CRIMINOSA SOB HIPNOSE - Narrativa Clássica Verídica Sobrenatural - Autor anônimo do séc. XX
CRIMINOSA SOB
HIPNOSE
Autor anônimo do
séc. XX
Hipnotizada
pelo marido, tornou-se criminosa.
Será
possível esse fato? A ciência ainda não disse a última palavra sobre o assunto.
Entretanto, já se tem baseado nele, na Justiça, para atenuar certos crimes.
A
cena passava-se no júri, em Eddyville, Kentucky, Estados Unidos:
—
Ele me hipnotizou, senhor juiz. Meu marido me hipnotizou. Quando eu levei as pistolas, estava
perfeitamente inconsciente, e ele o fez através das grades da prisão. Há anos,
eu perdi um filho e isso me abalou de tal maneira que quase enlouqueci. Sofria
de uma insônia terrível e de dor de cabeça constante. Um dia, Tex, meu marido,
disse-me que tinha muita força hipnótica e que, se eu quisesse, ele me faria
dormir. Aceitei e, realmente, dormi. Cinco vezes Tex fez a mesma coisa, e cada
vez eu dormia mais rapidamente. Assim, Tex ficou com esse poder sobre a minha
vontade. Olhava-me e logo tudo desaparecia diante de mim. Em meu cérebro e na
minha vista ficava somente os seus olhos fulgurantes. Pedia a vontade própria e
tornava-me um instrumento cego nas suas mãos. Foi por isso que comprei as
pistolas.
Estas
palavras eram ditas por uma moça — jovem e simpática — acusada de cumplicidade
na revolta dos presos de Kentucky. Lillian Walters, hoje, é a viúva do
condenado a galés perpétuas, Tex Walters. Mas relatemos o fato desde o começo.
O condenado cumpria a pena por crime de assassinato na pessoa do leiteiro Alex
Ehlers. Apesar das ordens rigorosas do regulamento da prisão, Lilliam visitava,
frequentemente, o esposo e, se não ficavam a sós, pelo menos os guardas não
prestavam muita atenção ao que os dois faziam.
Lillian inspirava piedade e Tex não era malvisto. Para que perseguir o
rapaz e aquela pobre moça com aspecto pacífico? Deixavam em paz o casal,
vigiando-os, apenas, de longe.
Numa
dessas visitas, Tex hipnotizou a mulher e disse-lhe:
—
Você vai tirar-me daqui.
Depois,
murmurou em segredo, entre os varões de ferro que os separavam:
—
Em tal dia, Jim vai ser solto. Você o encontrará em Paducah e receberá um
cheque de 400 dólares. Com esse dinheiro, comprará duas pistolas para nós e com
o que sobrar comprará outras coisas.
—
Não deve tentar a fuga, Tex. Já uma vez tentou e atiraram sobre você. Por Deus,
não faça isso!
O
marido fixou mais duramente os olhos nos dela.
—
Você fará exatamente como eu ordenei. Verá Jim e, com o dinheiro dele, comprará
o que já lhe disse, depois virá trazer-me aqui as pistolas, ouviu?
Como um autômato, ela saiu da prisão e fez
tudo quanto lhe fora imposto. Encontrou-se com Jim Sparks, compraram as armas e
mais quatro caixas de balas. Em seguida, Lillian deixou Jim em Paducah e foi à
prisão dar conta ao marido. Tentou, ainda, dissuadi-lo daquele sinistro
intento, mas não o conseguiu. Combinaram, então, que Jim poria as pistolas em
papel impermeável e as enterraria sob a ponte. Lá, um homem da confiança do
prisioneiro iria buscá-las. As ordens foram cumpridas, mas, desde o momento que
acabou a influência hipnótica, Lillian não teve sossego. O resto, os jornais
contaram: Tex Walters e mais dois companheiros de presídio, armados apenas com
as duas pistolas que Lilliam fornecera, entrincheiraram-se no refeitório da
prisão de Kentucky e, durante quatro dias, resistiram a 400 homens armados.
Metralhadoras eram descarregadas sobre o presídio, abrindo grandes rombos nas
paredes. Artilharia, tudo foi experimentado para fazer os três loucos
renderem-se, e só quando usaram bombas de gases asfixiantes foi que conseguiram
vencer os combatentes, mas eles só se renderam com a vida. Quando lograram
entrar no refúgio dos criminosos, encontraram-nos mortos entre as paredes
furadas pelas balas e rabiscadas por eles, que ainda tiveram ânimo, no último
momento, de escrever frases sarcásticas aos atacantes.
E
o defensor de Lillian, amparando-se nessa alavanca do hipnotismo, conseguiu
arrancá-la da trágica cadeira elétrica[1].
Fonte:
“Leitura para Todos”, edição de fevereiro de 1926.
Nota:
[1]
Conforme esclarece
Shaw Logan (“A rebelião na prisão de Eddyville em 1923”, disponível em
https://kyhi.org/2020/12/28/the-1923-prison-riot-at-eddyville/), em 10 de maio
de 1924, um júri de Princeton considerou Lillian Walters inocente da acusação
de conspiração para promover o atentado que resultou na morte de três guardas
prisionais, ferimentos em um terceiro e na morte de Tex Walters e de seus dois
companheiros. Com sucesso, o advogado de
Lillian Walters argumentou que esta fora vítima de “hipnotismo criminoso” ao
cumprir as ordens do marido.



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