O CAVALEIRO SEM ELMO - Conto Fantástico Sobrenatural - Ellen Kusters e Finn Audenaert

 

O CAVALEIRO SEM ELMO

Ellen Kusters e Finn Audenaert

 

PARTE UM: A BUSCA

 

Desde criança eu já sonhava com ele. Ele sempre aparecia entre alguns álamos-trementes pelados. Um homem alto a cavalo que se destacava nitidamente contra o céu negro. Um homem tão forte que escapava da escuridão da noite. Um homem que se parecia com meu pai. Seu hálito se condensava no frio glacial. A espada ao seu lado era maior do que eu mesma. Eu imaginava como ele a puxava e me decapitava com um único golpe. A mão dele ia em direção ao punho. Recuei alguns passos, mas ali senti o chão me sugar. Esse pântano era implacável. Quantas vezes eu já havia me afogado? Voltei rapidamente para o meu lugar.

O cavalo bufou e se moveu com inquietação. Queria me atropelar? Mesmo assim, eu só tinha olhos para o cavaleiro. Eu o via apenas em detalhes, não em sua totalidade. Hálito, espada, mão. Os anéis de sua cota de malha eram incrivelmente pequenos. Eu os via um a um, e também as gotas de sangue que neles cintilavam, até que a cabeça começou a me girar. Então eu sempre acordava sobressaltada do pesadelo e agarrava o cobertor pesado com força. No inverno eu sonhava mais frequentemente com ele… As paredes do quarto pareciam avançar sobre mim. Eu tentava em vão ficar acordada. Mas lá fora do pântano reinava a noite, e aqui ninguém conseguia resistir à sua presença onipresente. Logo o sono me dominava, e antes que eu percebesse, estava de novo diante do cavaleiro. O frio do pântano penetrava imediatamente nos meus ossos. Doía tanto.

Eu contava obsessivamente os pelos de sua barba, castanhos e aqui e ali um tufo de grisalho. Seus olhos azul-aço me encaravam sem compreender. Ele abria a boca. Eu sabia exatamente o que ia acontecer. Ele falava, sem parar. A mão ainda repousava sobre o punho. Eu acenava com a cabeça, me curvava, me ajoelhava e ficava de pé novamente. Nem uma palavra do que ele dizia chegava até mim. Por horas ficávamos um diante do outro, até que meus olhos se fechavam e eu tombava para trás. Eu me deixava levar, para dentro da água.

Quando de manhã minha mãe abria as cortinas com muito barulho, eu acordava bruscamente. “Rina, você está fedendo”, dizia ela, franzindo o nariz. “Você é velha demais para ainda molhar a cama.” Com esforço, eu empurrava para longe de mim o cobertor encharcado e olhava pela janela do quarto além da minha mãe. O sol pálido da manhã não trazia nenhum consolo. Por muitos invernos ainda, a primeira coisa em que eu pensava ao acordar era: oxalá não geie mais amanhã.

 

*

 

Todo mundo ao meu redor conhece as lendas e os contos que circulam sobre a Peel[1]. Sobre como assombra à noite. Eu também, como moradora de Deurne, uma aldeia lindíssima da Peel. Ainda me lembro bem de como a professora nos contava sobre isso. Seus olhos brilhavam quando suas histórias atingiam o clímax e nós a olhávamos fixamente em silêncio absoluto. Era assim o povo que vivia ali: um pouquinho de pavor fazia parte do cotidiano.

Quando meu pai, para minha consternação, nos deixou e foi morar em Eindhoven, à procura de outra mulher, outra família, um pouco de felicidade talvez, minha mãe se filiou ao círculo de história local. “Seu pai estava cansado da vida no campo. Nós precisamos seguir em frente, Rina”, disse ela. E seguir em frente, como entendi muito mais tarde, significava para ela ir para trás: direto para o passado.

Ela estava cada vez menos em casa, fazendo também o que chamava de “trabalho de campo para o círculo”. Então ela vagava pelo pântano. Muitas tardes de quarta-feira eu ficava em casa sozinha. Minha mãe estava presente nas refeições e no ritual da hora de dormir. Neste último ela insistia. “Nosso momento, minha filha.” Então ela me contava sobre o mistério do Elmo Dourado da Peel, sobre o cavaleiro romano e sua busca. Noite após noite, sua história ficava mais pesada, muito mais horrível ainda do que o que a professora nos sussurrava em aula. “Na sua ‘lorica hamata’[2] havia sangue. Baldes inteiros de sangue.” Sentada em frente à cama, minha mãe me educava à sua própria maneira. Ela havia me explicado o que era uma cota de malha. E como se chamava em latim, “essa língua nobre”. “Na escola você não aprende nada. Historietas, sim. Você precisa buscar a sabedoria e a verdade por conta própria. E você precisa ser dura. Dura consigo mesma e com os outros”, dizia ela sempre antes de apagar a luz.

Na manhã seguinte, as cortinas eram abertas novamente com uma puxada.

Ainda sinto náusea com o cheiro de xixi. Quando estou no banheiro, tapo o nariz.

Por muitos anos não vi meu pai. “Ele não quer contato com você”, rosnou minha mãe, quando perguntei pela enésima vez. Com você. Não se tratava então da vida no campo. Quando Tom e eu nos casamos, eu o convidei para o casamento. Tive que mover céus e terra para arrancar o endereço dele dela. A princípio minha mãe tinha alegado que não sabia onde ele morava. Só quando ficou doente, muito doente, ela admitiu. “Ele não vai vir mesmo, Rina.” De fato, meu pai não veio.

Ela não queria perder o casamento, então adiou a operação para logo depois. Tom e eu ainda havíamos proposto casar mais cedo, o mais rápido possível até, mas não: “Agora é a sua vez, minha filha. Se você quer mesmo se casar, se quer confiar em outra pessoa, então faça direito. Cumpra o plano de vocês.” A doença a havia tornado mais branda.

Quatro meses após a operação, ela faleceu. Nunca pronuncie a palavra câncer de pâncreas na minha presença.

Ele estava lá no funeral. Eu o reconheci imediatamente, através das minhas lágrimas, mesmo estando ele lá atrás na igreja. Sua barba era agora branca, mas o homem que eu havia sentido falta por tantos anos ainda estava de pé, ereto. O tempo havia golpeado minha mãe com uma marreta, enquanto meu pai permanecia ileso. Talvez fosse melhor morar em Eindhoven. Talvez seus outros filhos lhe houvessem trazido mais alegria. Ele tinha outros filhos? Eu queria lhe perguntar isso depois da cerimônia. Me soltei de Tom, mas meu pai já havia desaparecido. Corri para fora da igreja e o vi dobrando a esquina.

“Pai”, gritei com a voz falhando e me senti de novo com seis anos. Ele se virou, ficou parado. Não veio em minha direção. A cada passo sentia o peso sobre meus ombros aumentar. O bilhete sobre a mesa, naquele dia fatídico. “Fui embora.” O grito de minha mãe. O círculo de história local. O pântano. Os pesadelos. Meu pai…

Conversamos apenas brevemente. “Preciso ir para casa”, disse ele. E embora eu houvesse reconhecido imediatamente a sua figura, a voz soava estranha, diferente do que eu me lembrava. Mais frágil. “Minha Rientje.” A mão dele foi hesitante pelo meu cabelo, um gesto inesperado para um homem de sua idade.

“Pai, por quê…” As palavras ficaram presas na minha garganta. Eu queria abraçá-lo, mas ele deu um passo para trás.

“Minha esposa não quer, enfim, eu não quero…” Ele também se calou. Atrás de mim ouvi passos. Tom. Ele colocou a mão no meu braço.

“Parabéns”, disse meu pai e apertou a mão do meu marido.

Comecei a chorar. Tom me acolheu nos braços. Nós três ficamos encostados na fachada da casa em frente, como se o golpe só chegasse agora. Minha mãe estava morta.

Eu queria saber tantas coisas. Mas fiz apenas perguntas banais, sem ideia de como isso acontece. A dor deforma tudo, talvez seja isso mesmo.

“Você veio de carro?”

É claro que ele havia vindo de carro.

“Você ainda precisa trabalhar hoje?” Senti Tom apertar minha mão.

Meu pai sacudiu a cabeça. “Para isso, trabalho longe demais de casa.”

Eu o encarei.

“Leiden. O Museu Nacional de Antiguidades. E outros lugares.” Esfregou um sapato no outro. “Membro do conselho.” Deu de ombros, como se precisasse se desculpar.

Sim, pensei eu, ele precisava se desculpar. Mas não por isso. “Você tem outros filhos?”, perguntei, em voz mais alta.

Ele piscou os olhos, por tempo demais. “Preciso ir”, disse. “É melhor que não nos falemos.” Procurou no bolso do colete do terno, que estava justo em torno de sua barriga, e tirou um cartãozinho. Por um momento pareceu hesitar. “Não me ligue. Me mande um e-mail.” Então se virou e foi embora. Assim, do nada. Como se ele tivesse esse direito.

Eu queria correr atrás dele, mas Tom não me soltou. “Acho que não é uma boa ideia. Já foi um dia muito pesado.” Tive que lhe dar razão.

 

*

 

Naquela noite, os sonhos recomeçaram. Só por volta dos meus dezesseis anos eles haviam parado — exceto minha mãe, ninguém sabia deles — e agora, mal oito anos depois, eu estava de novo diante do cavaleiro alto no pântano. Ele havia engordado um pouco, sua lorica hamata estava apertada em torno de seu corpo. Tão apertada que havia mais gotas de sangue nela do que antes. Eu contava os pelos de sua barba agora branca. Ele estava lá de novo. Eu também.

E ele falava. Desta vez, porém, eu o ouvia. “Onde está meu…” Não entendia mais, pois acordei sobressaltada. Ao meu lado, Tom estava sentado ereto na cama. “O que é isso?”, disse ele. Um cheiro familiar emanou do cobertor. Isso não podia ser verdade. De jeito nenhum.

 

*

 

A princípio tive o pesadelo a cada dois dias. Depois toda noite. Eu sempre acordava no mesmo momento. Ele estava procurando seu elmo, só podia ser. Cada vez exatamente o mesmo sonho, o que ia me entorpecendo. Na minha infância as imagens também haviam sido assustadoras, mas havia variação nelas. De uma maneira estranha, naquela época eu havia sido mais livre no pântano dos sonhos. Agora estava tão cansada da repetição interminável que o médico me afastou do trabalho. Remédios para dormir mal funcionavam. Um despertador para ir ao banheiro não ajudava. Oxibutinina, um medicamento para reduzir a micção, também não. Coloquei uma capa plástica no colchão, além disso não quis ir. Eu tinha vinte e quatro anos, não usaria fralda.

Antes que eu percebesse, três meses haviam se passado. Tom e eu decidimos dormir separados, “até que isso passe”. Não me lembro mais se foi ele ou eu que formulou assim. De qualquer forma, o quarto parecia vazio sem ele. E quando acordava no meio da madrugada, as paredes avançavam sobre mim de novo, exatamente como antes. Assim não dava para continuar.

 

*

 

Numa manhã chuvosa, abri o laptop. Tom já havia saído para trabalhar. Ele estava saindo cada vez mais cedo para o escritório. Assisti a alguns vídeos de gatos, puro adiamento, e visitei pela centésima vez a página da Wikipédia sobre o Elmo da Peel. Claro que não havia nada de novo lá. Meus olhos percorreram as palavras conhecidas. Elmo de prata dourado. Século quarto depois de Cristo. A essa altura eu já sabia a maioria das frases de cor. Eu estava exausta, e pensar estava difícil nos últimos tempos, mas não tinha como ser de outra forma: o cavaleiro do meu sonho estava procurando seu elmo, não era? O elmo que um tal de Gebbel Smolenaars[3] havia encontrado em Helenaveen, segundo esse artigo, uma aldeia perto daqui, pouco mais de um século atrás. Tinha que ser o elmo. O resto do seu equipamento estava completo. Sua espada, sua cota de malha, sua túnica — eu via tudo tão claramente.

Fechei a página e abri minha caixa de e-mail. A primeira página era composta em grande parte de mensagens não lidas. Eu as apaguei uma a uma sem olhar o assunto e, após uma leve hesitação, abri uma nova janela. Um suspiro me escapou. Será que desta vez eu realmente faria isso? Com dedos terrivelmente lentos, digitei o endereço do cartão de visita: martvandeven@rmo.nl. O endereço comercial me deu arrepios. Eu era agora uma cliente do meu pai, um contato profissional? Membros do conselho tinham clientes afinal? Quem eu era para ele? Apesar dessa desconcertante extensão rmo.nl, cada tecla pressionada parecia uma intrusão na privacidade dele.

Num impulso, tirei os dedos do teclado, como se tivesse me queimado nele, e fiquei olhando para a frente. O verde ondulante de Deurne além da janela me acalmou lentamente. Ainda bem que Tom e eu continuamos morando na Peel. Eu não podia desistir dele, de Tom, e ele de mim. Mal tínhamos meio ano de casados. Olhei de volta para a tela do laptop. Por que eu estava me preocupando com a privacidade do meu pai? Afinal, ele mesmo me havia dado o cartão. “Me mande um e-mail”, havia dito. Soou como uma concessão tímida. Eu ia aceitá-la mesmo assim. Uma vez que comecei a escrever, não conseguia mais parar. Digitei até meus dedos doerem.

Só tarde da noite, após o jantar, no qual Tom e eu, apesar dos meus esforços, não fomos além de lugares-comuns, peguei meu celular. Meu pai havia respondido.

 

“Rina, Encontrar-nos é complicado. Carla não quer, e eu não quero fazer nada pelas costas dela. Ela está tendo muita dificuldade porque o filho dela se mudou este ano para a Costa Rica por amor. Você é jovem, sabe como é isso. Carla quer que eu esteja perto.”

 

Larguei rapidamente o celular no sofá. As lágrimas brotaram em mim. Você é jovem, sabe como é isso. Para o meu casamento ele não havia vindo mesmo assim. Mas, como me lembrei a mim mesma, meu pai estava falando comigo agora, ainda que por e-mail. Ele tinha uma vida própria. Claro que tinha uma vida própria, com pessoas que eu não conhecia. O filho dela. Não meu meio-irmão? Engoli com dificuldade. O que eu queria afinal dele? Poderíamos recuperar os anos perdidos algum dia? Ouvi Tom mexendo na cozinha. Ele ficava com fome o dia todo. Era um daqueles pequenos traços pelos quais eu havia me apaixonado por ele. Achava isso adorável. Antigamente.

“A sobremesa acabou”, gritei, mais alto do que pretendia.

“Tudo bem”, soou da cozinha. Enxuguei as lágrimas e li o resto do e-mail. Meu pai escreveu sobre seu trabalho, suas responsabilidades, e lá no final, como se tivesse hesitado em mencionar o assunto, estava o seguinte:

 

“Sim Rientje, pesadelos são ruins. Quando criança eu sofria muito com eles. Eu também vagava às vezes pelo pântano no escuro absoluto. Bom, às vezes. Com bastante frequência, na verdade. E esse negócio de molhar a cama… É muita coragem você me contar isso. Esse cavaleiro, eu ainda o vejo tão claramente depois de todos esses anos. Ele se parecia com seu avô, sabia. Por isso acho muito especial que tenhamos o Elmo Dourado da Peel na coleção do RMO[4]. Com toda honestidade, mas isso você deve guardar para si, essa é a razão pela qual eu estava de olho naquele cargo. Tenho trabalho suficiente, mas queria muito ter esse também.”

 

Respirei fundo com susto. Meu pai havia respondido à minha pergunta sobre o elmo, e de forma detalhada. Claro que na minha primeira busca eu já havia descoberto que o Elmo Dourado da Peel estava guardado no RMO. Mas o que ele escreveu foi a última coisa que eu esperava. Ele havia tido o mesmo sonho! Assim começou nossa correspondência, que foi se tornando cada vez mais volumosa. Com cada vez mais frequência falávamos sobre o cavaleiro, exclusivamente sobre o cavaleiro. Será que achávamos um assunto seguro? Algo íntimo, algo que era só nosso, sem que precisássemos falar sobre as vidas um do outro…

Então pensei nas histórias que minha mãe me contava na hora de dormir quando eu era criança. Será que meu pai havia lhe contado sobre seus pesadelos naquela época? Teria sido por isso que ela, após a partida dele, ingressou no círculo de história local? Será que queria assim ficar próxima a ele, sem que eu percebesse? “Seja dura consigo mesma e com os outros.” Foi assim que ela disse, não é? Essas palavras soavam vazias agora. Talvez ela tivesse repetido essa frase tantas vezes para se convencer de que essa era a maneira certa de lidar com a perda. Uma maneira melhor do que a que ela mesma havia escolhido.

Tive uma intuição e visitei o site do Museu Nacional. Sob o título “conselho de administração”, ao lado do nome do meu pai, estava o ano em que ele havia ingressado no cargo. Era o mesmo ano em que ele havia deixado minha mãe e a mim.

 

PARTE DOIS: O ACHADO

 

A noite foi passando devagar, mesmo assistindo à minha série favorita na Netflix. Se normalmente recebo uma mensagem de vez em quando à noite, hoje parece que todo mundo se esqueceu da minha existência. Já faz tanto tempo que estou fora do escritório, claro. E não respondo meus e-mails. Assim as amizades se desfazem. Não guardo rancor de ninguém.

A espera se arrasta e se arrasta. Comi sorvete depois do jantar, duas porções até — isso é permitido no inverno também, não é? É só nervosismo. E tudo para tornar essa espera suportável. Esta noite vai acontecer.

Tom foi embora anteontem. Um bilhete sobre a mesa — você acredita nisso? De novo. Vanja é o nome dela. Ele foi tão sutil a ponto de escrever o nome dela. Homens e seus bilhetinhos covardes! No resto do papelzinho não havia muito. Que ele nunca voltaria. Que eu estaria melhor sem ele. Que tínhamos dado o nosso melhor. O nosso melhor.

Enquanto lia, pensei nos braços dele ao meu redor. Aquele primeiro beijo no terraço do De Meidoorn, quando ele não ligou para ninguém e podia deixar todo mundo ver o que sentia por mim. Os braços dele ao meu redor na valsa de abertura. E como ele me acolheu nos braços quando eu havia ido em direção ao meu pai, lá na frente da igreja. Vanja, que nome feio. Achei que Tom só fazia bagunça na cozinha. Mas não, aparentemente também no escritório.

Meus olhos ficam úmidos quando penso nisso, mas que se dane. Com um gesto brusco, enxugo as lágrimas do rosto. Chega de impotência. Chega de ser atropelada pelos acontecimentos. Chega do rolo compressor que é a vida.

Ontem sonhei de novo. Claro. Tenho esse sonho infernal todas as noites. Mas desta vez acordei um segundo mais tarde do que de costume. E isso mudou tudo.

“Onde está meu… onde está meu filho?”

Foi o que o cavaleiro disse, e na última palavra ele havia feito menção de descer do cavalo. Nada de elmo. Meu filho.

Acordei gritando. “Aqui, aqui”, acho que gritei. Não tenho mais certeza. Alcancei o celular na mesinha de cabeceira e mandei um e-mail para meu pai. Se tivesse o cartão de visita à mão, teria ligado para ele. Isso teria sido imprudente. Será que ele teria atendido? Acho que não.

“Venha amanhã à noite às dez para a meia-noite a Helenaveen”, leio de novo na telinha do meu celular. “Confie nos meus sonhos de antes.”

E então a mensagem que chegou dez minutos depois da primeira. “Nos meus sonhos de agora.”

Foi isso que meu pai respondeu, nada mais. É suficiente. Se quero saber mais, há apenas uma possibilidade. Um arrepio se espalha pelo meu corpo só de pensar em ir sozinha àquele lugar. Como vou saber exatamente onde devo estar? A região de turfa perto da aldeia é grande. Vou reconhecer o local onde vejo o cavaleiro nos meus sonhos?

Talvez sobre isso eu não precise me preocupar muito. Cada detalhe está gravado na minha retina. O pequeno bosque de álamos-trementes. A grande lagoa à esquerda do cavaleiro e do cavalo. O capim alto que termina abruptamente, em diagonal à minha frente. Mas primeiro preciso chegar lá… Ou devo estar na própria Helenaveen? Meu pai não escreveu nada sobre o pântano.

De qualquer jeito eu não sou heroína, muito menos alguém que caminha à noite pela Peel. Isso seria algo que eu normalmente jamais faria. Algo em mim diz que devo deixar para lá. Mas esse é o eu antigo. O eu que se deixava influenciar por histórias para dormir. O eu que não viu que estava sendo traído. O que tenho a perder? Quem além de mim estará no meio da noite na minha região? Nenhuma pessoa de juízo se aventura na área da Peel, da qual se sabe que fantasmas rondam depois da meia-noite. Quem vou encontrar lá então? Vejo apenas duas possibilidades. O cavaleiro? Meu pai?

Finalmente soa o alarme que programei no meu celular. Visto rapidamente o moletom preto que está pendurado no cabideiro e coloco o capuz sobre a cabeça. Por cima visto um colete grosso para manter o frio do inverno do lado de fora. Uma lanterna extra caso a função lanterna do meu telefone não dê luz suficiente. Botas altas de chuva para poder me mover na área pantanosa. Estou louca? Não, estou preparada.

Às onze horas parto, é apenas uns quinze minutos de carro até Helenaveen. Tempo suficiente depois para encontrar o lugar certo? Sem ideia. Posso andar por lá três horas e não achar nada. No meu carro ainda tenho uma sensação de segurança, embora essa vá desaparecendo para o fundo a cada quilômetro. Isso vai realmente acontecer… Liguei o aquecedor bem alto e o volume do rádio também. Por enquanto estou protegida no meu casulo móvel. Está tranquilo na estrada, o que faz sentido dado o horário. O último quilômetro parece se estender infinitamente à minha frente e isso de alguma forma me dá um bom sentimento. Estranho, como primeiro em casa a espera me era insuportável, e agora eu saboreio esses momentos antes do confronto.

O estacionamento do supermercado do bairro está vazio, como eu já esperava. Há uma névoa leve rente ao chão. Um presságio do que está por vir? Um arrepio percorre minhas costas, embora esteja sufocando de calor no meu carrinho. Tremendo, pego a maçaneta, empurro a porta com cuidado e saio. As gotas de suor na minha testa parecem frias e o calor que eu havia sentido há pouco dá lugar a um frio intenso. Inverno. A minha vida inteira parece ser feita de inverno. Onde foram parar as outras estações? Tudo em mim grita para eu dar meia-volta, mas continuo caminhando. Não, eu antigo, desta vez vou persistir.

A iluminação pública de Helenaveen não está funcionando. Estranho. Aperto com a mão direita a lanterna e com a outra seguro firmemente meu celular. Um feixe de luz aparece à minha frente e torna um pouco mais fácil ver onde estou. Nuvenzinhas saem da minha boca a cada inspiração. A aldeia parece deserta. Nem dez e meia ainda e atrás de nenhuma janela há luz acesa. Mesmo para os padrões da Peel, esta é uma aldeia profundamente adormecida. Uma sensação horrível me invade. Por onde quer que eu caminhe, não vejo nada de especial. Não, a solução não está aqui. Preciso entrar no pântano. Dez para meia-noite, foi o que meu pai escreveu. É melhor que eu me apresse.

Quando deixo as últimas casas para trás, o chão sob meus pés já fica rapidamente encharcado. As solas das minhas botas desaparecem fundo no capim e a cada passo ouço um som de sucção. Minha frequência cardíaca sobe quando o chamado de uma coruja do mato abafa o barulho de chupar.

No estreito feixe de luz da minha lanterna, a paisagem da Peel parece assustadora. Tudo o que vejo parece mais retorcido, mais caprichoso… mais perigoso. Os galhos sem folhas de um carvalho parecem se dobrar em minha direção embora não haja vento. Algo range sob meus pés. Sigo em frente rapidamente. Ainda não reconheço o lugar dos meus pesadelos.

Paro e olho ao redor. Para qual direção devo ir? Meus pensamentos são interrompidos quando um som estridente rasga o silêncio. O que é… Oh, havia programado um alarminho. Doze para meia-noite, vejo na telinha. Quando olho para cima, preciso piscar os olhos. Um brilho rosado desliza sobre o capim alto em minha direção. Primeiro ainda opaco, depois cada vez mais intenso. Com a mão rígida, desligo o alarminho. Respirar, preciso continuar respirando. Quando o brilho alcança meu rosto, deixo cair o celular no chão. Ouço um barulho abafado.

Sinto um cheiro familiar. Um cheiro de animal. Achei o lugar certo? O brilho agora é tão intenso que a região se ilumina fortemente. À minha frente distingo os contornos de uma figura conhecida. Um homem grande a cavalo. Atrás dele vejo os topos pelados de alguns álamos-trementes. Olho rapidamente para a esquerda. Lá está a lagoa. Mas por que ainda estou olhando ao redor? Ele. Está. Na. Minha. Frente.

É como no sonho, e mesmo assim diferente. Meus olhos disparam para a espada dele. A mão não está sobre ela. Ainda não. Se ele fizer menção de assim proceder, aperto com firmeza a lanterna pesada. É melhor estar preparada para tudo. Mas não, ele desce do cavalo.

“Onde está…” Aquela voz aguda, um som que parece ter séculos.

“Onde está meu filho?” continuo sem fôlego.

“Você me ouve!” Onde há pouco eu via resignação em seu rosto, agora vejo espanto genuíno. Ele já viveu esse encontro tantas vezes quanto eu? Quase certamente.

O cavalo relincha inquieto.

“Calma”, fala o cavaleiro a ele e bate suavemente no pescoço do animal. E então, para mim: “A mudança é difícil. Para homem e animal.”

Ele fica em silêncio, eu fico em silêncio. Bem quando ele abre a boca, me vem à mente a pergunta dele. Como eu pude algum dia esquecê-la? “Você quer… quer dizer eu?” Minha voz sobe estranhamente na última palavra. Neste exato momento sinto que não tenho mais família. Meus pais não quiseram um irmão ou irmã para mim, meu pai me abandonou, o câncer levou minha mãe de mim. E Tom foi embora. Se eu pudesse, esmagaria a lanterna até virar pasta. O aço frio permanece, porém, indiferente sob minha pressão.

Por um instante seu lábio treme. “Quero dizer vocês todos.”

Todos? Não entendo. Olho para a espada dele, para a cota de malha, para a túnica, em busca de respostas que ele não me dá. Não estou no lugar combinado? Não cumpri minha parte no acordo… — o acordo com meu pai! Bem quando me pergunto com quem combinei via mensagem, uma figura se desprende dos álamos-trementes em diagonal atrás do cavaleiro. Primeiro vejo aparecer no brilho os sapatos, com uma mancha em cima. Depois uma barriga redonda com uma camisa apertada em torno dela. A barba branca emerge na luz. “Pai!”

Ele acena com a cabeça, assim como o cavaleiro.

“Você encontrou o lugar”, diz meu pai.

“O lugar a encontrou”, corrige o cavaleiro. Os dois estão agora cada um de um lado do cavalo, que não se move.

“Já sonhamos o suficiente? E sofremos o suficiente?” A voz de meu pai soa tão frágil quanto depois do funeral.

O cavaleiro aponta para mim. “Ela sim. E com ela, vocês todos.”

Enquanto ele continua falando, dezenas de figuras adentram o brilho rosado. Meu pai solta visivelmente uma inspiração brusca. “Este é o momento”, diz ele. A voz some.

Todos eles entram entre os álamos-trementes, vadeiam pela lagoa à nossa esquerda e abrem caminho pelo capim alto à direita. Também atrás de mim ouço passos. Muitos passos.

“Sou Marcus Cornelius Maximus, oficial da sexta unidade de cavalaria”, diz o cavaleiro. Sua voz me soa mais firme do que jamais antes. “Perdi aqui meu elmo e…”

Meu pai acena com a cabeça vigorosamente. “Nós o encontramos.”

Com um gesto da mão, o cavaleiro o interrompe. “Não se trata do elmo, você já deveria ter entendido isso. Perdi aqui a vida, mesmo que vocês não tenham encontrado meus restos mortais. Camaradas do exército me enterraram em outro lugar, num lugar mais nobre do que este campo de batalha. Lutei neste pântano contra os rebeldes de Licínio.”

Meu pai parece reconhecer o nome. Falar, porém, ele não faz mais. Nem olha mais para o cavaleiro. Seu olhar percorre o círculo que se formou ao nosso redor. Pessoas de todas as idades, vestidas com roupas de períodos diferentes.

Então cai a ficha para mim. “Seus descendentes.” Minha família.

O cavaleiro dá um passo à frente e coloca a mão sobre meu ombro. “A vida é uma crueldade”, diz ele, “e às vezes a morte traz libertação. Mas eu me debati no túmulo. Minha esposa estava grávida quando eu morri. Não vi meu filho crescer, mas minha vontade era mais forte do que a morte. Um dia eu veria meu filho, mesmo que levasse séculos.”

O círculo se fecha. Um passo mais perto, dois passos. Sinto o calor dos seus corpos. Agora que vejo seus rostos, distingo traços conhecidos. Pessoas que se parecem com meu pai. Outras mais com meu avô, a quem conheci apenas brevemente.

“Senti o sofrimento de todos os meus filhos”, prossegue o cavaleiro. Por um instante a voz treme. “Nós passamos por muito.” Ele olha ao redor. “Em determinado momento isso acaba.” O olhar pousa sobre mim. “Acaba em você.”

Engulo em seco e penso em tudo o que aconteceu. As histórias aterrorizantes, os pesadelos, o xixi, a partida do meu pai, a morte da minha mãe. E…

“Sim”, parece ele adivinhar meus pensamentos, “aí foi demais. Não acredito que ele voltará para você. Meu corpo inteiro virou dor quando percebi o que você estava passando. Meu cadáver sacudia e tremia, raspava até sangrar no chão.” Aponta para a cota de malha, onde vejo as gotas vermelhas conhecidas. São ainda mais do que de costume.

Alguém me abraça. Olho para a minha esquerda. Minha bisavó talvez. Ou minha trisavó. Um homem estende a mão para meu pai. Poderiam ser gêmeos.

“A dor ficou tão intensa”, diz o cavaleiro, “que enviei uma mensagem. E ela tinha que vir da única pessoa em quem você acreditaria. A única pessoa em quem você iria querer acreditar.”

Meu pai. Claro, quem mais?

“Para mim também foi um choque”, diz meu pai, constrangido. “Quando ouvi pela primeira vez ele dizer algo diferente no pesadelo, soube que você iria me contactar.”

Ficamos ainda por muito tempo. Não uns de frente para os outros, como no sonho recorrente. Não, nos abraçamos, um a um, e depois todos juntos. Um grande grupo cujos corações batem ao mesmo tempo. Eu os sinto, eles me sentem. Esta é verdadeiramente a família.

Quando clareia, o brilho se apaga. “Preciso ir”, sussurra o cavaleiro. O cavalo bate impaciente no chão.

Sinto um nó na garganta, mas entendo. Talvez Marcus Cornelius Maximus encontre agora também seu descanso. Olho para o rosto dele e vejo lá a confirmação da minha suposição. Ele se vira e conduz o cavalo para longe, em direção ao bosque de álamos-trementes. Um a um, meus ancestrais se viram. Alguns passos adiante se dissolvem no nada. No final, apenas meu pai e eu ficamos. Mas isso é suficiente. Nós nos encontramos.

Em silêncio, voltamos a pé para Helenaveen. Na rua caminham pais e filhos. A aldeia está cheia de vida. E meu coração também.

 

Ellen Kusters é holandesa, tem 50 anos e formou-se na Schrijversacademie em 2019. Sua primeira autobiografia (“Era uma vez... uma professora”) foi reeditada em 2024 pela editora Droomvallei Uitgeverij com o título “Leven na een burn-out”. Além disso, ela tem vários e-books YA em seu nome (4 publicações solo e 1 em parceria), editados pela HIP Publishing. Também escreveu várias histórias publicadas em diversas coletâneas. Ela gosta muito de fantasia YA sobrenatural, embora também goste de escrever histórias de suspense, terror e feel-good.

 

Finn Audenaert (1977, Gante) escreve ficção científica, fantasia, terror, realismo mágico e autoficção. Compila antologias e é editor para várias editoras de língua neerlandesa. Entre outras obras, publicou a antologia “Recortes do Kosmoheraut”. Escreve também sob o pseudónimo Marius Vahlkamp (romance “A Felicidade, o manual definitivo”).

 

Notas:

 


[1] Peel é uma vasta região do sudeste dos Países Baixos, localizada na fronteira entre as províncias de Brabante do Norte e Limburgo.

[2] Cota de malha.

[3] Enquanto cortava turfa numa fazenda, Gabriël (Gebbel) Smolenaers (1878-1930) realmente encontrou, no ano de 1910, um capacete romano de prata dourada, realizando, assim, uma das descobertas arqueológicas mais importantes do século XX na Holanda.

[4] Abreviatura do Museu Nacional de Antiguidades de Leiden.

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