ENTERRADO VIVO - Narrativa Verídica Clássica de Horror - John Macintire
ENTERRADO VIVO
John Macintire
(Séc. XIX)
Tradução de
Paulo Soriano
(Relato
completo e detalhado de John Macintire, que foi enterrado vivo em Edimburgo, no
dia 15 de abril de 1824, durante um transe cataléptico, e que foi levado pelos
ladrões de cadáveres e vendido aos médicos para ser dissecado, com uma
narrativa completa das muitas coisas estranhas e maravilhosas que viu e sentiu
enquanto estava nesse estado, conforme as suas próprias palavras.)
Eu
estava doente há algum tempo, padecendo de uma febre baixa e persistente.
Minhas forças foram-se esvaindo gradualmente, e o médico me disse que, para
mim, não havia esperança.
Um
dia, ao entardecer, fui acometido por tremores estranhos, indescritíveis. Ao redor de minha cama, vi inúmeros rostos
que me eram estranhos: eram brilhantes e
etéreos, sem corpos. Havia uma solenidade luminosa, e tentei me mover, mas não
consegui. Eu estava perfeitamente consciente, malgrado a capacidade de mover-me
houvesse desaparecido.
Alguém
chorava junto ao meu travesseiro e a voz da enfermeira dizia:
—
Ele está morto.
Não
consigo descrever o que senti ao ouvir essas palavras. Fiz todo o possível para
me mexer, mas não consegui mover sequer uma pálpebra. Meu pai passou a mão pelo
meu rosto e fechou minhas pálpebras. O mundo então escureceu, mas eu ainda
podia ouvir, sentir e sofrer.
Durante
três dias, vários amigos vieram me visitar. Eu lhes ouvia a voz baixa, falando
sobre quem eu havia sido, e mais de um deles me tocou. Providenciaram um caixão
e colocaram-me nele. Senti o ataúde ser
erguido e levado embora. Ouvi e senti que o colocavam no carro funerário.
Quando este parou de rolar, o caixão foi retirado. Senti-me carregado nos
ombros de homens; ouvi as cordas do caixão se moverem. Senti-o balançar, como
se dependesse deles. O féretro foi baixado e repousou no fundo da sepultura.
Terrível
foi o esforço que fiz para expulsar qualquer força, mas todo o meu corpo estava
imóvel. O chocalhar da areia a me cobrir parecia-me mais estrondoso do que um
trovão. Mas o ruído cessou e tudo ficou em silêncio.
—
Isto é a morte — pensei — e logo os vermes estarão rastejando sobre a minha
carne.
Ao
dar-me conta desse horrível pensamento, ouvi um suave sonido, vindo na terra
sobre mim, e imaginei que os vermes e répteis estavam chegando. O som continuou
a ficar mais alto e mais próximo.
— Será possível — pensei — que meus amigos
suspeitem que me enterraram cedo demais?
A
esperança era como um raio a romper a escuridão da morte. O som cessou.
Agarrado pela cabeça, arrastaram-me para fora do caixão, e me levaram
rapidamente.
A
uma certa distância do sepulcro, atiraram-me ao chão como um torrão de terra e,
pela troca de uma ou duas breves frases, descobri que estava nas mãos de dois
daqueles ladrões que vivem de saquear sepultura e vender os corpos de pais,
filhos e amigos.
Depois
de ser rudemente despojado de meu sudário, puseram-me, nu, sobre uma mesa. Em
pouco tempo, ouvi, pelo burburinho na sala, que médicos e estudantes se reuniam
ao meu redor.
Quando
tudo estava pronto, o professor pegou uma faca e perfurou-me o peito. Senti uma
espécie de estalido terrível, por assim dizer, em todo o meu corpo; um tremor
convulsivo se seguiu instantaneamente, e um grito de horror ecoou de todos os
presentes. O gelo da morte foi quebrado; meu transe terminou. Foram feitos
todos os esforços para me reanimar e, após uma hora, eu estava em plena posse
de todas as minhas faculdades.
Fonte:
John Bleke Bailey, “The Diary of a Resurrectionist”, Swan Sonnenschein &
Co., Londres, 1896.
Ilustração:
Annie Stebler-Hopf (1861 – 1918).
Vide: Catalepsia.

Comentários
Postar um comentário