O HOMEM QUE MATOU O DEMÔNIO - Conto Clássico de Loucura - Armando Brussolo
O HOMEM QUE
MATOU O DEMÔNIO
Armando Brussolo
(1908 – 1947)
O
delegado levantou-se mal-humorado. Pois quê! Chamá-lo às duas horas da
madrugada, talvez para atender a uns três ou quatro plebeus embriagados que
brigaram por causa de uma mulher qualquer! Isso lá é vida que se suporte!
Apesar
do adiantado da hora, o movimento na Central de Polícia, naquele fim de Sábado
de Aleluia e início de Páscoa, era intenso. Um homem que sofrera um acidente
quando trabalhava numa estrada de ferro prestava declarações. O escrevente que
terminava o inquérito de pouco em pouco suspendia o serviço, olhava de esguelha
para uma loira rapariga, detida para algumas averiguações a seu respeito,
fazia-lhe sinais brejeiros e de novo lançava a pena a correr ligeiramente sobre
o alvo papel de linho.
Um
guarda civil entrou, segurando um esquálido rapazelho pela gola do paletó,
acompanhado de um italiano, comerciante, com uma banca no Mercado Central, e
dirigiu-se ao escrivão:
— Este rapaz é um ladrão, doutor; bateu a
carteira deste senhor…
O
italiano curvou-se, apresentando-se:
— Francisco Spipinella, proprietário etc.
O
escrivão mandou que esperassem, pois o delegado tinha, antes, um caso mais
importante a resolver. Indicou-lhes cadeiras e voltou a conversar com o
companheiro de delegacia, de faces maceradas e que tossia a todo momento,
levando o lenço à boca.
No
canto esquerdo da sala, vários inspetores de segurança falavam baixinho,
soltando, às vezes, alguma imprecação:
—
A esta hora, hein? Justamente quando eu pretendia repousar um momento! O
maldito “fulastra” não poderia arranjar outra ocasião para a “brincadeira”?
Lá
fora, no saguão, intermitentemente, tocavam duas campainhas fortes, que
ressoavam pelo prédio: uma, chamando carro de presos; outra, solicitando médico
para doentes. Ao toque desta, atendia um médico sonolento, metido no seu pesado
capote, com a boca aberta num grande bocejo.
Só
o ordenança do delegado estava alheio a esse alarido: dormia sentado numa
cadeira, atrás de um cortinado, ressonando alto. Através do rendilhado, viam-se
o vermelho e o azul da farda e o amarelo dos botões, muito polidos. Um
rapazinho, preso quando pretendia passar o “conto do vigário”, muito magro e
que só estava a alisar uma amostra de bigodinho, com voz adocicada, melíflua,
dirigiu-se ao escrivão:
—
Doutor, não posso ir-me embora?
—
Ir embora coisa nenhuma! Sente-se aí e fique quieto, senão…
Ante a ameaça e o tom ríspido, duas lágrimas
brilharam nos seus olhos verdes. Atirou-se para um canto e pouco depois dormia.
Na
sala contígua à do escrivão, sobre uma larga mesa com um vidro grosso cobrindo
um pano verde, cinco repórteres trocavam notas das ocorrências da noite. Um
deles mordia nervosamente um charuto e a cada momento interrompia os colegas:
—
Vocês acham que a gente tem gosto de trabalhar desta maneira? Vou arranjar uma
fotografia desse idiota, que, com certeza, nunca viu uma objetiva de aparelho
fotográfico, e, por fim, sou corrido a pau pela família, que mora lá pelas
bandas onde Judas perdeu as botas…
Cuspinhou
ao lado com força, com desprezo:
—
Que choldra! Corja de salafrários!
E
continuava a tomar os apontamentos. Outro indagava, levantando a cabeça
vagarosamente, sustendo as pálpebras abertas com custo:
—
Qual o nome e a idade do sujeito?
Sem
perda de tempo, um mocinho imberbe folheava um caderno de notas e respondia
explicitamente:
—
Francisco de Azevedo. Trinta e oito anos.
—
Ele já está aí?
—
Não. Está sendo medicado no posto da Assistência, pois a vítima também o feriu.
E
após alguns instantes:
—
Olha; aí vem ele!
Todos
olharam. Com a cabeça enfaixada, guiado por um enfermeiro, passava pelo
corredor um homem de alta estatura, espadaúdo, cara rapada. Parecia abobalhado.
O escrivão, logo que o viu, foi-lhe dizendo, abrupta e rispidamente:
—
Sente-se naquele canto e espere.
O
homem, quando ia sentar-se, derrubou uma cadeira. Com o estrondo, o ordenança
acordou assustado. O mocinho de voz melíflua levantou-se de um salto.
—
Que homem bruto, santo Deus…
O
sujeito, muito encolhido, fazia largos gestos e em estultilóquio:
—
Não tenho culpa. Por que ele me perseguia? Nunca lhe fiz mal algum. Quase nem o
conhecia. Matei-o. Não me arrependo, pronto. Agora ele deve estar contente…
A
rapariga loira olhava-o com espanto. Fraca e demoradamente retiniu a campainha
do delegado. Como que impelido por uma mola, o ordenança levantou-se
imediatamente e dirigiu-se ao gabinete da autoridade. Voltou pouco depois.
—
Seu Godoy, o “dotor” pede pra levar o caso mais importante.
O
escrivão relanceou a vista. Pegou no braço do homem e desapareceu por uma
porta, acompanhado pelos curiosos repórteres. Estremunhado, o delegado, logo
que pousou os olhos no criminoso, foi dizendo:
—
Um malandro, não há dúvida. Conhece-se pela pinta. Que fez você? Por que veio
cá parar?
—
Vim aqui porque matei um homem
—
Era o que eu pensava. Um pobre de Cristo levanta-se no melhor do sono, às
pressas, para quê? Tomar conhecimento de uma coisa vulgar: um homem que matou
outro!...
Acendeu
um cigarro, lentamente. Acomodou os óculos:
—
Bem, bem, diga lá o que houve…
Voltou-se
para o ordenança:
—
Benedito, vá buscar um café. Vamos, vamos, homem, principie a falar!
—
A culpa é toda dele, doutor. Quem o mandou segurar-me pelo ombro e ameaçar-me
constantemente?
— Mas você o matou?
—
Pudera! Aquela cavalgadura! Não sabia com quem estava lidando. Pois sou capaz
de eliminar mais dois ou três, se preciso for!...
O
ordenança voltou com o café. Os repórteres olhavam com interesse para o
criminoso.
—
Queremos pormenores. Antecedentes, está ouvindo?
E
voltando-se para o escrivão:
— Seu Godoy, vá tomando notas para o
inquérito.
Os
rapazes da imprensa prepararam o canhenho. O homem limpou, com as costas da
mão, a baba que lhe caía pelos cantos da boca. Suspendeu as calças, apertou a
cinta de couro amarelo.
—
Foi no Carnaval deste ano. Fazia o corso no meu automóvel, na avenida. Num
momento em que o auto parou, eis que se me aproxima um homem, mascarado de
diabo, olha-me fixa e demoradamente. De repente, rompe numa estrídula, louca,
sinistra, ameaçadora gargalhada e, apontando-me, disse para os que lhe estavam
próximos: “ ‘Oia’ ele, ‘pessoá’! ‘Oia’ pra cara dele, ‘oia’...”. Atirou-me um
jato de lança-perfume nos olhos e desapareceu como por encanto. Amaldiçoei-o.
“Estávamos
no terceiro dia de entrudo. Serpentinas de todas as cores riscavam o ar.
Lança-perfumes, ao invés de apagar o fogo do entusiasmo, acendia-o, animava-o,
vivificava-o. Os confetes atirados, quando caíam, eram lágrimas dos foliões que
choravam por estarem no final os festejos do deus Momo. Apesar de toda essa
alegria, desde esse momento não tive mais sossego. Nos carros que passavam
buzinando estridentemente, na massa do povo que se divertia nas calçadas, não
divisava um só rosto humano. Era ele, o demônio, sempre ele, a rir, a rir muito
alto. Um riso brutal, que me fazia mal. Alguém assobiava das sacadas; olhava;
lá estava o Satanás com a boca rasgada, enorme, escancarada, a língua como um
incêndio.
“Fui
dormir à meia-noite. Atirei-me à cama, furioso. Revolvi-me nos lençóis durante
três horas. Afinal, conciliei o sono, povoado de sonhos horríveis. Uma hora
depois, acordava sobressaltado. Acendi a luz e — que vejo? —, ao invés de minha
esposa, lá estava ele a rir sinistramente, horripilantemente. Vesti-me às
pressas, saí a correr. Queria um guarda para prendê-lo. Quando o encontrei,
levantei o rosto para falar-lhe, mas — Deus dos céus! — a mesma cara, o mesmo
rosto, só que agora tinha um riso idiota, bestial. Retomei o caminho de casa,
sempre a correr, mas, ao atravessar a rua, fui apanhado por um automóvel que ia
com grande velocidade. Caí inanimado, muito ferido. Apesar disso, sempre tinha
nos ouvidos aquele gargalhar medonho, tétrico. Levaram-me para um hospital,
onde recuperei os sentidos somente dois dias depois. Triste destino, o meu!
Quando abri os olhos, muito cansados, veio ter comigo a enfermeira: ‘— Está
melhor? — perguntou. — Ainda muito fraco, com algumas dores…’ — Assim falando,
levantei a cabeça e procurei ver a dona daquela voz tão melodiosa, quente, que
tão bem sabia aos meus ouvidos saturados de risos infernais. Maldição! Num
corpo de boneca, de querubim descido das alturas por descuido, a cabeça do
demônio! Escondi-me sob os lençóis e, toda vez que a via, repetia a cena.
“Para
completo alívio de meu espírito agitado, esgotado com essas contínuas e
tormentosas sensações, ontem consegui fugir, à noite, daquela casa hospitalar.
Ao pular o muro, um guarda noturno ia se chegando a mim, batendo no lajeado a
sua bengala. Uma réstia de luz do lampião de gás fez ressaltar o seu rosto.
Ele, sempre ele! Escapuli-me dali como um possesso e passei a noite a vaguear
pelas ruas escuras. Hoje, pela manhã, resolvido a terminar de vez com esta vida
que aos poucos me aniquilava, entrei numa loja de ferragens e comprei um agudo
punhal. Queria matá-lo como se mata um cão danado, estraçalhá-lo,
esquartejá-lo, cortá-lo em pequenas postas e, ainda a sangrar, colocá-las nos
postes, nos lampiões, nas árvores. Tinha uma sede terrível de vingança. Procurei-o
durante horas seguidas, mas o desgraçado estava com medo. Não apareceu.
“Chegou
a noite e, com ela, o desânimo. Não quis voltar para o meu bangalô. Continuei a
peregrinar sozinho por essas ruas sem luz, pois tinha medo de encontrá-lo
àquelas horas. Quando entrei numa viela muito estreita, erma, senti que alguma
coisa me agarrava pelos ombros. Ergui os olhos. Ele! Sim, era ele, o meu tenaz
perseguidor, ainda com as mandíbulas destroçadas. Rapidamente, saquei do punhal
e, sem palavra, cravei-lhe a arma no corpo repetidas vezes, sem dó nem piedade.
Ele também não soltou um grito. A cada golpe vibrado, sentia na boca o seu
sangue, que saía a grandes golfadas, muito quente, com um sabor delicioso.
Quando me certifiquei de que o diabo estava morto, abandonei aquele lugar e vim
para esta repartição policial…”
O
homem, quando terminou de falar, arquejava. Limpou a baba viscosa novamente. Os
repórteres deram amigável boa-noite ao delegado e saíram apressadamente, a caminho
da redação. A autoridade mandou que aprontassem o automóvel e, juntamente com o
assassino, médico-legista, escrivão, dois inspectores e ordenança,
encaminhou-se para o local do crime.
Chegados,
a autoridade pediu ao assassino indicasse o lugar onde estaria o cadáver.
Apontou com o dedo a porta de uma casa. Os inspetores acenderam as lanternas
elétricas e se dirigiram ao ponto indicado. O delegado sorriu para o legista:
—
Positivamente louco…
O
ordenança olhou e abriu a boca num largo sorriso. Lá estava a obra assassina de
Francisco de Azevedo: um Judas de pano, feito pelos moleques para comemorar o
Sábado de Aleluia, dependurado naquela porta suja de carvão, todo rasgado pelos
golpes de punhal. Pelos rasgões, saía o sangue: compridos fios de capim…
O
escrivão objetou:
— E os ferimentos que ele apresenta?
O
delegado aproximou-se do boneco e, mostrando a cabeça toda furada de lado a
lado:
—
O pobre doido agarrou-se ao Judas. Brandiu o punhal por trás, feriu-se a si e
bebeu o sangue de seu próprio corpo…
Nisto,
se ouviu um grito lancinante, que cortou a madrugada que nascia. Voltaram-se. O
homem apontava para o delegado.
—
O bandido não morreu. Aí está ele novamente. Aí está ele…
Recuava,
aterrado. Onde acabava o passeio, perdeu o equilíbrio, caiu para trás, batendo
com o occipital nos paralelepípedos. Acudiram.
O
médico legista abaixou-se. Apalpou-o. Levantou-se, meneando a cabeça.
—
Ao invés de ir para um manicômio, foi para o necrotério…
Todos
respeitosamente se descobriram.
Fonte:
“Fon Fon”/RJ, edição de 4 de maio de 1929.

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