REMORSO - Conto Clássico de Loucura e Horror - Luiz Orlowsky

REMORSO

Luiz Orlowsky[1]

(Séc. XX)

 

Ali estava ele, gordo, pachorrento, com aquela papada presa à base dos ouvidos que nem uma rede, onde se balançava flacidamente meio quilo de banha. Tudo luzia nele. E principalmente a calvície lhe emprestava à cara uma forma monstruosamente rotunda e cheia. Mantinha-se calado, mas eu lhe ouvia a estrepitosa gargalhada, encendo a casa que nem um desabamento. Como seria bom vê-lo sempre assim, reduzido ao silêncio. Não. Seria melhor não ver jamais aqueles olhos esbugalhados se avolumarem assustadoramente quando grunhiam ferozes:

—Depressa, rapaz! Avia-te com isso! Esses criados são uma súcia de ladrões! Roubando o meu dinheiro!

E saía mastigando as últimas sílabas até que as portas fechassem sua avareza lá na biblioteca, onde continuava excomungando toda a classe das serventes, numa voz rouca e áspera.

Quando aquela exaltação acabava por lhe dar um ataque cardíaco, meu ódio se estendia satisfeito num sofá de molas. Mas quando tudo passava sem que o velho sentisse perturbação, ele fervilhava numa caldeira, há muito introduzida dentro de mim.

Agora, porém, o avarento estava absorto, embebido nalgum livro antigo e estrangeiro. Tudo estava quieto, enquanto o relógio não derrubou sua pilha de onze badaladas, que escorregaram ruidosas para fora do tempo.

Seria melhor não o ver nunca mais. Que falta faria? Não tinha filhos, nem mulher nem parentesco. Ao menos eu nunca o soubera. E o sobrinho que morava com ele lhe tinha tanta afeição quanto eu. Bem provável que este único parente também alguma vez tivesse afagado a vontade de o ver estirado num caixão, inchado, gordo. Boca fichada para sempre. Bem provável. E nunca mais a casa sentir-se-ia abalada pelo estrondoso gargalhar que rebentava aos socos quando algum desgraçado lhe esmolava prorrogação de prazo para liquidar contas.

Se ele desaparecesse, quanta felicidade ocuparia seu lugar! Então a alegria volveria a habitar aqueles quartos e o sol a aquecer as paredes amarelecidas pelo tempo.

Todos dormiam. Ninguém sabia que o velho se quedava ali sentado. Nem mesmo eu o saberia se uma sede abrasadora não me obrigasse a descer as escadarias. Atrás da poltrona se recortava tentadora janela, mostrando a boca da noite. Se eu chegasse por fora com um revólver... Não! Isso não. Isso faria um barulho dos infernos. Quase certo que o avarento não escapava. Mas de que me adiantaria jogá-lo ao túmulo se ele me jogava às grades? Era preciso descobrir outro meio. E enterrar um punhal naquela carne decrépita, quando ela se fosse deitar, dali a pouco? Não haveria barulho nem o mínimo grito, porque eu bem lhe poderia tapar a boca com uma das mãos. Não. Também não servia. Ainda muito arriscado. Só havia quatro empregados na casa e o sobrinho. A polícia, verificando que nenhum estranho penetrara, desconfiaria logo que o homicida se encontraria entre nós. Eu era leigo no assunto. A mínima pergunta me embaraçaria. Que era leigo, bem o estavam evidenciando aqueles planos pueris.

Resolvia quase desistir, deixar tudo na mesma, quando notei o avarento a depor os óculos, fechar o livro e se erguer vagarosamente do fundo da poltrona. Pensei em fugir para que não me surpreendesse naquela atitude duvidosa. Mas o vi levar a mão esquerda ao peito e contorcer toda a gordura luzidia da cara numa expressão de dor. Logo aos primeiros passos, deduzi que ele não poderia subir as escadas sem primeiro ingerir uma dose daquele pozinho receitado pelo médico. Corri até a gaveta do móvel em que costumava guardá-lo. Não sei como me pôde brotar tão rápido este pensamento. Mais digno de nota é que não pensei em consumir a caixa toda. Percebi logo que isto iria trazer alguma complicação e retirei apenas os pacotinhos. Ninguém sabia quantos eram. Esgueirei-me depois para a sala contígua. Observei o desenrolar da cena.

O velho chegou se arrastando e se apoiando em cada móvel espalhado no caminho. Tinha o rosto lívido. Quando abriu a gaveta, duvidei que ainda lhe restasse força suficiente para preparar o remédio, mesmo que ele estivesse ali. A terrível surpresa estampada no fundo branco da caixa sorveu-lhe de vez o exíguo fio de força que só a esperança alimentava.

Toda a vastidão daquela massa tombou surdamente, amparada maciamente pela gordura paquidérmica.

Impossível tivesse alguém escutado o baque, mesmo acordado. Aproximei-me do velho inconsciente. Vivia ainda e talvez se salvasse caso eu lhe prestasse auxílio. Mas por que se o destino me ajudava admiravelmente no desempenho de um plano elaborado num minuto apenas? Afinal, estaria livre. Na manhã seguinte os jornais noticiariam a morte do conhecido milionário e ninguém suspeitaria que eu havia sido a causa indireta daquela morte.

Abri ligeiramente a torneira. Um fiozinho d’água escorregou do alto e se espreguiçou densa e molemente no chão liso e branco da pia. Rasguei um a um todos os envelopes e os diluí.

Aquilo era um assassinato… Diabos, por que iria me atormentar com essas coisas? Por que já me estaria incomodando com esta palavra sibilante? As palavras são todas convencionais. Convencionou-se dizer assassinato para qualquer coisa parecida com aquilo. Parecida. Portanto, não havia motivo. Depois, se fosse assassinato... Com mil demônios! Já tornava a maldita palavra a me importunar. Libertei-me destes pensamentos. Deixei a sala iluminada e busquei a cama no máximo silêncio.

Deitei. As seis horas que me separavam do dia, passei-as em claro. Comecei a ver um milhão de erros no crime perpetrado. Considerei-me perdido. Irremediavelmente perdido. Pensei que era melhor fugir. Talvez para o interior. Ficar lá uns sete ou oito anos e depois voltar. Então ninguém mais me reconheceria. Sim. Urgia, porém, decidir-me logo. Não. Aquilo era fruto de minha imaginação. Não havia motivo para temer. Dali há pouco levantar-se-ia um burburinho, poria toda a casa em reboliço. Encontrariam as luzes da sala acesas. O velho caído com a caixa de medicamentos vazia entre as mãos. Nenhum sinal de violências. Que desconfiança poderia surgir? A polícia? Não se atreveria a marear o brilho que luzia na dignidade dos Vergara. Depois, o que faria supor qualquer ilegalidade? De fato, os temores eram frutos da minha imaginação. Julguei-me ridículo, ingênuo. Aquilo se poderia chamar crime perfeito…

Um grito agudo e súbito de voz feminina varou-me os ouvidos como um estilete. Pulei sobressaltado da cama. Se não havia surpresa para mim naquele eco de terror, sobrava-me a curiosidade de sondar as opiniões alheias. Soara, por fim, a hora em que se decidiria minha sorte. Desci, vestindo-me pelas escadas, simulando e procurando colar ao rosto a máscara que os acontecimentos imprevistos soem estampar na cara da gente. Antes de chegar na sala, observei que nem o rapazola, sobrinho do cadáver, nem seu Vitório haviam chegado. Seu Vitório era o empregado mais idoso. Apenas a cozinheira Rosa e Alexandre se mantinham ali parados, imóveis.

Aproximei-me, fingi o maior dos espantos e menti uma jaculatória. Tudo estava como na véspera. Ninguém tocara no defunto. A cena não me apresentava a surpresa do inédito. Nada havia que me fosse tão conhecido. Mas simulei. Simulei bem, porque ninguém desconfiou absolutamente de nada. Fiquei mais descansado. Sem motivo para temer. Depois chegaram o rapazola e seu Vitório. Em nada, porém, se modificou minha situação.

O dia passamo-lo na azáfama aos dias enlutados. Um labutar constante, bem anormal e completamente silencioso, como se o morto se perturbasse com o ruído. O maior barulho era o dos telefones. Não cessaram de tilintar um só minuto. Mas sempre havia quem se apressasse em amortecer aquele som estridente com uma voz grave, baixa e compassada

Ninguém chorou. Como eu suspeitava. Todos lhe tinham ódio. O próprio sobrinho não lhe dedicava afeição. E quem me assegurava que aquela máscara trágica não era como a minha, fingida?

Enfim, puseram sobre a mesa um caixão enorme. Gigantesco. Não quis olhar a fisionomia que emoldurava, mas alguma coisa imaginária virou-me lentamente a cabeça na sua direção. Estava como sempre o desejara: estendido, inchado, gordo, mais gordo que nunca. Boca fechada para sempre. O torvelinho de gente hipócrita, que veio espremer uma custosa lágrima sobre o féretro, confundiu-me naquela massa. Podia passar livremente por todos. Se acaso alguém me olhava, via apenas o servente da casa. Todavia, uma impressão besta me tornou diferente por completo dos outros. Parecia-me ser feito de alguma coisa imaterial. Julguei-me um fantasma atravessando toda aquela multidão sem ninguém de mim se aperceber. E eu era o assassino, a causa de todo o tumulto.

Coloquei-me atrás do reposteiro aonde espiara o avarento no dia anterior. A poltrona à qual ele confiava o peso da sua obesidade fora afastada para não ocupar espaço. No seu lugar estava aquela moça loura observando o quadro em que se desenhava a mãe da vítima. Talvez lhe admirasse as joias, riquíssimo adorno de um pescoço curto e gordo.

O esquife, armado bem no centro da sala, tinha duas portas lateralmente abertas. Seu interior era um canteiro onde vicejava a morte.

Afinal, fechou-se para sempre. O coche fúnebre o carregou para bem longe do convívio humano e enterrou a semente da morte no seio da terra por saber que até a ressurreição ela não brotaria jamais.

Esvaziara-se a enorme vivenda. Quando a noite dependurou no cordão do horizonte suas roupas de veludo negro e macio, um silêncio medonho se esparramou por todos os cantos, amortecendo as vozes com o tapete fofo da sua mudez.

Subi até meu quarto, no segundo andar. Deitei-me e o relógio distante soltou, uma a uma, onze longas horas. Evoquei de novo toda a cena da véspera. Comecei a sentir medo. Sempre julgara que o temor da escuridão era próprio das crianças. Entretanto, já me considerava homem e o sentia horripilantemente.

O aposento estava totalmente mergulhado nas trevas. Nada de lua. Será natural, por vezes, sentir horror ao escuro? A noite é fenômeno natural. Não havia, pois, temê-la. Não... não pensava nos naturais. Eram os sobrenaturais que me afligiam. Aprestei os ouvidos para um som que pisava suavemente os degraus. Imoto, a cabeça desencostada do travesseiro, cravei os olhos na porta que dava para o corredor. Mantive-me por dois minutos nesta incômoda posição. Convenci-me de que almas não fazem barulho, não têm pés, não precisam subir escadas. Convenci-me de que não ouvira absolutamente nada. Tudo obra da imaginação. Descansei a cabeça, cerrei os olhos. Ainda assim o medo não se diluíra. Positivamente perdera o sono. De vez em quando alguma coisa inconsciente me impelia a encompridar a vista até o quarto vizinho. Um quarto abarrotado de coisas velhas e mofadas. Ninguém o penetrava, nem mesmo eu, embora me fosse um prolongamento natural do aposento. Aquela porta semiaberta é que me dava arrepios de medo. Seria capaz de jurar que algumas almas penadas estavam lá, confabulando entre si o melhor meio de me atormentar. Se ao menos ela estivesse fechada. E por que não ia cerrá-la? Não. Isso não. A violação do silêncio me atemorizaria ainda mais. O respirar desordenado, que me agitava levemente as asas do nariz e assobiava nas cobertas, vinha sussurrar-me uma palavra sibilante. Precisava livrar-me. daquela obsessão. Precisava fechar a porta. Levantei-me devagar. Não senti tanto medo. Fechei a maldita porta. Agora dormiria. Antes, porém, abri a janela para refrescar o quarto. Estava um calor insuportável lá dentro. Oh, como a brisa me aliviou a tensão! Vi que ia chover. Meti-me de novo sob as cobertas. Agora dormiria.

Amoleci. Ainda restava uma única velinha a iluminar-me a insônia. Arrastei-me para extingui-la. Não tinha pressa. Ia com vagar. Oh, estava se apagando por si! Um baque súbito e violento! Pulei num sobressalto. O coração me queria sair pela boca tanto se debateu. Engoli uma saliva grossa, angustiosa. Por fim retomei a calma. Levantei-me de novo para trancar a janela mal encostada que o vento num acesso de fúria havia aberto assim, com tamanho estrondo. O ar tinha um cheiro de chuva. Pela terceira vez entrei debaixo dos cobertores. Aquele susto me fizera mal. Tinha menos sono que nunca. Talvez agora não dormisse mais. Lá estava a maldita porta cerrada, escondendo nas costas o conluio das almas penadas. Amanhã remexeria todos os trastes atirados lá dentro para me certificar de que ele era como os outros quartos. Nada de anormal. Amanhã.

Um grito rasgado de gato perfurou-me o tímpano, como se o felino houvesse usado as próprias garras para me enfiar aquele incômodo horrível dentro dos miolos. Uma garra, o grito rasgado. Ou a voz feminina de Rosa? Estaria condenado a ouvir por toda a eternidade o terror da cozinheira quando se lhe deparou o patrão cadáver estendido no assoalho? Não, isso de remorsos não existia. Invencionice boba. Havia enganado todo mundo e estava com medo da própria sombra. Que puerilidade. Dali há pouco despontaria o Sol, então a luz me revelaria a infantilidade dos temores.

Começara a chover. Chuva pesada, abundante. Imaginei que as águas penetravam na terra fofa do cemitério, ensopavam as vestes do avarento. Uma água fria encontrando um corpo duro e frio. Eu me abrigava nas cobertas. Era diferente nossa condição. Mas meu quarto, este se parecia horrivelmente como sepultura. Escuro, fechado, o ar já principiava a escassear. Sim, meu quarto era uma sepultura que encerrava um vivo. Suava frio. Tinha medo. Não gostava da chuva que me trouxera tais pensamentos. Estava prestes a comprimir o comutador para ver toda aquela escuridão engolida de um só bocado, quando um relâmpago entrou maluco janela a dentro. Vi tudo como se fora dia. Dia de um segundo.

A porta estava aberta! Escancarada!

E eu a fechara! Fechara? Não tinha certeza. Lembrava-me de estar com vontade de trancá-la. Todavia, se ela estava aberta, era prova de que tudo se passara na minha mente.

Reboou o trovão. Invadiu o solar, rolando pelas escadarias, arrastando móveis, estremecendo cristaleiras, gaguejando como a gargalhada estrepitosa do avarento. Teria sido mesmo o trovão? Meus nervos tão inutilizados não se lembravam mais de coisas sucedidas há meio minuto. Suava. Noite medonha. Não queria ter medo, mas tanta coisa fora do comum acontecia que eu duvidava me encontrar ainda entre os plenamente são de espírito.

Novo relâmpago. Deus Meu! Velasse-me!

Ali está o defunto em pé, vestido de preto, como no caixão. Ali estava ele, gigantesco, com um sorriso medonho entalhado em toucinho. Senti uma garra de gelo rasgar-me a espinha. Senti todos os pelos se eriçarem e a pele toda se enrugar de frio, medo e terror. Não esperei que ele jogasse seu cavernoso gargalhar em cima do primeiro trovão. Não esperei porque ele avançava sobre mim para me esmagar, para me estrangular entre a flacidez daquela mão gorda, mole, volumosa.

Libertei-me da paralisia que viera fazer morada em cada uma de minhas juntas. Pulei num soco da cama; atirei-me contra a porta, quase louco, trêmulo, e me arrojei aos berros escada abaixo. Ouvi-os perfeitamente naquela semiloucura. Nem um animal os soltaria tão terríveis.

A casa fora tão abalada duas vezes no dia pelo grito do pavor. Todos me cercavam. Eu ajoelhado, chorando, confessava que havia assassinado o avarento, por isso ele me perseguia. Trouxeram-me chá, pedindo que me acalmasse. Diziam que era tudo causa da excessiva tensão nervosa. Que eu não era o criminoso, posto que o patrão fora vítima de morte natural e não havia sinal de homicídio. Os avejões que me atormentavam eram filhos da imaginação febril. Gritei-lhes que eram imbecis. Expliquei-lhes detalhadamente todos os pormenores do crime. Obriguei-os a chamarem a polícia. Não queria nunca mais ver a cara rotunda, luzidia e cheia do avarento. Queria que me encerrassem numa prisão, onde ele não me encontrasse, para o resto dos meus dias. Queria berrar para o mundo inteiro o homicídio que praticara. Desejava pegar pessoa por pessoa na rua e contar-lhes como havia sido. Não me permitiram. Deram-me apenas lápis e papel que lhes pedi. Esta é a terceira vez que descrevo o crime. Quero descrevê-lo muitas vezes mais. Quero continuar. Quero...

 

*

 

O resto da confissão prestada pelo criminoso é ininteligível. Um emaranhado palavras que não dizem coisa nenhuma.

Talvez fosse por isso que, três dias depois, a ambulância transportava um preso da penitenciária para o manicômio...

 

 

Fonte: “Revista da Semana”/RJ, edição de 16 de julho de 1949.

 

Nota:



[1] Provável pseudônimo.


 

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