CAÇA AO VAMPIRO - Conto Tradicional Chinês de Terror

CAÇA AO VAMPIRO

Conto tradicional chinês


Quando o Sr. Tsiàng, que mais tarde se tornou prefeito de Ying-tcheou-fou (Nân hoei), ainda era mandarim de Nân-tcheou (Tchêu-li), conheceu um homem que movia os pulsos constantemente, como se estivesse tocando sinetas. Perguntando-lhe Tsiàng de onde lhe vinha aquele tique, o homem contou-lhe a seguinte história:

Sou originário da pequena aldeia de X, situada ao pé da montanha. Há muito tempo, todas as noites, um vampiro — que se refugiava numa caverna próxima — voava até a minha aldeia, à caça de crianças para devorar. Embora os aldeões fizessem o possível para manterem a guarda, o monstro sempre conseguia capturar alguma presa.

Um dia, soubemos que havia na cidade um táo-cheu1 muito habilidoso. Todos contribuíram com dinheiro. Compraram-se presentes e alguns representantes do povo solicitaram-lhe que libertasse a aldeia daquele vampiro. Tendo aceitado a proposta, ele escolheu um dia auspicioso e ergueu um altar.

“— Com a minha arte — disse —, posso estender redes celestiais e terrenas que impedirão o vampiro de escapar; todavia, a vós cabe desalojá-lo e destruí-lo. Acima de tudo, preciso de um homem destemido para a principal função.

Como todos hesitavam, ofereci-me.

“—Leva contigo duas campânulas — disse-me o táo-cheu. — Enquanto os outros formam um cerco lá fora, tu ficarás encolhido junto à entrada da caverna, à espera de que o monstro saia Assim que ele aparecer, entrarás na caverna e começarás a tocar as sinetas. Porque som dos instrumentos de bronze subtrai a força dos espectros, o vampiro não conseguirá retornar à caverna e nós o arrastaremos para fora. Mas não pares de tocar, ou serás imediatamente agarrado pelo monstro.

Ao cair da noite, tudo já estava preparado. O táo-cheu posicionou-se diante de seu altar. Os aldeões formaram um círculo. O vampiro emergiu e tentou alçar voo. Atrás dele, precipitei-me para dentro da caverna e toquei o sino impetuosamente. Detido pelas redes do táo-cheu, e cercado pelos aldeões, o vampiro virou-se para mim. Desesperado, toquei e toquei até ficar sem fôlego. Ele me devorava ​​com seus olhos flamejantes, mas não conseguia me agarrar. Contivemo-lo assim, sem ousar atacá-lo corpo a corpo, até o primeiro raio de sol. Então, ele caiu morto. Queimamos seu corpo imediatamente. O tique que vês em mim é o resultado do toque ininterrupto que tive que executar durante aquela noite terrível.”


Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao francês de Léon Wieger (1858 – 1922).


Nota:

1 Os táo-cheu são especialistas em amuletos protetores e em práticas de combate a entidades maléficas sobrenaturais.

 

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