A MÚSICA DA COLINA - Conto Clássico de Terror - Saki

A MÚSICA DA COLINA

Saki (H. H. Munro)

Tradução de Demian Gonçalves Silva

 

Sylvia Seltoun tomou o café da manhã na sala matinal de Yessney com um agradável sentimento de vitória definitiva, tal como um fervoroso Ironside se poderia ter permitido na manhã seguinte à batalha de Worcester[1]. Não era muito belicosa por temperamento, mas pertencia àquela classe mais bem-sucedida de combatentes que o são pelas circunstâncias. O destino reservara-lhe uma vida repleta de pequenas batalhas, em geral com as probabilidades ligeiramente desfavoráveis, e, em geral, ela conseguia sair delas ligeiramente vitoriosa. E, agora, sentia que levara a bom termo a sua mais difícil e, certamente, a sua mais importante contenda. Ter desposado Mortimer Seltoun — “Mortimer Morto”, como o chamavam os inimigos mais íntimos —, à revelia da fria hostilidade da família dele e apesar da sua sincera indiferença perante as mulheres, era realmente um feito que exigira alguma determinação e destreza para ser levado a cabo; ontem, levara a sua vitória à etapa conclusiva ao arrancar o marido da Cidade[2] e do seu grupo satélite de balneários para “assentá-lo” — no vocabulário do seu meio — neste remoto solar rural cercado de bosques que era a sua casa de campo.

— Nunca conseguirá que o Mortimer vá — dissera a mãe dele com azedume —, mas, uma vez que vá, fica; Yessney fascina-o quase tanto como a Cidade. Compreende-se o que o prende à Cidade, mas Yessney… — e a viúva encolhera os ombros.

Havia em Yessney uma selvageria lúgubre, quase bravia, que decerto não seria do agrado de gostos criados na urbe, e Sylvia, apesar do nome, não estava habituada a nada de muito mais silvestre do que a “frondosa Kensington”. Via o campo como coisa excelente e salutar à sua maneira, mas propensa a tornar-se incômoda em doses excessivas. A desconfiança em relação à vida citadina era nela coisa recente, nascida do casamento com Mortimer, e ela observara com satisfação, nos olhos deste, o progressivo esvaecer daquilo a que chamava “o olhar de Jermyn Street” à medida que os bosques e urzais de Yessney se foram fechando sobre ambos na noite passada. A sua força de vontade e a sua estratégia haviam prevalecido; Mortimer ficaria.

Do lado de fora das janelas da sala matinal havia um declive triangular de grama, que os indulgentes poderiam chamar de relvado, e, para além da sebe baixa de fúcsias abandonadas, um declive mais íngreme, de urzes e samambaias, descia até ravinas cavernosas cobertas de carvalhos e teixos. Naquela rusticidade franca e aberta, parecia haver um laço furtivo entre a alegria da vida e o terror do que não se vê. Sylvia sorriu, satisfeita, enquanto contemplava a paisagem com um olhar de Escola de Belas Artes, e, de súbito, quase estremeceu.

— É muito bravio — disse a Mortimer, que se juntara a ela —; quase se diria que, num lugar como este, o culto a Pã nunca chegou a morrer totalmente.

— O culto a Pã nunca morreu — disse Mortimer. — Outros deuses, mais jovens, desviaram-lhe os devotos de tempos em tempos, mas ele é o Deus-Natureza a quem, no fim, todos devem regressar. Chamaram-lhe o Pai de todos os Deuses, mas a maioria dos seus filhos nasceu morta.

Sylvia era religiosa de um modo honesto e vagamente devocional, e não gostava de ver as suas crenças tratadas como simples rebentos tardios; ainda assim, era algo de novo e esperançoso ouvir o Mortimer Morto falar com tal energia e convicção sobre qualquer assunto que fosse.

— Não acredita realmente em Pã, acredita? — perguntou, incrédula.

— Tenho sido tolo em quase tudo — disse Mortimer calmamente —, mas não sou tolo o bastante para não acreditar em Pã quando estou aqui. E, se você for sensata, não descrerá com excessiva jactância enquanto estiver no país dele.

Só uma semana mais tarde, quando Sylvia já esgotara os encantos dos passeios pelos bosques em torno de Yessney, é que ousou uma visita de inspeção às instalações da fazenda. Um pátio rural sugeriu-lhe à imaginação uma cena de alegre alvoroço, com batedeiras e manguais, leiteiras risonhas e juntas de cavalos a beber, metidos até os joelhos na água, em tanques repletos de patos. Ao vaguear pelos edifícios lúgubres e cinzentos do solar de Yessney, a sua primeira impressão foi de esmagadora quietude e desolação, como se tivesse ido parar em alguma propriedade solitária e abandonada, há muito entregue a corujas e teias de aranha; depois sobreveio-lhe um sentimento de furtiva e vigilante hostilidade, a mesma sombra de coisas invisíveis que parecia espreitar nas ravinas e nos vales arborizados. De trás de portas pesadas e janelas cerradas vinham o inquieto bater de um casco ou o raspar de uma corrente de cabresto e, por vezes, o mugido abafado de alguma rês no estábulo. De um canto afastado, um cão hirsuto vigiava-a com olhos atentos e pouco amigáveis; quando ela se aproximou, ele deslizou quietamente para dentro do canil e, mal ela passou, saiu outra vez, não menos silencioso. Umas poucas galinhas, que buscavam alimento sob um palheiro, escaparam por baixo de um portão quando ela se aproximou. Sylvia sentia que, se topasse com seres humanos naquele deserto de celeiro e curral, fugiriam do seu olhar como aparições. Por fim, ao dobrar um canto rapidamente, deparou-se com um ser vivo que não fugiu. Estirada numa poça de lama estava uma porca enorme, gigantesca para além do mais desenfreado cálculo citadino de carne suína, e bem pronta a irritar-se e, caso necessário, a repelir a intrusão inusitada. Coube a Sylvia fazer uma retirada discreta. Ao abrir caminho por entre terreiros, estábulos e longas paredes nuas, sobressaltou-se de súbito com um som estranho — o eco de um riso de rapaz, luminoso e equívoco. Jan, o único rapaz empregado na fazenda, um camponês de cabelos cor de palha e rosto encarquilhado, via-se claramente ocupado em arrancar batatas a meio da encosta mais próxima, e Mortimer, quando interrogado, disse não conhecer outro provável ou possível progenitor daquele escárnio oculto que espreitara a retirada de Sylvia. A lembrança desse eco intangível veio somar-se às outras impressões de um furtivo e sinistro “algo” que pairava sobre Yessney.

De Mortimer ela via muito pouco; os campos, os bosques e os ribeiros de trutas pareciam engoli-lo da aurora ao anoitecer. Uma vez, seguindo a direção que o vira tomar pela manhã, foi parar na clareira de um aveleiral — fechado, mais adiante, por enormes teixos —, no centro do qual se erguia um pedestal de pedra encimado por uma pequena figura de bronze de um Pã juvenil. Era uma peça de requintado artesanato, mas o que mais atraiu a atenção de Sylvia foi o fato de um cacho de uvas, recentemente cortado, ter sido deposto como oferenda aos seus pés. Não abundavam as uvas no solar, e Sylvia, irritada, arrancou o cacho do pedestal. Um aborrecimento desdenhoso dominava-lhe os pensamentos enquanto ela caminhava, devagar, em direção à casa, até dar lugar ao sentimento agudo de algo muito próximo do pavor; através do denso emaranhado do mato, fitava-a um rosto de rapaz, moreno e belo, com olhos de uma maldade inefável. A trilha era solitária — de resto, todas as trilhas em torno de Yessney o eram —, e ela estugou o passo sem ficar para sondar mais de perto aquela súbita aparição. Só quando já estava em casa percebeu que deixara cair o cacho de uvas durante a retirada.

— Vi hoje um jovem no bosque — disse ela a Mortimer nessa tarde —, de rosto moreno e bastante bonito, mas de aspecto canalha. Suponho que fosse um cigano.

— Uma teoria aceitável — disse Mortimer —, salvo que por estas bandas não há ciganos atualmente.

— Então quem era? — perguntou Sylvia e, como Mortimer não parecesse ter uma teoria, passou a relatar-lhe a descoberta da oferenda votiva.

— Imagino que tenha sido coisa sua — observou; — é uma inofensiva peça de loucura, mas as pessoas o considerariam terrivelmente tolo se descobrissem.

— Você mexeu nisso, de alguma maneira? — perguntou Mortimer.

— Eu… eu joguei fora as uvas. Pareceu-me tão estúpido — disse Sylvia, procurando no rosto impassível de Mortimer algum sinal de contrariedade.

— Não acho que tenha sido prudente — disse ele, pensativo. — Já ouvi dizer que os Deuses dos Bosques são bastante horríveis com quem os molesta.

— Horríveis, talvez, para quem acredite neles; mas, como vê, eu não acredito — retorquiu Sylvia.

— Ainda assim — disse Mortimer, no seu tom uniforme e desapaixonado—, acho que deveria evitar os bosques e pomares e manter distância dos animais chifrados na fazenda.

Era um evidente disparate, mas, naquela solidão cercada de árvores, o disparate parecia capaz de gerar uma ninhada de inquietações bastardas.

— Mortimer — disse Sylvia de chofre —, creio que em breve voltaremos para a Cidade.

A sua vitória não fora tão completa quanto supusera; conduzira-a a um terreno que já estava ansiosa por abandonar.

— Não creio que voltará para a Cidade — disse Mortimer. Parecia parafrasear a previsão que a mãe fizera a respeito dele próprio.

Na tarde seguinte, Sylvia notou, com desagrado e algum desdém por si mesma, que o rumo do seu passeio instintivamente a afastava da malha dos bosques. Quanto aos animais chifrados, a advertência de Mortimer mal se fazia necessária, pois ela sempre os considerara, na melhor das hipóteses, de neutralidade duvidosa: a sua imaginação transformava as mais matronais vacas leiteiras em touros prontos a “ver vermelho” a qualquer instante. O carneiro que pastava no estreito cercado abaixo dos pomares fora por ela julgado dócil após longa e cautelosa experiência; hoje, porém, Sylvia decidiu não testar essa docilidade, pois o animal habitualmente plácido andava agitado de um canto a outro do seu pasto. Do fundo de um matagal próximo vinha um sopro baixo e intermitente, como de flauta de cana, e parecia haver alguma ligação sutil entre o irrequieto vaivém do animal e a música bravia saída do mato. Sylvia dirigiu os passos para cima e galgou as encostas cobertas de urzes que, em saliências onduladas, se erguiam acima de Yessney. Deixara para trás as notas de flauta, mas, através das ravinas arborizadas aos seus pés, o vento lhe trouxe outra espécie de música: o clamor tenso de uma matilha em plena caçada. Yessney ficava bem nas cercanias da região de Devon e Somerset, e às vezes o veado em fuga vinha por ali. Sylvia logo pôde ver um corpo escuro galgando colina após colina e desaparecendo, uma e outra vez, ao cortar as ravinas, enquanto atrás dele crescia de modo constante aquele coro implacável; e ela crispou-se na agitada simpatia que sentimos por toda presa perseguida cuja captura não nos interessa diretamente. E, por fim, o corpo escuro rompeu a mais extrema linha de samambaias e de carvalhal rasteiro e quedou-se ofegante na clareira: um gordo veado de setembro, com uma soberba galhada sobre a cabeça. O seu curso mais natural seria descer às poças pardaçentas de Undercombe e dali abrir caminho até o refúgio predileto do cervo-vermelho: o mar. Para espanto de Sylvia, no entanto, ele voltou a cabeça para a encosta montanhosa e, resoluto, arrastou-se adiante por sobre a urze. “Vai ser horrível”, pensou ela, “os cães vão derrubá-lo diante dos meus olhos”. Mas a música da matilha parecia ter emudecido por um momento, e, em seu lugar, ouviu de novo aquele toque selvagem de flauta, que ora soava deste lado, ora daquele, como que incitando o exausto veado a um esforço derradeiro. Sylvia colocou-se bem afastada do caminho dele, meio escondida numa espessa mata de mirtilos, e viu-o mover-se rijamente para cima, os flancos escurecidos de suor, o pelo grosso do pescoço luzindo por contraste. A música da flauta estrugiu subitamente em redor dela, parecendo nascer dos arbustos aos seus pés, e, nesse mesmo instante, a grande besta rodou sobre si e lançou-se diretamente contra ela. Num ápice, a sua piedade pela presa acossada converteu-se em desenfreado terror pelo perigo de si própria; as espessas raízes de urze troçavam dos seus esforços trôpegos para fugir, e ela olhou freneticamente para baixo, buscando algum sinal de aproximação da matilha. As enormes pontas da galhada estavam a poucos passos, e, num relâmpago de medo entorpecedor, Sylvia lembrou-se do aviso de Mortimer, para que se acautelasse dos animais chifrados na fazenda. E então, com uma rápida palpitação de alegria, viu que não estava sozinha; uma figura humana erguia-se a poucos passos, com as pernas enterradas até os joelhos nos mirtilos.

— Afaste-o daqui! — gritou. Mas a figura não esboçou nenhum movimento em resposta.

As hastes investiram-lhe diretamente contra o peito, o cheiro acre do animal acossado encheu-lhe as narinas, mas os seus olhos estavam tomados do horror de algo que viam além da morte iminente. E aos seus ouvidos soou o eco de um riso de rapaz, luminoso e equívoco.

 

Notas:



[1] Ironside: denominação atribuída aos soldados de cavalaria do líder puritano Oliver Cromwell. A Batalha de Worcester, em 3 de setembro de 1651, marcou a vitória final dos parlamentaristas sobre as forças realistas de Carlos II. (N. do T).

[2] Town, com inicial maiúscula também no original, designa a cidade de Londres. (N. do T).

 

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