O MASSACRE DA NOITE DE SÃO BARTOLOMEU - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Autores Anônimos do Séc. XX
O MASSACRE DA
NOITE DE SÃO BARTOLOMEU
Autores anônimos
do séc. XX
Ficou
memorável na história este sangrento dia em que Catarina de Médici, mulher de
Carlos IX, sugestionada talvez pelo Duque de Guise, iniciou a matança, em
Paris, dos huguenotes, nome por que eram conhecidos os protestantes, que então
começavam a se espalhar por toda a Europa[1].
Em França, um dos principais chefes dos huguenotes era o almirante Coligny, um
ancião respeitável, cheio de serviços ao seu país.
Um
historiador assim descreve o massacre:
“Meia-noite.
Mil e duzentos arcabuzeiros do regimento dos guardas começam a ocupar as
posições convenientes. Os assassinos se armam; Guise reúne os capitães
franceses e suíços e lhes comunica suas ordens selvagens:
—
A fera será agarrada no laço — disse ele. — É preciso embebedarmo-nos no seu
sangue; é o rei que o quer.
No
momento de dar o sinal de matança, Catarina de Médici, dizem, que teve um
instante de hesitação, não por piedade, sim por medo; mas logo ordenou que se
tocassem os sinos, os mais vizinhos do Louvre — que eram o de Saint-Germain
l’Anxerrois —, ao qual responderam um pouco, depois, os da Torre do Relógio. Em
seguida, ela vem, com seu filho Anjou, colocar-se em um pequeno aposento, que
dava para o lado da igreja, para melhor assistir ao espetáculo terrível. Um
tiro se ouviu. Era o sinal. Tremeram os dois assassinos. Anjou e sua mãe ficam
tão aterrorizados que chegam a dar uma contraordem. Que seja ou não verdadeira
tal asserção, ela foi muito tarde.
Começou
o tumulto, os gritos se ouviram; os sinos tangeram. O dia, que se abria
lentamente para iluminar estas cenas de horror, era duplamente sagrado para os
cristãos: era domingo e se festejava um dos fundadores do cristianismo, o apóstolo
mártir São Bartholomeu.
Coligny,
velado por Ambroise Paré e pelo pastor Merlin, guardado por um grupo de
protestantes, espalhados nas casas vizinhas à sua, repousava calmo, crendo
salvaguardado pela palavra real, pelos tratados, pela fé pública, por tudo, enfim,
que se pode respeitar entre os homens.
E
é por Coligny que o massacre começa.
O
duque de Guise não tinha querido deixar para outros a missão de matar a ilustre
vítima. Tomou d'Aumale — o bastardo de Angonleme —, e, com um grande grupo de
soldados, invadiu a Rua Bethisy, acompanhados dos guardas do rei e Cosseins,
seu comandante. Chegados à casa do almirante, arrombam as portas e matam os
criados.
Sarlabons,
governador do Havre; Attin, secretário do duque d'Aumale; o alemão Beheme, sicário
de Guise e outros se apresentam, gritando, diante do almirante.
O
augusto ancião os recebeu com uma calma tão grande que os assassinos recuaram.
Behome avança e, depois de algumas palavras insultuosas, mergulha um chuço no
ventre de Coligny.
Guise
pergunta:
— Beheme, acabaste?...
—
Sim. Atira-o fora, para que eu o
reconheça.
E
o cadáver é jogado sobre o passeio. A cabeça toda ensanguentada. Angouleme
segura-a, dá-lhe uma volta e diz:
—
É ele.
E
os dois deram um pontapé no rosto do grande mártir.
Um
italiano chamado Petrucci, criado do duque de Nevers, cortou a cabeça e levou-a
à família real. Esta cabeça foi embalsamada e remetida ao papa. O troféu foi
enviado para Roma, mas não se sabe se lá chegou. Os assassinos arrastaram o
corpo de Coligny pelas ruas de Paris aos gritos de selvageria. No Louvre, o
massacre começou às cinco horas. Os infelizes protestantes, designados como vítimas,
e que na véspera eram todos como amigos do rei, foram, de surpresa, um a um,
desarmados, mortos como carneiros no cepo.
O
rei, duma janela, assiste à matança.
São
assassinados os mais valentes e os mais leais capitães; a flor da França e da
reforma, os Pardaillan, os Clermont de Piles, os Saint Martin, e tantos outros.
Estes infelizes apelavam para o rei, que fazia por não os ouvir.
Quanto
a Navarra e Condé, tinham conseguido chegar até o rei, que lhes disse com uma
violência frenética:
—Eu
não quero senão uma religião em meu reino; a missa ou a morte; escolhei.
Navarra
cedeu um pouco, Condé se mostrou mais digno.
—
Eu mando-lhe cortar a cabeça — disse o rei — se dentro de três dias não tiver
abjurado.
Mas
a carnificina não terminou aí. Estendeu-se por toda a cidade. O bando de loucos
furiosos, sob a direção de Guise, de Aumale, Montpensier, Tavanne, Never, dos
guardas do rei, depois de terem assassinados os fidalgos protestantes,
aglomerados no bairro de Coligny, passaram aos magistrados, aos burgueses, aos
operários e a todos que eram acusados de heresia.
Tinha-se
espalhado desde o princípio, para justificar a carnificina, que os huguenotes
conspiravam.
Na
confusão da fuga das vítimas, o rei Carlos IX se divertia dando tiros sobre a
multidão de uma das janelas do Louvre.
No
ano da revolução, tinha-se aí colocado um cartaz que dizia: ‘Foi desta janela
que o infame Carlos IX, de execrável memória, atirou sobre o povo com uma
carabina’.
Por volta de meio-dia, o presbítero da cidade
foi pedir ao rei que fizesse terminar a carnificina.
No
dia seguinte, um sapateiro inventou um milagre: disse que, por causa da
matança, vira florescer um espinheiro no Cemitério dos Inocentes. Então, todos
os sinos tocaram, para celebrar a justiça divina. Este incessante toque
reacendeu a fúria dos assassinos. O massacre recomeçou com mais requinte de barbaria.
Matavam as mulheres dos huguenotes, que se achavam em estado de gravidez, e
arrancavam-lhes os filhos das entranhas e atiravam-nos aos cães e aos porcos.
Quando os filhos eram já crescidos, sacudiam-nos do alto das pontes,
degolavam-nos, arrastavam-nos pelas ruas. Por todos os lados os assassinatos, a
pilhagem, o roubo a devastação.
Do
Louvre, os grã-senhores, as fidalgas dama, contemplavam com prazer o sangue
derramado das vítimas. O rei comprazia-se vendo passar os cadáveres.
Contaram-se quatro mil.
No
dia seguinte, o massacre continuou e foi continuando por muitos dias.
A
28, o clero celebrou um jubileu extraordinário, em honra da vitória memorável.
O rei e a corte lá estavam, com toda a magnificência.
Roma
recebeu, com prazer, a notícia do morticínio. O cardeal de Lorraine presenteou
com mil escudos de ouro ao correio que lhe levou a notícia. O canhão de Santo
Ângelo deu salvas de alegria. O papa Gregório XIII, acompanhado do sacro colégio,
foi às igrejas render graças a Deus pelo acontecimento; publicou-se um jubileu
universal e mandou-se cunhar uma medalha comemorativa. Encomendou-se a Vasari,
célebre pintor, um quadro, que se vê ainda na Capela Sistina, representando o
massacre e que traz em baixo a seguinte inscrição: ‘O papa aprova a morte de
Coligny’.
Quantos
aos feitos, mais de dez mil pessoas, dizem uns, dezoito mil, dizem outros,
foram assassinadas, porque o massacre não se limitou a Paris. Matou-se em
Troyers, em Roven, em Meaux, em Angers, em Saumur, em Toulouse, em Bourges.
Até
hoje a história lamenta esses dias sangrentos, que obscureceram o reinado de
Catarina de Mádici e de Carlos IX.”
Fonte:
“Vida Policial”/RJ, edição de 16 de maio de 1925.
Ilustração:
Giorgio Vasari (1511 – 1574).
Nota:

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