O MENESTREL E O DIABO - Narrativa Clássica Lendária Sobrenatural - Amélie Bosquet
O MENESTREL E O
DIABO
Amélie Bosquet
(1815 – 1904)
Tradução de
Paulo Soriano
Em
várias ocasiões, a leitura imprudente do grimório[1]
causou catástrofes. Fala-se até de
sequestros que duraram vários dias e, às vezes, anos inteiros.
Um
bravo menestrel chamado Delorier, cuja memória permanece célebre na vila de
Mont-Merey, no município de Athis, foi levado ao inferno, onde permaneceu por
três dias. Tal fato aconteceu há muitos anos.
Nosso
menestrel não tinha motivos a censurar-se pela leitura imprudente do grimório:
todos os livros lhe pareciam completamente inocentes, já que a sabedoria de
nosso homem se limitava a tocar, razoavelmente, de memória, em seu violino,
alguma melodia dançante da região ou algum minueto da alta sociedade, mas
adaptado ao estilo camponês.
Contudo,
um dia, enquanto caminhava pelos campos, tangendo, como de costume, o seu arco,
Delorier encontrou um homem nobre que, depois apreciar a sua música, o convidou
a comparecer à sua casa, em breve, para tocar violino numa festa que se preparava
a dar. A proposta foi aceita. O
estranho, porém, não revelou onde morava. Combinaram apenas encontrar-se num certo
dia, a uma certa hora, exatamente no lugar onde agora estavam: um caminho
estreito e bem suspeito, que atravessava uma floresta. Então, separaram-se.
O bom menestrel retomou o seu caminho. Todavia
— coisa estranha! — após tal encontro, ele não conseguia recuperar a habitual leveza
de suas pernas, nem a espontânea jovialidade de seu espírito. Assim, o seu
violino permanecia silencioso sob seus dedos apáticos. É preciso dizer mais?
Ora, uma inquietação persistente, embora dificilmente justificável, apoderou-se
da mente do menestrel: fora com o diabo — pensou ele — com quem falara e a quem
prometera os seus serviços.
Ao
chegar à aldeia, nosso homem dirigiu-se diretamente à casa do padre. Narrou-lhe
a sua aventura, explicou-lhe as suas suspeitas, intercalando seu discurso com
algumas veementes ameaças contra aquele que o havia ludibriado. Concluiu
pedindo alguns salutares conselhos ao seu pastor.
—
Meu amigo — disse-lhe o padre —, se não puderes demonstrar caridade, deves,
pelo menos, ter consideração por todos, até mesmo para com o diabo, que muitas
vezes é o mais forte. Se ele vier te buscar no dia marcado, cumpre a tua
palavra e segue-o aonde quer que ele te leve. Apenas abstém-te de tocar em
qualquer objeto que ele te ofertar; em assim sendo, mesmo que desças ao
inferno, nenhum mal te poderá acontecer.
O
menestrel assimilou a lição: o diabo reteve-o no inferno por três dias; mas o bom
homem, tão absorto com as maravilhas que testemunhou, não sofreu com o longo
jejum a que foi submetido e, destarte, não teve qualquer dificuldade em
resistir às ofertas hospitaleiras que lhe foram prodigalizadas.
O
diabo ficou furioso; obrigado, ao término do acordo, a devolver o menestrel ao lugar
de onde o havia levado, bem no instante em que o músico estava quase a tocar o
chão, deixou-o cair violentamente.
O
pobre menestrel não se levantou; seus vizinhos, encontrando-o ferido e
inconsciente, levaram-no para casa. Quando recuperou os sentidos, contou sua
história, mas, infelizmente, apesar de toda as demonstrações de consideração e
compaixão, morreu depois de alguns dias. Terá morrido em consequência da queda
ou do medo? Não se pode dizer. Mas o certo é que o diabo nada ganhou com essa
perversa artimanha: bem avisado por suas lembranças, o bom menestrel não
negligenciou sequer alguns dos sacros preparativos necessários a uma morte
verdadeiramente cristã.
Fonte: "La Normandie
Romanesque et Merveilleuse", J. Techener Editor, Ruão,1845.
Ilustração: PS/Nano Banana.
Nota:

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