A ALMA DO PADRE - Conto Clássico Sobrenatural - Autor Anônimo

A ALMA DO PADRE

(Conto tradicional espanhol)

Tradução de Paulo Soriano

 

Um casal teve um filho há muito esperado. Nascida a criança, os pais, ansiosos por saber sobre o seu destino, decidiram consultar um vidente muito famoso da região pela precisão de suas predições.

O vidente, que esteve muito ocupado preenchendo papéis com símbolos estranhos, finalmente lhes disse:

—Seu filho será cheio de virtudes e viverá feliz e satisfeito até os vinte e um anos, quando, devido a algum acontecimento, que não consigo ver claramente, será enforcado.

Os pais amaldiçoaram o dia em que decidiram consultar o adivinho, mas já não podiam parar de pensar na previsão. E tal pensamento, que lhes era impossível apartar da mente, assombrava-lhes a existência.

O garoto foi criado maravilhosamente, e, à medida que crescia, demonstrou ser honrado, trabalhador e um bom filho. E tudo isto somente aumentava a tristeza dos pais. E o filho já estava prestes a completar vinte e um anos quando, certa noite, encontrou os pais chorando em silêncio. Como já lhes havia notado a tristeza, perguntou-lhes o que com eles se passava. Então, os pais lhe contaram o que o adivinho havia previsto.

E o jovem lhes disse:

— Pois não se preocupem mais.  Viajarei pelo mundo e, quando voltar, os senhores verão que a profecia era uma mentira.

E, por mais que seus pais procurassem dissuadi-lo, o rapaz insistia em partir. O seus pais tiveram que se resignar a nunca mais vê-lo.

Na manhã seguinte, antes de partir, a mãe lhe deu um livro de orações, rogando-lhe:

— Não se separe nunca deste livro, e, em cada lugar aonde chegue, assista à primeira missa que for celebrada. Prometa-me isto. E que Deus o proteja.

O rapaz fez a promessa e partiu. E aquele dia era o Dia de Todos os Santos.

Logo chegou ele a uma aldeia onde decidiu passar a noite. E, tendo-se acomodado na estalagem, perguntou ao estalajadeiro:

— Quando será a primeira missa aqui?

E o estalajadeiro lhe disse:

— A missa da alvorada é às seis horas; mas, como amanhã é o Dia de Finados, a primeira missa será à meia-noite. É uma missa misteriosa, porque ninguém sabe quem a celebra e ninguém a ela comparece.

E disse o rapaz, lembrando-se de sua promessa:

— Pois bem, vou assistir a essa missa.

Então, procurou o pároco da aldeia e lhe contou o que lhe disseram. E o padre disse:

— Eu não acredito no que dizem na aldeia e irei celebrar a missa às seis da manhã. Contudo, se esta é a sua vontade, aqui lhe deixo as chaves da igreja para que possa nela entrar e esperar até à missa da alvorada.

O rapaz pegou as chaves e esperou na estalagem até pouco antes das doze horas. Depois, foi até a igreja, abriu a porta e sentou-se num banco para esperar.

Às doze em ponto, os sinos tocaram, e ele viu que uma lousa mortuária se erguia no centro da igreja e que dela emergia um padre.  O sacerdote dirigiu-se à sacristia e logo retornou, já paramentado, para celebrar a missa, com um cálix nas mãos. Então, vendo o rapaz, fez-lhe um gesto para que se aproximasse, e este foi até o padre e o ajudou a celebrar a missa. E, terminada esta, disse ao jovem:

— Eu era o pároco desta vila e, por causa dos meus pecados, converti-me numa alma penada. E assim foi até que você, ajudando-me a celebrar a missa, me tirou do Purgatório. De agora em diante, eu o ajudarei em tudo o que precisar. Que Deus guie seus passos.

O rapaz esperou o pároco da aldeia chegar ao amanhecer, devolveu-lhe as chaves e partiu. Caminhou o dia todo e, ao anoitecer, avistou as luzes de uma aldeia à distância e correu em sua direção; mas, naquele instante, alma do padre lhe apareceu e disse:

— Tome este cavalo e esta bolsa com dinheiro que lhe dou, e volte para casa, porque sua mãe não faz nada além de chorar, pensando que você já está morto. Nada tema, pois eu o defenderei.

O espírito do padre desapareceu, e o jovem hesitou entre buscar um pouco de aventura ou regressar para casa. Mas, como a aparição do padre o impressionara, decidiu seguir o seu conselho e pôs-se de volta à casa. E este era o dia em que completava vinte e um anos.

E ia pelo caminho com o cavalo a passo, tranquilamente, em meio ao silêncio da noite já caída, quando lhe pareceu escutar vozes. Desmontando, decidiu averiguar a quem aquelas vozes pertenciam. Levou o cavalo pelas rédeas ao lugar de onde elas partiam e logo escutou claramente:

— Isto é para você, isto é para você, isto é para você e tudo isto é para mim — alguém disse.

— Essa distribuição não me parece correta — disse outrem.

— Bem ou mal, assim será — disse um terceiro.

Assim falavam quatro ladrões que estavam dividindo o botim obtido com os assaltos naquele dia.

O rapaz se aproximara tanto deles que os ladrões o pressentiram, mas, quando ouviram os cascos do cavalo, pensaram que era o guarda que os havia descoberto e fugiram, abandonando tudo.

Então o rapaz foi ver o que havia lá e encontrou quatro sacos cheios de ouro e objetos valiosos; e deixou os objetos, mas pegou o ouro, carregou-o em seus alforjes e foi embora felicíssimo, pensando na boa sorte que tivera justamente no dia em que completava vinte e um anos.

Mal ele percorrera o caminho, quando os quatro ladrões saíram ao seu encontro, dizendo:

— Parado aí! Foi você que nos roubou!

Um segurou o cavalo, outro o atirou ao chão, outro o golpeou, outro o amarrou; depois, arrebataram-lhe tudo o que levava, mesmo o cavalo, e, juntos, o enforcaram no galho de uma árvore, para deixar-lhe o cadáver exposto às feras da floresta.

O rapaz preparava-se para morrer e já encomendava a sua alma a Deus, pensando também em seus pobres pais, quando escutou o galope de um cavalo. A montaria se deteve diante dele, e sobre ela estava a alma do padre que, tendo-o libertado, disse-lhe:

—Suba neste cavalo e não pare até chegar em casa. Passou-se o seu dia, mas os seus pais ainda choram.

Dito isto, o rapaz fugiu a galope e, ao amanhecer, chegou à casa de seus pais, que já o davam como morto; e, assim que o viram chegar, transformaram o choro em lágrimas de alegria e nunca mais voltaram a sentir tristeza pelo resto de seus dias.

 

Fonte: albalearning.com.

 

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