RIP - Conto Clássico Fantástico - Manuel Gutiérrez Nájera
RIP
Manuel Gutiérrez
Nájera
(1859 – 1895)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
Isto
que vou contar não o vi: creio que o sonhei.
De
quem é a lenda de Rip? Sei que Washington Irving a recolheu, para lhe dar forma
literária e incluí-la num dos seus livros. E há uma opereta sobre o mesmo
assunto e justamente com esse título: Rip.
Não
li o conto do romancista e historiador norte-americano nem assisti à ópera.
Conheci, porém, o próprio Rip.
Se
não constituísse ousadia tal hipótese, aventaria que Rip teve por pai o monge
Alfeu. Era este um frade alemão, pesado, fleumático e, presumo, um tanto surdo.
Passou cem anos ouvindo cantar um pássaro e sem dar por isso. Rip era mais
ianque, menos amante de música e mais apreciador de uísque; dormiu, sem dar fé,
muitos anos seguidos. Rip, o que eu conheci, adormeceu, não sei por quê, numa
caverna onde entrara — quem sabe lá por quê? —, mas dormiu muito menos tempo
que o Rip da lenda. Teria dormido dez anos, talvez cinco ou um apenas. Enfim, o
sono foi curto e nada teve de bom. O fato, porém, é que o nosso herói
envelheceu dormindo, como sucede aos que sonham muito. E, como não possuía
relógio — embora o possuísse, não lhe daria corda cada vinte e quatro horas e
até nem uma só vez; como se não haviam ainda inventado os calendários; e como,
finalmente, nas florestas não há espelhos —, Rip não pôde calcular quanto tempo
passara nem perceber que tinha envelhecido. Assim acontece frequentemente:
muito antes de nos sabermos velhos, os outros o sabem e o dizem.
Ainda um tanto sonolento e deveras
envergonhado por ter passado a noite fora — ele, que fazia do casamento uma
religião, crente verdadeiro e praticamente impecável — disse consigo, não sem
certo estremecimento: “Bom, vamos para casa”. E pôs-se a caminho. A sua barba
inteiramente branca — e ele que a julgava loura! — acusava a longevidade. Pobre
Rip, custava-lhe bastante andar. Vergavam-lhe as pernas; mas pensava: “É ainda
efeito do sono”. Ai dele... Era efeito
da velhice, a que a gente chega percorrendo o caminho, não dos lustros e
decênios, mas dos sonhos. Caminhando, caminhando, Rip dizia consigo: “Minha
pobre mulher... Como deve estar inquieta...Não sei explicar o que me aconteceu.
Devo estar doente, bem doente... Parti de madrugada, é madrugada agora, quer
dizer que passei um dia e uma noite fora de casa. Mas por quê? Não fui à
taverna, não bebo nunca... Sem dúvida, a moléstia me veio de repente, na
montanha, e caí sem sentidos, naquela furna. Pobre mulher... Com certeza me
procurou por toda parte. Ama-me tanto... Não dormiu. Passou a noite a
procurar-me e a chorar. Teria andado dum lado para o outro, sozinha? E de
noite, por estes carreiros pedregosos... Sozinha, não. Sou estimado na aldeia,
tenho amigos, sendo o moleiro João o melhor de todos... Sem dúvida, vendo-a tão
aflita, a ajudaram a procurar-me. João, principalmente. E minha filha?
Trouxeram-na também? Àquelas horas? Com tanto frio? Que imprudência! Oxalá que
lhe não tenha feito mal...”
Rip
caminhava, caminhava... E como correria, se pudesse!
Chegou
finalmente à aldeia. A aldeia estava quase a mesma, mas sempre se notava alguma
diferença. Rip teve a impressão de que a torre da igreja fora caiada de fresco:
a casa do regedor havia crescido; a loja principal da terra tinha mais uma
porta; e todas as pessoas a quem encontrava se lhe afiguravam diferentes,
estranhas... Continuaria ainda meio adormecido? Ou doente? O primeiro amigo que
encontrou foi o vigário. Era bem ele, com o seu guarda-sol esverdeado, o chapéu
alto — o mais alto que já se viu na aldeia —, o breviário sempre fechado, o
sobretudo, que ao mesmo tempo servia de sotaina...
—Bom
dia, senhor vigário!
—Deixe-me
em paz, meu filho, por favor...
—Mas
eu não sou culpado, senhor vigário...Não bebi, não fiz nada de mal... E a minha
pobre mulherzinha. . .
—Já
lhe pedi que me deixasse. E veja se se vai embora da terra, porque mendigos
temos cá bastantes.
Mendigos!
Por que lhe falava o vigário de tal modo? Algum dia ele, Rip, pedira esmola,
fosse a quem fosse? Não punha dinheiro na caixa das almas por que o não tinha,
só por isso. Nem ouvia os sermões de quaresma porque trabalhava de manhã à
noite. Ia, porém, à missa todos os domingos e dias santos, confessava-se e
comungava uma vez por ano... Não havia, portanto, razão para o tratarem com
desprezo. Não, não havia absolutamente.
Afastou-se,
sem dizer mais nada, porque a vontade que tinha era de lhe bater. . . E era o
vigário.
Estugando
o passo por efeito da indignação que o possuíra, seguiu o seu caminho.
Felizmente, estava já perto de casa...
Ao chegar, como as janelas ficassem antes da
porta, aproximou-se duma delas, para chamar a sua querida Luz e dizer-lhe:
“Sossega, cá estou, cá estou!”
Não
precisou, porém, de chamar a esposa. A janela estava aberta; Luz costurava
tranquilamente; e, no momento em que ele a viu, João, o moleiro, dava-lhe um
beijo. Rip viu tudo vermelho à sua frente. Miseráveis! Miseráveis! Cambaleando
como um ébrio ou um macróbio, entrou na casa. Queria matar, matar! Estava,
porém, tão fraco que, ao chegar à sala onde os dois se encontravam, caiu
redondo no soalho. Não se podia erguer, não podia falar; podia, porém,
conservar os olhos abertos, bem abertos, para notar como a esposa infiel e o
amigo traiçoeiro empalideciam de espanto...
Ambos, com efeito, empalideceram. Luz soltou
um grito, o mesmo grito que Rip lhe ouvira na noite em que tinha entrado um
ladrão lá em casa.
Rip
daria a vida, a alma para poder articular uma palavra, proferir uma
blasfêmia...
—Não está embriagado, Luz; está doente.
E
Luz, embora receosa ainda, aproximou-se do vagabundo desconhecido:
—Pobre
velho! Que terá ele? Talvez viesse pedir esmola e desmaiasse de fome.
—Mas, se lhe dermos qualquer coisa a comer,
assim de repente, pode-lhe fazer mal. Primeiro vou levá-lo para a minha cama.
—Para
a tua cama, não! Está tão sujo, coitado... Chama-se o criado e vocês dois o
levarão até à farmácia.
Nesse
momento chegava a menina:
—Mamãe!
Mamãe!
—Não
te assustes, meu amor. É um pobrezinho.
—Mas
que feio mamãe! Tenho medo! Parece um lobisomem!
E Rip ouvia tudo. Via também, mas sem certeza
do que via. A sala era bem a mesma, era a sua. Naquela poltrona de couro e
junco se sentava ele, à noite, quando voltava mais cansado do trabalho; as
cortinas das janelas eram o seu luxo. Comprara-as a força de economia, de
sacrifícios...
Acaso
teria morrido? Estava doido? Sentia, porém, que estava vivo. Ouvia, via, como
se ouve e vê num pesadelo. Carregaram-no até à farmácia e Iá o deixaram, porque
a menina cada vez tinha mais medo dele. Luz voltou com João para casa; ninguém
se admirou de eles partirem de braço dado nem de ela abandonar, quase
moribundo, o homem que era seu marido. E Rip não se podia mexer, não podia
gritar: “Rip! Sou Rip!”.
Conseguiu
dizê-lo passadas algumas horas, anos talvez, talvez séculos...
—
Coitado, é um doido! — concluiu o farmacêutico.
—
Será melhor levá-lo ao regedor, porque pode, de repente, ficar furioso... —
observou outro homem.
—
Tens razão. Se resistir, amarramo-lo!
E
preparavam-se para o atar. Mas o sofrimento e a cólera haviam restituído a Rip
boa parte das suas forças. Esbravejou entre os braços dos algozes, conseguiu
desvencilhar-se; e deitou a correr. Ia para casa, ia matar os dois infames!
Viu-se, porém, perseguido por uma porção de gente. Davam-lhe caça, como a
qualquer animal feroz.
Dominou-o
o instinto de conservação. O que desejava agora era sair tia aldeia, chegar à
montanha, esconder-se Iá algures, para voltar à noite o vingar-se fazendo
justiça por suas mãos.
Conseguiu,
enfim, despistar os perseguidores. Embrenhou-se na floresta. Tinha sede, a sede
que deve sentir quem está no meio dum incêndio. Procurou água para beber,
mergulhar os braços, afogar-se talvez. Aproximou-se dum regato claro,
debruçou-se... Viu então que a morte estava lá dentro, para o receber. Sim, era
bem a morte com figura humana, a imagem dum velho decrépito transparecendo no
ribeiro. Sem dúvida, era a ele que o espectro lívido aguardava. E não era um
homem de carne e osso, porque os seus movimentos, simultâneos com os de Rip,
não agitavam a água. Mas também não era um cadáver, porque as suas mãos e os
seus braços não cessavam de se contorcer. Não era Rip, não, não era Rip! Era
como que um avô de Rip que o vinha buscar para junto de seu pai morto.
"Mas é então o meu reflexo?” — pensava Rip. “Isto que aqui está não sou eu. Por que razão
o meu corpo não aparece neste espelho? Por que razão grito eu e o eco da
montanha não repete a minha, voz mas uma voz que não conheço?"
Debruçou-se
mais para se procurar a si mesmo dentro do regato. E d certo o velho o levou
para perto de seu pai defunto, porque ele, Rip, nunca mais voltou.
Fonte:
“Revista da Semana”/RJ, edição de 9 de dezembro de 1944.

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