A ALMA PENADA DO BARÃO - Conto Clássico Sobrenatual - Viriato Padilha
A ALMA PENADA DO
BARÃO
Viriato Padilha
(1866 – 1924)
O barão do Arrenegado era um
importante fazendeiro de Serra Acima, muito conhecido da praça do Rio de
Janeiro, com a qual entretinha assíduas relações comerciais.
A história que passamos a contar, e
na qual o opulento e aristocrático barão do Arrenegado figura como principal
personagem, fixa-se cronologicamente no tempo de Pedro I e pouco antes da
expulsão desse Bragança do Brasil.
É sabido de todos que conhecem um
pouco a história pátria que o filho de Dom João VI, depois da dissolução da
Constituinte, começou a temer seriamente o partido nacional, do qual eram
principais chefes os ilustres Andradas, com os quais se havia incompatibilizado.
Por isso cogitou da formação de um
partido brasileiro para se opor àquele, e, no propósito de adquirir afeiçoados,
distribuiu profusamente títulos e mercês honoríficas, fato esse que, segundo
dizia o Tiphis Pernambucano, célebre jornal do mártir frei
Caneca, era um ultraje irrogado pelo trono aos sentimentos democráticos da
nação brasileira.
Muita gente, que nunca havia
sonhado com brasões de armas e títulos de nobreza, viu-se por essa forma
transformada em barões, marqueses e viscondes, constituindo-se por tal meio no
Brasil uma aristocracia achinelada, na frase sarcástica de Timandro[1],
que depois também para ela entrou, aceitando o ridículo título de visconde de
Inhomerim, lugarejo insignificante que existe pouco adiante de Mauá e que
apenas se salienta pelas sezões e pela grande quantidade de mosquitos.
Ora, um dos agraciados pela
munificência do imperial amante da Domitila foi Francisco Viana de Lobo, que na
derrama das graças abiscoitou o título de barão do Arrenegado, unicamente por
ter sido companheiro de deboches de Pedro I, quando simples príncipe de
Bragança.
Ainda por intervenção de Pedro I, o
barão do Arrenegado, casou-se com uma rica herdeira, e, opulento e nobre,
tornou-se fazendeiro.
Viana de Lobo era um homem alto,
robusto, de pés e mãos enormes, olhos azuis e cabelos ruivos e duros, barba da
mesma cor e consistência, sobrancelhas bastas e de fios muito longos, pele
vermelha, afogueada.
Tudo em sua fisionomia tinha um
cunho feroz, selvagem. À primeira vista compreendia-se logo que se estava em
presença de um brutamontes. E assim era. As concordâncias que Lavater[2]
encontrou entre o físico e o moral dos indivíduos exemplificavam-se
perfeitamente no barão do Arrenegado.
A sua índole condizia com a
aspereza da sua fisionomia. Viana de Lobo era homem de maus bofes: cruel para
com os escravos, ríspido para com sua resignada e digna consorte, brutal para
com todas as pessoas que com ele tratavam.
Com exceção da esposa, que o
adorava, sem compreender porquê, e de Pedro I, cuja índole afinava um tanto com
a sua, ninguém gostava do barão do Arrenegado. Mas, o que mais antipatias lhe
atraía não eram os seus modos bruscos e incivis, e sim o desrespeito com que
ele tratava as coisas da religião em que nascera fora batizado.
Viana de Lobo era profundamente
ateu, e comprazia-se em ostentar a todos a sua irreligião, fato esse que enchia
de desgostos a pobre baronesa, excelente senhora e em tudo obediente ao marido,
porém em extremo religiosa.
Acredita o povo que o ateísmo do
barão do Arrenegado foi severamente punido pela Providência Divina, que tudo
perscruta e a tudo provê. Encarregar-nos-emos de revelar a forma por que tal
castigo lhe foi aplicado, seguindo em tudo a tradição popular.
*
As antipatias contra o governo
despótico de Pedro I, os seus frequentes atentados às liberdades
constitucionais, que jurara defender, começaram a brotar de todos os ângulos do
país. Uma revolução estava eminente, porém, o imperador julgava-se com forças
para conjurá-la.
Minas Gerais era uma das províncias
onde o descontentamento lavrava mais intenso, e Pedro I, que tinha ilimitada
confiança em si próprio, deliberou transportar-se em pessoa a Vila Rica,
esperando que a sua presença bastasse para serenar os ânimos, tal como
acontecera na sua primeira excursão à velha Terra do Ouro, quando ainda regente
do Brasil, em nome de Dom João VI.
Por isso, partiu do Rio de Janeiro,
acompanhado de sua segunda esposa, e, ao passar pela fazenda do barão do
Arrenegado, onde fora tratado de um modo faustoso, convidou o antigo
companheiro de pândegas para fazer parte da sua comitiva na viagem que ia empreender.
Aprontou-se logo o barão, e, despedindo-se da esposa, tocou para Minas, com o
seu imperial patrono, satisfeito por poder desenfadar-se um pouco da vida
monótona que passava na fazenda.
Deixemo-lo cavalgar para a prisca
Vila Rica e vejamos o que se passa em sua casa durante a sua ausência.
*
Uma semana depois da partida do
barão, vieram alguns escravos comunicar à baronesa um fato singularíssimo e que
encheu a respeitável senhora de emoção.
Diziam esses escravos que no pasto
da fazenda, e bem no oco de uma frondosa aroeira que ali existia, haviam
encontrado eles uma imagem da Virgem Maria, modelada com tanta perfeição que
mãos humanas não podiam fazer igual, e, o que era mais extraordinário, essa
primorosa peça da estatuária cristã não fora ali embutida, porém sim lavrada na
própria casca da aroeira, da qual fazia parte integrante. Não era crível que um
artista viesse às ocultas deixar aquele atestado da sua devoção e talento. O
aparecimento da santa não podia deixar de ser um milagre.
Essa notícia alvoroçou a baronesa,
cujo sentimento religioso era profundo, segundo já dissemos. Nesse mesmo dia,
partiu ela para a Árvore de Nossa Senhora, acompanhada de toda a escravaria; e,
mandando cercar a imagem de círios bentos, fez rezar uma ladainha cantada, que
ela mesma ia entoando devotamente.
Rápida se espalhou por toda a
vizinhança a notícia do milagroso acontecimento, e começaram a afluir devotos
de toda a parte, a fim de fazerem preces à Nossa Senhora encontrada na árvore
da fazenda do barão.
O padre do arraial vizinho,
acompanhado da Irmandade do Santíssimo Sacramento, veio em procissão solene, e
de cruzes alçadas, visitar a imagem, junto à qual foi celebrada uma missa
campal. Todos os devotos eram hospitaleiramente agasalhados pela piedosa baronesa,
que se sentia jubilosa por ter Deus achado nela bastante merecimento para que
em suas terras se verificasse tão surpreendente milagre, ainda mais encarecido
pelo fato de se começar a espalhar que um galhinho ou uma lasca da casca da
Aroeira Santa possuía miríficas virtudes, só com trazê-lo ao pescoço, ou em um
bentinho.
O capim, que crescia em redor da
árvore, foi cuidadosamente mondado pelos devotos, sendo a baronesa a primeira a
dar o exemplo, tomando uma enxada e capinando-o. Um carpinteiro cercou a imagem
com um bem-acabado gradil, outro artesão enladrilhou a base da árvore, e tudo
corria na maior efusão de religiosidade, quando regressou à fazenda o barão do
Arrenegado, seu legítimo e único proprietário.
*
O barão vinha contrariadíssimo pelo
desrespeitoso acolhimento que recebera em Minas o arrogante Pedro I, a cuja
sombra ele medrava.
A velha e altiva pátria de
Tiradentes recebera dessa vez de cara enfarruscada o poderoso soberano dos
Brasis. Para ela, Pedro I não era mais o penhor augusto das liberdades
nacionais, mas simplesmente o estrangeiro infenso às prerrogativas populares
alcançadas com a Independência.
Não lhe encobriu, pois, o seu
desagrado. A população dos diversos lugares corria acintosamente aos templos,
quando o imperador a eles chegava, e ia assistir missas por alma de Libero
Badaró[3],
que os seus apaniguados haviam assassinado em São Paulo.
O imperador regressara
despeitadíssimo, e do mesmo modo o seu valido, o barão do Arrenegado, que mais
ainda se enfureceu, quando, ao penetrar em terras da fazenda, a viu devassada
pela chusma de devotos que faziam romaria à Virgem da Aroeira.
Raivoso, enterrou os acicates na
barriga da potranca que cavalgava, e em poucos minutos esbarrava no terreiro.
Mal avistou a esposa, e antes mesmo
de lhe dirigir qualquer saudação, perguntou-lhe com semblante carregado:
— Senhora baronesa, que quer dizer
todo esse povo estranho que me palmilha o campo da fazenda? Serão ciganos?! Não
tenho proibido tantas vezes a entrada dessa canalha nas minhas terras?!
— Sossegai, barão; não são ciganos.
Como fostes de viagem? Acho-vos um tanto abatido.
— Qual abatido, qual nada! O que
desejo é saber quem é toda essa corja de vagabundos que por aqui transita, como
se estivesse em sua casa? Por ventura teriam recebido notícia de minha morte?
Não compreendo, como, sabendo-me vivo, a senhora consinta que se desrespeitem
tão injuriosamente as minhas ordens! Parece-me que ainda valho alguma coisa,
com os diabos! Quem é aquela gente, senhora, e que quer ela?
— É boa gente, barão, gente honesta
e piedosa – respondeu a baronesa, toda confusa. E atendendo à impaciência do
barão, viu-se obrigada a referir, logo em seguida, toda a história da
descoberta da imagem, a ladainha lá rezada, a procissão feita pelo padre do
arraial, a construção da cerca, o enladrilhamento de toda a base da árvore, e
finalmente as extraordinárias virtudes que diziam possuir a casca e os ramos da
Aroeira Santa.
O barão ouviu toda a narração,
mostrando visíveis sinais de impaciência e de enfado. Seus olhos passeavam sem
parar da mulher para as pessoas que estavam no campo. Apenas ficou inteirado de
toda a história, exclamou encolerizado:
— Que indigna comédia, senhora
baronesa! Que patifaria, senhora! Qual Santa, nem qual Diabo! Tudo isso não
passa de artifícios desses miseráveis padres, que julgam poder intimidar-me com
tão grosseiros embustes! Nunca se viu tamanha cachorrada! Não há milagres, nem
coisa alguma! Foram eles, esses patifes, que mandaram às ocultas modelar a
imagem no tronco da árvore; foi isso e mais nada. Mas enganam-se, esses
estúpidos falsários, se pensam que sou tão fácil em acreditar nas suas
patranhas! Hoje mesmo não ficará de pé nem cerca, nem árvore, nem imagem, nem
coisa alguma!
—Que ides fazer, meu Deus? —
exclamou a baronesa, tomada do maior assombro.
O barão não lhe deu resposta:
estava quase louco de cólera. Chamando um pajem de confiança, berrou:
— José! Vá dizer àquelas pessoas
que andam pelo campo que se ponham já fora da minha vista, e isso quanto antes,
senão não respondo pelo que acontecer.
E logo, virando-se para outro
escravo, gritou:
— Sabino, vai apanhar um machado e
acompanha-me. Ah, patifes, querem divertir-se à minha custa?! Corto a vergalho
aquele danado padre Manuel, pois não foi outro o autor de tal peça!
— Por Deus, barão — disse a
baronesa, enlaçando-se ao esposo, e com o pranto a borbulhar-lhe nos olhos —,
que ides fazer?! Não chameis o castigo de Deus sobre nossas cabeças!
O barão, porém, não era homem para
atender a lágrimas de mulheres. Desvencilhou-se dos braços da esposa com um
repelão, e partiu para a aroeira, acompanhado do crioulo Sabino, que se armara
do competente machado.
A baronesa, consternada, e vendo
que não poderia deter o marido, no seu furor iconoclasta, mandou acender as
velas no oratório e foi rezar aos santos de sua devoção.
*
O barão do Arrenegado, no entanto,
chegava à aroeira, e logo destroçou e espezinhou cerca, círios, flores e
oferendas pias que os devotos haviam pendurado ao tronco. Em seguida, ordenou
ao escravo que derrubasse a árvore.
Sabino levantou o machado e vibrou
o primeiro golpe, que penetrou fundo na Aroeira. Os galhos mais delgados da
árvore estremeceram, e uma chuva de folhas miúdas caiu no chão, ao mesmo tempo
que ela exalava um gemido.
O escravo olhou assombrado para a
copa da árvore e exclamou:
— Sinhô, aroeira gemeu!
— Não foi nada — respondeu o barão.
— É algum ramo que rangeu ao roçar em outro.
Sabino deu segunda machadada, e a
árvore exalou segundo gemido.
— A aroeira tornou a gemer, sinhô!
— repetiu Sabino cada vez mais assombrado.
— Eu nada ouvi — respondeu o barão;
– corta a árvore, e não te ponhas com ideias.
Mais um terceiro golpe e mais um
novo gemido. O escravo começou a tremer.
— A árvore não para de gemer, meu
sinhô!
— Corta a árvore — tornou furioso o
colérico fazendeiro; — ou antes dá-me o machado, pois parece-me que o medo vai
tirando-te as forças. Sai daqui, vai-te para o inferno com as tuas invenções de
gemido!
E tomando brutalmente o machado das
mãos do escravo, o barão atacou resolutamente a árvore.
Sabino continuava a ouvir os
singulares gemidos, porém o barão, todo ocupado na destruição da Árvore Santa,
não os escutava, e, com ardor crescente, decepava a fronde.
Dentro de alguns minutos toda a
árvore estremeceu, e, com mais alguns golpes, a copa do soberbo vegetal
inclinou-se, rangeu, e despejou-se por terra com medonho estrondo.
Ao despregar-se a alentada fronde
da copa, a árvore escorregou para a frente, ao contrário do que desejava o
barão, e antes que ele pudesse fugir com o corpo para o lado, foi colhido e
ficou esmagado pelo madeiro.
Sabino, que se achava à distância,
deu um grito de horror, e correu para o senhor. O barão do Arrenegado estava
morto!…
*
A baronesa, ao saber do ocorrido,
apenas teve forças para exclamar:
— Foi castigo, meu Deus! Meu
coração bem o adivinhava!
E caiu desmaiada nos braços das
mucamas.
Levantada a árvore, com grossos
espeques, foi retirado o corpo do barão, em péssimo estado, e carregado para a
fazenda.
Ao recobrar os sentidos, já a
baronesa o tinha a seu lado.
Apesar da rispidez com que a
tratava o marido, a infeliz senhora tinha por ele sincero afeto. A sua dor foi
enorme.
Deliberou fazer solenes exéquias ao
esposo, e, para esse fim, ordenou que o corpo fosse transportado para o
arraial, onde poderia ser amortalhado com a decência compatível com a sua
elevada posição social e opulência.
Quase ao escurecer, partiram da
fazenda doze negros conduzindo o cadáver numa rede, a fim de ser depositado em
câmara-ardente na igreja do arraial.
A desolada viúva e as mucamas
deviam, pelo correr da noite, reunir-se ao corpo, pois ficaram aprontando-se
para a viagem.
*
O arraial distava cerca de quatro
léguas da fazenda do barão, e quando os pretos que conduziam o corpo já se
achavam em meio do caminho, começaram a sentir que ele se tornava muito pesado.
O crioulo Sabino, que fazia parte
do cortejo fúnebre, sendo o primeiro a observar tal fato, voltou-se para um
preto africano, já meio velho e disse:
— Pai Antônio, o defunto está
pesando muito.
— Cala boca lapazi — respondeu
Antônio gemendo debaixo da carga. — É que esse que tá aí tinha pecado caté nu
zoio.
E lá se foram, sacolejando o
cadáver do aristocrático barão, pela estrada afora.
Mas o corpo a cada momento
aumentava de peso e as mudas de carregadores tiveram que se revezar a miúdo. Os
pobres pretos quase deitavam a alma pela oca, quando deixavam o fardo.
Afinal chegou o triste cortejo a um
vasto campo, onde serpeava a fita branca da estrada. Aí, nesse lugar, o cadáver
tornou-se tão pesado que os negros caíram repentinamente de joelhos, vergando
sobre a enorme carga.
Os escravos, assombrados com o que
estava acontecendo, juntaram-se, em número de doze, para verem se, reunidos,
conseguiam transportar o defunto ao arraial, que apenas distava um quarto de
légua daquele lugar.
Acercaram-se, pois, da rede, e
dispuseram-se a levantá-la; porém, com o esforço que fizeram, quebrou-se o
grosso canudo de taquaraçu. Mas a rede não caiu ao chão! O maldito defunto
parecia ali pregado.
Achavam-se eles naquela incerteza,
sem nada poderem resolver, quando desembocaram na estrada dois cavalheiros, que
se ofereceram logo para transportar o cadáver.
Os negros aceitaram, embora não
acreditassem que aqueles dois homens pudessem fazer o que doze não haviam
conseguido.
Os cavaleiros, porém, sem que a
carga parecesse superior às suas forças, colheram a rede pelos punhos, mesmo
montados como se achavam, ergueram-na, à altura dos peitos dos cavalos; e
começaram a caminhar, sem prestarem atenção aos asnáticos comentários que os
crioulos faziam, admirados com aquela força hercúlea.
Poucos instantes depois, observaram
os negros que aos lados da rede se achavam quatro cavaleiros, sem que soubessem
por onde tinham chegado os outros dois. Ao cabo de dez minutos surgiram mais
quatro, vindos sempre pela mesma forma misteriosa.
— Uê! — disse pai Antônio para os outros. — Donde
tá chegando turo esse gente. Cruzo!
Mal fora feita essa observação,
apareceram cavaleiros de todos os lados, que, num berreiro infernal, dispararam
com o cadáver do barão. Num abrir e fechar de olhos, sumiram-se, fazendo ouvir
medonho estrondo, que atordoou todos os pretos. No mesmo instante sentiu-se um
forte tremor de terra, e, na direção em que haviam desaparecido os fantásticos
cavaleiros, viram-se compridas e azuladas línguas de fogo, que se enroscavam
pelo chão como cobras, e nele penetravam.
—Valha-nos, Nossa Senhora! – disse
o crioulo Sabino. — Parceiros, aqueles cavaleiros são soldados do Tinhoso!
Vieram buscar o corpo de sinhô para levar para o inferno. Valha-nos Nossa
Senhora! Estamos perdidos! Quem souber alguma reza que diga já, senão ficamos
assombrados.
—
Iô sabe rezá — disse pai Antônio. — Todos os outros rodearam-no
imediatamente:
— Reza, pai Antônio! Reza, pai
Antônio!
Pai Antônio ajoelhou-se
contritamente, juntou as mãos, e na sua atrapalhadíssima língua, principiou:
— Iô pecandô me confesso cum Deu
tudo poduroso, bê zicancararo Santa Maria, bê zicancararo São Migué di Acanja,
bê zicancararo São Joó di Caputisso, e Santo de Apossa cu sua Pedro, cu sua
Paulo e turo zu santo e a vussucê que pecô pro munta vezi, pru sua curpa, sua
grande curpa…
— Eu não! — interrompeu o crioulo
Sabino. – Eu não! Nunca pequei! Você é
burro, pai Antônio!
— Burro é você, muleque, pruquê
assi foi que iô prendeu.
Os outros escravos, quase todos
moleques pernósticos, desataram a rir, e assim terminou em comédia aquela
lúgubre cena.
*
Não para, no entanto, aqui a
espantosa história do célebre barão do Arrenegado.
Exatamente quando fazia um ano que
Viana de Lobo havia sucumbido debaixo da Aroeira de Nossa Senhora, conta o povo
haver ocorrido na fazenda um acontecimento que encheu de assombro todos quantos
o presenciaram.
Na noite desse dia, já passadas
onze horas, achava-se ainda desperta e fazia as suas orações a baronesa, cujas
mágoas tinham-se aviventado naquele dia, pelo fato de ser ele o do aniversário
da morte do esposo, quando ouviu grande tropel de cavalos.
Chamou por uma escrava, mandando
ver o que se passava. A rapariga dirigiu-se para a sala da frente, e daí a
pouco regressava, mas em tal estado de assombro que lhe faltaram forças para
explicar o que vira.
Admirada a baronesa com o espanto
que via pintado no rosto da mucama, levantou-se, e encaminhou-se para as
janelas da frente, acompanhada de diversas raparigas, que, com o tropel dos
cavalos e gritos que partiam do exterior, haviam despertado em sobressalto.
Lá fora passava-se uma cena
medonha, e todos recuaram tomadas de horror e medo.
Um magote de demônios, de formas
extravagantes, cavalgando fogosos ginetes, cujas ventas despediam línguas de um
fogo azul, caracolavam no terreiro, quando, de repente, surgiu em meio deles um
cavaleiro envolto em longo sudário branco.
A baronesa conheceu logo esse
fantasma: era o do marido, que imediatamente tomou a frente da cavalhada, e com
ela partiu em disparada para o ponto do pasto onde outrora existira a aroeira.
Ali tudo aniquilou-se com terrível estampido.
Durante sete anos, sempre no mesmo
dia do aniversário da sua morte, o fantasma do barão, acompanhado de um
esquadrão de demônios, vinha fazer a sua ronda no campo da fazenda.
No oitavo ano, porém, nada mais se
viu e, o que é ainda singular, sete anos exatamente depois do infausto
acontecimento, a aroeira, que até então não havia brotado, tornou a vicejar, e
em pouco tempo readquiriu o primitivo tamanho. Nunca mais, porém, ali se viu a
imagem da santa tão impiamente destruída pelas ímpias mãos sacrílegas do barão
do Arrenegado.
Ilustração: PS/Chat GPT.
Notas:
[1]Francisco de
Sales Torres Homem (1812 – 1876), jornalista e político brasileiro.
[2]Johann Kaspar
Lavater (1741 – 1801), teólogo e filósofo suíço, foi o fundador da
fisiognomonia, pseudociência que preconizava o conhecimento da personalidade
das pessoas através da análise de traços fisionômicos.
[3]Giovanni
Battista Libero Badarò (1799 – 1830), jornalista, político e médico italiano;
radicado no Brasil, era defensor do liberalismo e opositor de Pedro I. Foi
assassinado em 20 de dezembro de 1830.

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