O PADRE E OS LOBISOMENS - Narrativa Clássica Sobrenatural - Gerald of Wales
O PADRE E OS LOBISOMENS
Gerald of Wales
(c. 1146 – c. 1223)
Passo agora a relatar algumas ocorrências maravilhosas de nossos tempos.
Cerca de três anos antes da chegada do conde John à Irlanda, aconteceu que um padre, que viajava de Ulster a Meath, se encontrava num bosque nas fronteiras de Meath.
Enquanto, em companhia de apenas um jovem, contemplava uma fogueira, que acendera sob galhos de uma árvore frondosa, dele se aproximou um lobo, que, imediatamente, dirigiu aos viajantes as seguintes palavras:
— Ficai tranquilos e não tenhais medo, pois não há razão para temer onde o medo não assoma.
Os viajantes ficaram pasmos e espantados, e o lobo acresceu à sua fala algumas palavras ortodoxas, que diziam respeito a Deus.
O sacerdote implorou-lhe, então — e jurou-lhe pelo Deus Todo Poderoso e pela fé na Trindade, que não lhe faria mal —, que lhes dissesse que criatura seria ela, pois, sob a forma de um animal, pronunciava palavras humanas.
O lobo, depois de dar respostas católicas a todas as perguntas, acresceu, por fim:
— Somos dois, um homem e uma mulher, naturais de Ossory. Devido à maldição de um certo Natalis — um santo abade —, somos obrigados, a cada sete anos, a despojarmo-nos da forma humana e a afastarmo-nos das habitações dos homens. Abandonando completamente a forma humana, assumimos a de lobos.
“Os transformados, ao cabo de sete anos, se conseguirem sobreviver — sendo, então, substituídos por dois outros —, regressam ao seu lugar de origem e à sua forma anterior.
“Mas jaz, agora, aquela que é minha companheira neste fadário, e não muito longe daqui, perigosamente doente, e, como está à beira da morte, rogo-vos, inspirado pela caridade divina, que lhe concedais as consolações do vosso ofício sacerdotal.”
A estas palavras, o padre, trêmulo, seguiu o lobo, enquanto este abria caminho a uma árvore não muito distante, em cujo oco jazia uma loba que, sob tal forma, soltava suspiros e gemidos humanos.
Quando viu o sacerdote, a loba saudou-o com humana cortesia, dando graças a Deus, que, naquela extrema situação, tinha permitido ao padre visitá-la com tal consolação.
Recebeu, então, do sacerdote todos os ritos da Igreja, que foram devidamente cumpridos, até a última comunhão. Com efeito, a loba pedira insistentemente, suplicando-lhe que completasse os seus bons ofícios dando-lhe o viático.
O padre afirmou que não o tinha, mas o lobo, que se retirara a pouca distância, voltou, apontando um livrinho de missais, que o padre levava na sua viagem, suspenso ao pescoço, por sob a roupa, contendo algumas hóstias consagradas, conforme o costume do país.
Depois, pediu-lhe que não lhes negasse o dom de Deus e o auxílio que a Divina Providência lhes destinava; e, para dirimir qualquer dúvida, usando a sua garra como mão, arrancou a pele da mulher loba, desde a cabeça até ao umbigo, dobrando-a para trás. Assim, ela imediatamente apresentou a forma de uma mulher idosa.
O sacerdote, vendo isto, e compelido mais pelo medo do que pela razão, deu-lhe a comunhão; a destinatária implorou-a seriamente e dela participou com grande devoção. Imediatamente, o lobo desenrolou a pele e voltou a pô-la na sua forma original.
Depois de cumpridos estes ritos, o lobo acompanhou-os, durante toda a noite, junto à pequena fogueira, comportando-se mais como um homem do que como um animal.
Quando amanheceu, conduziu-os para fora do bosque e, deixando o padre continuar a sua viagem, indicou-lhe o caminho correto a seguir, que constituía um longo percurso. Ao partir, agradeceu-lhe o benefício que lhe tinha prestado, prometendo-lhe ainda maior gratidão se o Senhor o chamasse de volta do seu atual exílio, duas partes do qual já havia cumprido.
Já ao fim da conversa, o padre perguntou ao lobo se o grupo hostil, que agora desembarcava na ilha, continuaria ali por muito tempo e se estabeleceria demoradamente. Ao que o lobo respondeu:
— Por causa dos pecados da nossa nação, e dos seus enormes vícios, a ira do Senhor, caindo sobre uma geração malévola, entregou-a nas mãos dos seus inimigos. Portanto, enquanto esses estrangeiros guardarem os mandamentos do Senhor, e andarem nos seus caminhos, permanecerão seguros e invencíveis; mas, como o caminho descendente para os prazeres ilícitos é fácil, e a natureza é propensa a seguir exemplos viciosos, se esse povo tiver a oportunidade, por viver entre nós, de adotar os nossos hábitos depravados, sem dúvida que provocará a vingança divina também sobre si mesmo.
Versão em português de Paulo Soriano.
Fonte: The Historical Works of Giraldus Cambrensis, tradução de Thomas Forester. George Bell & Sons, Londres, 1894.

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