O FANTASMA DO CASTELO - Conto Clássico de Mistério - Ed Kennedy

O FANTASMA DO CASTELO

Ed Kenedy

(Séc. XX)

 

A sala de espera estava vazia.

Minto! Vazia, não. Existia, na ponta de um banco ao meu lado, um sujeito macambúzio e malvestido. Barbas de três dias espessando-se-lhe pelo rosto já cheio de vincos. Chapéu amarrotado, olhar fugitivo. Uma dessas criaturas que nos sugerem logo reflexões amargas. Parecia ter vindo de alguma caverna misteriosa.

De vez em quando, ouvia-se o barulho de um carrinho de mão, de uma carroça preguiçosa: “truco… truco… truco!…

— Já não há mais trens hoje! — falou afinal o homem. — O 6,17 já partiu…

— Já o percebi — respondi.  — Isso aqui está com ares de cemitério. Que ambiente!

— Hum…  O senhor está falando em cemitério! — exclamou o homem sujo. Fez uma pausa, encarando-me.

— Já viu algum fantasma?

— Eu?! Fantasmas?! Nunca. O senhor já?

— Eu sou um fantasma.

— Como?!

— Para falar a verdade, não sou, mas fui.

— Foi? Conte lá essa coisa.

O homem tornou-se silencioso um instante, provavelmente meditando sobre o passado, concatenando recordações… Depois falou.

 

*

 

A parte mais interessante da história de Sam Bvowne começa no momento em que Sir George Toogood chega a Chizzleford. Esse grande homem vinha da Austrália, onde arranjara considerável fortuna, uma esposa — que morrera em Sydney —, uma filha e um título de nobreza.

Sam Browne ouvira notícias dele, pela primeira vez, por intermédio do primo Bill Malow, empregado de uma agência que estava tentando vender a Sir George o velho solar Chizzleford Manor, com tudo o que tinha.

— Cerca de duas milhas daqui está o velho solar Chizzleford — falou-me o Sam. — Construção antiquíssima lembrando velhos castelos medievais, uma torre em cada ângulo, dominando vastas extensões, fronteiriça à estada.

Sir George ficou impressionado com o imponente solar. Mas era homem esquisito, de gosto excêntrico. O Chizzleford parecer-lhe-ia muito mais interessante se houvesse ali alguma coisa extravagante. Num dos últimos solares que visitara, também para comprar, gostara muito de um cavalheiro sem cabeça visto num imenso quadro antigo e que fazia pensar em histórias de arrepiar cabelos. Agradara-se muito, também, de uma figura amortalhada de sexo incerto. Mas no Chizzleford, além dos longos corredores escuros, as torres, os recantos soturnos.... que havia que pudesse interessar?

Biil Malow era homem de grandes recursos e imaginação rica.

Por isso falou:

— Mas seguramente Sir George ainda nada ouviu a respeito do fantasma da torre oriental?

E, quando Sir George respondeu que realmente nada ouvira, Billl Malow informou que o fantasma costumava assombrar os corredores da torre de leste, todos os anos, por ocasião da Sexta-feira da Paixão.

O fidalgo animou-se, decidindo-se a comprar o Manor. Mas queria antes de tudo ver o fantasma. Faltava um mês para a Paixão. Antes daquela data, não se trataria de mais nada.

Foi nessa situação que Billl Malow sugeriu a cooperação de Sam Browne.

Era preciso fazer aparecer um fantasma de qualquer forma. Bill pagaria seis libras por semana para várias representações a partir da Sexta-feira da Paixão.

O fato de Sir George não haver ainda tomado residência, estando as suas filhas em Paris, simplificava as coisas.

Bill tinha as chaves, e os criados já instalados o conheciam. Como bons londrinos, estavam naturalmente predispostos a acreditar na história de uma aparição, atribuindo grande importância à mal-assombrada torre oriental.

Na madrugada do dia vinte e três, Sam Browne surgiu no Chizzleford com um volumoso embrulho e encaminhou-se para a torre de leste, onde Bill o esperava. O seu quarto no segundo andar só tinha uma janela exígua que dava para fora do solar. Estava coberta de heras e dominava um considerável trecho do jardim meio abandonado e relvoso.

—Da descrição de Bill — falou Sam Browne —, o senhor depreenderia tratar-se de um apartamento luxuoso como a cabine de um milionário num desses transatlânticos de luxo. Mas o mobiliário que ali se deparava não passava de uma velha maca, como essas camas de lona de marinheiros a bordo, pendurada do teto, uma mesa pequena, uma cadeira, uma coberta de lã grosseira, uma lanterna, uma secretária de carvalho, um prato, latas de conserva, revistas velhas. Mesmo de dia era necessário ter-se luz acesa. Um ambiente lôbrego como um calabouço, como vê. Para desempenhar o ignóbil papel de fantasma, eu tinha à minha disposição um vestuário impressionante adrede preparado: a enorme beca de um monge que devia ter mais de dois metros de altura. Em lugar da cabeça normal, ver-se-ia um crânio coberto pelo capuz negro. Dentro do crânio descarnado colocar-se-ia uma pequena lâmpada acesa. Era uma armação simples e leve, mas de um efeito incalculável. A minha cabeça ficava à altura do peito, onde havia buracos para os olhos. O efeito é fácil de imaginar à noite, meu amigo; calcule: um gigantesco monge negro, cabeça coberta por um capuz; dos olhos, da boca e do nariz projetavam-se jatos de luz vermelha; passos lentos pelos corredores sombrios, riso de caveira. Haverá um avejão mais horripilante?

— Com efeito.

— A uma hora da madrugada, por exemplo, eu devia fazer uma pequena excursão pelo pomar entre as sombras. Uma vez, pelo menos, no correr das representações… Bill partiu depois de arquitetar o plano. Ao amanhecer, um clarão de sol entrou furtivo pela janela. Senti vontade de comer qualquer coisa e aí estava à minha disposição grande número de latas de conservas, que daria para mais de dez dias.

“Entretanto — ó inferno! —, o Bill esquecera-se de trazer um abridor de latas. Nada aí existia que pudesse substituí-lo. Escarafunchei todos os recantos. Nem um prego! Talvez o Bill voltasse às escondidas, à noite. Enquanto isso, comecei a devorar um pão que ficara sobre a mesinha espiando, através da hera das janelinhas, o campo, os morros. Fazia um lindo sol. Descobri que a vinte passos da torre, lá fora, havia um grande valado e o terreno, irregular, se prestava à formação de pequenos charcos.

“À tarde, o tempo tornou-se subitamente chuvoso, cada vez fazendo mais problemática a vinda de Bill. Os fossos velhos e obstruídos parcialmente, em vez de fazer escoar a água, retinham-na. Depois de varias bátegas de chuva, a cântaros, lá fora, o pomar, o jardim, a estrada transformaram-se num vasto lago. A água já subia até o primeiro degrau da escada exterior da porta da torre. Parecia um dilúvio. A sensação de estar prisioneiro, sem ter o que comer, transformou-se-me numa verdadeira angústia. O pão já tinha acabado. Pensei em desistir. Mas Sir George deveria vir no dia seguinte com a filha e mais duas ou três pessoas e a ausência do fantasma importaria num desastre comercial.

“Deitei-me às oito horas. Mas não pude dormir. Fome! Mal estar... Incertezas... Às onze, já não havia chuva, mas as águas continuavam em torno quase nas mesmas condições. Apenas baixaram um pouco. A fome aumentava. Senti necessidade de fazer qualquer coisa. Reagir! Talvez num giro pelos arredores se descobrisse algo que servisse para abrir as latas. Mas eu só poderia sair dali no meu papel de fantasma; do contrário, se algum criado visse um homem sair da torre oriental, estaria descoberta a farsa.

“Por uma estranha coincidência, o automóvel de Sir George chegava no momento preciso em que eu me punha em atividade. E numerosas pessoas, assombradas, tiveram oportunidade de ver o monge negro a passear rapidamente no pomar, olhos e boca pestanejando, chamejantes, enorme, horrendo... Uma criada perdeu os sentidos, houve gritos. O próprio Bill, que não esperava tão cedo, ficou impressionado com a coincidência. Sem tempo para fazer a busca do objeto cortante, tratei de apressar o passo para fugir. Penetrei rapidamente na primeira porta e comecei a andar num corredor escuro, dando oportunidade a outros criados de me verem. Percebi que, no meu encalço, vinham várias pessoas querendo observar-me de perto. Entre eles, Sir George. Quando se aproximavam muito, eu apagava a luz da caveira e corria, distanciava-me, e reacendia na frente, longe, intrigando-os cada vez mais. A essa altura, eu já me sentia perdido num dos longos corredores e compreendi estar andando na direção contraria à da porta da torre oriental. Era preciso voltar. Escondi-me num canto escuro e deixei passar os homens. Quando reacendi a caveira, a uns cinquenta passos atrás deles, foi um assombro geral. Ninguém, inclusive o Bill, compreendia o fenômeno. Como passara o fantasma em meio deles?”

 

*

 

Aquela empolgante vitória não impedira a Sam Browne sentir-se num estado cada vez mais precário. Foi deitar-se ainda com mais fome e teve uma terrível noite de insônia.

O segundo dia passou-o ansioso à janela, na esperança de que Bill aparecesse por ali. À meia-noite, preparou tudo e fez aparição rápida que, ao que pareceu, teve ótimo êxito. Faltavam duas noites. Seria possível terminar a tarefa? E a fome? Adormeceu. Uma hora mais tarde acordou suarento e com uma sede desesperada. Ergueu-se ansioso na ponta dos pés. Acendeu a lâmpada.

Além da porta por onde habitualmente entrava, havia uma outra que dava para os fundos, para o interior. Bill lhe havia esboçado toscamente uma planta imperfeita do velho solar. Aquela porta parecia comunicar-se com a cozinha, a dispensa, etc. Havia um postigo a certa altura. Com alguma dificuldade, Sam introduziu o braço por ali; descobriu às apalpadelas uma travessa, removeu-a com precaução. A porta cedeu, abriu-se.

Tudo escuro, exceto um vislumbre de luz na extremidade longínqua do corredor. Havia uma escada, desceu-a lentamente, saiu caminhando pelo corredor sem ver onde pisava. Vagou assim muito tempo, sentindo nas mãos o contato frio dos tijolos. Experimentava uma emoção estranha, uma espécie de temor. Parecia-lhe estar andando num infernal subterrâneo a cem quilômetros do solo. Chegou a temer jamais sair daquele inferno.

Parou subitamente; a sua mão esquerda apalpava agora um corpo menos frio. Evidentemente tábuas… Uma porta. Empurrou-a com o coração aos saltos. Entrou. Ficou à escuta uns dez minutos, atento ao menor ruido. O silêncio seria completo se não fosse o barulho de uma torneira gotejante. Acendeu finalmente um fósforo. Era a cozinha. A um canto havia uma mesa e nesta uma gaveta. Acendeu um candeeiro e começou a procurar um abridor de latas no meio da mixórdia de retalhos de pano, talheres, pires. Encontrou-o, finalmente. Existiam mais duas portas na cozinha: a primeira conduziu à pia de lavar pratos, a segunda dava para a dispensa, onde se continha o refrigerador.

Quando abriu o refrigerador, quase caiu de costas, emocionado. Estava ali tudo o que havia de melhor em matéria de gulodices. Parecia estar em preparo um banquete. Havia lagostas, creme de leite, castanhas, pastéis.

Após um momento de êxtase, Sam Browne pôs mãos à obra, esquecido da vida e do mundo.

Sobressaltou-se com um ruido às costas. À porta da dispensa, de pé, via-se um cavalheiro grave de monóculo, cinquenta anos sólidos, uma barba espessa e bem tratada, olhos azuis.

— Olá… — falou o velho com voz prolongada e tom de censura irônica. — Um excelente banquete, hein?

— Ainda não terminei — disse Sam, pilheriando.

— E eu nem comecei… — disse o velho aproximando-se. — Passe-me aí aquele pedaço de chouriço e faça-me o favor de informar-me qual é exatamente a sua posição aqui.

— Presentemente… — disse Sam fazendo tempo e mastigando uma lagosta. — Presentemente, a minha posição é muito incômoda. E a sua?

— O mesmo digo eu — foi a resposta. — Se o dispenseiro surgir por aí, que explicação vamos dar? Santo Deus! Há mais de dez anos que não vejo uma coleção como esta.

 

*

 

A essa altura, Sam Browne parou de falar. Fez uma pausa, aumentando-me a curiosidade. Depois prosseguiu:

Desde o começo, ele havia desconfiado da identidade do visitante. Por fim decidiu-se:

— O senhor é Sir George, não é verdade?

— Em carne e osso!  — afirmou o velho. — E o senhor, quem é? Qual a ocupação?

— Eu?!…

Sam Browne fez uma longa pausa, mastigou um doce.

— E se eu lhe disser, promete o senhor não revelar nada antes da realização da compra da Manor? Não causaria isso algum transtorno?

—Homem, não estou entendendo. Não percebo conexão alguma entre a sua identidade e a compra da Manor — disse Sir George. — Mas não vejo razões para deixar de satisfazer o seu pedido. Prometo.

—Pois bem, Sir George, eu sou o fantasma de Chizzelcford Manor.

Sir George soltou uma estrepitosa gargalhada.

—Uma situação distinta e excepcional. Não há dúvida! Mas o senhor não devia andar de pijama e chinelos como um sujeito vulgar. E agora, como diz aquele canto: “You must go back to your world, and I must go back to mine”[1]... Voltemos cada um para o seu mundo. Se nos encontrarmos depois... toda a discrição! Passe bem.

 

*

 

Sam Browne ficou silencioso muito tempo, acendeu um cigarro e pôs-se a soltar bojudas baforadas, que se enovelaram no salão. Parecia ter terminado a conversa, mas eu não estava satisfeito.

— Que final brusco! Acabou-se a história assim?… No ar… Hum…

— Não. Não se acabou.

— Que sucedeu?

— Sir George desapareceu para a cozinha e, dentro de um minuto, surgiram à porta três pessoas. Uma era o dispenseiro, a segunda um sujeito corpulento e forte, a terceira uma jovem extremamente formosa.

— Mãos ao ar! — ordenou-me o dispenseiro.

— E depressa — acrescentou a jovem, apontando-me um revólver contra o peito.

— Revista-o, Sunders! — ordenou ainda o dispenseiro ao homem corpulento.

Além do abridor de latas, nada mais encontraram nos meus bolsos.

— Ele deve ter um cúmplice — sugeriu o dispenseiro.

— Tenho certeza de ter ouvido conversa.

— É melhor deixá-lo preso na dispensa e mandar chamar a polícia.

Fiquei preso na dispensa. Vieram buscar-me meia hora depois. A polícia fez mais três prisões. Uma delas era o pretenso Sir George Toogood.

—Pretenso? —interroguei eu intrigado ao narrador.

—Sim, senhor. Aquele fidalgo, que se impingira em Chizzleford como Sam Toogood, não passava de um refinadíssimo larápio que se preparava para roubar preciosas antiguidades. A polícia já lhe andava no encalço havia muito tempo. Era muito conhecido por Gentleman Joe. Foi condenado a cinco anos de prisão, sendo eu a principal testemunha. O verdadeiro Sir George, ex-milionário australiano, apareceu em Chizzleford dois meses depois e, com efeito, comprou o solar, como manifestara desejo antes de partir da Austrália. O tal Gentleman Joe já tinha praticado iguais façanhas em outros lugares. A história do fantasma foi narrada no tribunal entre gargalhadas gerais.

Sam Browne suspirou, por fim, desolado:

— Eu é que fiquei sem o meu empreguinho... Numa época dessas…

— Que emprego?

— O de fantasma de Chizzleford.

— Onde diabo esperava o senhor encontrar uma colocação tão estrambólica?

—Homem! Num solar tão antigo e vasto como o Manor, um fantasma teria a utilidade de aumentar o prestígio e a fama do proprietário. Mas, infelizmente, Sir George é um homem vulgar, medíocre.

—Vou contar essa história num jornal. Boa ideia! Talvez sirva para anúncio. O meu nome é Samuel Browne. Von dar-lhe o meu endereço. Quem necessitar de uma assombração é só procurar-me. Mensalidade módica para começar.

 

Fonte: “A Noite Illustrada”/RJ, edição de 28 de março de 1934.


Nota:

 


[1]“Você deve voltar para o seu mundo e eu devo voltar para o meu.”

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