A LOCOMOTIVA - Conto Clássico de Horror - Amado Nervo

A LOCOMOTIVA

Amado Nervo

(1870 – 1919)

Tradução de autor desconhecido do séc. XX

 

Entre o prado, por onde passeavam, e a vistosa casaria, atraente e risonha, à força de calor e da claridade, estava a pauta escura e enorme dos trilhos, que prolongavam, até perder de vista numa curva próxima, a acerada rigidez de suas paralelas.

O casal e as duas crianças tiveram a mesma ideia: ir além, entre as garridas casinhas vermelhas e azuis, que eram a sedução por excelência da paisagem.

Mas os trilhos? O perigo de atravessar os trilhos?

Antes que o marido ponderasse essa objeção, a senhora, com o menino maior, que a acompanhava, deitou a correr, saltando dormentes de ferros, e em três minutos encontrou-se triunfante no outro lado, sobre a rampa fofa de céspede.

Seguiu-a o esposo, com o filho menor pela mão. O pequeno saltava trilho a trilho a trilho e pretendia nalguns caminhar, fazendo equilíbrios sobre a estreita superfície, sustido sempre pela destra de seu pai.

De repente, um silvo rouco os paralisou de surpresa. Surgia na curva, poderosa, violenta, empenachada de fogo, uma locomotiva; atrás, assomavam os primeiros vagões de um grande expresso.

 

 


 

 A mãe, lá do alto, lançou um grito desesperado.

O pai, com essa lucidez dos inevitáveis momentos de perigo e louca premência de seu pensamento angustiado, disse consigo:

— É impossível chegar ao talude antes do trem.

Logo, continuou pensando com a concatenação de imagens e ideias que se produzem vertiginosamente e fora de tempo nos transes supremos.

— Há muitos trilhos, e, portanto, muitas probabilidades de que a máquina não percorra a mesma via que estou neste momento; se me ponho a correr, o risco é maior; se espera parado aqui, talvez nos salvemos.

Não vacilou. Apertou fortemente entre os braços o menino e fechou os olhos.

O estrépito do trem se fazia maior por instantes. Parecia que a terra toda era presa de uma convulsão e se povoava de rumores.

— Vem em nossa direção — pensou. — Vai esmagar-nos.

E apertou mais o menino contra o coração.

O seu pensamento desordenado seguiu agitando imagens na febre do instante extremo.

Entretanto, sobrepondo-se àquele como que quebrantado, como que esmagamento formidável de ferro, com que se aproximava a locomotiva, sobressaindo entre o ruído desconcertador, continuava-se a ouvir os gritos agudos e inarticulados da mãe, lá na escarpa...

E ele imaginava a sua morte: a máquina ia esmaga-los, tritura-los, untá-los nos carris. Todas as suas leituras de catástrofes lhe acudiram à mente. Viu o seu cérebro salpicando os postes do telégrafo, os seus membros despedaçados, dispersos; despedaçada a cabeça, pelos frisos das rodas, e os olhos saltando horrivelmente das órbitas como para contemplar a cena espantosa...

O menino, que até então havia permanecido num silêncio trágico, perguntou:

— Papai, como nos vai doer?!

Neste mesmo instante, o estrondo atingia ao máximo e a gigantesca máquina, como o seu rosário de vagões, passava zunindo pelos trilhos imediatos.

Uma sensação de ar quente, de calor intenso... Logo, ao abrir os olhos, o último vagão que fugia, quase os roçando.

Além, o ameaçador penacho que se esgarçava no ar.

 

Fonte: “Leitura para Todos”/RJ, edição de setembro de 1926.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O DEMÔNIO NA GARRAFA - Conto Clássico Sobrenatural - Robert Louis Stevenson

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O HORLA - Conto Clássico de Terror - Guy de Maupassant

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault