O NECRÓFILO DE MUY - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XX
O NECRÓFILO DE
MUY
Autor anônimo do
séc. XX
Em
27 setembro de 1901, Antoine Ardisson, coveiro em Muy (Nar), descobria na água
furtada de sua casa, à rua Grande nº 13, o cadáver de uma menina, vestida com
roupas que haviam sido brancas, num estado de putrefação avançado.
Essa
descoberta devia ser o ponto de partida num caso sensacional que, durante
longos meses, iria apaixonar a opinião pública: O VAMPIRO DO MUY — tal era o
cognome que os jornais de então deram ao criminoso.
Em
caracteres destacados, podia-se ler nos periódicos: “O cadáver de uma menina,
que um bruto ignóbil havia arrancado do repouso da tumba para saciar suas
paixões bestiais, é achado numa água furtada”.
O
culpado foi preso rapidamente: era Victor
Ardisson, o filho do coveiro, um débil mental com a idade de vinte e nove anos.
Ele fez confissão completa. Alguns meses mais tarde, reconhecida a alienação
mental, o “Vampiro do Muy” era internado no Asilo de Alienados de Pierrefeu,
onde se encontra ainda no momento atual.
Com
a idade de dezenove anos, a Mlle. Elisabeth Porre lançou ao mundo, em 6 de
setembro de 1872, uma criança de sexo masculino, que se chamou Victor. Um mês
após, Antoine Ardisson desposa Elisabeth Porre e o pequeno Victor foi
legitimado pelo casamento. Estes dois acontecimentos felizes tiveram lugar na
pitoresca aldeia de Muy, situada na estrada que vai de Marselha a Nice, a
alguns quilômetros apenas de Frejus.
Victor
cresceu entre um pai bêbado e uma mãe de hábitos desregrados. Ele tinha quatro
anos quando a mãe abandonou o domicílio conjugal, para viver em Saint-Tropez,
com um carroceiro.
Após
ter aprendido a ler e escrever, Victor deixa a escola e ganha sua vida vendendo
cogumelos. Ele morava com seu pai numa pequena casa, de três andares, situada
no nº 15 da rua Grande. No primeiro, alugada a uma velha a parte de cima, os
Ardisson ocupavam uma grande cozinha.
O
pai Ardisson partilhava seu leito com as amantes e seu filho adotivo.
Algumas
vezes, Victor ficava horas inteiras diante dos picadeiros, por ocasião das
festas de feira que as moças tomavam parte.
Depois
de ter exercido toda a sorte de profissões, Antoine Ardisson torna-se coveiro;
toma como ajudante seu filho.
Jamais,
antes de exercer esse macabro mister, tinha ocorrido a Victor a ideia de
desenterrar cadáveres.
Mas
uma tarde, de súbito, pensamento mau lhe atravessa o cérebro. Uma força invisível o impele a abrir o caixão
de uma moça. Ele abraça o cadáver repetidamente, exclamando: “Minha bela! Eu te
amo!”. Depois... Depois volta à sua casa.
O
desejo torna insopitável e, depressa, ele abre outra tumba e acaricia a morta
que, dessa vez, era uma mulher de certa idade.
Em
seguida, adquirido o hábito, as profanações multiplicaram-se.
Cavava
a terra para desenterrar o caixão, levantava a tampa, tirava em parte a morta,
apoiando-se sobe a borda do túmulo. E ficava ali horas inteiras, falando ao
cadáver e acariciando-o.
O
necrófilo comporta-se vis-à-vis das mortas como um ser normal se teria
comportado em face de uma amante complacente.
Esse macabro manejo dura longos meses.
Em
1892, ano de seu sorteio militar, Victor Ardisson foi incorporado ao 61º
regimento de infantaria de linha com guarnição em Bonifácio, Córsega.
Durante
a sua permanência em Bonifácio, Victor não dá satisfação a seus instintos
desnaturados.
Uma
mulher — viva — tinha entrado em sua vida e bastava a todos os seus desejos.
No
domingo de Páscoa, o soldado Ardisson, em passeio, encontra uma jovem loura.
Pela primeira vez, ele ousa falar a uma mulher. Declara-lhe o amor.
A
moça não parece indiferente e o idílio começa.
Marie
era costureira, tinha vinte anos. Diz que ele era o seu primeiro namorado.
Victor está louco de alegria.
Marie
e Victor estavam loucamente enamorados um pelo outro, a tal ponto que, numa
tarde em que os soldados estavam de saída, a jovem o vem procurar em sua
guarita.
Depois
que ele tinha feito conhecimento com a costureira, não falava mais em desertar.
Mas, nos primeiros dias de julho de 1884, o regimento volta à França, para a
guarnição de Marselha. Antes de separar-se, Marie e Victor juraram fidelidade.
O soldado promete procurá-la quando o serviço terminar. Infelizmente, a pobre
pequena devia morrer de enlouquecimento.
Durante
as manobras de seu regimento, em Haut-Var, Victor Ardisson deserta. Foi preso
dez dias após pela gendarmaria[1]
e transferido para o forte Saint-Nicolas, em Marselha, onde fica três meses à
espera do Conselho de Guerra.
Em
seguida a um relatório de seu capitão de companhia, Ardisson foi proposto para
a reforma. Ele é examinado por uma comissão e os médicos militares o declaram
irresponsável[2].
Nos primeiros anos de 1895, Ardisson chega ao Muy liberado de todas as
obrigações militares.
Ora
carroceiro, ora vendedor de miudezas, ora operário pedreiro e, de tempos em
tempos, coveiro, Victor é levado a viver como antes de seu serviço militar.
Partilha
novamente do leito de seu pai. E recomeça a desenterrar e profanar os cadáveres
das mulheres e das meninas. Isso dura ainda cerca de sete anos.
Diante
do juiz de instrução, Ardisson declara, que não podia dizer o número de
cadáveres de todas as mulheres que, havendo sido enterradas após o seu regresso
do serviço militar, haviam também sido exumadas por ele.
Repetidas
vezes os vizinhos da rua Grande queixaram-se a Antoine Ardisson do odor
espantoso que saía de sua casa. O velho coveiro declarou que o odor proviria,
sem dúvida, de um monturo situado no primeiro andar. Mas o cheiro esquisito e
persistente permanecia.
Os
dias passarem-se monótonos no bairro. Essa calma deveria ser perturbada por uma
descoberta sensacional. Ao fim do dia 27 de setembro de 1901, Antônio Ardisson
levava um garrafão de vinho à
água-furtada; passando frente à porta de um pequeno quarto do terceiro
andar, tropeçou. A porta abriu-se, e um cheiro nauseabundo se fez sentir.
Querendo saber de onde vinha o odor desagradabilíssimo, entrou no quarto.
Súbito, seus cabelos arrepiaram-se-lhe na cabeça: deparara aos seus pés com um
pequeno cadáver de menina vestida de branco.
Ardisson
não hesitou. Correu à polícia para informá-la de sua macabra descoberta. Os
gendarmes imediatamente transportaram-se ao nº 13 da rua Grande. Encontraram,
de fato, no lugar designado, o cadáver de uma menina, de quatro anos, mais ou
menos, em completo estado de putrefacção. Prosseguindo em suas pesquisas,
descobriram, ainda, num canto do quarto, um saco contendo velas, livros de
missa, crucifixos e — horror! — uma cabeça de mulher envolvida em panos: os
olhos, de um verde pálido, estavam abertos.
Feitas
essas macabras descobertas, os gendarmes interrogaram longamente o pai
Ardisson, mas este não teve nenhuma dificuldade em demonstrar sua inocência.
Quando
chega de seu trabalho, Victor parece espantado. Nega durante multas horas, mas,
depois, apertado pelo interrogatório, ele “abriu-se” e confessou seus
espantosos delitos.
O
Tribunal de Draguignan designou o médico legista, doutor Doze, para submeter os
cadáveres à autópsia. No relatório apresentado ao procurador da República, o técnico
afirmou que todas as mortas tinham sido violadas.
Um
laudo médico declarou inimputável Victor Ardisson, que, em 11 de dezembro de
1901, deixou a prisão, sendo transportado para o Asilo de Alienados de Pierrefeu.
Victor vive ainda. Tem agora 62 anos. Sua
prolongada detenção no Asilo não lhe causou nenhuma mudança.
Fonte:
“Pan”/RJ, edição de 1º de abril de 1937.
Fizeram-se
adaptações textuais.
Ilustração: Alexandre Ferdinandus (1850-1888).
Notas:
[1] Corporação
militar, composta de gendarmes (guardas), encarregada de manter a segurança
pública.
[2] Ou seja, que
não pode ser responsabilizado judicialmente, porquanto incapaz de responder por
seus próprios atos.

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