A ALMOFADA MÁGICA - Conto Clássico Fantástico - Shen Jiji
A ALMOFADA
MÁGICA
Shen Jiji
(c. 750 – c.
800)
Tradução/adaptação
de autor anônimo do séc. XX
Certa vez, um velho sacerdote, que
mendigava, se deteve na porta de um albergue, junto de uma carroça, colocou no
chão a sua almofada e se sentou nela, deixando o alforje ao lado.
Pouco depois, chegou ao albergue um
jovem da vizinhança. Era um lavrador, que vestia roupas curtas e não uma túnica
ampla como a dos sacerdotes e dos homens ilustres. Sentou-se perto do ancião e,
minutos depois, os dois conversavam amistosamente.
De repente, o jovem olhou para as
suas roupas de pano grosso e exclamou com tristeza:
— Sou, na verdade, uma mísera
criatura.
— Pela aparência, estás com saúde e
não te falta comida — replicou o sacerdote. — Não sei por que, no meio da nossa
palestra agradável, te queixas da sorte.
— Crês, por acaso, que é agradável
— disse o jovem — a vida que levo, trabalhando da manhã à noite? Queria ser um
grande general e ganhar batalhas; ou um homem muito rico, que passasse as horas
em doce ociosidade ouvindo música; ou um dignitário da corte, a serviço
imediato do imperador, em um cargo que trouxesse a prosperidade para a minha
família. Isso é que chamo ser feliz. Quero elevar-me de posição, mas vejo-me
condenado a ser sempre um pobre lavrador. Sou, na verdade, uma mísera criatura!
Calou-se e, daí a instantes,
cabeceava sonolento.
Enquanto o hoteleiro preparava a
sopa de milho, o sacerdote tirou do alforge uma almofada e disse ao jovem:
— Apoia a tua cabeça nesta almofada
e verás realizados os teus desejos.
Era uma almofada de porcelana, como
um tubo, e aberta nos dois extremos.
O jovem deitou a cabeça sobre ela
e, no mesmo instante, uma das aberturas lhe pareceu ampla e iluminada como a
entrada de uma casa.
Entrou por essa abertura e se viu
na sua própria casa.
Pouco depois, casou-se com uma
linda moça e começou a ganhar muito dinheiro. Vestia ricas roupas e dedicava o
tempo ao estudo. No ano seguinte. fez concurso e foi nomeado magistrado. Ao
cabo de dois ou três anos, subiu a primeiro ministro. Durante muito tempo, foi
a pessoa de confiança do imperador, que o cumulava de favores. Mas, um dia,
caiu em desgraça. Acusaram-no de traição e foi condenado à morte. Levaram-no,
em companhia de outros condenados, para o lugar da execução. Caiu de joelhos,
enquanto o verdugo se aproximava com a espada levantada... Foi tal o terror que
o invadiu nesse momento, que abriu sobressaltado os olhos... e se viu na porta
do albergue. Junto dele estava o sacerdote e, à pequena distancia, o hoteleiro
que acabava de preparar a sopa, servindo-a imediatamente. O lavrador tomou-a em
silencio, e, em seguida, levantando-se, saudou com uma reverencia o sacerdote e
disse-lhe:
— Obrigado pela lição que acabas de
dar-me. Agora compreendo o que significa ser um figurão.
Dito isto, despediu-se e voltou
tranquilo à sua faina diária.
Fonte: “Boa Nova”/RJ, edição nº
1, 1933.
Nota do
Editor: Vide o conto “O Mago e o Deão” de Juan Manuel de Castela (1282 – 1348).

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