A BRUXA DO MORRO GRANDE - Conto de Terror - Paulo Alexandre Filho

A BRUXA DO MORRO GRANDE

Paulo Alexandre Filho

 

Quando Amália surgiu, chovia tanto que a lama que descia dos canaviais formava rios capazes de arrastar tudo. Nenhum lavrador ou dono de banguê escapou dos prejuízos, exceto a propriedade conhecida como Morro Grande, onde a tempestade deixou alguém.

Era uma moça desconhecida, de cabelos negros como os de uma mulher da terra, mas com a pele alva como se nunca tivesse sido tocada pelo sol. Ela apareceu diante da casa descuidada de Manoel Justino, o Capitão Jararaca, apelido que ganhou como combatente em 1817 e por sua personalidade perigosa. Ele a viu primeiro como uma aparição, uma silhueta que os clarões dos relâmpagos revelavam no terreiro. Ela ficou ali, inerte, durante os três dias de chuva, mas o senhor desconfiado preferiu apenas observar à distância.

 

 


 

Desde então, Amália não saiu mais de lá.

O velho e fechado capitão casou-se com a jovem sem origem apenas alguns dias após seu surgimento. O fato desencadeou murmúrios na devastada Várzea do Massapê, nas imediações de Goiana. Diziam que Jararaca foi envenenado por uma mulher vinda do nada, trazida pela própria chuva. Poucos, no entanto, chegaram a ver a noiva.

O vigário foi discreto e econômico em suas descrições para os curiosos. Limitou-se a dizer que ela era bem mais jovem que o senhor e que nunca foi batizada. Omitiu o mal-estar que sentiu ao se aproximar dela, e o olhar perturbador que a figura silenciosa lhe lançou, como se pudesse ver através de sua alma e conhecer os segredos pecaminosos que ele escondia.

O tabelião foi mais detalhista. Falou que a moça era dotada de uma beleza estranha, comparou-a a uma fera arredia e ressaltou que a noiva não sabia dizer de onde vinha e absurdamente sequer tinha um nome — Amália era uma identidade sugerida pelo próprio capitão. 

 

 


 

O falatório e as desconfianças cresceram quando, três ou quatro meses após o matrimônio, Jararaca morreu num suposto acidente, ao cair do morro que conhecia como a palma de sua própria mão.

Para a Várzea do Massapê, a esposa causou a morte do capitão. Era uma verdade aceita nas conversas baixas dos alpendres, no sussurro das roças, no silêncio trocado entre olhares. Mas uma verdade, apenas. Ninguém tinha como provar e com o tempo até pensar nisso dava medo.

Amália mandou embora todos os trabalhadores do banguê e alforriou os poucos escravos que herdou. Preferiu ficar sozinha, apenas acompanhada por uns poucos bichos, incluindo seu inseparável galo de penas negras e esporas afiadas. Seu canto da madrugada era ouvido por toda a várzea — um grito rouco de loucura que acordava as pessoas com um susto, como se as arrancasse de um pesadelo.

As canas pereceram, e logo uma vegetação de galhos retorcidos e espinhosos dominou os campos do Morro Grande. A porteira foi amarrada com uma corda áspera e urticante, fechada por um nó que nenhum atrevido conseguia desatar. Ninguém visitava a viúva, e ela não saía para ver ninguém.

Quem seguia pela única estrada que ligava a Várzea do Massapê ao mundo passava diante da propriedade de Amália. Era comum apontar para a casa no alto da ladeira e referir-se à moradora como feiticeira, praticante de artes ocultas e profanas. À noite, os transeuntes juravam ouvir algo além do pio comum das aves da noite. Era o ulular baixo de uma coruja escondida nas cumeeiras, um som que parecia sussurrar o nome de quem passava.

Ela ficou logo conhecida como a Bruxa do Morro Grande, descrita como uma figura pálida solitária e sombria, vestida de trapos velhos. Com o passar dos anos, o estranhamento não arrefeceu e o medo dos habitantes da Várzea do Massapê converteu-se em subserviência quando a velhice debilitou Amália fisicamente. Ela surgia ocasionalmente para as pessoas fazendo exigências. Pedia lenha e era atendida. Pedia fardos de farinha e feijão e recebia.

Certa vez, atraída pelo cheiro da refeição preparada por uma dona de casa, apareceu diante da vizinha e exigiu ser servida. A mulher recusou. Depois disso, perdeu o dom de cozinhar.

Certa vez um corpo afogado surgiu boiando no riacho. Não havia dúvida: o desavisado infeliz tentou pescar no trecho que cortava os domínios da bruxa. Montarias empacavam frequentemente diante da porteira da propriedade enquanto a mulher espreitava da janela. Os mais variados infortúnios eram atribuídos a ela. Acidentes comuns, doenças típicas e, principalmente, os fatos mais perturbadores.

Nem todos se intimidaram e os interesseiros mais afoitos viam a solidão da mulher como uma fragilidade, e não faltou quem tentasse tirar proveito ou até se apoderar de sua terra.

Um vizinho resolveu estender seu cercado para os fundos do terreno de Amália. A tentativa de ampliar a lavoura revelou-se uma maldição. Seu canavial inteiro foi devastado por pragas — besouros e brocas-da-cana que consumiram as plantas por dentro, secando tudo antes da colheita.

Um caso que se tornou-se significativo envolveu um certo Eustáquio Serafim. Alto, de ombros largos, era forte feito um tronco de gameleira. Sua feição era marcada por uma profunda cicatriz, resultado de uma luta quando era quase homem feito, ocasião em que fez sua primeira vítima mortal: o próprio pai. Era um sujeito que intimidava até mesmo calado que obteve sua autonomia demonstrando virilidade e fúria como caçador de escravos fugitivos.

O brutamontes havia se estabelecido na Várzea do Massapê como dono de uma partida de cana. Habituado à intimidação e disposto a ignorar as crenças locais sobre a mulher de Morro Grande, foi até a casa de Amália sem qualquer temor para forçar a viúva a ceder um lote de terra.

Era fim de tarde quando ele saltou através da cerca de galhos e espinhos. Enquanto subia a ladeira, seu fôlego começou a faltar. Mesmo assim, seu intuito não arrefeceu. Seguiu até a porta. Um frio repentino tomou conta do ar. O cheiro que emanava da terra não era o odor doce e pesado do canavial que pairava na região, mas algo que o invasor conhecia bem: o cheiro metálico e denso de sangue.

Ofegante, Eustáquio averiguou o perímetro. Ela o encontrou primeiro.

Amália, uma mulher velha de pele cinzenta marcada pelos veios da idade, olhou para ele com indiferença. Seu corpo franzino parecia maior que o do gigante, pois o homem tremia, possuído por um pânico que nunca experimentou.

 

 


  

— Seu ventre secará como cana ao sol — disse Amália, já virando as costas e se dirigindo para o interior da casa. A porta fechou assim que ela passou. Eustáquio foi embora humilhado pelo medo.

Na madrugada seguinte, o galo preto cantou diferente, um som de gargalhada estridente daquela vez. A coruja repetiu o nome do invasor sonoramente para quem passava pela estrada. O que sobrou do homem só foi visto três dias depois. Era um cadáver ressecado com uma expressão medonha, guardando na cara a reação física de quem deve ter visto a própria personificação do mal antes de morrer.

Para o povo da Várzea do Massapê estava claro que nenhuma moléstia natural causaria aquele fim. Só poderia ter sido ela, a Bruxa do Morro Grande.

Amália tinha outras surpresas incômodas. Apareceu em sonho para diversas pessoas numa única noite, um sonho idêntico, com a mesma mensagem sombria. Estava claro que a velha sabia exatamente quando morreria, pois na visita onírica anunciou que restavam-lhe três noites. Exigiu que seu corpo fosse carregado a pé até o cemitério, desaconselhando — em tom de ameaça — o uso de uma carroça, pois ela iria reagir de alguma maneira.

Com a exatidão dos presságios malignos, o galo preto anunciou a morte com um canto idêntico a um choro. Uma tempestade caiu sobre o lugarejo, raios cortavam o céu escuro e todos souberam imediatamente: a velha morreu.

Apesar das instruções, os transtornos de carregar o caixão a pé sob o temporal convenceram as pessoas a descumprir o desejo final da falecida. Utilizaram um carro de boi para levar o corpo até o cemitério.

Os homens não conseguiram ir muito longe. As rodas derraparam repetidas vezes na lama, como se uma força invisível as empurrasse para trás. Compreenderam, então, que era melhor seguir à risca a ordem da velha bruxa.

O sepultamento aconteceu antes do pôr do sol.

Em seguida, sua casa incendiou-se misteriosamente. As chamas consumiram tudo no local até a meia-noite. Testemunhas afirmaram que a própria Amália foi vista no meio das cinzas, antes de desaparecer.

O galo nunca mais foi visto, mas seu canto continuou ecoando no decorrer dos anos.[1]

 

Fonte: Fabulae Noctis  (https://fabulaenoctis.wordpress.com/2026/01/11/a-bruxa-do-morro-grande/)

Ilustrações do miolo: PS/Perchance. 

Sobre o autor: Paulo Alexandre Filho é professor da rede pública estadual de Pernambuco, mestre em História pela UFPE, licenciado em História pela UFRPE, com especializações em ensino da História (UFRPE) e Direito Educacional (UNIARA/SP). Mantém na Internet os sites HistóriaBlog  https://historiablog.org/ e Fabulae Noctis https://fabulaenoctis.wordpress.com/ .

 

Nota:

[1] Este conto dialoga livremente com a narrativa histórica associada a Hannah Cranna, figura do imaginário colonial da Nova Inglaterra, reinterpretando seus motivos centrais — isolamento, suspeita e reputação ambígua — no contexto social, econômico e simbólico dos canaviais da Zona da Mata pernambucana do século XIX. Trata-se de uma obra de ficção, que desloca temas e estruturas narrativas para um outro tempo e território, sem pretensão de reconstituição histórica literal. (N. do A.)

 

 

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