O CIRURGIÃO LOUCO - Conto Clássico de Suspense - Edward Kenedy
O CIRURGIÃO
LOUCO
Edward Kenedy
(Séc. XX)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
Era
muito natural que, sendo um comerciante riquíssimo e possuidor de bela
propriedade em Fontainebleau, o Sr. Gustave Laulan gostasse de, no verão, nas
tardes de sábado, para lá se dirigir com a esposa.
Depois
da trabalheira da semana, um pouco de repouso para o espirito! E lá se ia o
casal num esplêndido automóvel que devorava a distância em menos de uma hora.
A
formosa mulher, sentada ao seu lado, sempre atemorizada com a rapidez do automóvel,
advertiu ao marido:
— Mais devagar, homem! Isso um dia vai dar num
acidente.
—Não temas, querida. O meu carro é excelente
e, na verdade, só dou rapidez quando vejo uma linha reta e posso avistar muito
longe...
—
Isso não importa. Suponhamos que se rompa um pneu. Tu não poderás governar a
direção e daí... Sofrerás um grande susto.
— Está bem. Mas devias depositar mais um pouco
de confiança no teu marido.
Gustave
Laulan tinha confiança, sangue frio e fé na sua estrela, o que é comum a todos
os que venceram na vida pelo próprio esforço e que estão convictos de que o
êxito conseguido se deve exclusivamente ao próprio mérito. O temor era um
sentimento que não lhe encontrava guarida no espirito. Acreditava-se ao abrigo
de acidentes, contrariedades e catástrofes. Em uma palavra: acreditava-se
invulnerável.
Rico,
sadio, com uma mulher nova e bonita que o adorava, Laulan parecia emitir no
olhar uma irradiação de perpetua felicidade.
Sentia-se
seguro do destino como da direção do seu automóvel quando segurava o volante.
Percorrendo duas vezes por semana a estrada de Paris a Fontainebleau, conhecia
as menores sinuosidades. As vivendas da beira do caminho eram-lhe familiares
como as casas amigas.
Um
dia, surpreendeu-se ao notar fechadas as portas e janelas de uma casa, sempre
abertas desde o começo da primavera. Era a morada de um grande cirurgião
parisiense, Pierre Thilorier, que havia muito não clinicava. Viera residir
naquele recanto pacato, na proximidade de um lugar denominado Pirâmide. Uma
bela vivenda onde ele estava agora desde os fins do último inverno, estação que
habitualmente passava em Nice.
O negociante via-o frequentemente no jardim,
regador à mão, cuidando das flores. Uma bela cabeça de ancião, um pouco
melancólico, de tanto se haver aproximado das misérias humanas.
Junto
de sua filha e de suas rosas, ia esquecendo os ferimentos e chagas que havia
curado.
Não
vendo, como de costume, abertas as portal e janelas da vivenda e notando
deserto o jardim, Gustave Laulan impressionou-se.
—Talvez
tenha morrido! — falou à esposa.
—Mas
os jornais não deram notícia — observou Anie.
O
negociante procurou informar-se. Informaram-no muito vagamente que o cirurgião
continuava a sua vilegiatura no Sul, pois o inverno lhe fora muito rigoroso.
Laulan
não se preocupou mais com o destino do ilustre cirurgião. Apenas atirava
maquinalmente um olhar à vivenda quando lhe passava em frente.
Um
sábado, o negociante partiu muito tarde de Paris. Tivera que atender a um bom
freguês provinciano e só poderia pôr-se em caminho com Anie ao anoitecer.
—Hoje
é que é indispensável cuidado — remendou a jovem esposa.
—Não
te inquietes. Conheço o caminho de cor e aos palmos.
Depois
de passar Montegeron, pôs o carro em quarta velocidade. Na volta de Pirâmide, e
diminuiu um pouco. Depois calcou o pé novamente no acelerador.
—Olha — disse subitamente a Anie. — As janelas da vivenda do Dr. Thilorier
estão iluminadas. Presumo que...
Não
tivera tempo de concluir a frase. Entretido em olhar a casa do cirurgião, não
havia visto um montão de calhaus posto no caminho pelo terraplanador. Foi um
balanço terrível. Mas era tarde. O carro capotou e Anie foi violentamente
arremessada ao chão.
Gustave
Laulan ouvira-lhe o grito de terror e agonia, um grito doloroso de mulher
horrivelmente ferida.
Ele
próprio fora projetado ao solo. Mas ergueu-se como um louco com ligeiras
contusões. A primeira ideia foi para a esposa. Sentia em si o frio das grandes
catástrofes. A morte vinha arrebatar-lhe o mais precioso da sua existência. O
remorso de ser o culpado do espantoso desastre atormentava-o alucinantemente.
Correu
para Anie, estendida como morta no solo. Pôs a mão sobre o rosto querido e
sentiu um calafrio. Sangue... Contato de sangue... E dos seus lábios escaparam
palavras de ternura e aflição delirantes, palavras que se pronunciam às
crianças que sofrem:
—
Anie... Anie, querida... Sou eu... Eu,
minha Anie... Teu marido... Responde-me... Responde-me... Não é possível...
Isso é impossível... Não! Oh, minha
Anie... É impossível que tu estejas...
Não
ousou pronunciar a horrorosa palavra.
Metia
a mão na cabeleira em desespero. Que fazer? Nem uma pessoa na estrada deserta.
O automóvel, de lado, parecia um grande cadáver.
Mas
era preciso agir de qualquer forma, custasse o que custasse. Não podia
abandonar a mulher na estrada suja de poeira e sangue.
Lembrou-se,
então, das luzes vistas na casa de Pierre Thilorier.
—
Oh! Se ele estiver de volta... — pensou fervorosamente. — É cirurgião... Talvez
a pudesse salvar... Se não for tarde...
A vivenda ficava a algumas dezenas de metros.
Era
até de se estranhar que o barulho do acidente não atraísse a atenção dos
ocupantes.
Gustave
Laulan apertou contra o peito o fardo querido, com mil precauções. Um gemido
escapou da boca da vítima.
—Vive!
Ela vive! — exclamou febrilmente o negociante. — Ela vive! Ela vive!
E
correu como um louco para a vivenda. Tocou a campainha; depois, impaciente,
bateu os punhos contra a porta, porque ninguém vinha atender. Contudo, as
janelas estavam abertas e profusamente iluminadas. Havia seguramente alguém na
morada do sábio.
—Piedade!
Por piedade! Socorro! Minha mulher está à morte... Darei tudo, toda a minha
fortuna para salvá-la!
Uma
porta abriu-se subitamente. Barulho de passos. Era o próprio cirurgião quem
surgia. O negociante segurou-lhe o braço e arrastou-o.
—Minha
mulher... Um desastre de automóvel... Está lá... A poucos metros daqui.
Pierre
Thilorier não pronunciou uma palavra. Acompanhou o visitante noturno e ajudou-o
a transportar a vítima para a sua casa. Os dois homens penetraram num amplo
salão, onde sobre uma mesinha havia numerosos instrumentos de cirurgia.
Várias
lâmpadas estavam acesas, iluminando profusamente tudo.
Contudo,
Gustave Laulan estremeceu ao encarar direito o rosto do cirurgião.
O
sábio tinha um aspecto que inspirava medo. Rosto de uma palidez mortal, cabelos
brancos jogados para traz, olhar duro. Esse olhar duro, que produzia calafrios,
fitou o negociante e, pela primeira vez, ouviu-se a voz surda:
—Que
deseja o senhor?
—Doutor... — balbuciou o marido aflito, profundamente
perturbado. — Salve-a, doutor... Desejo que a salve. Minore-lhe o sofrimento.
E
sua mão designou a jovem esposa estendida sobre o grande divã, com um ferimento
na testa, de onde escapava sangue, gota a gota...
O
olhar de Pierre Thilorier deteve-se interrogativamente na vítima.
Depois
falou a voz rouca e atordoante:
—Vencer
a morte!... — bateu na testa com a mão magra. — Procurar a vida neste
cérebro... Oh... A nossa tarefa! Essa árdua missão dos cirurgiões. Operar...
Mas a morte é mais valente...
—Não...
não... Sobretudo quando o senhor se ergue diante dela e diz: “Não Passarás!”
—Mesmo que eu diga, ela passará — sentenciou
friamente o sábio. — Passará...
—Mas
é preciso experimentar... tentar... — lamuriava o homem em desespero. — Ó
mestre... Mestre! A única esperança que me resta! Minha fortuna! Ofereço-lhe a
minha fortuna! Minha vida, se necessário... Mas salve-me a minha Anie...
E o homem soluçava, metia a mão nos cabelos em
desespero...
—
A minha Anie ... Mestre... Tente... por piedade! Anie...
O
cirurgião não respondeu. O seu olhar buscou primeiro o bisturi, depois a
mulher, da qual se aproximou.
Inclinou-se
sobre ela, contemplando-a longamente.
Um
silencio impressionante reinava na sala. Angustiado, Gustave Laulan não ousou
perturbar esse mutismo.
Subitamente,
o sábio Pierre pareceu animar-se. O olhar brilhou cheio de intensa decisão.
Apontou à porta e ordenou enérgico:
—Vou
experimentar, ouviu? Vou tentar. Mas quero estar só, entende? Inteiramente só!
Quero lutar frente a frente com a morte.
Uma
atroz inquietação minava a alma atormentada do negociante. Contudo, tinha que
se submeter a esse desejo imperativo.
—Fora! — gritava o cirurgião transtornado.
—Tem que esperar fora! Não me perturbe um momento, senão eu deixo a morte
passar.
O marido de Anie, acabrunhado, resignou-se a
caminhar para a porta da vivenda, que viu fechar-se imediatamente atrás de si.
De novo na rua, na escuridão, no silêncio...
—
Quero lutar frente a frente com a morte! — esbravejou mais uma vez o Dr. Pierre
Thilorier lá dentro. E na sua voz algo havia que, em outras circunstâncias,
encheria Gustave Laulan de espanto.
Mas
o infeliz negociante, angustiado, só via no seu desespero a mulher semimorta.
O
tempo ia passando. Mãos nos bolsos, nervoso, Laulan andava sem parar de um lado
para o outro, como um animal enjaulado, febril, acompanhando mentalmente a
atividade do cirurgião... “Anie... Minha Anie...”
Subitamente,
ouviu o rumor de um automóvel freando de repente na porta da vivenda.
Dois
homens desceram apressados e detiveram-no indecisos ao ver o vulto de Gustave
Laulan.
—Quem
é o senhor? — interrogaram, dando mostras de grande agitação.
Com algumas palavras apressadas e incompletas,
o marido narrou o trágico acontecimento. Os dois homens recuaram pasmos, numa
surda exclamação:
—Que horror! — exclamou um deles, fitando o
negociante. —Pois ainda não sabe que o Dr. Pierre Thilorier está louco? Senhor, uma operação praticada em sua filha
falhou. Após a morte desta, ele perdeu a razão e tiveram que interna-lo em
Charenton, onde acabamos de notar-lhe a desaparição. Estamos à sua procura para
leva-lo novamente...
O
primeiro movimento do infortunado negociante foi um impulso de arrombar a porta
para arrancar das mãos do louco a mulher adorada... Um louco! A sua querida
Anie estava sendo operada por um cirurgião louco. Santo Deus! E ele, Gustave
Laulan, não havia notado isso na fisionomia anormal daquele homem. Aquele
olhar, o rosto pálido... A voz! Que
horror! Mas deteve-se manietado, amordaçado, oprimido entre dois terrores. Que
faria o cirurgião ao ouvir o arrombamento da porta? Não mataria Annie com
aqueles instrumentos que tanto podiam dar a vida como a morte? Esperar.
Tinha que esperar... Mas esperar o quê? Que o destino concluísse a sua
obra. O destino... Intervir seria talvez precipitar uma tragédia...
Oh!...
Que trágicos momentos foram aqueles na vida do negociante!
—
Senhores... Eu lhes suplico . . . Fiquem quietos, por amor de Deus. Silêncio...
Eu lhes suplico... Fiquem quietos...Minha pobre mulher está nas mãos dele...
Ah, Senhores!
Os
homens compreenderam rapidamente a delicadeza da situação e a ansiedade do
marido. E encostaram-se todos, comovidos, à porta, a escutar, sem ousar trocar
impressões.
Lá
dentro, uma mulher à morte, e um cirurgião louco, bisturi em punho... Um
silencio solene, pleno de angústia, à espera de uma catástrofe.
Abriu-se,
enfim, uma janela. Gustave Laulan viu o cirurgião em meio do retângulo
luminoso, cabelos despenteados, feições medonhas, numa delirante exaltação de
alegria.
— Venci a morte! Venci a morte! — urrava o
louco, como se falando a um milhão de ouvintes — Venci a morte!
Abriu
a porta.
Os
três homens precipitaram-se para o interior.
Anie estava estendida sobre a grande mesa,
cabeça envolta em gazes.
Ao
encarar os recém-chegados, o cirurgião passou a mão à fronte, como para
dissipar a nuvem que até então estava obscurecendo a sua inteligência. Depois,
como uma massa pesada, caiu sem sentidos no soalho.
*
Guiado
pelo seu instinto profissional, o cirurgião louco havia executado
maravilhosamente uma das operações mais delicadas e audaciosas que se possa
imaginar.
A
emoção experimentada com o aparecimento súbito dos três homens havia produzido
no seu cérebro o traumatismo criador de novas energias intelectuais.
E,
agora, é na vivenda do Dr. Pierre Thilorieur que o casal Laulan passa as suas
horas da mais pura afetividade todo os domingos. Tornaram-se uma única família.
O Dr. Pierre exibe o orgulho de um pai extremoso ao encarar Anie. Está com
perfeito gozo de saúde mental.
Gustave
Laulan prefere vir de trem.
Nenhum
dos três fala daquela noite trágica, porque ela permanece muito presente nos
seus espíritos.
Fonte:
“Boa Nova”/RJ, edição de janeiro de 1940.

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