O RISCO MÁGICO - Narrativa Clássica Sobrenatrual - Frei Vicente do Salvador

 

    O RISCO MÁGICO

Frei Vicente do Salvador

(1564 – 1636)

 

Não menos foi o aperto em que Duarte Coelho (como temos tocado) teve todo este tempo na vila de Olinda, tendo-o por algumas vezes os inimigos posto em cerco em a sua torre, com muitas necessidades de fome e sede, contra quem não valiam as balas, que valorosamente atiravam de dentro, ainda que com elas matavam muitos gentios e franceses; mas Deus Nosso Senhor, que excitou o ânimo de Raabe[1], mulher desonesta, para que escondesse as espias de seu povo, e fosse instrumento da vitória que se alcançou contra Jericó, excitou também a filha de um principal destes gentios[2], que se havia afeiçoado a um Vasco Fernandes de Lucena[3], e de quem tinha já filhos, para que fosse entre os seus, e, gabando os brancos às outras, as trouxessem todas carregadas de cabaças de água, e mantimentos, com que os nossos se sustinham; porque isto faziam muitas vezes, e com muito segredo, e era este Vasco Fernandes tão bem temido e estimado entre os gentios, que o principal se tinha por honrado em tê-lo por genro, porque o tinham por grande feiticeiro; e, assim, uma vez que o cerco era mais apertado e estavam os de dentro receosos de os entrarem, saiu ele só fora, e lhes começou a pregar na sua língua brasílica[4], que fossem amigos dos portugueses, como eles o eram seus, e não dos franceses, que os enganavam, e traziam ali para que fossem mortos, e logo fez uma risca no chão com um bordão, que levava, dizendo-lhes que se avisassem, que nenhum passasse daquela risca para a fortaleza, porque todos os que passassem haviam de morrer, ao que o gentio deu uma grande risada, fazendo zombaria disto, e sete ou oito indignados se foram a ele para o matarem, mas, em passando a risca, caíram todos mortos; o que, visto pelos mais, levantaram o cerco, e se puseram em fugida.

Não crera eu isto, posto que o vi escrito por pessoa, que o afirmava, se não soubera que neste próprio lugar, onde se fez a risca, defronte da torre, se edificou depois um suntuoso templo do Salvador, que é matriz das mais igrejas de Olinda, onde se celebram os divinos ofícios, com muita solenidade e, assim não se há de atribuir os feitiços senão à Divina Providência, que quis com este milagre sinalar o sítio, e imunidade do seu templo.

 

Fonte: “História do Brasil”, Livro Primeiro, Capítulo Nono. Acervo Digital da Biblioteca Nacional.

Ilustração: Albert Eckhout (c. 1610 – c. 1666).

 

Notas:

 


[1] Segundo o livro de Josué, capítulo 2, Raabe era uma prostituta de Jericó que, escondendo os espiões hebreus em sua casa, ajudou-os a capturar aquela cidade. Teria sido a trisavó do rei Davi e, portanto, conforme o Novo Testamento (Mateus e Lucas), ascendente de Jesus.

[2] Ou seja, de um chefe indígena tabajara.

[3] Vasco Fernandes de Lucena, segundo os “Anaes do Rio de Janeiro” (1835), de Balthazar da Silva Lisboa, teria sido “descobridor e Alcaide-Mor de Pernambuco” (tomo V, p. 594). Tiago Cordeiro, na obra “Os Primeiros Brasileiros” (editora Abril, 2018, p. 115), informa que Coutinho era cristão novo (judeu convertido ao cristianismo).

[4] Tupi antigo. 



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