O ESPELHO DE PRATA - Conto Clássico Sobrenatural - Arthur Conan Doyle
O ESPELHO DE
PRATA
Arthur Conan
Doyle
(1859 – 1930)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
Janeiro,
3.
— Este exame de contas de White & Wotherspoon promete-me um labor
formidável. Vinte enormes registros a detalhar e a necessidade absoluta de
entregar minhas conclusões até 20 do corrente, para que os juízes possam
estudá-las antes do processo. Divido meu dia de trabalho em duas partes: uma,
das 10 da manhã às 5 da tarde e, a segunda, de 8 da noite a 1 hora da madrugada
e, assim, concluirei em tempo, se o esforço não exceder do que se pode esperar
do cérebro e dos nervos de um homem.
Janeiro, 6. — Os médicos
são sempre os mesmos: prescrevem o repouso, justamente quando nos achamos de
tal maneira ocupados que nos é impossível dispor sequer de um minuto. Necessito
entregar meu trabalho na data fixada ou perderei a única oportunidade de minha
carreira. Repousar-me? Tolice! Oferecer-me-ei uma semana de férias quando
terminar o processo.
Sem dúvida, fui um tolo em consultar o médico;
mas quando trabalho só, à noite, todos os meus nervos se crispam; sinto o cérebro
escaldar-me e nuvens dançam-me diante dos olhos. Quanto a interromper meu
trabalho, sei que um pouco de brometo ou cloral pode aliviar-me, mas prefiro
trabalhar obstinadamente, na certeza de que esse mal-estar passará. Já examinei
dois registros e passo ao terceiro. O pândego sabia como disfarçar seus roubos,
mas isso não impedirá que eu os descubra.
Janeiro,
9.
— Não pensava ter que voltar ao médico, mas fui forçado. “Trabalha demais,
disse-me ele; arrisca um esgotamento nervoso, comprometendo sua saúde!” Não
importa, persisto, aceitando os riscos. Enquanto puder segurar a caneta, hei de
perseguir esse ladrão! Mas é o caso de contar o que me obrigou a rever o médico
e quais os fenômenos que me assaltam e que, em sua expressão, se prestam
bastante a um “curioso estudo psicofisiológico”. Desejo notá-los, enquanto
frescos; será um meio de esquecer um pouco estas intermináveis cifras.
Possuo
em meu quarto um velho espelho que enquadra uma moldura de prata, presente de
um amigo que, apreciador de antiguidade, o adquirira num leilão, ignorando a procedência.
É um objeto de dimensões regulares: dois pés de altura por três de largura. Da
mesa em que escrevo, vejo-o refletir, acima da cômoda onde se acha pendurado,
as cortinas vermelhas da janela. Mas, esta noite, passou-se um fato singular.
Eu já trabalhara algumas horas, apesar de sentir a vista completamente turva, o
que me obrigava a parar, de vez em vez, para esfregar os olhos. Num desses
intervalos, olhei, por acaso, o espelho e fiquei estupefato: as cortinas
vermelhas que nele refletia tinham desaparecido. Parecia velado por uma nuvem
que pairava, não na superfície, que brilhava como aço, mas no fundo, no próprio
seio da matéria. Essa nuvem começou, em certo momento, a balançar-se de um para
outro lado, começando depois a ondular em espessas espirais de fumaça. E isso
de maneira tão real que me obrigou a virar-me para ver se, atrás de mim, as
cortinas haviam se incendiado. Mas uma tranquilidade absoluta reinava no
quarto; nenhum barulho, além do tique-taque do pêndulo; nenhum movimento, senão
o giro daquele estranho vapor no coração do espelho. E como eu continuava a
observar, esse vapor, essa nuvem — o nome pouco importa —, essa fumaça começou
a condensar-se em dois pontos perfeitamente próximos; e vi, com mais
curiosidade que medo, dois olhos que espiavam o quarto. A cabeça, que era de
mulher, a julgar pela cabeleira, apenas desenhava-se; bem, eu só distinguia os
olhos — pretos, luminosos e cheios de horror ou fúria, não sei explicar.
Levantei-me e, passando a mão pela fronte, fiz um violento esforço para
dominar-me: a sombria cabeça começou a sumir-se e o espelho, clareando
lentamente, refletiu de novo as cortinas.
Janeiro,
11.
— Tudo vai bem. Malha por malha, apronto a rede em que segurarei o meu patife.
Mas como ele riria, se meus nervos viessem a ceder. O espelho faz-me o efeito
de um barômetro marcando a minha pressão cerebral. Notei que, cada noite, ele
se vela antes que eu termine a tarefa diária que me impus.
O
doutor Sinclair interessou-se tanto pelo que lhe contei que veio, há pouco,
examiná-lo. Encontrou, no verso da moldura de prata que percorreu com uma
lente, uma velha inscrição, Sanc. X Pal., que não soube explicar. Aconselhou-me
a transportar o espelho para outro quarto, acrescentando que o que vi não passa
de um fenômeno sintomático, perigoso apenas no começo. O que eu devia pôr de
lado não era o espelho e sim os registros, se fosse possível. Eis-me no oitavo.
Janeiro,
13.
— Antes houvesse mudado o espelho. Passou-se esta noite um fato tão
extraordinário e misterioso que desejo consigná-lo imediatamente. Era uma hora
da manhã e, fechando os livros, morto de fadiga, ia deitar-me quando, diante de
mim, vi a mulher. Sem dúvida, passara-me desapercebido o período de fumaça e de
evolução. A imagem tinha, embora pequena, tal nitidez que cada traço da fisionomia,
cada detalhe do vestido ficou-me gravado na memória. Vejo-a no lado esquerdo do
espelho. Uma silhueta confusa, em que julgo discernir um homem, vem apoiar-se
contra ela; atrás, numa nuvem, há formas que se movem. Não é uma simples cena
que contemplo, mas um drama real. A mulher retrai-se, tremendo; o homem, a seu
lado, cai, de repente, enquanto as formas, em movimento, têm gestos bruscos. A
curiosidade de que me possuo abafa o medo. Vou descrever a mulher em seus mínimos
detalhes: muito bela, jovem — 25 anos presumíveis —, tem cabelos de um castanho
dourado. Sobrancelhas delicadamente arqueadas encimam dois olhos grandes e sombrios,
onde a emoção tocaria as raias do delírio, se a cólera e o medo não se
chocassem contra a altivez de uma alma que ainda quer dominar-se. Sentada, com
o tronco como que impelido para a frente, traz um vestido de veludo preto;
sobre o peito, brilhava-lhe uma joia, e uma cruz de ouro quase desaparecia à sombra
de uma prega. Sim, ei-la bem, tal qual o velho espelho de prata a ressuscitou.
Que cena atroz se imprimiu nele, outrora, e de que maneira, para que um homem atual
possa distingui-la, depois de séculos, talvez? Outro detalhe: há, sobre a saia
de veludo, preto, uma mancha que tomei, à primeira vista, por um laço de fita
branca; mas, como olhasse mais firmemente ou que a visão se definisse melhor,
descobri que era a mão de um homem, contrastada pelo desespero, e que agarrava
o vestido, convulsivamente. O resto do corpo perdia-se no vago, mas a mão,
destacando-se em claro sobre o fundo sombrio, tomava uma expressão trágica. O
homem tem medo, um medo louco. Distingo-o facilmente... Mas donde lhe vem esse
terror? E porque agarra-se ao vestido da mulher? Explicam-me os personagens do
segundo plano, que o ameaçam. Hipnotizado, eu olhava, olhava sem cessar, quando
tudo se toldou em movimentos tumultuosos e o espelho retomou sua transparência.
O
doutor aconselhou-me um descanso de vinte e quatro horas que aproveito, pois
que adiantei bastante meu trabalho estes últimos dias. Sem dúvida, essas visões
dependem unicamente de meu estado nervoso: fiquei esta noite contemplando o
espelho por mais de uma hora e nada vi. Um dia de repouso foi o bastante para
recolocar tudo em seus eixos. Há pouco, examinei-o longamente e descobri, além
da misteriosa inscrição, certos sinais heráldicos apenas visíveis sobre a prata
da moldura. Pareceu-me reconhecer três ferros de lança, dois em cima e outro
por baixo. Mostrá-los-ei ao médico, se vier amanhã.
Janeiro,
15.
— Três noites sem incidentes; o repouso aproveitou-me, mas tenho que adiantar
meu trabalho a marchas dobradas. Os homens da lei apressam-me, necessitando dos
documentos.
Janeiro,
18.
— Dores de cabeça, vertigens nervosas, vista turva... eis os sintomas de um mal
que não tardará. Esta noite revi, mas muito mais clara, a cena do espelho. O
homem que caíra aparecia, desta vez, tão visível quanto a mulher a cujo vestido
se agarrava. Moreno, com uma barba em bico, era de pequena estatura e vestia um
roupão de damasco guarnecido de peles. Que medo ele tem! Sua mão livre segura
um pequeno punhal, mas ele treme demais e, além disso, sua posição não lhe
permite usá-lo. Começo a discernir melhor os personagens do segundo plano:
rostos barbudos e cruéis emergem da bruma. Ha um — terrível — de faces
encovadas, espécie de esqueleto que também empunha um punhal. À direita da
mulher, de pé, há um homem jovem, alto, cabelos cor de linho, fisionomia dura e
sombria. Aquela e o indivíduo que se arrasta por terra, aproximando-se-lhe
ainda mais, dirigem-lhe olhares suplicantes. Mas o moço alto, debruçando-se,
quer separar da mulher o homem caído. Nisto, o espelho torna-se límpido, antes
que a visão continue. Saberei jamais o fim e o princípio deste drama que, tenho
a convicção, se desenrolou algures e o velho espelho refletiu? Mas quando e
onde?
Janeiro,
20.
— Um trabalho termina-se, mas a tensão cerebral e a fadiga de que me sinto
tomado anunciam-me o limite da surmenage. Preciso, esta noite, num supremo
esforço, fechar o último registro e terminar minhas conclusões.
Fevereiro,
7.
— Que acontecimento, santo Deus! Terei ainda forças para contá-lo? Escrevo isto
na casa de saúde do Dr. Sinclair. As últimas linhas de meu diário datavam de três
semanas. Na noite de 20 de janeiro, meu sistema nervoso cedeu, de repente, e de
nada mais me recordo até o momento em que, há três dias, despertei neste lugar
de repouso; mas posso descansar tranquilo, pois só sucumbi uma vez a tarefa
acabada. Mas voltemos a essa noite decisiva em que havia jurado terminar meu
trabalho. Em vão a cabeça parecia querer estourar-me — só levantei os olhos
quando cheguei ao fim da última coluna. Belo exemplo de força de vontade, pois
todos os meus nervos me gritavam que, no espelho, se passavam coisas
prodigiosas; mas fui até ao fim e, encerrando o derradeiro registro, pude, com
o coração aos pulos, alçar a vista. Que espetáculo! O espelho, em seu quadro de
prata, cintilava como um enorme brilhante; meus nervos esgotados criavam essa
claridade maravilhosa. Nenhuma bruma mais: cada traço, cada gesto, tomava um
relevo extraordinário. Eram sempre, na mesma cena, os mesmos personagens, mas o
drama parecia ter avançado um passo. O moço alto segurava a mulher em seus
braços. Tinham obrigado o homem caído a largar seus vestidos. Uma dúzia de
pessoas de aspecto feroz cercavam-no, crivando-o de punhaladas e todas elas
pareciam ferir ao mesmo tempo. Eu distinguia perfeitamente as mãos
levantaram-se e caírem em cadência. O sangue não corria, mas esguichava das
feridas. Era horrível!
Os golpes redobravam e mais sangue ainda! Arrastavam então o homem, à força, até a porta. A mulher seguia-o com os olhos, um pouco virada e com a boca aberta. Eu nada ouvia, mas sabia que ela gritava. Então, ou porque essa cena me torturasse os nervos ou porque, meu trabalho terminado, faltasse a mola que o sustinha, senti o quarto girar, o soalho fugir-me sob os pés e desmaiei. No dia seguinte, cedo, meu proprietário veio encontrar-me, inanimado ainda, estendido sob o espelho de prata.
Fevereiro,
9.
— Foi somente hoje que tudo relatei ao Dr. Sinclair, que me ouviu com a maior
atenção.
—
Não conhece, na História — perguntou-me —, uma cena famosa que se identifica
com a que assistiu?
Sentia-o
desconfiado. Confessei-lhe a minha ignorância completa em História.
—
E não tem ideia de onde possa ter vindo esse espelho, nem do primitivo
proprietário? — inquiriu ainda.
—
Mas porquê? O que quer dizer? — questionei,
por minha vez.
—
É incrível — disse-me —, mas o que me contou vai além de toda a coincidência.
Vou buscar-lhe umas notas.
Mesmo
dia, mais tarde. — O doutor acaba de deixar-me e desejo
transcrever fielmente suas palavras. Começou por entregar-me alguns velhos
livros.
—
Eis uns livros que poderá consultar com vagar — disse-me—, e umas notas cuja exatidão
poderá verificar. A cena que viu foi, sem a menor dúvida, o assassinato de
Rizzio[1]
pelos nobres escoceses, em presença de Maria Stuart, no mês de março de 1506. A
descrição que fez da mulher é muito certa, assim como a do moço alto que não é
outro senão Darnley, marido da rainha. Rizzio, diz a crônica, vestia um roupão
de damasco guarnecido de peles; segurando, com uma das mãos o vestido de Maria,
empunhava, com a outra, uma adaga. Enfim, o indivíduo magro e de faces
encovadas é Ruthven, que justamente convalescia de longa enfermidade. Cada
detalhe concorda.
—
Mas — perguntei interdito — o que me designou, a mim especialmente entre
outros, para receber a visão?
—
O fato que, para recebê-la, estava em condições mentais necessárias e que um
acaso o colocara na posse do espelho que devia produzi-la.
—
Como julga que este pertenceu a Maria Stuart e achava-se entre os móveis do
quarto na ocasião do assassinato?
—
Tenho a firme convicção. Maria Stuart fora rainha de França e, como tal, devia
ter, em seus objetos pessoais, a marca das armas reais. O que tomou por três
ferros de lança não era mais que a flor de lis da França.
— E a inscrição?
— “Sanc. X Pal.”? Pode explicá-la por: “Sancta Crucis
Palatium". Alguém anotou a procedência do espelho que pertencera ao palácio
Santa Cruz.
—
Holyrood?![2]
— exclamei.
— Precisamente, seu espelho pertenceu a
Holyrood. E, mudando de assunto: você acaba de passar por um acidente muito
especial de que, felizmente, sai sem perigo. Espero que não mais se coloque em
situação de risco, expondo-se a uma recaída.
Fonte:
“Excelsior”/RJ, fevereiro de 1930.
Fizeram-se
adaptações textuais.
Ilustração
do miolo: Arthur Twidle (1865-1936).
Notas:
[1]
David
Rizzio (c. 1533 - 1566) foi secretário particular de Maria Stuart (1545 -
1587), rainha da Escócia. Porque circulavam rumores de um suposto caso amoroso entre
ambos, Henrique Stuart, dito Lorde Darnley (1545 – 1567), marido da rainha, juntou-se
a uma conspiração, urdida por Patrick Ruthven (1520 – 1566), para
assassiná-lo. Rizzo e Maria jantavam
quando Henrique e outros nobres acercaram-se deles e, sob a acusação de
adultério, assassinaram Rizzio a punhaladas.
[2]
Holyrood é um palácio
escocês que serviu como principal residência dos reis e das rainhas da Escócia
a partir do século XV.


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