LENDAS MACABRAS DO FRANCO-CONDADO - Narrativas Clássicas Sobrenaturais - Xavier Marmier
LENDAS MACABRAS
DO FRANCO-CONDADO
Xavier Marmier
(1808–1892)
Tradução de
Paulo Soriano
Fadas, gênios, sílfides e kobolds[1]
habitam as florestas, os rios, o fundo dos vales verdejantes e os lagos azuis
do Franco-Condado. No planalto de Haute-Pierre, ocasionalmente avistava-se
outra Melusina, um ser meio mulher, meio serpente. É a Vouivre. Ela não tem
olhos, mas tem na testa uma pedra preciosa — uma granada — que a guia, dia e
noite, como um raio de luz.
Quando vai banhar-se nos rios, é
obrigada a deixar essa pedra preciosa no chão. Se alguém consegue apanhar a
granada, poderá comandar todos os gênios e fazer com que estes lhe tragam todos
os tesouros enterrados nas encostas das montanhas. Mas não é prudente tentar a
aventura, pois, ao menor ruído, a Vouivre sai do rio e... pobre daquele a quem
ela encontrar.
Um pobre homem de Moustier — que um
dia a seguira de longe, vira-a depositar a pedra preciosa nas margens do rio
Loue e mergulhar suas escamas de serpente na água — aproximou-se cautelosamente
do talismã sagrado. Mas, no momento em que estendia a mão para tomá-lo, a
Vouivre, que o ouvira, saltou sobre ele, atirou-o ao chão, rasgou-lhe o peito
com as garras e apertou-lhe a garganta para sufocá-lo. Se, naquela mesma manhã,
o infeliz não tivesse recebido a comunhão na igreja de Lods, teria
induvidosamente morrido pelas mãos daquela perversa Vouivre. Mas ele voltou
para casa, com o rosto e o corpo bem machucados, prometendo a si mesmo nunca
mais perseguir a granada.
*
No Franco-Condado, quando uma
mulher deseja tornar-se bruxa, o diabo, para não a assustar, aparece-lhe sob a
forma humana e, abandonando o seu repugnante nome de Belzebu ou Satanás, adota
outro que soe mais agradável, como Vert-Joli, Joli-Bois, Verdelet, Joli etc.
As bruxas são obrigadas a participar do sabá. As feiticeiras da região de
Saint-Claude reúnem-se num campo distante de qualquer habitação e perto de um
lago. Costumam ir lá às quintas-feiras e nas vésperas de grandes festas,
algumas a cavalo, outras montadas em carneiros pretos.
Lá estava Satanás, o monarca do
Infernos, na forma de um bode, ostentando uma vela acesa entre os chifres.
Todas as bruxas são obrigadas a oferecer-lhe uma vela verde e a prestar-lhe uma
cortesia nada agradável. Então, toda a gente enfeitiçada canta, bebe, come,
parodia as orações da igreja e a missa, e a orgia dura até o amanhecer, até a
hora em que o galo canta: sabe-se que o canto do galo tem um grande poder sobre
os espíritos malignos. Às vezes, apenas a alma vai ao sabá. O corpo permanece
imóvel, como se estivesse adormecido; a alma escapa furtivamente e passa a
noite em sua reunião infernal.
Certa feita, um camponês percebeu
que a sua mulher, deitada ao seu lado, não se mexia nem respirava. Em vão, ele
chamou-a em voz alta; em vão, puxou-a pelos braços. Era impossível acordá-la.
Mas, com os primeiros raios do sol da manhã, ela levantou-se, dando um grande
grito. O camponês, deveras perturbado, foi contar a todos o que havia
acontecido. A mulher foi interrogada e declarou que o seu sono profundo se
devia apenas ao cansaço que sentira na véspera, ao trabalhar o dia inteiro nos
campos. Não acreditaram nela e a mulher foi lançada à fogueira.
Durante as noites passadas no sabá,
as bruxas não se ocupavam apenas em beber e comer. Às vezes, havia conselhos
solenes, nos quais Satanás dava aos seus seguidores lições de ciência
cabalística. As bruxas mais velhas contavam orgulhosamente os seus feitos
macabros, e as jovens aprendiam nessa escola edificante. No final da sessão,
Satanás costumava pedir às jovens — recém-alistadas sob a sua bandeira — uma
mecha de cabelo, o que levou a dizer-se que o costume romântico de se usar
pulseiras feitas com madeixas das amadas teria origem no diabo, sendo tais
adornos, talvez, correntes mágicas que aprisionam a consciência.
Fonte:
“Souvenirs de voyages et traditions populaires”, Ed. Paul Masgana, Paris, 1841.
Fizeram-se
breves adaptações textuais.

Comentários
Postar um comentário