HOMENS CRUÉIS - Narrativa Clássica Cruel - Valério Máximo

HOMENS CRUÉIS

Valério Máximo

(Séc. I)

  

I. Sula[1]

 

Não satisfeito com a matança de homens, Sula puxou sua espada contra as mulheres. Isso também era um sinal de sua incrível brutalidade, pois ele fez com que as cabeças das criaturas miseráveis, recém-cortadas, e que mantinham ainda as suas feições e o fôlego, fossem trazidas à sua presença, para que pudesse absorver com os olhos aquilo que não podia devorar com os dentes.

E qual não foi a sua cruel conduta para com o pretor Mário, que foi arrastado à vista do povo para o túmulo da família Lutaciano, onde Sula manteve vivo o infeliz homem até que lhe tivesse arrancado os olhos e lhe partido os membros!

Relato, agora, coisas que dificilmente parecem críveis. Como M. Pletório desmaiou ao ver a execução de Mário, Sula prontamente o assassinou. Aqui estava alguém que punia a própria piedade: para ele, contemplar a perversidade com aversão era cometer um crime.

Mas ele certamente pouparia as sombras dos mortos? Não. Havendo desenterrado as cinzas de C. Mario — de quem já fora questor, embora depois tenha sido seu inimigo —, ele as espalhou no rio Ânio. Veja com que atos ele estimou que obteria o nome de “Afortunado”!

 

 

II. Munácio Flaco[2]

 

 

Munácio Flaco, um defensor mais ávido do que respeitável do partido de Pompeu, quando foi sitiado por César dentro das muralhas de Ategui, na Espanha, exerceu sua crueldade selvagem da maneira muito truculenta.

Depois de ter matado todos os cidadãos que considerava deveras inclinados a César, jogou-os de cabeça para baixo das muralhas.

Ele também assassinou as mulheres, depois de gritar pelos nomes de seus maridos, que estavam no acampamento de César, para que estes viessem assistir ao massacre de suas esposas.

Nem mesmo poupou as crianças que estavam no colo de suas mães; fez com que alguns dos bebês fossem arremessados contra as pedras e outros fossem empalados em estacas.

Essas coisas, intoleráveis de serem ouvidas, foram realizadas por lusitanos, sob o comando de um romano; bem fortalecido por sua assistência, Flaco resistiu aos trabalhos divinos de César com uma obstinação desesperada.

 

 

III. Aníbal[3]

 

 

Os cartagineses cortaram as pálpebras de Atílio Régulo e, tendo-o encerrado numa pequena caixa de madeira, onde não havia nada além de pregos afiados, fizeram-no permanecer sempre acordado, impingindo-lhe um longo período de dor.

Tal espécie de tormento não era merecido por aquele que a sofreu, embora fosse mais adequado aos que o perpetraram.

Eles empregaram similar crueldade para com os nossos soldados, que foram capturados numa batalha naval. Jogaram-nos sob seus navios, para que, sendo esmagados até a morte pelo peso das quilhas, pudessem satisfazer sua selvageria bárbara, que se manifestava pela incomum modalidade da morte imposta.

 O seu general Aníbal — cuja maior virtude consistia na crueldade —, fez uma ponte sobre o rio Vergelo com os corpos dos romanos e, assim, conduziu o seu exército para que a Terra pudesse experimentar a maldade dos soldados cartagineses, tal como Netuno havia contemplado a barbárie de seus marinheiros.

Os nossos homens, que foram levados como escravos, Aníbal esgotou-os com cargas pesadas e longas marchas e, depois, deixou-os na estrada, com as solas dos pés esfoladas.

Os escravos que levava para o seu acampamento, escolhidos entre os parentes mais próximos que encontrava, eram obrigados a lutar aos pares. E Aníbal não cedia na sua sede de sangue até que apenas um deles saísse vencedor.

Merecidamente, embora o castigo tenha sido demasiadamente postergado, o senado obrigou-o, depois de se ter refugiado junto do rei Prúsia, a suicidar-se.

 

Versão em português de Paulo Soriano, a partir da tradução inglesa de Samuel Speed (1631 – 1682).

 

Notas:



[1] Lúcio Cornélio Sula (138–78 a.C.), militar e político romano.

[2] Lúcio Munácio Planco (90–15 a.C.), político romano.

[3] Aníbal (247 a.C. – c. 181 a. C.), general e político cartaginês.

 

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