— Esta mulher era cassada com um nobre cavaleiro; e ela o fez matar por meu amor; e ambos morremos em pecado, senão que na morte nos repreendemos já tarde. E agora ela padece em todas as noites tormento, porque eu a mato cada noite e é queimada. E quando a eu firo com espada, ela padece tanta dor, e tão grande, a qual nunca padeceu nenhum em sua morte, e maior ainda padece no fogo.
E preguntou-lhe o conde que cavalo era aquele sobre que andava, e o cavaleiro lhe respondeu que “era o diabo, que nos atormenta muito”.
E o conde lhe disse:
—Pode-vos alguma cousa acorrer1?
Respondeu o cavaleiro:
—Pode. Se vós fizésseis em todos os mosteiros e em igrejas da vossa terra fazer oração por nós, e sacerdotes dizer missas por nós, seremos livres deste tormento.
E assim foi feito.
Atualização ortográfica/Adaptação: Paulo Soriano.
Texto medievo (com ortografia original)
Conta Vicente ẽna Estoria Tripertyda que huũ carvoeyro mostrou a huũ conde hũa tal visom: aquelle conde mudou seus trajos e foy-sse cõ aquelle carvoeyro a huũ mato hu fazia seu carvõ. E estando elles ẽ aquelle loguar, veo huũ cavaleyro sobre huũ cavalo negro. E tragia hũa vozina e tangeo-a. E entom sayo do boosco hũa molher nua e começou de fugir e o cavaleyro depos ella. E acalçou-a e atravesou-a cõ hũa espada e lançou-a ẽ huum muy grande fogo. E depois tyrou-a do fogo e pose-a ante sy ẽno cavalo e levou-a. E o conde esconjurou-o que lhe dissesse que cousa era aquella e o cavaleyro respondeo e disse: “Esta molher era cassada cõ huũ nobre cavaleyro e ella o ffez matar por meu amor e anbos morremos ẽ peccado, se nõ que ẽna morte nos reprendemos ja tarde. E agora ella pa|dece ẽ todallas noytes este tormento, ca eu a mato cada nocte e he queymada. E quando aeu feyro cõ a espada, ella padece tanta door e tam grande a qual nũca padeceo nehuũ ẽ sua morte e mayor ainda padece ẽno fogo”. E pregũtou-lhe o conde que cavallo era aquelle sobre que andava e o cavalleyro lhe respondeo que era o diaboo que nos atormẽta muyto. E o conde lhe disse: “Pode-vos algũa cousa acorrer?”. Respondeo o cavaleyro: “Pode. Se vós fezessedes ẽ todollos mosteyros e he egrejas da vosa terra fazer oraçom por nós e sacerdotes dizer missas por nós, seremos livres deste tormẽto”. E assy foy fecto.
Apud: Horto do Esposo. Edizione critica elettronica, de Martina Modena.
Ilustração: Sandro Botticelli (1445 – 1510).
Nota:
1Acudir, socorrer.

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