A LENDA DO JUDEU ENGANADO - Narrativa Clássica Sobrenatural - Jacopo da Varazze

A LENDA DO JUDEU ENGANADO

Jacopo da Varazze

(1228 – 1298)

 

Um homem pediu emprestado a um judeu uma certa soma em dinheiro e, sem dispor de outra garantia, jurou sobre o altar de São Nicolau que a faria render e pagaria a dívida assim que pudesse. 

Mas o homem reteve o dinheiro por tanto tempo que o judeu achou por bem reclamá-lo de volta. O homem, contudo, alegou que já pagara o empréstimo.

Então o judeu levou o homem a juízo, exigindo que jurasse haver devolvido o dinheiro que tomara emprestado.

O devedor apareceu ao julgamento apoiado numa bengala. Esta era oca em seu interior e era ali que o homem escondia as suas moedas de ouro.

Quando foi prestar o juramento, o devedor entregou a bengala ao judeu, para que a segurasse, enquanto fazia a declaração solene. Então, jurou que lhe havia restituído mais do que devia. Terminado o juramento, exigiu que o judeu lhe devolvesse a bengala. O credor, sem desconfiar da malícia, a entregou de volta.

Então o ludibriador foi embora. No caminho de casa, tomado pelo sono, o homem adormeceu num cruzamento, onde foi colhido por uma carroça de quatro rodas, que vinha a grande velocidade. O homem morreu e a sua bengala se rompeu, espalhando o ouro na estrada.

Quando soube do acontecido, o judeu, muito comovido, acorreu para o lugar e logo descobriu a fraude. Na ocasião, muitos lhe disseram que levasse o ouro consigo. Mas ele se recusou a fazê-lo dizendo:

— Tomarei de volta o dinheiro se o morto, pelos méritos de São Nicolau, voltar à vida. Se isto acontecer, serei batizado e me tornarei cristão.

Prontamente, aquele que estava morto ressuscitou e o judeu foi batizado.

 

Versão em português de Paulo Soriano, a partir da tradução inglesa de William Caxton (1442 – 1491).

Ilustração: Herman Gold.

 

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