A MULHER DE MÃOS CORTADAS - Conto Clássico Fantástico - Autor anônimo
A MULHER DE MÃOS CORTADAS
(Das Mil e Uma Noites)
Autor anônimo
Certo rei mandou proclamar, aos seus súditos, o seguinte édito:
— Se algum de vós der esmola, seja lá o que for, eu, induvidosamente, lhe cortarei a mão.
Em razão disto, todo o povo se absteve de dar esmola, e ninguém podia dar nada a ninguém.
Ora, certo dia, um dia um mendigo, consumido pela fome, abordou uma certa mulher e lhe disse:
—Dê-me uma esmola, por menor que seja!
— Como posso te dar algo — disse ela —, se o rei corta as mãos de todos os que dão esmolas?
— Eu te imploro por Deus Todo-Poderoso! — insistiu ele. —Dá-me uma esmola!
Tendo ele assim implorado, evocando o Santo Nome de Deus, a mulher, apiedando-se dele, deu-lhe dois pãezinhos.
Tomando conhecimento do ocorrido, o rei chamou a mulher à sua presença e cortou-lhe as mãos. Mutilada, ela voltou para casa.
Ora, aconteceu que, passado algum tempo, o rei disse à mãe:
— Desejo casar-me. Casa-me, então, com uma bela mulher.
— Há, entre nossas escravas — disse ela —, uma que é insuperável em beleza. Tem ela, todavia, uma grave imperfeição.
— E qual seria tal imperfeição? — perguntou o rei.
— Ela teve as duas mãos cortadas — respondeu a mãe.
Ele, então, disse-lhe:
— Deixa-me vê-la.
A mãe trouxe a escrava à presença o rei, que, apaixonando-se prontamente, casou-se com ela e teve com ela um filho.
Ora, esta era a mulher que havia dado os dois pãezinhos de esmola ao pedinte, e que, por isto, tivera as mãos cortadas. Cheias de invejas com o casamento do rei, as concubinas do monarca escreveram ao comum consorte, dizendo que a sua esposa estava impura, por ter acabado de dar à luz o menino.
O rei, em seguida, escreveu à sua mãe, ordenando-lhe que levasse a mulher para o deserto e lá a abandonasse.
A velha rainha, obedecendo àquela ordem, deixou a mulher e seu filho no deserto.
A mulher, então, se pôs a chorar e a lamentar-se pelo que lhe havia acontecido, soltando gemidos extremamente dolorosos.
Caminhando, chegou a um rio e ajoelhou-se para beber, vencida pela sede excessiva, pelo cansaço da caminhada e pela tristeza. Mas, ao inclinar a cabeça, a criança, que estava em seu colo, caiu na água. Ela, então, se sentou, chorando amargamente por seu filho. E, enquanto chorava, eis que se aproximaram dois homens, que lhe disseram:
— Por que choras?
— Eu tinha uma criança em meu colo, mas ela caiu na água — respondeu-lhes a mulher.
Eles perguntaram:
—Queres que a tragamos para ti?
E ela respondeu:
— Sim!
Então, tendo eles orado a Deus Todo-Poderoso, a criança saiu da água e voltou para a mãe, sã e salva.
Então eles disseram:
— Queres que Deus te devolva as mãos, perfeitas como eram?
— Sim! — respondeu ela.
Então eles oraram a Deus — exaltado seja Ele! — e suas mãos lhe foram devolvidas, mais belas do que antes.
Então eles perguntaram:
— Sabes quem somos?
E ela respondeu:
—Alá é onisciente.
Eles, então, disseram:
— Somos os dois pãezinhos que tu deste de esmola ao mendigo, e que foram a causa da amputação de tuas mãos. Então louva a Deus Todo-Poderoso por ter te restituído as mãos e o teu filho.
Então ela louvou a Deus Todo-Poderoso e O glorificou.
Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução de Richard Francis Burton (1821 – 1890).
Ilustrações: Jean-Léon Gérôme (1824 – 1904).


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