A ÁRVORE DO TERROR - Conto Clássico de Terror - Emile C. Tepperman

A ÁRVORE DO TERROR

Emile C. Tepperman

(1899 – 1951)

 

Nicholas Lang sentia uma sinistra apreensão, como se o cheiro limoso do pantanal circundante se estivesse adensando para aprisionar-lhe a alma, para sufocá-lo numa nevoa maléfica.

Sentiu-se mais ou menos aliviado quando seu “roadster”[1] passou a rodar pelo caminho pertencente à Casa Chalmers. Saiu do carro e espreguiçou-se para desentorpecer os músculos, procurando sorrir ao serviçal, que veio de macacão ao seu encontro.

Nick estava ansioso por ir mais longe, mas tinha que parar, a fim de colher informações e, além disso, não comia desde que partira de Baltimore.

—Poderei comer um sanduíche e tomar uma xícara de café? — perguntou.

O homem virou-se sem responder, e, ao entrar, encolheu os ombros.

—Naturalmente que sim. Venha.

Nick seguiu-o até a sala de jantar, lavou apressadamente as mãos e engoliu os alimentos que lhe foram servidos. O café tirou-lhe dos ossos a frialdade do pântano, mas não afastou dele aquele senso de perigo que o perseguira durante todo o trajeto, desde Baltimore. Olhou, através da janela, para a escuridão da noite, e pensou em Nora Chesney, que estava algures, pelos tremedais da velha casa de Bronson.

Durante toda a viagem, ele havia procurado uma razão lógica para o fato de Nora, normalmente calma, senhora de si mesma, fazer-se repentinamente histérica e implorar que ele viesse encontrá-la o mais depressa possível.

As circunstâncias que haviam trazido Nora para aquela região eram bastante estranhas. Sua irmã Frieda, que era enfermeira formada, fora chamada, através da agência de enfermeiras, a vir cuidar de um velho inválido por nome Bronson. Isso acontecera três semanas atrás, e, desde então, Nora não tivera notícias da irmã.

Diante disso, ela pedira a Nick uns dias de licença, de modo a poder procurar Frieda e averiguar a significação daquele silêncio. Nick não ligara mais ao assunto, até a chegada da carta de Nora. Era uma missiva ordinária, declarando que ficaria por mais algum tempo, uma vez que tudo era tão calmo e confortável e, principalmente, pelo fato de ser Mr. Bronson um velho muito gentil e hospitaleiro, a despeito da sua invalidez.

Tudo nela era perfeitamente comum, salvo pelos rabiscos traçados por dentro do envelope, naturalmente às pressas, e talvez no escuro.

 

“Nick, venha e leve-nos daqui. Seja cauteloso; não traga a polícia. Eles têm sentinelas e, em caso de assalto, nos lançarão ao paul. Venha depressa”.

 

As palavras desapareciam na margem untada de goma, mas a porção legível foi suficiente para que Nick partisse naquela mesma noite. Lamentava o tempo que estava perdendo ali. Teria, de bom grado, passado sem comida; porém, as informações lhe eram indispensáveis.

—Onde fica — perguntou ao garçom, deixando uma moeda sobre a mesa — a casa de Bronson?

O garçom, um jovem de menos de vinte anos, fez uma expressão de espanto. Apanhando a moeda entre os dedos finos, estriados de veias azuladas, balbuciou:

—O senhor não está pensando em ir para lá esta noite, está?

—É o que pretendo fazer, filho. Haverá algum mal nisso?

 O jovem estava visivelmente embaraçado.

—Bem, senhor, a noite está escura como o diabo, e não há estrada de rodagem para a casa de Bronson; só um caminho para quem vai a pé, através do pântano.

Nick levantou-se, abandonando o guardanapo sobre a mesa.

 —De qualquer maneira, tenho que ir.

O rapaz encolheu os ombros.

 —Bem, tá bom, senhor. A trilha sai do lado esquerdo da estrada, duas milhas para baixo daqui. Não a perderá porque a caixa postal de Bronson está fincada no começo dela. São uns quinze minutos de caminhada, mas tenha cautela para não escorregar da trilha, senhor. Se fizer isso, será chupado pelos atoleiros.

Nick encaminhou-se para a porta e o garçom o seguiu.

— Há umas coisas esquisitas lá para a casa de Bronson, senhor. Ele vive há muitos anos com o seu criado Kildick. Nós nunca nos aproximamos muito da casa, pois Kildick anda sempre armado e todo o mundo sabe que ele é um sujeito de maus bofes. Os únicos visitantes que recebeu foram as duas enfermeiras bonitas e os quatro homens, que seguiram para lá na semana passada. Também nós não vimos mais nenhum deles.

 Nick semicerrou os olhos.

 — Com quem se pareciam esses quatro desconhecidos?

 — Não lhe sei dizer, senhor. Saltaram de um carro na entrada da trilha e prosseguiram a pé. Não lhes vi a cara, mas sei que eram quatro e que um deles mancava. Vistos pelas costas, pareciam ser todos tão velhos como o próprio Bronson, que vive no pantanal há perto de trinta anos. Ninguém mais quer fazer construções lá, porque as areias movediças estão sempre minando o terreno. Grandes faixas do solo têm-se dissolvido sem o menor aviso e árvores inteiras têm sido chupadas para dentro da terra.

Nick agradeceu ao garçom, apanhou a lanterna que trouxera no carro e transferiu sua pistola do coldre peitoral para um dos bolsos traseiros das calças. Certificando-se de que tinha munições sobressalentes, seguiu a pé para a trilha indicada. O garçom, que ficou dentre os umbrais a observá-lo, acenou para ele quando o viu desaparecer na escuridão. Pelo canto de um olho, Nick avistou o serviçal de macacão. Esse homem, corpulento e taciturno, observava-o silenciosamente de um ângulo mal iluminado da casa. Tinha, naturalmente, todo o direito de olhar para ele, mas, mesmo sabendo isso, Nick não deixou de tremer ligeiramente quando se perdia dentro da noite, seguindo o foco indeciso da lanterna elétrica.

O cheiro úmido, lodoso, dos terrenos pantanosos, assaltou de novo as suas narinas, e uma vez mais ele teve a sensação de que aquele ar pútrido vinha adensar-se sobre o seu coração como um peso enorme.

Encontrou o caminho à esquerda da rodovia e enveredou por ele. De ambos os lados da trilha ergueu-se uma névoa, que se cerrava em seu redor, parecendo escarnecer dele, gargalhando, enquanto lhe esfumava o rosto e se acomodava nas dobras da sua roupa. Nick mantinha o foco no chão à sua frente, e caminhava com cautela. Sabia que as areias movediças de ambos os lados esperavam, famintas, que ele errasse um passo para deixar-se tragar por elas.

De vez em vez, erguia a lanterna para observar a estrada além. Não tardou a lobrigar umas luzes longínquas, que logo calculou pertencerem à casa de Bronson. Estugou o passo; porém, estacou de repente. Ele erguera a lanterna e o clarão silhuetara um homem de chapelão desabado, ajoelhado na estrada, empunhando um rifle. E o rifle estava apontado para ele.

Nick estava ainda demasiadamente longe para fazer uso da sua pistola. Deixou-se cair ao chão, apagando a lanterna. O homem do rifle fez fogo; qualquer coisa veio bater no braço direito de Nick, e ele sentiu que a pistola escorregava dos seus dedos subitamente adormentados. Qualquer coisa tilintava no seu braço, entre os ombros e o cotovelo. Abandonando a lanterna, inseriu os dedos no rasgão feito na manga do paletó e tocou no ferimento.

Um ligeiro estonteamento o assaltou, mas ele o dominou e preparou-se para recuar. Foi regressando de rastro, muito devagar, a despeito da pressa que tinha, para não ser tragado pelos atoleiros. Uma lanterna elétrica foi ligada atrás dele. Nick ouviu os passos retumbantes do homem do rifle, que vinha correndo para alcançá-lo.

Nick pôs-se de pé e ensaiou correr na ânsia de alcançar a estrada e clamar por socorro. Era essa a sua única chance, mas uma chance muito pequena, porque ele não tinha luz que o ajudasse. Tropeçou, caiu de joelhos, ouviu os passos atrás de si, tentou erguer-se, mas ficou como que congelado.

Alguém o tinha acompanhado desde o hotel onde estivera.

O homem do rifle, agora mais vagaroso, virou o foco da lanterna para o recém-chegado. Nick não se surpreendeu de ver a cara enrugada do serviçal da Casa Chalmers. O criado estava armado agora, e sua fisionomia estava pesada, inescrutável. O homem do rifle disse numa voz rouca:

— Está feito o trabalho, Percy. Colhi-o no braço. Bom trabalho para uma escuridão destas, hein, Percy?

Percy pestanejou e disse aborrecido:

—Tire essa maldita luz dos meus olhos.

O outro obedeceu.

Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa e, por isso mesmo, mais incisiva, mais sinistra.

 —Fale com delicadeza, Percy. Não precisamos de você lá tão desesperadamente, bem o sabe. Aqui há atoleiros de sobra...

Deixou a sentença ficar pendente de um modo todo sugestivo.

—Eu não falei por mal — rosnou Percy, medrosamente.  — É que a luz me fazia mal aos olhos.

O homem do rifle grunhiu qualquer coisa ininteligível ao ferido:

 —Levante-se. Pode caminhar conosco para a casa ou atirar-se ao lodaçal. Isso não faz diferença alguma para mim.

Nick sabia quando estava por baixo. O tom de voz do inimigo não deixava dúvidas quanto à sinceridade das suas intenções. Ele pôs-se de pé, oscilando. Seu braço sangrava, mas a tonteira do começo já havia passado. Foi caminhando atrás do homem, cujo rosto ainda não tinha podido ver. Percy vinha na retaguarda. Não usavam luz alguma. O guia parecia conhecer de cor todo o caminho, tal era a firmeza de cada passo que dava. Tendo que o acompanhar com rapidez semelhante, Nick sentiu que a náusea voltava; seu braço começou a tremer do ombro até a ponta dos dedos. Tropeçou várias vezes. Quando estava certo de que não poderia ir além, o homem da frente parou.

Nick esfregou os olhos; viu que estava diante de um prédio; viu a porta da frente abrir-se. Depois, uma onda negra baixou sobre ele. Seus olhos se fecharam contra a sua vontade, e suas pernas dobraram-se da perda de sangue.

Antes da consciência o abandonar por completo, registou um som vindo dentro da casa; era um grito de mulher mortalmente aterrorizada. Contudo, mesmo enquanto aquela escuridão se estabelecia definitivamente no seu cérebro, ele compreendeu que não era a voz de Nora Chesney.

*

Nick Lang acordou dentro de uma cena terrível de horror e irrealidade. O quarto em que estava era velho, empoeirado. A primeira coisa em que caiu seu olhar foi uma enorme teia de aranha num ângulo do teto. Havia papeis colados pelas paredes, e alguns quadros pendentes de viés e manchados de moscas. A mobília, que era pesada e arcaica, teria sido cara em outros tempos. Nick estava sentado numa espreguiçadeira baixa e macia. Alguém lhe tirara o paletó. Seu braço estava envolvido no que parecia ser um guardanapo sujo e manchado de sangue.

Logo verificou que não estava amarrado, mas verificou também que não lhe era fácil mudar de opinião. Uma estranha lassidão o assaltou quando ele tentou erguer-se. Atribuindo isso à perda de sangue, deixou-se jazer na espreguiçadeira e volveu os olhos para a janela à direita.

A luz do quarto era fraca, provindo de uma só lâmpada de óleo ao centro dele. Como a janela estivesse escura, Nick pensou, a princípio, que seus olhos lhe estivessem mostrando algum sonho frenético de delírio.

Viu quatro homens barbados, sentados em fila num banco contra a parede. Estavam seminus, usando apenas, cada um, uma tanga vermelha e um turbante da mesma cor. Suas barbas eram longas, emaranhadas e espessas; o único detalhe discernível em seus rostos eram os olhos: quatro pares de olhos que faiscavam malignos, que pareciam concentrados num só proposito de crueldade. Seus corpos eram magros, velhos, ressequidos; a pele parecia bamboleante sobre os ossos. Cada um parecia ter cem anos de idade.

Para Nick, o quarto estava girando. Ele fechou os olhos com força, para abri-los depois, na esperança de que a visão macabra já se tivesse desvanecido.

Mas não! As quatro mascaras ainda lá estavam. Observavam-no numa obsessão muda, enquanto um quinto indivíduo desenvolvia um mister estranho, perto da janela. O quinto homem era ainda mais velho do que os quatro primeiros. Os ossos dos seus joelhos e cotovelos estavam a ponto de furar a pele ressequida e coberta de veias. Seu pescoço era longo e nodoso; os ossos do seu rosto estavam tão recuados que lhe davam o aspecto de algum cadáver que se tivesse erguido da tumba para perpetrar algum malefício inconcebível.

Inclinava-se sobre a janela aberta, tendo na mão um punhal de lâmina aguda e coruscante. Olhando por cima de um ombro, Nick viu que uma árvore crescia perto da casa, confrontando a janela. Não compreendeu como uma árvore podia viçar no lodaçal que circundava a casa, mas esqueceu-se dela logo que notou o que estava fazendo o fantasma decrépito da janela.

Estava simplesmente cortando uma longa faixa da casca da planta.

Nick esbugalhou os olhos de espanto quando viu o velho aproximar-se dos outros quatro, segurando a casca da árvore, a qual ofereceu ao primeiro da fila. Era algo inacreditável.

O espanto de Nick cresceu quando o homem a quem a casca fora oferecida tomou-a entre as mãos e, sem dizer palavra, começou a comê-la!

A cerimônia foi repetida durante mais três vezes consecutivas, até que cada um dos quatro velhos já tinha comido o seu pedaço de casca vegetal. Logo, o homem do punhal inclinou-se de novo sobre o peitoril da janela, cortou uma nova tira e comeu-a com ares muito graves. Durante todo esse tempo, ninguém parecera voltar sua atenção para Nick.

A essa altura, Percy entrou trazendo uma bandeja na qual havia quatro copos cheios de um liquido cor de lama. Atrás dele veio Kildick com o seu rifle.

Kildick ficou imóvel junto à porta, enquanto cada um dos velhos sorvia até a última gota do conteúdo de um dos copos e depois limpava a boca com um dos ossudos antebraços.

Percy apanhou a bandeja e saiu, mas Kildick continuou encostado à porta, com o rifle voltado para o prisioneiro.

 O quinto ancião largou o seu punhal e virou-se para os companheiros. Sua voz era baixa e quebrada pela idade.

—Agora, irmãos, temos um negócio. Aqui — falou indicando Nick — está um outro candidato. Foi-nos entregue pelo Deus da Vida Eterna, por cujos favores seremos eternamente gratos. Sua seiva é, nós o sabemos, forte e resistente. Precisamos preservá-lo com muita cautela.

Voltando-se para Nick, ajuntou:

—Levanta-te, candidato.

Nick tentou obedecer, mas suas pernas negaram-se a atendê-lo. Sentia-se incrivelmente fraco. O tiro recebido no braço não explicava a lassidão que o dominava tão inteiramente.

—Diabos! — gritou Nick perdendo a calma. — Quem são vocês? Que me fizeram? Que fizeram a Nora Chesney e à sua irmã?

O velho que estava de pé sorriu. Quando sorria, o pergaminho que era sua pele parecia estalar, dobrando-se numa infinidade de frinchas repulsivas.

—A juventude é sempre impulsiva. Fazes tantas perguntas de uma só vez... Meu nome é Bronson; eu sou o chefe aqui. Quanto ao que fizemos das jovens, isso não é da tua conta. É lastimável para ti, e feliz para nós, o fato de teres vindo procurá-las, pois usaremos em nosso favor a tua virilidade forte.

A voz do velho que se intitulava Bronson mudou de repente, tornando-se aguda e imperativa.

—Agora, ergue-te, candidato!

Nick fez força sobre os braços da cadeira, levantando-se com um esforço super-humano. Sua cabeça girava e suas pernas bambeavam. Ergueu-se, não porque Bronson o ordenava, mas sim porque queria erguer-se, vencer aquela fraqueza incompreensível.

Muitas coisas ali estavam além de qualquer explicação; sua debilidade, por exemplo. Era preciso, pensou, mais que um ferimento no braço para que ele se sentisse assim. E logo aquele quarteto de centenários olhando-o como se ele estivesse destinado a ser mártir de alguma prática monstruosa.

—Candidato? — murmurou debilmente. — Que quer dizer com isso?

Em vez de responder, Bronson virou-se para os outros quatro e disse com satisfação.

—Vedes, meus irmãos, o quanto ele é forte? Tenho a certeza de que será plenamente satisfatório, ainda mais que as duas jovens. Não é qualquer um que se pode pôr assim de pé, após ter perdido uma quarta parte do seu sangue.

Nick deu um passo em direção ao velho, mas estacou quando o cano da arma de Kildick lhe foi calcado no peito. No momento em que se levantara, o criado viera para perto dele. Nick ficou parado, procurando definir os seus sentidos imprecisos. Estava procurando reunir tudo o que via e ouvia naquele lugar fantasmagórico num quadro de lógica. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia achar uma explicação racional para aquilo. De repente, percebeu que Bronson se dirigia novamente a ele.

—Surpreendes-te de saber que perdeste um quarto do teu sangue, moço? Não foi do ferimento. Nós o tirámos de ti. O conteúdo dos copos de que acabamos de beber era o teu sangue; era o teu sangue misturado a uma dose de seiva destilada da árvore da vida.

*

Os pesados olhos de Bronson, enterrados nas órbitas descarnadas, enterrados no rosto ossudo e macilento, tinham um brilho tão malévolo que o detetive tremia à medida que se fixavam nele com maior intensidade.

Com o rifle de Kildick encostado ao seu peito, ele limitou-se a bradar:

—Demônios! Beberam o meu sangue! Estão loucos! Que fizeram de Nora Chesney? Se molestaram aquela moça, eu os matarei um por um! Eu...

Uma onda de náusea o dominou, interrompendo as suas ameaças. Seu coração batia como um martelo mecânico e sua cabeça zunia. Oscilou. Teria caído se Kildick não o segurasse por um ombro. A porta foi aberta, dando entrada a Percy.

Bronson comandou:

—Leva-o para baixo, Kildick. Cuida bem dele. Queremos vê-lo novamente forte e são, para que nos seja de utilidade.

Nick foi cambaleando entre Kildick e Percy, entre a consciência e a inconsciência.

Indefeso, mal podendo manter-se sobre as pernas, deixou-se levar submisso pelos dois criminosos. Ainda no último momento, quando passou para o corredor e a porta fechou-se atrás dele, notou aqueles quatro pares de olhos malignos, fixos nele com desejo, com fome. Agora compreendia a razão daquela avidez: a sua juventude, a sua força, a sua virilidade, que eles pretendiam absorver paulatinamente nos seus organismos esgotados.

O corredor estava quase às escuras. Os dois carcereiros fizeram Nick descer a escada. Seu olfato aguçado pela inércia da febre colheu o cheiro dos seus corpos sem asseio, e logo um frêmito de repulsa o percorreu.

Lá embaixo, eles o empurraram para um quarto semelhante a um cubículo, e trancaram a porta. Ali a escuridão era completa.

Pôs-se a tatear pelas paredes. Aquilo poderia ter sido uma despensa; não tinha mais que cinco pés de extensão, e a ausência de mobília era total. Visto isso, ele deixou-se cair ao chão. Evitava pensar na situação, porque isso concorria para que sua cabeça doesse ainda mais. Se ao menos pudesse dormir, esquecer-se de tudo aquilo...

De algum lugar, perto dali, veio um grito de mulher; um grito curto, entrecortado de tosse. Era a mesma voz que Nick ouvira antes de perder os sentidos diante da casa, e que decididamente não era a voz de Nora Chesney.

Havia rumores pelo corredor. Nick ouviu Percy dizer qualquer coisa a que logo se seguiu uma resposta de Kildick, e imediatamente a voz feminina:

 —Não pode fazer isso! Não pode...

Nick ouviu o som de um baque, que pareceu interromper os gritos da mulher. Kildick soltou uma praga e disse:

—Deixe-me levá-la sozinho.

Os passos morreram ao longo do corredor, e tudo ficou em silencio. Nick estava alerta. Por um esforço tremendo de vontade, dominou a náusea que o assaltava. Alguma coisa estava acontecendo lá fora talvez a Nora, talvez à dona daquela voz que só sabia gritar.

Ele imaginava Bronson e aqueles quatro abutres bebendo o sangue de Nora diante dos olhos dela.

Ele pôs-se de pé e encaminhou-se para a porta. Ouviu um rumor de movimentos cauteloso no corredor e, depois, o ruído de alguém mexendo na maçaneta.

Encostou-se à parede. Se alguém entrasse, ele o agrediria. Seria vencido, naturalmente, pois naquele estado de fraqueza não podia esperar vencer sequer um daqueles monos decrépitos. Todavia, qualquer coisa era melhor do que jazer ali aquiescente, enquanto os cinco monstros prosseguiam no seu mister barbárico.

Ele ouviu o ruído da lingueta roçando pelas peças da fechadura, e a porta foi-se abrindo mansa, vagarosamente.

Nick retesou os músculos, pronto a saltar, mas teve que dar um suspiro e deixar-se ficar petrificado, junto à parede.

Entre os umbrais, estava uma velha encarquilhada, nada mais que um feixe ambulante de ossos bamboleando dentro de uma trouxa de pelancas. Uma espécie de camisolão solto pendia-lhe dos ombros, amarrado à cintura. Sua máscara engelhada traía um mundo de agonias e padecimentos de toda sorte, pelos quais teria passado em outros tempos.

Durante alguns momentos, olhou fixamente para Nick; depois, murmurou:

—Você parece estar vencido. Não poderá tirá-la daqui.

Nick vislumbrou uma esperança. Essa megera teria intenções de ajudá-lo? Se houvesse uma possibilidade de vitória, ele seria ainda capaz de alguns esforços. A esperança opera maravilhas no ânimo de um homem.

Nick encaminhou-se para ela pensando na incongruência da sua voz com a sua pessoa. Naquela voz não havia o rouquejar trêmulo, característico da velhice; era quase juvenil, embora houvesse nela uma como que subtonalidade cheia de terror.

—Quem é você? — perguntou Nick aproximando-se dela.

Ela não recuou; ergueu os olhos para ele e deixou escapar uma risada curta. Depois, disse muito baixinho:

 —Eu... eu sou Frieda, irmã de Nora.

*

 — Frieda Chesney! — exclamou o detective.! —Frieda é...

Interrompeu-se, embaraçado.

Ela disse amargamente:

 —Continue, não tenha medo! Frieda Chesney é jovem. Não ia dizer isso? Por que não o disse?

Suas mãos nodosas crisparam-se espasmodicamente.

—Bem, eu sou jovem; tenho apenas vinte e seis anos, mas esses demônios fizeram-me assim.

—Frieda Chesney! — exclamou Nick incrédulo.

—Você tem que tirar Nora daqui antes que eles lhe façam o mesmo — prosseguiu Frieda, apressada. — Ouviu? Tem que a livrar deste inferno!

Nick viu que, no espaço de um momento, ela far-se-ia histérica. A sua própria fraqueza foi totalmente esquecida em vista daquele travesti da juventude na pessoa de Frieda Chesney. Ele tapou-lhe a boca com a mão.

—Cale-se! Quer derrubar a casa em cima de nós?

Ela desmaiou nos seus braços e ele tremeu ao sentir a leveza daquele corpo. Que lhe haviam feito aqueles monstros? Certamente, tinham-lhe roubado a juventude, o vigor, a beleza, na sua ânsia desatinada de rejuvenescimento. Tinham-na transformado numa bruxa esquelética aos vinte e seis anos de idade. Uma experiencia como aquela envelheceria qualquer criatura. Era espantoso o fato de ter a moça sobrevivido a ela.

Ele a fez repousar no chão. Dos fundos vinham umas vozes indistintas; olhando na direção da onde partiram, viu uma fresta iluminada. Ele sentia-se quente; a febre fervia dentro dele; as pulsações dentro da sua cabeça cresciam em intensidade. Mas, agora, nada lhe importava, além da ideia fixa de alcançar aqueles cinco monstros e seus dois sectários, e arrancar Nora Chesney das suas garras destruidoras.

Agora Frieda se mexia, tentando murmurar qualquer coisa. Ele inclinou-se, procurando entendê-la, aproximando-se muito, por causa das pancadas que sentia na cabeça.

Ela balbuciava:

—Não deixe que eles a prendam à árvore, à árvore maldita... que lhe absorverá a vida... tornando-a velha... Árvore terrível... Corte-a...

Nick ergueu-a nos braços, levou-a para dentro do cubículo que lhe havia servido de prisão, e aí fê-la repousar contra a parede.

—Fique aqui. — disse Nick. — Eu vou socorrê-la.

Ele não sabia ao certo o que quisera dizer com isso, mas tinha um pressentimento, e esse pressentimento era portador de uma sugestão tão terrível que ele tinha medo de procurar torná-lo mais nítido.

Fechou a porta sem trancá-la, de modo a não fazer o menor ruído. Feito isso, foi caminhando pelo corredor, rumo aos fundos da casa.

A luz, como verificou em seguida, vinha de uma porta aberta para fora. Nick chegou-se a essa porta e olhou para o exterior.

O que viu fê-lo esfregar nos olhos numa vontade espasmódica de não acreditar.

Bronson e os quatro velhos estavam enfileirados sobre o caminho que atravessava o lodaçal. O caminho era muito estreito.

Os quatro velhos observavam intensamente Percy e Kildick, os quais estavam diante de uma árvore alta, segurando Nora Chesney, que se debatia inutilmente. Nora só tinha sobre o corpo uma peça de vestuário, um tipo de veste cerimonial, de um vermelho de fogo, que lhe deixava os ombros nus e lhe terminava muito acima dos joelhos.

Sua fisionomia estava cheia de um pavor extremo, mas ela lutava em silêncio contra Kildick e Percy, como que compreendendo a inutilidade da gritar por socorro naquele recanto esquecido de Deus.

Estando ela voltada para a porta, Nick notou as curiosas incisões que lhe tinham feito no peito e na garganta. Praticados provavelmente com punhal, eram todas em forma de cruz. Havia mais duas nas pernas, tão sanguinolentas como as da garganta e do peito.

Visivelmente exausta, a moça desistiu de recalcitrar. Kildick havia abandonado o rifle junto à árvore, a fim de dominar melhor a vítima. Tendo medido a distância que havia entre a porta e a arma, Kildick desistiu da ideia de se apossar dela. Bronson e os seus quatro companheiros de decrepitude estavam ocupando uma grande parte daquele espaço.

A árvore a que estava encostado o rifle foi que o fez esbugalhar os olhos de assombro. Não pertencendo a qualquer variedade botânica do seu conhecimento, parecia profundamente enraizada no pântano. Tendo três ou quatro vezes a largura de corpo de um homem forte, erguia-se tortuosa, contorcionada, fantasmagórica, ao lado da casa. Era daquela árvore que Bronson havia cortado um pedaço de casca quando se inclinara sobre o peitoril da janela.

Era uma planta exótica e grotesca, que certamente não podaria crescer senão num pantanal assim fétido e desolado, cultivada sob os cuidados daqueles seres viciosos, que pareciam ter vivido um século de vilezas.

Ao pé do vegetal fora feita uma cova e Nick notou que a cavidade fora aberta na medida aproximada para conter um ser humano. Um ser humano!

*

As palavras que Frieda lhe dissera instantes atrás voltaram mais nítidas, mais terríveis, aos seus ouvidos.

Num passado distante e enevoado, Nick lembrava-se de ter sorrido incrédulo ante a descrição de um gênero de plantas que viçava somente nos lodaçais: uma árvore carnívora, que vivia da absorção de seres vivos em sua seiva. Que mais, pensou, poderia ter operado uma metamorfose tão brusca e terrível em Frieda? E, agora, sua irmã...

A febre pareceu aumentar quando Bronson começou a falar, quase exclusivamente para confirmação das conclusões meio formadas do detetive. Os braços ossudos do ancião ergueram-se numa pose sacerdotal quando ele se dirigiu aos seus quatro companheiros barbados.

— Irmãos, esta oferenda que agora trazemos ao pé da Árvore da Vida Eterna é o mais rico bocado que até hoje lhe demos. Esperemos, pois, que esta árvore floresça com a seiva preciosa desta jovem, para que sua casca nos continue a prover com uma parcela da vida que não termina.

Em seus olhos coruscava um estranho tipo de loucura, quando prosseguiu:

—Cada um de nós já viveu mais de uma centena de anos! Ainda bem que pudemos trazer conosco o pequeno broto que se desenvolveu nesta grande árvore da vida. As vidas jovens que sacrificamos a este vegetal inestimável nada significam. Enquanto continuarmos a viver, envelhecendo com o mundo, é possível que mais mil delas venham contribuir com a sua virilidade, a sua pujança, o seu sangue, para a eternização das nossas existências.

Sua voz converteu-se num grito.

—Que importa o mais? Nós viveremos com a Eternidade!

Os dois asseclas ergueram a moça no ar e a colocaram dentro da cova. Mais uma vez, ela pôs-se a lutar febrilmente, mas eles a amarraram com tiras já pendentes da árvore, parecendo partir-lhe do mais íntimo do cerne.

Nick pôde ver uns apêndices peludos, umas estranhas gavinhas que saíam de dentro da árvore e, como cobras finas, procuravam avidamente as incisões vermelhas do corpo de Nora.

Então aquilo era verdade; a horrível, desorientadora verdade! Aquela árvore alimentava-se de sangue humano, e aqueles seres sinistros alimentavam-se da seiva da árvore, esperando, desejando que isso lhes garantisse a vida eterna!

Nick viu os olhos de Nora, esbugalhados de horror, dentro da sua prisão tenebrosa. Parecia-lhe impossível que o cérebro da jovem estivesse suportando até ali as torturas daquela experiência.

Ele segurou a maçaneta da porta, tencionando agredir aqueles praticantes de um rito abominável, e lutar com eles até cair exausto. Já não tinha um pensamento para as suas desvantagens esmagadoras, para as dores que sentia, nem para a sua quase completa incapacidade. Naquele momento só existia a cólera!

Sentiu alguém puxar-lhe o paletó, e virou-se para dar com os olhos vermelhos e fundos da jovem-velha Frieda. Tendo voltado a si, ela se encaminhara silenciosamente para o seu lado.

— Espere — disse numa voz imperativa, como quem ordena que se espere por um acontecimento iminente.

E era isso mesmo!

Enquanto os dois homens amarravam Nora à árvore, Bronson se acercara sorrateiramente deles e, sem ser notado, apanhara o rifle e recuara depois. Os quatro bruxos barbudos e soturnos ficaram a observá-lo, sem dizer palavra, mas seus olhos brilhavam no antegozo de um prazer nada cristão.

Bronson veio postar-se ao lado deles, e aí ficou, até que os dois carrascos concluíram a sua tarefa.

 Kildick, como o obreiro que dá o toque final, passou a mão pelo corpo de Nora, lastimando:

—É pena dar-se de comer a uma árvore uma pequena bonitinha assim. Mas que diabo! — ajuntou, encolhendo os ombros e voltando-se para Perey.  — Há muitas outras como ela!

*

Ele esticou um dos braços para empunhar o rifle; dando pela sua falta, soltou uma praga e girou sobre os calcanhares. Percy soltou uma exclamação de surpresa quando notou que Bronson, empunhando o rifle, olhava pesadamente para ele e para o seu companheiro.

—Que ideia é essa? — rosnou Kildick. — Dê-me o rifle.

Bronson, como se fosse a imagem da morte, abanou a cabeça.

 —Não, meus amigos; ouçam bem. Vocês nos serviram de modo satisfatório até o dia de hoje; mas, de agora em diante, já não precisamos mais dos seus serviços. A jovem, que amarraram à árvore, e o homem forte, que capturaram, são dois especímes saudáveis, que durarão longo tempo. Logo estaremos rejuvenescidos, senhores da nossa força e mocidade. Quando precisarmos de novas vítimas, nós próprios estaremos em condições de capturá-las. Portanto, vocês morrerão.

Kildick expectorou uma praga e saltou para a frente. Bronson, que já tinha erguido o rifle, alvejou-o à queima-roupa. Feito isso, voltou o cano da arma para Percy, que estava lívido e imóvel, e puxou novamente o gatilho. As explosões se sucederam com rapidez espantosa, e dois cadáveres ficaram jazendo no chão.

Bronson virou-se para os quatro velhos silenciosos, como que pedindo aplausos. Pela primeira vez, eles mostraram uma expressão de vida: moveram a cabeça unanimemente, em sinal de aprovação.

Bronson sorriu de novo, baixou o rifle e adiantou-se para os dois mortos. Com os pés, empurrou-os da trilha para o atoleiro marginal. Os corpos perderam sua rigidez na pressão da lama absorvente, e logo desaparecem com um sinistro ruido de sucção.

Nick havia estado, até ali, como que petrificado pela surpresa da rapidez daquelas duas mortes. Sentiu novamente que alguém lhe puxava o paletó.

— Agora! Agora! — sussurrava Frieda.

Qualquer coisa pareceu dar um choque no cérebro de Nick. Saindo daquele estado de coma, escancarou a porta e deu um salto.

Bronson virou-se, mas Nick não procurou interromper a continuidade da carga. Foi de encontro ao velho; ouviu os ossos do bruxo estalarem ao embate do seu corpo, e logo viu-se lutando para manter o equilíbrio, para não cair também no lodaçal.

Tropeçou, caiu sobre as mãos e os joelhos, e sentiu o contato do rifle debaixo de si.

Empunhou a arma pelo cano, ergueu-se, esquecido das suas dores, da sua náusea, da sua tonteira, de tudo, perdido na coragem da cólera que o sacudia.

Bronson já não estava no caminho. Nick avistou umas mãos ossudas que se contorciam dolorosamente sobre a superfície do atoleiro; ouviu ainda os brados de socorro de Bronson. O choque do corpo de Nick o havia lançado à margem do caminho.

Nick não teve mais tempo de observar a luta inútil de Bronson, pois viu-se repentinamente revolvido num furacão de corpos magríssimos, de braços ossudos, de mãos nodosas! Os quatro fantasmas barbudos se tinham lançado contra ele, arranhando, chutando, esmurrando e mastigando pragas!

Nick pôs-se a gargalhar como um doido. Mais tarde, nunca soube lembrar nitidamente um só detalhe daquela loucura, daquela força inexplicável que se lhe instalou nos membros. Ele brandiu o rifle com uma energia súbita e inexpugnável. Sabia que estava triturando ossos com cada golpe que desfechava. Por isso, repetia-os em todas as direções. A febre queimava-o; uma névoa vermelha lhe envolvia os olhos.

Só se deteve quando ouviu os gritos de uma mulher. Dessa vez, era a voz de Nora Chesney, que exclamava:

 —Frieda! Frieda! Não! Não!

Nick olhou em torno de si, sentindo-se novamente débil e esgotado. O sangue parecia fugir-lhe todo do coração, e sua cabeça batia com violência. Quatro cadáveres jaziam no chão, quatro cadáveres deteriorados — corpos sem vida de homens que tinham sonhado viver eternamente mediante uma rapinagem revoltante sobre a vida alheia!

Nora Chesney gritava:

 —Frieda! Salve, Frieda!

Nick virou-se. Frieda estava dentro do atoleiro, submersa até o pescoço!

—Ela saltou! Ela atirou-se! — gritava Nora. — Salve-a!

Nick caminhou até a beira do pântano, na direção em que ela se achava. Mas o rosto de múmia, a máscara de pergaminho, incrível numa mulher de vinte e seis anos, sorriu para ele.

—É melhor assim... Deixe-me morrer...

Ainda não acabara de falar quando a lama acabou de absorvê-la. Frieda Chesney morreu como uma heroína.

Nick fechou os olhos com força. Virou as costas para o rio de lama em que ela se afundara, e deu alguns passos para libertar Nora. Esta soluçava em silêncio.

Uma das gavinhas da árvore já lhe envolvia o pescoço. Nick teve que empregar alguma força para soltá-la.

Ele ajudou Nora a caminhar para casa, depois de ter-se detido por um momento, enquanto a jovem murmurava uma prece pela alma da irmã no lugar em que ela morrera.

Lá dentro, ele falou:

—Vamos. Precisamos notificar a polícia. Ainda bem que a árvore está aqui. Do contrário, ninguém acreditaria em nós.

Como que escarnecendo das suas palavras, veio de fora um estrépito retumbante. Toda a casa trepidou, como que chocada por um grande peso.

Nick correu até a janela, debruçou-se sobre o peitoril e olhou para dentro da noite. Seus lábios se contraíram numa linha de desagrado.

Nora Chesney, linda no seu rubro vestido de sacrifício, caminhou até junto dele e debruçou-se a seu lado. O seu espanto não foi menor. Já não havia árvore alguma diante da janela; já não havia o caminho, nem os cadáveres dos velhos.

 —Que aconteceu? — suspirou ela.

— Como hei de saber? — grunhiu ele. — Talvez tenha sido um sonho.

Nick tocou no seu braço.

—Este ferimento é perfeitamente real, do mesmo modo que os cortes no seu corpo. Parece que os baques da luta travada lá fora deslocaram o aterramento que formava o caminho, e o lodaçal engoliu tudo.

Ela ergueu o rosto súplice.

—Leve-me daqui, por favor.

—Com muito prazer — disse ele.

E conseguiu levá-la, a custo, através do pantanal, através de enormes perigos, para o conforto da civilização, o mais distante possível daquela casa de horror e tortura.

 

Fonte: “Policial em Revista”/RJ, edição de 22 de janeiro de 1940.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

 

Nota:



[1] Automóvel esportivo de dois lugares, com teto aberto ou removível.

 

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