ELIAS - Conto Clássico de Horror - Alphonsus de Guimaraens

ELIAS

Alphonsus de Guimaraens

(1870 – 1921)

 

“…mal inexorable dont un Dieu seul pouvait ressusciter, jadis, les Jobs de la legende.” [1]

 

Comte de Viliers de L'Isle-Adam

 

 

Debaixo da lapa esconsa, ermida que escolhera para abrigar a sua irreparável desventura, o lázaro abjeto ergue para o teto esfumado os olhos vermelhos, onde a sombra dos cílios desapareceu para sempre, deixando expostas aos raios de luz impiedosos as míseras pupilas desertas, que nunca refletiram na vida uma imagem de amor.

É um crepúsculo triste como a agonia das almas; por sobre a terra, em tons magoados de folhas outonais, espraia-se o olhar incoercível do sol que morre, em dobras infindas de vestes mortuárias. Do túmulo que se abre por detrás do monte em resplendor, surgem silenciosamente, em um voo de clarões vesperais, bandos de anjos fulvos, agitando mortalhas luminosas.

Dentro de aquele corpo em chagas, que não tem mais a epiderme macia de que se recorda o miserável, evocando o tempo em que as falanges dos seus dedos não se haviam transformado em essa inqualificável monstruosidade de agora, a alma, que está acima do contágio das pústulas, sonha e sofre, no martírio sem esperanças em que se tortura.

Quando ele se surpreendera assim, irremediavelmente perdido para o mundo, cheio de crostas pardacentas que sangravam, com a pele transfigurada em escamas corruptas, desfaleceu-lhe nos lábios o último sorriso da ventura que se ia, e a desesperança flagiciadora aninhou-se-lhe no peito.

Bem se lhe importava que as noites brancas de luar, imutáveis e ermas, florissem de sonhos irrealizáveis os corações em primavera; o sol, que tantas horas de alacridade afoita-lhe dera outrora, era para ele um astro defunto, irritante como um cadáver que se obstinasse a ressurgir todas as manhãs, depois de ser enterrado cuidadosamente todas as tardes.

A noite em trevas desanimadoras, abandonada de todos, sem lua e sem estrelas, era o carinho supremo para aquele espírito que se exacerbava; e quando, fechadas as pálpebras doloridas, sentia ao redor de si a mesma escuridão que o entenebrecia interiormente, o desgraçado prelibava o gozo profundo e silente que auguramos na poeira final.

Ora o silêncio, em aquela noite escura, ciliciava as almas. Na imobilidade do ar, que não sussurrava por entre as árvores imóveis que circundavam a gruta, havia todo o mistério agreste do sossego e da paz; nem as corujas funerárias, de altas risadas de escárnio, nem os horrendos morcegos, de asas diabólicas, turbavam o descanso imaterial de aquelas horas imprevistas. O céu, prenhe de nuvens negras, parecia mais próximo da terra, quase unido a ela, em um afago ilimitado; e a harmonia das esferas veladoras, onde, se o luar cintila, há vozes de bem-aventurança, emudecera em meio de toda aquela desolação.

Elias, que assim se chamava o lázaro, olhava para dentro de si, na retrospecção amaríssima da sua existência. Feliz por poder calar-se, ele que bem sabia que a palavra afugenta os pensamentos íntimos, e que um instante de perplexidade é como um século de vida em relação às coisas infinitas, iria, decerto, reviver tranquilamente, e pela última vez, os dias de inexplicável desdita que em sucessão vagarosa, um a um, como espectros odiosos, por ele haviam passado.

E o repouso absoluto que abraçava a sua alma, na mágoa lutuosa que só conhecem aqueles que já sentiram as carícias mudas e excessivas do isolamento, iluminou-lhe o rosto desfigurado em um triste sorriso de alívio celeste.

O dia que precedera àquela noite tinha-lhe sido cruel.

Há tempos, sol a pino, seguia ele pausadamente, sangrando os pés desconformes nos seixos pontiagudos da estrada, perseguido pelas moscas, que lhe zumbiam aos ouvidos o miserere da sua carne decomposta antes de ser dada à sepultura; tinha fome, tinha sede, e a água estava longe, e ninguém aparecia. Em uma curva, na volta que ia dar, chegou-lhe aos ouvidos uma voz soturna, que era também a sua, porque a voz da miséria pede sempre no mesmo tom intrínseco de lástima:

 — Uma esmola pelo amor de Deus!

O lázaro teve um sorriso amargo de infortúnio, e disse ao pedinte, que por ali passava, um mendigo bem mais miserável que ele.

— Sou um cego... Não podia ver os seus andrajos.

Um cego! O consolo de uma ideia feliz fulgurou nos olhos rubros do leproso. Daí em diante teria um companheiro certo, que o não veria, e, por conseguinte que não correria cheio de nojo à aproximação das suas chagas. Enganá-lo-ia, dar-se-ia por um estropiado que trabalhava outrora e que passara para a comunhão dos mendigos por ter perdido uma das mãos, ficando-lhe a outra para esmolar. E então propor-lhe-ia viverem juntos os restos mesquinhos dos seus dias.

O cego, que era um velho de barbas nevadas e cabeleira em ondas, foi desde essa hora a sombra que o acompanhava, e no recesso inviolável da alma de Elias, que não conhecera afetos, enraizou-se e floriu uma grande ternura por ele. Tinha vontade de abraçá-lo suavemente e ímpetos de beijar-lhe a fronte pálida de asceta que as vigílias maceraram; mas, reconcentrando-se um instante, pensava, com os olhos em lágrimas, quanto veneno havia no rápido contacto dos seus lábios sanguinolentos, e que braços eram aqueles, inchados e vis, para abraçarem um corpo robusto, que vicejava ainda como as arvores de séculos. Depois, cerrando os olhos tristes que tanto tardavam em fechar-se para sempre, parecia-lhe sentir, em um deslumbramento, como se interiormente todo o seu corpo se transformasse em faces de cristal brilhante, a alma que lhe desertava o peito, e pousava, como uma garça em exílio, sobre as cãs do miserando cego.

Este, por ser adiantado em anos e pesares, vivia para os seus pensamentos íntimos, passava horas inteiras nas sombrias meditações de quem espera somente o lenitivo da morte; e obstinava-se de tal modo à mudez que Elias chegara a julgá-lo sem língua, mudo como um precipício, inviolável à voz humana como sempre lhe parecera o céu. Surdo, bem podia ser que o fosse, pois o lázaro, em momentos irreprimíveis de afago, murmurava-lhe aos ouvidos as balbuciantes palavras de ternura que adivinhara, ele que nunca as ouvira de outros e nunca de lábio algum as recebera; e o cego, que também lhe parecia mudo, conservava-se desolado e imoto como a lapide de um túmulo. Era, talvez e porque não? a suprema felicidade que viera esposar o solitário velho: não ver, não ouvir, não falar, que mais se pôde desejar no mundo? Elias via, e, via bem os rostos que se voltavam, indiferentes, ou cheios de asco, à sua passagem; ouvia, e ouvia maravilhosamente, as palavras de desprezo, ou de ódio, e de compaixão fingida, que os demais homens não podiam calar ao vê-lo; falava, e falava dolorosamente, para pedir esmolas, as frases que ouvira de outros mendigos em tempos mais felizes.

No entanto, passados anos, séculos, diriam eles, o cego abriu o peito às carícias do lázaro. Teve horas de bom humor, relatou sorrindo aventuras que lhe sucederam na mocidade, olhares de amor que ainda beijavam a solidão de seus olhos, beijos que lhe adejaram sobre os lábios, como pássaros que emigram; e adormecia contente, feliz por ter ao pé de si um desgraçado que necessitava de seu consolo.

Em noites de luar (todas as noites eram tais para ele, bastava que o lázaro assim lho dissesse), o cego sentava-se à beira de um ribeiro que se desmanchava em murmúrios ao passar em frente à furna em que moravam, e que se despenhava cheio de roncos de fera para além, muito ao longe, na queda tormentosa que não tinha tréguas. E como se tornara, com a velhice ou, talvez, com as saudades dos tempos de moço, amigo das flores, pedia a Elias que lhe trouxesse ramalhetes das mais suaves, de aquelas cujos aromas dão sonhos ao coração, como tranças amadas. Queria cercar-se de perfumes tranquilos, eflúvios aromatizantes, que o fizessem pensar no céu, como a fragrância do incenso vem evocar-nos crepúsculos de beatificação que julgamos ter vivido.

Elias apanhava as flores cuidadosamente, fazendo esforços imensos para não magoá-las, tão brancas, tão puras, tão em contraste com as cores roxas das suas úlceras e com a impureza das suas mãos sem tato. Parecia-lhe que os lírios, cheios de orgulho imperial, se retraíam ao avistá-lo, pendiam das hastes ricas ao senti-lo aproximar-se; e via, bem certo, os nenúfares castos, que estrelavam de branco às margens do ribeiro, tremerem de susto, talvez ao sopro da remansosa viração, talvez por saberem que ele os ia colher. E as horas passavam lentas, lentas e dolorosas, como as contas de fogo de um rosário de suplicio em que o obrigassem o rezar de sol a sol. Chegara sábado, o dia das esmolas, e lá iam eles vagando pela triste cidade que menos distanciava da gruta sombria em que tanto sofriam, catacumba cavada na rocha bruta pela mão do tempo. Elias, como sempre, guiava o cego; e este movia vagarosamente os cansados passos, com a mão segura ao bordão que o lázaro sustinha a custo, preso aos restos inconcebíveis dos seus dedos. De porta em porta, pacientemente, repetia-se a dolorosa via-sacra; depois, cada um seguindo a ideia que o martirizava, sentavam-se em frente da capela das Dores, toda sonora de pássaros.

Em aquele dia, o último da miserável vida que levavam, o cego arrastou-se até o portão de ferro do cemitério, onde duas caveiras de mármore espiavam, e lá ficou à espera de Elias que fora trocar por mantimentos as esmolas que receberam.

Ouvindo passos de alguém, levantou os olhos sem luz, e repetiu a súplica de sempre:

—Uma esmola pelo amor de Deus!

—Estás só, meu velho? Antes assim… Se cego não fosses, mil vezes morto que acompanhá-lo.

—Por que, senhor?

—Devias ter medo dos lázaros…

O cego estremeceu de espanto, e tão violenta impressão passou-lhe pela alma que o seu coração, fatigado de contar os intérminos momentos de vida que lhe restavam, parou de manso, batendo tranquilamente contra o cárcere do peito a última pancada libertadora. A ideia súbita de ter vivido vida de irmão em companhia de um homem coberto de lepra, a esfacelar-se aos poucos, agitou o sangue do cego em uma convulsão de horror, e os seus olhos embaciados, em uma exaltação de sincope repentina, tiveram por instantes fulgores passageiros que que talvez já lhes viessem de outra vida. O sacristão que ia tocar trindades, espantou-se com aquela morte inesperada, e nem de longe pensou que tivesse, com uma simples frase, agitado barbaramente, até despedaçá-lo, o fio tênue de uma vida prestes a extinguir-se. Sorriu docemente:

— Foi como a lâmpada do Santíssimo, quando não lhe ponho azeite. Teve juízo o pobre velho! Morrer encostado ã porta do cemitério quando não temos dinheiro para pagar a quem nos carregue, é um belo cálculo…

Para Elias foi um mistério o motivo da morte do cego (e feliz dele por lhe ser poupada uma nova mágoa), julgou que se finara de velhice; desde que viu cavados os sete palmos de chão, voltou silenciosamente para a furna escura, de ora em diante inabitável para ele, como o resto do mundo, sem esperar ao menos que enterrassem o corpo, porque não lhe seria dado ficar ali também, entregue de uma vez ao descanso do pó; e pelo silêncio impenetrável da noite, soluçaram, hausteantes e convulsos, os gemidos estertorosos de aquele supremo desespero.

Chegou, finalmente, depois de mais uma vez ensanguentar os pés nas pedras do caminho, à habitação deserta. Pela última vez pensou no amigo. Aquele, sim, morrera sem desprezá-lo, sem cuspir ao vê-lo, sem horror ao riso dos seus lábios grotescos, sem abaixar os olhos ao seu olhar repulsivo…

No entanto, um dia em que lhe caiu das mãos a vara que guiava o cego, ouviu este murmurar quase consigo: “parece que não tem dedos... não lhe sinto firmeza na mão... e os seus passos são trôpegos.” E depois, alto, brandamente:

— Elias, se és moço, por que és mendigo? Que doença é a tua?

O leproso ansiou-se: descobriria o cego a verdade? Que Deus o não permitisse! E calado, por única resposta, enfeitou-lhe o largo peito de múmia com flores novas.

Debaixo da lapa sem luz, revive a sua vida medonha, e firma pungentemente a alma na desventura final de aquele dia trágico. Agora, seguindo ao lado do ribeiro, que se esparzia em vagas agitadas, chegou à beira da cachoeira, precipitada em despenhadeiro alcantilado, que ele ouvira exalar lamentações ao longe, em um responsório perene; e, revoltando-se contra a sua miséria, atirou-se pela torrente abaixo, amortalhando o corpo, que era todo chagas, em um sudário branco…

 

Fonte: “Revista Brasileira”/RJ, edição de janeiro a março de 1898.

Ilustração:  Frans Schwartz (1850 – 1917).

 

Nota:

 



[1] “…mal inexorável do qual somente Deus poderia ressuscitar, outrora, os Jó da lenda.”

 

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