UM MISERÁVEL - Conto Clássico Tragico - J. – H. Rosny
UM MISERÁVEL
J. – H. Rosny
[Joseph-Henri-Honoré
Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)]
A
lembrança de Henriette Maillard nenhum prazer dava a Max Leforge. Na sua vida,
ela não fora mais que uma fonte de inquietações. Alguns bons momentos em meio
de outros amargos, em que a cólera e a ironia lhes punham nos lábios palavras
ultrajantes. Ela abandonara-o num momento de raiva, depois voltara dez vezes,
vinte vezes... Nada de terno, de delicado. Os poucos momentos do começo restavam
na recordação, tão insuportável era a vida de ambos. E, no meio disso, uma
correspondência raivosa, cartas absurdas, mil vezes comprometedoras; uma
maluquice nada amável espalhada por oito e até dezesseis páginas, que ele nem
ao menos lia, que rasgava ou depositava, segundo o capricho do momento, no seu
armário de papéis. Finalmente, o casamento da bela, a rutura definitiva que ele
recebeu com alegria extrema.
Ela
veio pessoalmente procurar a sua correspondência. A cena teve o seu interesse.
Ele, contente, mas guardando uma atitude de frieza resignada, tal era o seu
medo de vê-la mudar de determinação. Ela, muito digna, furiosa pelo fato de que
não fizesse o menor gesto de retê-la. Ao pedido de devolução das cartas,
respondeu mostrando-lhe o armário, e pedindo que ela própria apanhasse os dois
pacotes que já havia preparado.
Ela
abriu o armário, apanhou com um gesto seco os maços sobre os quais estavam
escritos o seu nome e, depois, voltando-se trágica:
—Estão todas aí?
Ele hesitou dois segundos; mas, à lembrança de
tantas horas em que a lealdade havia sido vã e somente servira para originar
odiosas querelas, disse:
—Dou-lhe
a minha palavra... Demais, você sabe que, se, depois disso, descobrisse alguma,
eu a destruiria imediatamente.
Ela
pareceu pouco satisfeita com essa explicação, olhou muito tempo o embrulho. Ele
aproveitou o seu silêncio para afirmar:
—Estão
todas aí... Todas...
E
acrescentou, não sem alguma perfídia:
—Sabe
perfeitamente que as conheço...
Ela
levantou para o pobre Max os seus belos olhos e o fino rosto de loura. E, então,
ele maldisse o fato de ter-lhe despertado um sentimento de ternura. Retomou o
ar frio. Mas ela estava decidida a deixar-lhe uma saudade; e ele a viu
avançando em sua direção, com uma boca encantadora para dar-lhe o beijo de
adeus.
“Se
dou esse beijo — pensava o desgraçado —, estou perdido. Quererá mais e
pretenderá consolar-me inteiramente”.
Teve
uma inspiração. Gostava da comédia sentimental. Segurou-lhe o punho com um
soluço e, longamente, para evitar um abraço, depositou sobre os dedos miúdos um
beijo casto.
—Já fiz o sacrifício — murmurou com voz
apagada. — Rogo-lhe: não desperte o meu sofrimento.
Inferno!
Nem mesmo essas palavras e uma admirável atitude de reserva na dor lhe puderam
evitar que ela se deixasse cair sobre o seu peito, murmurando...
—Contudo,
se você quisesse...
Ele
murmurava debilmente:
--
É a vida... São as circunstancias...
Mas
não pôde escapar a um abraço fervente com súbitas carícias. Então ele
compreendeu que tinha de empregar outro truque. Afastou-se e disse em tom seco:
—A
sua proclama de casamento já foi publicada há alguns dias. Talvez amanhã se
terá que realizar o matrimônio... Tudo se acabou entre nós.
Ela
gritou, convulsiva:
—Mas,
se você se arrependesse...
—Pouco
importa o meu arrependimento. Para mim, o cálice está bebido... Sinto que já
não a poderia amar...
Sabia
que tais palavras desencadearia uma tempestade; mas, enfim, não seria senão um
mau momento a passar.
Realmente,
houve uma cena terrível. Ela falou de acabar com tudo, de suicidar-se, de
matá-lo e fez mil loucuras. Ele aguentou-se crispado, frio, com um único medo,
isto é, de que ela renunciasse a tudo, mesmo ao casamento, para satisfazer ao
seu histérico orgulho. Gritava ela:
—Eu
não devia casar-me. Você é que devia casar-se comigo.
Gostava
de alardear sua virtude como uma coisa sagrada e ele acabara detestando essa
ostentação. Deus sabe que a teria desposado com a maior alegria se ela houvesse
destruído toda a felicidade possível com a sua maneira áspera de reclamar o
casamento, não como uma união de coração, mas unicamente como reparação de um
mal. Não pôde evitar de dizer:
—Visto
que eu não a desposaria senão para divorciar-me o mais breve possível, não vejo
o que você ganharia com isso. Pode, portanto, casar-se em paz e não pense em
mim.
Jamais se esqueceria do olhar que então
Henriette lhe lançou.
—
Covarde! — murmurou ela. — Covarde que insulta uma mulher depois de haver
abusado de sua inocência.
Ele
sorriu ao ouvir essas palavras e esse sorriso exasperou Henriette.
—Que
vergonha para mim ter amado esse homem! — gritou. —Mas tome cuidado. Se cometer
alguma indiscrição, e a minha vida for mais uma vez estragada, eu o matarei...
A
porta fechou-se sobre esse miserável amor e ele teve um gesto de alívio.
Lançando um olhar para o passado, não viu senão momentos desagradáveis,
recriminações e poucas horas de carinho e alegria.
E
Max ficou com medo das ligações sérias. Em sua casa não entrou mais que algumas
jovens sem juízo, cujas travessuras se complicavam às vezes com pequenos
furtos. Uma delas, certo dia, descobriu uma carta de Henriette no armário de
papéis. Aí estava um endereço. A divertida pequena achou de brincar, enviando
essa carta a quem a havia escrito, bordando um comentário. E eis o que
aconteceu:
Certa
manhã, às dez horas, Max, que regressara tarde, estava ainda na cama, mas não dormia.
Devaneava. Um acontecimento extraordinário transtornava-lhe a vida: estava
apaixonado, e por um bom motivo, por Andréa de C., a filha da encantadora Mme.
de C., em cuja casa estivera na véspera. Ah... Que dizer da graça de Andréa, de
sua jovialidade, seu horror ao falso sentimentalismo, à mentira e a toda a
vilania? Nada mais agradável do que sonhar, sonhar com o belo que seria aquele
ninho. Max sentia-se fremente de alegria. O lar... A coisa encaminhara-se sem
complicações. Dançara com Andréa muito tempo. Por fim...
—Sabe
de uma coisa, Andréa? Não espero senão o seu consentimento para a amar...
Ela ruborizou-se um pouco, mas era decidida e
sincera. Não gostava de fingimentos.
—Pois
eu lhe dou, Max.
Então foi ele quem se ruborizou, emocionado
por ver a sua vida modificada, e pensar nessa jovem séria, digna, delicada, que
seria a doce companheira que não o deixaria mais.
E
assim continuava devaneando de manhã, coração inundado de felicidade, estendido
na cama.
—Andréa...
Andréa...
A
campainha da porta vibrou. Um barulho de discussão e a seguir a voz de Jean, o
criado de Max. dizendo:
—Mas,
minha senhora, estou dizendo que o senhor está dormindo... Que ele proibiu...
Uma
resposta confusa da visitante desconhecida, depois novamente a grossa voz de
Jean...
—
Diabo! Nem sei o que fazer; talvez...
Dois
minutos depois, a porta escancarou-se, e Henriette, a antiga Henriette Maillard,
entrava, agitando na mão uma carta, enquanto a outra mão ela a mantinha oculta
numa das dobras do seu longo manto de lã.
—Deixe-nos
—disse Max a Jean, que se acreditara no dever de entrar no quarto acompanhando
a jovem.
Mas
Jean quase não teve tempo de fechar a porta atrás de si, quando ouviu as imprecações...
—Oh!...
Desgraça!...
Encolheu os ombros com desdenhosa filosofia
quando ouviu uma detonação. Então precipitou-se para o quarto de seu patrão.
Henriette, de pé, furiosa, disparava um segundo tiro de revolver, enquanto Max, sentado, levava a mão direita ao peito de onde o sangue jorrava.
—
Miserável! — gritou o criado.
Mas
a histérica agitava uma carta.
—
O miserável... Ei-lo. O homem que desonra uma mulher, o homem que vilmente
denuncia uma esposa ao seu marido... Estou perdida, mas vinguei-me.
—
Eu... Eu... — balbuciava Max, cuja vida esvaía-se com o sangue.
E
seus pobres olhos de moribundo protestavam sem que um pouco de piedade
despertasse no coração da matadora. Enquanto isso, Jean tomou o seu patrão nos
braços. Max tombava sobre os ombros de seu velho servidor e morria cheio de
desespero porque não pudera rever a sua querida noiva.
—
Andréa... Andréa... — murmurava nos últimos alentos.
A
outra contemplava essa agonia. Todas as suas fibras estavam tensas de orgulho,
de vingança satisfeita.
Finalmente,
lançou a sua arma ao chão e esperou.
Passou
pelo tribunal. É desnecessário acrescentar que sua engenhosa “mise en scène”
lhe valeu a absolvição. Mesmo diante da opinião pública, o marido a retomou...
Para o luto de Max, não houve senão a pequena Andréa.
Fontes: “O Acre”/AC, edição de 8 de julho de 1951; “Carioca”/RJ, edição de 13 de março de 1951.
Ilustrações:
PS/Perchance.


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