UMA TRAGÉDIA ÀS MARGENS DO YUKON - Conto Clássico de Crime e Horror - G. G. Vincent
UMA TRAGÉDIA ÀS
MARGENS DO YUKON
G. G. Vincent
(Séc. XX)
Os
dois homens discutiam a respeito da região de Wolverine, achando que, salvo
essa aldeia, a terra era inteiramente difícil e triste, onde bem se podia
morrer de fome.
Harding,
o garimpeiro de ouro, ia contando uma coisa ou outra. Naturalmente, diante de
si, ele tinha Tyson, mas ignorava completamente tudo quanto se referisse ao
crime que se dera em Dawson, localidade tão distante.
Tyson,
que havia engolido o último pedaço de comida, pigarreou e concordou mentalmente
com tudo o que Harding dissera. De fato, essa região era terrível. Tyson havia
batido à porta da única cabana de madeira que encontrara depois de longa e
penosa caminhada. Acreditava poder escapar, assim, à perseguição implacável.
Ninguém tão cedo iria descobri-lo. A polícia acabaria por perder a pista.
Escapara a uma tempestade de neve que quase o cegara, e havia chegado a essa
casa antes do seu dono. Os lobos, famintos, rondavam, com os olhos em fogo. Que
vida! Que luta!
Harding
continuou:
—
E você teve sorte, porque encontrou a porta aberta. Nós aqui dizemos sempre, à
guisa de provérbio: “Jamais deixemos a porta aberta. É sinal de desgraça”.
Somente no verão é que deixo a porta aberta. Imagine que deixar um sujeito do
lado de fora da porta, estando esta fechada, equivale a condená-lo à morte. É
horrível. Por isso, não me canso de louvar a sorte que você teve em encontrar a
porta aberta...
E, durante dois dias, Tyson gozou a
hospitalidade que Harding lhe dera: leal, franca e singela.
Mas Tyson já pensava num plano: como
apoderar-se da saca que continha ouro, e que o outro guardava debaixo da
cama... Esse ouro representava o resultado de muitos anos de garimpagem no rio
e na mina...
Poderia
assassinar Harding, como havia matado outro em Dawson. Tudo tão simples...
Mas
uma frase de Harding lhe dera uma grande ideia. Essa história da porta aberta
constituiu a chave de um problema interessante.
No
Ártico, nessa região do rio Yukou, deixar um homem do lado de fora, ao relento
e na neve, era o mesmo que matá-lo. Aí estava a ideia central de um plano muito
simples para poder matar aquele homem, realizando, assim, um crime perfeito.
No
terceiro dia, o céu se iluminou. O Sol surgira muito pálido.
Tyson
sentiu no bolso a machadinha que Harding lhe dera. Sentiu também que tinha no
bolso uma das coisas mais preciosas do companheiro: a caixa de fósforos à prova
de umidade... Essa pequena caixa valia uma fortuna.
Meia
hora depois, Harding fora cortar um pouco de lenha. E, mal havia iniciado o
trabalho, o cabo do machado partiu. Tyson também preparara isso.
Harding
voltou à cabana. Qual não foi o seu espanto em ver a porta fechada. Surpreso,
gritou pelo companheiro.
—Tyson, Tyson! Pelo amor de Deus... abra essa
porta... Quererá você que eu morra?
Mas
a porta não se abriu.
Harding
continuou a gritar:
—
Tyson, eu sei que você está aí... Abra a porta, pelo amor de Deus!
Harding
compreendeu tudo. Estava do lado de fora, sobre a neve, sentindo um frio
horrível.
Tyson
não deu ouvidos os gritos do companheiro. Estava cuidando da sua “tarefa”.
Os
gritos cessaram. Tyson foi à pequena janela para ver o que havia e viu que
Harding andava às tontas sobre a neve. Quem sabe se Harding não ia fazer uma
fogueira para não morrer de frio? Mas, os fósforos...
O
plano dera bom resultado. Horas depois, Tyson resolveu sair e seguir o mesmo
caminho do companheiro. E encontrou Harding, azulado, duro, com os olhos muito
abertos. Tyson apalpou a chave—esse pequeno objeto que lhe dera tão grande
vitória. Deixou-a no bolso.
—
“Jamais deixemos a porta da cabana aberta”...
Que idiota!... Pensou que eu não havia aprendido a lição que me dera.
A
noite descia. Fez uma fogueira bem forte e ficou dormindo ao lado dela. E
dormindo também ao lado do cadáver. De vez em quando acordava. Um lobo havia-se
aproximado, com os olhos acesos. Sacava do revólver e atirava.
Na
manhã seguinte, trocou a roupa do morto pela sua e colocou todos os documentos
de Tyson nos bolsos do morto. Ninguém o descobriria mais... Era preciso
voltar... Alguns quilômetros a vencer, na neve.
Um vento anavalhante começou a fazer cair uma tempestade de neve.
Tyson
voltou contente. Estava livre da polícia montada do Canadá.
Nunca
pudera pensar que o seu plano tivesse tido tão bom resultado. Os lobos
aumentavam em número e avançavam. Mas Tyson descarregava o revólver,
afugentando os animais.
—Será
possível que essas feras não se contentaram com o cadáver?
As horas passavam-se, a tempestade aumentava
de violência e o caminho tornava-se cada vez mais difícil.
Os
lobos iam surgindo daqui e dali, cada vez mais ferozes. A fome açulava-os. Mas
a caminhada cansava-o cada vez mais. Quando chegaria à cabana que agora era
sua? Pobre Harding... Era a vida... Teria de escapar...
De
repente, notou que o revólver não tinha mais munição. Procurou nos bolsos
algumas balas. Nada. O terror apoderou-se dele. Procurou correr.
Os
lobos haviam desaparecido. Afinal, chegou exausto à porta da cabana. Bateu.
Bateu.
—
Abram, abram, abram!
A
porta se fechara com a violência do vento. E a chave? A chave havia ficado lá
longe, na roupa que ele trocara com o cadáver. Agora, já se aproximavam os
lobos, de pupilas em fogo...
Estava
perdido! Mesmo morto, Harding se vingara...
Fonte:
“Revista de Polícia”/RJ, edição de setembro de 1933.
Imagem
da portada: PS/Chat GPT.


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