SACRÍLEGO - Conto Clássico Macabro - Carlos Nobre

SACRÍLEGO

Carlos Nobre

(Sécs. XIX e XX)

 

Silêncio de túmulo.

Ao virações da noite, surdas, monótonas, lúgubres, agitam as folhas negras dos arbustos tristonhos.

Nem uma estrela no céu, nem um gemido na terra; apenas vago rumor ao longe indica que ao lado da vida repousa o luto da morte.

Estende-se uma rua e nesta rua negreja o vulto pavoroso de uma igreja deserta, revestida de um sudário de crepe, fantástico, medonho, absurdo, como as visões noturnas do um pesadelo.

 Silencio de túmulo.

Para a porta do templo abandonado caminha uma mancha escura, que se move trêmula como as asas dum corvo que, solitário, pousa as bordas de uma tumba.

E aquela sombra — densa, terrível, pavorosa — subia na parede lisa como um lagarto enorme.

Aproximou-se da janela do templo. Era uma imagem horrível, um sacerdote negro, de fronte curvada, que trazia um círio na mão direita. Seus olhos vivos, encandeados, cintilavam como fogos fátuos sob as pálpebras frias. Seu olhar era ardente, sinistra a expressão do seu rosto.

Os sacerdotes macerados das lendas medievas eram menos tenebrosos.

Aproxima-se do altar.

Lançou sobre o sacrário as suas mãos aduncas, agarrou-o, como se prendesse o corpo regelado de uma defunta que adorara sobre a terra.

Mas uma voz catacúmbica   murmurou na escuridão do templo:

—Sacrílego!

O padre estremeceu.

Lançou um olhar de assombro ao redor de si mesmo: nem um vulto sequer, nem vampiro adejava.

Tudo era triste, pesado, silencioso. O sacerdote voltou-se para o altar de novo, agarrou no sacrário e fugiu aterrado.

Os sinos da igreja, surdos, fúnebres, monótonos, dobravam compassados, girando sobre os gonzos. Mas só ele os ouvia... Só ele podia ouvi-los...

E o padre desapareceu na rua, enquanto um fumo espesso se derramou nos ares.

Malus consummatum perversi.[1]

 

Fonte: “A Campanha”/MA, edição de 12 de junho de 1902.


Nota:

[1] A frase não está perfeitamente construída em latim.  Dado o contexto, provavelmente significa O mal do pervertido está consumado, aludindo ao ápice da corrupção do sacerdote.

 

 

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