A PELE DO DEMÔNIO - Conto Clássico de Terror - Pu Songling
A PELE DO
DEMÔNIO
Pu Songling
(1640-1715)
Em Taiyuan vivia um homem chamado
Wang.
Numa certa manhã, estava ele a
passear, quando avistou uma jovem que carregava um fardo, procurando avançar
rapidamente. Mas, como ela tropeçava, Wang acelerou o passo e a alcançou. Viu
que era uma moça de uns dezesseis anos. Compadecido, perguntou-lhe aonde ia
assim, tão cedo e sozinha.
— Um desconhecido como o senhor —
respondeu a garota —, não pode mitigar a minha aflição. Por que se dá ao
trabalho de perguntar-me?
— Conta-me o teu problema — disse
Wang. — Crê que farei por ti tudo o que puder.
— Meus pais — disse ela — amavam o
dinheiro. Assim, venderam-me como concubina a uma rica família, cuja esposa é
muito ciumenta, a ponto de bater em mim e maltratar-me dia e noite. Como não
mais podia suportar tal aflição, fugi.
Wang perguntou à mocinha para onde
ia, ao que ela respondeu que uma fugitiva não tinha domicílio fixo.
— A minha casa — disse Wang — não
fica muito longe. Queres vir comigo?
A jovem aceitou com alegria a
oferta que lhe fora feita. Wang encarregou-se do fardo que a moça levava e a
conduziu à sua casa. Lá chegando, como não viu ninguém, a jovem perguntou-lhe
onde estava a sua família. Ele respondeu que aquele recinto era apenas a
biblioteca.
— E, também, um lugar muito
agradável — disse ela. — Mas, se o senhor quer salvar a minha vida, não
deve permitir que alguém saiba que eu estou aqui.
Wang prometeu que não divulgaria o
seu segredo e a garota permaneceu ali alguns dias sem que ninguém soubesse de
sua presença. Depois, Wang falou sobre a moça à sua mulher. Esta, temendo que a
mocinha pudesse pertencer a uma família influente, aconselhou o marido a
despedi-la. Apesar disto, Wang não quis mandar a moça embora.
Certo dia, quando ia à cidade, Wang
encontrou um sacerdote taoista que, surpreso, olhou para ele e lhe perguntou o
que havia encontrado.
— Não encontrei nada — respondeu
Wang.
— Como não? — disse o sacerdote. —
Com certeza, estás enfeitiçado. Como me dizes que não encontraste nada?
Mas Wang insistiu, asseverando que,
efetivamente, era assim como dizia. O sacerdote partiu, dizendo:
— És mesmo muito tolo. Tens a morte
muito perto de ti, mas não sabes disto!
Isto alarmou Wang que, a princípio,
pensou na garota. Mas, depois de refletir, concluiu que uma pessoa tão jovem e
tão formosa não poderia ser uma bruxa. E passou a suspeitar que o que o
sacerdote queria mesmo era fazer um bom negócio.
Quando voltou, a porta da
biblioteca estava fechada e ele não pôde entrar. Isto o fez suspeitar de que
algo não andava bem. Assim que saltou o muro, viu que a porta do cômodo
interior também estava fechada. Encaminhando-se com cuidado, olhou pela janela e
viu um demônio repugnante, de cara verde e dentes recortados como os de uma
serra, que estendia uma pele humana sobre a cama e a pintava com um pincel.
Então o demônio deixou o pincel de lado e, sacudindo a pele como se fosse um
capote, a pôs sobre os ombros e — oh!… Era a garota. Aterrorizado, Wang
fugiu com a cabeça baixa, em busca do sacerdote, embora não soubesse bem onde
encontrá-lo. Finalmente, achou-o no campo. Lançou-se a seus pés e suplicou que
o salvasse.
— Quanto a afugentá-la — disse o
sacerdote —, a criatura deve encontrar-se em grandes dificuldades para estar
buscando um substituto. Além disso, não posso consentir que se faça mal a um
ser vivente.
Todavia, deu a Wang um mata-moscas
e ordenou que o pendurasse na porta do dormitório, aceitando vê-lo outra vez no
templo de Ch’ing-ti. Wang voltou para casa, mas não se atreveu a entrar na
biblioteca. Pendurou o mata-moscas na porta do quarto e, pouco depois, ouviu
uns passos vindos do exterior. Como sentia muito medo, pediu à esposa que
observasse o que ocorreria. A mulher viu a garota a olhar fixamente o
mata-moscas, mas não ousava entrar no quarto. Rangeu os dentes e partiu.
Voltou, todavia, pouco depois, e começou a lançar maldições, dizendo:
— Tu, sacerdote, não me assustarás.
Pensas que vou abandonar o que tenho à mão?
Reduziu a pedaços o mata-moscas e,
abrindo a porta com violência, se dirigiu diretamente à cama de Wang. Então,
rasgou-lhe o peito com as garras e arrancou-lhe inteiro o coração, levando-o
consigo.
A esposa de Wang gritou, e o criado
chegou com uma luz. Mas Wang estava morto e tinha um aspecto lastimável. Sua
mulher, trêmula de medo, quase não se atrevia a chorar, receando fazer barulho.
No dia seguinte, enviou o irmão de Wang em busca do sacerdote. Este ficou
furioso e gritou:
— Foi para isto que tive compaixão
de ti, demônio?
Dirigiu-se, imediatamente, à casa
de Wang, mas a garota havia desaparecido e ninguém sabia do seu paradeiro.
O sacerdote, erguendo a cabeça,
inspecionou tudo, e disse:
— Felizmente, ela não está
distante.
Então, perguntou quem vivia nas
dependências da ala sul, ao que o irmão de Wang respondeu que ele mesmo morava
ali. O sacerdote disse que era ali onde ela se encontrava. O irmão de Wang
ficou muito assustado e disse não acreditar naquilo. O sacerdote perguntou se
algum desconhecido havia estado na moradia. O outro respondeu que, como havia
passado todo o dia no templo de Ch’ing-ti, não poderia saber. Mas foi
informar-se e, pouco depois, voltou, dizendo-lhe que uma velha mulher havia
pedido trabalho como doméstica e que a sua mulher a tinha contratado.
— É ela — disse o sacerdote, quando
o irmão de Wang lhe informou que a mulher ainda estava ali.
Então, dirigiram-se, juntos, à
residência. Ao chegar, o sacerdote desembainhou a sua espada de madeira e
gritou:
— Oh, demônio malnascido,
devolve-me o meu mata-moscas!
Entrementes, a nova doméstica,
muito alarmada, tentou escapar porta afora. Mas o sacerdote a golpeou,
atirando-a ao chão. A pele humana escorregou, exibindo o demônio hediondo
que escondia.
O demônio jazia no chão e grunhia
como um porco. O sacerdote firmou na mão a espada de madeira e lhe cortou a
cabeça. Então a coisa se converteu numa densa coluna de fumaça, que do chão
subia em volutas. O sacerdote tomou uma cabaça semiaberta e jogou-a justamente
na coluna de fumaça. Ouviu-se um ruído de sucção e toda a coluna foi aspirada
pela cabaça. O sacerdote a tampou muito bem, guardando-a na bolsa. A pele
estava inteira, com sobrancelhas, olhos, mãos e pés, e ele a enrolou como se
fosse um pergaminho. Estava a ponto de partir, quando a esposa de Wang o
deteve. Com lágrimas nos olhos, pediu-lhe que devolvesse a vida a seu marido. O
sacerdote respondeu que não podia fazer aquilo. Mas a esposa de Wang lançou-se
a seus pés e, com grandes gemidos, implorou a sua ajuda. O sacerdote permaneceu
absorto em meditação durante algum tempo. Depois, respondeu:
— Meu poder não alcança o que me
pedes. Não posso ressuscitar os mortos. Mas te indicarei quem pode fazê-lo. E
se pedires de forma adequada, serás atendida.
A esposa de Wang perguntou quem
seria. Ele respondeu:
— Há um louco na cidade que passa o
tempo chafurdando na imundície. Ajoelha-te diante dele e suplica-lhe que te
ajude. Se ele te insultar, não dês mostras de aborrecimento.
O irmão de Wang conhecia a pessoa a
quem o sacerdote aludia. Assim que se despediu do sacerdote, partiu com a
cunhada.
Encontraram o pobre infeliz a
delirar na rua, tão sujo que somente a duras penas puderam aproximar-se dele. A
mulher de Wang ia de joelhos. O louco lhe lançou um olhar lascivo e gritou:
— Tu me amas, minha querida?
A mulher de Wang lhe disse o motivo
que a levara ali. Mas o louco ria, dizendo:
— Podes ter muitos outros maridos.
Por que ressuscitar o morto?
A mulher de Wang lhe implorava que
a ajudasse. Ele disse:
— É muito estranho. As pessoas me
pedem que ressuscite os seus mortos como se eu fosse o rei do mundo de
além-túmulo.
E deu uma bordoada na mulher de
Wang, que ela suportou sem um lamento, diante de uma multidão de espectadores
que gradualmente aumentava.
Depois, o louco pegou uma pílula
nauseabunda e disse a mulher que a tomasse. A mulher perdeu o ânimo e foi
incapaz de fazê-lo. Mas, por fim, a engoliu. Então o doido gritou:
— Como me amas!
Levantou-se, pois, e se foi, sem
mais prestar-lhe atenção.
Seguiram-no ao interior de um
templo, implorando-lhe a altas vozes, mas ele havia desaparecido, e todos os
esforços que fizeram no intento de encontrá-lo foram debalde. Aturdida pela ira
e pela vergonha, a esposa de Wang voltou para casa, onde chorou amargamente
sobre seu marido morto, arrependendo-se muito do que havia feito e desejando
morrer. Mas considerou que devia preparar o cadáver, pois nenhum dos seus
criados ousava aproximar-se. E se concentrou em fechar a terrível ferida que
havia ocasionado a morte do esposo.
Enquanto fazia isto, interrompida
de vez em quando pelos soluços, ela notou um volume que, pouco a pouco, lhe
subia à garganta. Saiu, enfim, com um estalido e caiu sobre a ferida aberta do
homem morto. Observando-o detidamente, viu que era um coração humano e este
começou a bater, desprendendo um vapor cálido como fumaça.
Excitadíssima, a mulher colocou
imediatamente a carne sobre o coração e uniu os dois lados da ferida com toda a
sua força. Todavia, logo se sentiu cansada. Mas, percebendo que o vapor
escapava pelas gretas, rasgou uma tira de seda e com ela cingiu o peito do
marido, ao passo em que tentava reativar a circulação, friccionando o corpo e
cobrindo-o com mantas. À noite, retirou as cobertas e descobriu que a
respiração fluía pelo nariz. Na manhã seguinte, o seu marido estava novamente
vivo, embora estivesse com a cabeça confusa, como se despertasse de um sonho, e
sentisse dor no coração. Onde havia sido ferido, havia uma cicatriz tão grande
quanto uma moeda, que pouco depois desapareceu.
Versão em português (tradução
indireta e adaptação textual): Paulo Soriano.
Ilustração do miolo: PS/Copilot.


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