DO OUTRO LADO DA PAREDE - Conto Clássico de Terror - Ambrose Bierce
DO OUTRO LADO DA PAREDE
Ambrose Bierce
(1842–1914)
Tradução
de R. S. de Farias
Título
original: Beyond
the Wall
Obra
original: Em
domínio público
Tradução,
revisão e pós-edição: R.
S. de Farias (com auxílio de tradução automática e IA)
Ilustrações
e arte-final: IA
(sob prompt e layout de R. S. de Farias)
Supervisão
final: Paulo
Soriano
Muitos anos atrás, a caminho de Nova York, vindo de
Hong Kong, detive-me uma semana em São Francisco. Fazia tempo que não via a
cidade e, durante minha ausência, os negócios no Oriente haviam prosperado além
de toda expectativa. Rico o bastante para me permitir o luxo, resolvi regressar
à terra natal e reatar com os companheiros de juventude que ainda vivessem e
conservassem de mim alguma lembrança afetuosa. O mais caro entre eles era Mohun
Dampier, antigo colega de colégio, com quem mantivera uma correspondência
irregular, até que, como tantas vezes acontece entre homens, deixamos de nos
escrever.
Compreende-se sem esforço: a disposição para redigir
uma simples carta de cortesia diminui na razão inversa do quadrado da distância
entre remetente e destinatário. É lei, pura e simples.
Lembrava-me de Dampier como um homem vigoroso e
bem-apessoado, de gostos afins aos meus, avesso ao trabalho e singularmente
indiferente a muitas das coisas que costumam inquietar os homens — a riqueza
entre elas, da qual, paradoxalmente, a herança lhe dera o bastante para nunca
sentir a falta. Sua família, uma das mais aristocráticas e conhecidas do país,
orgulhava-se de jamais ter produzido um comerciante, um político ou qualquer
criatura agraciada com distinção pública. Mohum tinha veia sentimental e, por
temperamento, inclinava-se ao estudo do oculto. Gozava, felizmente, de
excelente saúde mental, que o resguardava das crenças extravagantes e
perigosas; suas incursões pelo sobrenatural detinham-se nos limites do que era
conhecido e aceito como certo.
Na noite em que fui visitá-lo, desabava uma
tempestade. O inverno californiano estava no auge: uma chuva incessante afogava
as ruas desertas e, empurrada por rajadas irregulares, vergastava as casas com
violência extraordinária. O cocheiro teve dificuldade em achar o endereço, num
bairro residencial pouco povoado, junto à praia. A casa, de aspecto bastante
desagradável, erguia-se no centro de um terreno onde, até onde o escuro me
deixava distinguir, não havia flor nem relva. Três ou quatro árvores, dobradas
e gemendo sob o temporal, pareciam querer fugir daquele cenário lúgubre e
buscar melhor sorte em algum lugar distante, para além do mar. A construção, de
tijolos, tinha dois andares e uma torre num dos cantos, que se alçava mais um
pavimento acima do resto.
A torre era a única parte iluminada. A visão da casa
me gelou, e o calafrio piorou quando a água, escorrendo-me pelas costas, me
encharcou na corrida até o abrigo do pórtico. Em resposta à carta em que
anunciara o desejo de visitá-lo, Dampier escrevera: Não bata. Abra a
porta e suba. Foi o que fiz.
Uma lâmpada a gás, no fim do segundo lance, mal
alumiava a escada. Alcancei o patamar sem derrubar nada e atravessei a porta
que dava para o aposento quadrado e iluminado da torre. Dampier, de roupão e
chinelos, veio ao meu encontro, como eu esperava. A princípio, pensei que
poderia ter-me recebido de modo mais apropriado no vestíbulo; mas, ao vê-lo,
esqueci qualquer possível descortesia.
Já não era o mesmo homem. Embora estivesse apenas na
meia-idade, tinha os cabelos grisalhos e andava muito curvado. Estava
extremamente magro; as feições, angulosas, e a pele, enrugada e pálida como a
morte, não conservavam o menor vestígio de cor. Os olhos, desmesuradamente
grandes, ardiam com uma luz misteriosa. Convidou-me a sentar, ofereceu-me um
charuto e declarou, com evidente sinceridade e uma solenidade quase excessiva,
que estava encantado com a minha visita.
Trocamos em seguida algumas palavras sem
importância. Enquanto conversávamos, uma tristeza funda foi tomando conta de
mim diante da transformação que ele sofrera. Deve tê-lo percebido, pois de
repente abriu um largo sorriso e disse:
— Decepcionei você: non sum qualis
eram [1].
Sem saber bem o que responder, acabei comentando:
— Não, que nada... Bem, não sei. Seu latim continua
o mesmo de sempre.
Ele voltou a sorrir.
— Não — disse. — Por ser língua morta, essa
particularidade só tende a se acentuar. Mas tenha paciência, por favor. Espere
um pouco: no lugar para onde vou há uma língua melhor. Importa-se de receber
uma mensagem escrita nela?
Enquanto falava, o sorriso lhe foi sumindo do rosto.
Ao terminar, fitou-me com uma seriedade que me deu angústia. Ainda assim, eu
não estava disposto a deixar-me impressionar, muito menos a revelar o quanto me
perturbava aquele presságio de morte.
— Suponho que ainda vai demorar até que a linguagem
humana deixe de nos servir — observei. — E, quando isso acontecer, a
necessidade dela e a sua utilidade já terão desaparecido.
Meu amigo não respondeu. A conversa tomara um rumo
sombrio e eu não via como torná-la mais amena; calei-me também.
De súbito, quando a tempestade amainou e o silêncio,
quase mortal, contrastou de maneira opressiva com o estrondo que o precedera,
ouvi uma batida suave na parede às minhas costas. Parecia ter sido produzida
por uma mão, mas não era a batida de quem pede para entrar. Era antes um sinal
combinado, uma tentativa de anunciar a presença de alguém no aposento contíguo.
Creio que a maioria de nós já viveu mais experiências desse gênero do que
gostaria de admitir.
Olhei para Dampier. Se havia algum divertimento em
meu rosto, ele não o notou. Parecia ter-se esquecido de mim e contemplava a
parede com um olhar cuja natureza não sei definir, embora ainda o recorde com
perfeita nitidez.
A situação era desconcertante. Levantei-me, decidido
a partir. Só então meu amigo reagiu.
— Volte a sentar-se, por favor — pediu. — Não é
nada. Não há ninguém ali.
A batida se repetiu, tão suave e lenta quanto antes,
com a mesma insistência.
— Lamento — respondi. — Já é tarde. Quer que eu
volte amanhã?
Sorriu outra vez, agora com certa rigidez.
— É muita gentileza sua, mas não há necessidade.
Garanto-lhe que este é o único aposento da torre e que não há ninguém ali. Pelo
menos...
Deixou a frase em suspenso, ergueu-se e abriu uma
janela, a única abertura na parede de onde vinha o ruído.
— Veja por si mesmo.
Sem saber o que mais fazer, acompanhei-o e
debrucei-me para fora. A luz de um poste próximo permitia ver com clareza,
através da cortina escura de água que voltara a desabar em torrentes, que não
havia ninguém. Além da parede nua da torre, nada, absolutamente nada. Dampier
fechou a janela, indicou-me a cadeira e tornou a sentar-se.
O incidente, em si, nada tinha de particularmente
misterioso. Havia uma dúzia de explicações possíveis, embora nenhuma me tenha
ocorrido até hoje. O que me impressionou foi o empenho de meu amigo em
tranquilizar-me. A atitude dele emprestava ao fato uma importância que, de
outro modo, talvez não tivesse. Demonstrara que não havia ninguém ali, e era
justamente isso que tornava tudo interessante. E continuava sem explicar o que
acontecera. Seu silêncio começou a irritar-me e, de certo modo, pareceu-me ofensivo.
— Meu caro amigo — disse eu, com um fio de ironia —,
não pretendo contestar-lhe o direito de hospedar quantos espectros queira,
segundo suas ideias de companheirismo. Isso não me diz respeito. Mas sou apenas
um homem de negócios, de gostos essencialmente terrenos, e não preciso de
fantasmas para sentir-me acompanhado ou tranquilo. Prefiro, portanto, voltar ao
meu hotel, onde os hóspedes ainda são de carne e osso.
Reconheço que não foi um discurso muito cortês.
Dampier, porém, não mostrou ressentimento.
— Peço-lhe que não vá — disse. — Sua presença me faz
muito bem. Confesso que já ouvi, em duas outras ocasiões, exatamente o que você
ouviu esta noite. Agora sei que não eram ilusões minhas, e isso tem para mim
uma importância extraordinária, muito maior do que você imagina. Acenda outro
charuto e tenha um pouco de paciência enquanto lhe conto tudo.
A chuva voltava a engrossar, com um rumor monótono,
cortado de tempos em tempos pelo estalo dos galhos açoitados pelo vento. Era
bastante tarde, mas a compaixão e a curiosidade me fizeram ouvir com atenção o
relato de Dampier. Não o interrompi uma única vez.
— Dez anos atrás — começou ele —, eu morava num
apartamento térreo, numa das casas geminadas de Rincon Hill, do outro lado da
cidade. A região já fora das mais elegantes de São Francisco, mas decaíra, em
parte porque sua arquitetura antiquada deixara de agradar aos nossos cidadãos
mais ricos, em parte porque certas obras públicas lhe haviam comprometido ainda
mais o aspecto. A fileira de casas em que eu vivia ficava um pouco recuada da
rua. Cada residência tinha um jardim minúsculo, separado dos vizinhos por
cercas de ferro. Um caminho de cascalho, ladeado de buxos e traçado com
precisão matemática, levava do portão à porta de entrada.
“Certa manhã, ao sair, vi uma moça entrar no jardim
da casa à esquerda. Era um dia quente de junho, e ela vestia branco, leve. Um
amplo chapéu de palha, enfeitado ao gosto da época com flores e fitas,
pendia-lhe dos ombros. Mas minha atenção não se demorou nas roupas delicadas.
Era impossível olhar-lhe o rosto sem perceber nele algo de sobrenatural.
“Não, não tema: não vou obscurecer a imagem com uma
descrição. Era de uma beleza extraordinária. Toda a formosura que eu vira ou
sonhara até então parecia ter encontrado expressão naquela figura viva e
incomparável, obra da mão do Artista Divino.
“A visão me abalou tão profundamente que, sem pensar
sequer na impropriedade do gesto, tirei o chapéu, como faria um católico devoto
ou um protestante de boa família diante da imagem da Virgem. A moça não pareceu
ofender-se. Lançou-me um olhar de seus magníficos olhos escuros, que me deixou
sem fôlego, e entrou em casa sem dizer palavra.
“Fiquei imóvel por alguns instantes, chapéu na mão,
consciente da minha falta de modos e tão tomado pela emoção que aquela beleza
incomparável despertara em mim que a vergonha foi menor do que deveria ter
sido. Por fim, retomei o caminho. Meu corpo seguiu adiante, mas meu coração
ficou naquele jardim.
“Em qualquer outro dia, eu teria permanecido fora
até o anoitecer. Naquela tarde, porém, voltei por volta das três, fingindo
interesse pelas poucas flores insignificantes do jardim, que jamais haviam
merecido de mim um olhar. Esperei em vão. A moça não apareceu.
“À noite inquieta seguiu-se um dia de expectativa e
frustração. No outro, entretanto, enquanto vagava sem rumo pelo bairro,
encontrei-a de novo. Naturalmente, não repeti a tolice de tirar o chapéu.
Tampouco ousei fitá-la tempo bastante para trair meu interesse. Meu coração,
contudo, batia descompassado. Eu tremia e, quando ela me reconheceu com um
olhar de seus grandes olhos negros — um olhar franco, sem atrevimento nem
coqueteria —, senti o rosto arder.
“Não quero cansá-lo com minúcias. Basta dizer que
voltei a encontrá-la muitas vezes, embora jamais lhe dirigisse a palavra ou
procurasse chamar-lhe a atenção. Não fiz o menor esforço para conhecê-la.
Talvez seja difícil compreender esse autodomínio, que me exigia sacrifício tão
grande. Eu estava, sem dúvida, perdidamente apaixonado. Mas como poderia alguém
mudar, de uma hora para outra, a própria maneira de pensar ou transformar o
próprio caráter?
“Eu pertencia àquela categoria de homens que alguns
tolos chamam de aristocratas e que outros, ainda mais tolos, têm orgulho de
integrar. Apesar de toda a beleza, de todos os encantos e da elegância daquela
moça, ela não era da minha classe.
“Descobri-lhe o nome — que aqui não importa — e
colhi algumas informações sobre a família. Era órfã e vivia numa pensão mantida
por uma tia idosa, corpulenta e insuportável, de quem dependia inteiramente.
Minha renda era modesta, e eu não tinha talento para o casamento; suponho que
seja qualidade que nunca possuí. Unir-me àquela família seria adotar-lhe o modo
de vida, abandonar meus livros e estudos e, socialmente falando, descer ao
nível da gente comum.
“Sei que tais considerações são passíveis de censura
e não me sinto em condições de defendê-las. Aceito o julgamento, mas, por
estrita justiça, todos os meus antepassados, ao longo das gerações, deveriam
sentar-se comigo no banco dos réus. Que me fosse permitido, ao menos, invocar
como atenuante a tirania do sangue. Cada glóbulo dele se revoltava contra
semelhante união.
“Em suma, meus gostos, meus hábitos, meus instintos
e até o pouco bom senso que me restava depois de apaixonado conspiravam contra
o casamento. Além disso, eu era um romântico incurável e achava um encanto
refinado naquela relação impessoal, puramente espiritual, que a intimidade
poderia vulgarizar e que o casamento, sem dúvida, dissiparia.
“Nenhuma criatura, dizia a mim mesmo, poderia ser
mais encantadora do que aquela mulher. O amor é um sonho delicioso. Por que,
então, eu haveria de procurar despertar?
“A conclusão de todo esse raciocínio era evidente.
Minha honra, meu orgulho, minha prudência e a preservação dos meus ideais
exigiam que eu fugisse. Mas eu era fraco demais para fazê-lo. O máximo que
conseguia, a custo enorme, era deixar de ver a moça. E foi o que fiz.
“Passei a evitar até os encontros casuais no jardim.
Só saía quando sabia que ela já partira para as aulas de música e voltava
depois do anoitecer. Ainda assim, vivia como em transe, entregue às fantasias
mais deliciosas. Toda a minha existência intelectual passou a girar em torno
delas.
“Ah, meu caro amigo! Você está tão habituado a agir
segundo a razão que não pode imaginar o paraíso de loucura em que vivi.
"Certa tarde, o diabo me fez ver que eu era um
perfeito idiota. Numa conversa sem propósito, que não busquei, soube pela
língua solta da minha senhoria que o quarto da moça ficava ao lado do meu,
separado apenas por uma parede divisória.
“Tomado por um impulso súbito e indigno, dei algumas
batidinhas suaves na parede. Não obtive resposta, evidentemente. Mas eu não
estava disposto a aceitar uma recusa, nem mesmo de uma parede. Perdi o juízo e
repeti aquela tolice, aquela transgressão. Como o resultado foi outra vez nulo,
tive ao menos o bom senso de desistir.
“Cerca de uma hora depois, enquanto me ocupava de
alguns estudos sobre o inferno, ouvi — ou julguei ouvir — uma resposta ao meu
chamado. Deixei os livros caírem e, num salto, estava junto à parede. Com toda
a firmeza que meu coração permitia, bati três vezes.
“A resposta veio clara e inconfundível: uma, duas,
três batidas, repetindo exatamente o meu sinal.
“Foi tudo o que aconteceu, mas bastou. Foi, na
verdade, mais que suficiente. Aquele delírio prosseguiu na tarde seguinte e em
muitas outras. E, a cada vez, era sempre eu quem dava a última palavra.
“Durante todo esse período, fui inteiramente feliz.
Ainda assim, com a teimosia que me caracteriza, mantive a decisão de não ver a
moça. Até que, como era inevitável, as respostas cessaram.
“Está zangada, pensei. Acha
que sou tímido demais para dar o passo seguinte.
"Resolvi então procurá-la, conhecê-la e... Bem,
nem naquele tempo soube o que poderia ter acontecido, nem sei agora.
"Sei apenas que passei vários dias tentando
encontrá-la, sem resultado. Não a via nem a ouvia. Percorri, em vão, as ruas
onde costumávamos nos cruzar e vigiei, da janela, o jardim da casa vizinha. Não
a vi entrar nem sair. Abatido, concluí que partira. Mesmo assim, não quis
esclarecer minhas dúvidas perguntando à senhoria, por quem já nutria profunda
aversão desde que me falara da moça com menos respeito do que eu julgava
tolerável.
“Então chegou a noite fatídica.
“Exausto de tanta emoção, indecisão e desalento,
deitei-me cedo e consegui dormir por algum tempo. Perto da meia-noite, alguma
coisa — um poder maligno empenhado em destruir para sempre a minha paz —
despertou-me e me fez sentar na cama, atento a algo que eu mesmo não saberia
nomear.
“Julguei ouvir batidas leves na parede: o fantasma
de um sinal conhecido. Um instante depois, repetiram-se. Uma, duas, três, com a
mesma intensidade de outrora. Mas dessa vez encontraram em mim uma consciência
desperta, tensa, pronta para responder.
“Eu já ia retribuir o chamado quando o Inimigo da
Paz tornou a intrometer-se em meus assuntos, sugerindo-me, com malícia, uma
pequena vingança.
“Como ela me ignorara cruelmente por tanto tempo, eu
a trataria da mesma maneira.
“Que tolice! Que Deus me perdoe!
"Passei o resto da noite em claro, ouvindo e
alimentando minha obstinação com justificativas cínicas. Na manhã seguinte, já
tarde, ao sair de casa, encontrei a senhoria que entrava.
“— Bom dia, senhor Dampier — disse ela. — Soube do
que aconteceu?
“Respondi que não, e fiz questão de deixar claro,
pelo gesto, que pouco me importava. Ela, porém, não pareceu notar minha
indiferença.
“— Foi com a moça da casa ao lado. Estava doente.
Como? O senhor não soube de nada? Ela estava doente havia semanas e agora...
“Quase me atirei sobre ela.
“— E agora... o quê? — gritei.
“— Morreu.
“Mas há ainda algo mais.
“Soube depois que, no meio daquela noite, a moça
despertara de um longo estupor, após uma semana de delírio. Seu último desejo
fora que deslocassem a cama para o extremo oposto do quarto. Os que a assistiam
julgaram tratar-se de mais um desvario da febre, mas atenderam ao pedido.
“E foi ali, naquele canto, que a pobre alma
agonizante fez sua frágil tentativa de restabelecer uma comunicação rompida; de
reatar o fio dourado do sentimento que ligava a sua inocência à minha vil
monstruosidade — monstruosidade empenhada em professar lealdade brutal e cega à
lei do Ego.
“Como poderia eu reparar meu erro? É possível rezar
missas pelo repouso de almas que, em noites como esta, vagueiam longe de nós,
arrastadas de um lado a outro por ventos caprichosos? Almas que surgem em meio
à tempestade e às trevas, trazendo sinais e presságios que parecem evocar
lembranças e anunciar a condenação?
“Esta foi a terceira visita.
“Na primeira, permaneci cético e procurei explicar o
fato por meios naturais. Na segunda, respondi às batidas, que se repetiram
várias vezes, mas sem resultado algum. Esta noite completa a tríade fatal de
que fala Parapelius Necromantius.
“É tudo o que posso dizer...”
Quando Dampier terminou o relato, não encontrei nada
de importante a dizer. Fazer perguntas teria sido uma indelicadeza atroz.
Levantei-me e desejei-lhe uma boa-noite, procurando exprimir no gesto toda a
compaixão que sentia. Ele apertou-me a mão em silêncio, em agradecimento.
Naquela noite, a sós com a sua tristeza e o seu
remorso, Mohun Dampier cruzou a fronteira do Desconhecido.
Nota do tradutor:
Beyond
the Wall, sem dúvida, é um dos mais brilhantes contos
escritos por Ambrose Bierce. Tem uma
atmosfera gótica, sombria, lembrando de certa forma o estilo dos contos de Poe.
Arriscaríamos dizer, sem exagero, que tal conto é a obra-prima de Ambrose
Bierce.
Uma
curiosidade: Parapelius Necromantius, citado no conto, não passa de uma
criativa e genial invenção literária de Ambrose Bierce, um personagem ou
filósofo esotérico fictício que soa como se tivesse existido de fato em algum
momento da história e da literatura ocultista e esotérica. Trata-se do uso
genial da metaficção!... Não existe autor, tratado ou qualquer
registro ocultista com esse nome. Ele criou Parapelius Necromantius só para
soar como se fosse um erudito medieval ou renascentista especialista em
demonologia e necromancia que teria realmente existido. O nome parece ter sido
inspirado num ocultista que realmente existiu: Parecelso.
Bierce
fazia isso frequentemente. Em vários
contos ele cita livros e autoridades que nunca existiram, só pra dar aquele ar
de erudição sombria. Por exemplo, esta citação do filósofo fictício Hali, no
conto An Inhabitant of Carcosa :
Pois
existem diversos tipos de morte: em algumas, o corpo permanece; em outras,
desaparece por completo junto com o espírito. Isso costuma ocorrer apenas na
solidão (é a vontade de Deus) e, como ninguém vê o fim, dizemos que o homem se
perdeu ou partiu em uma longa jornada, o que de fato aconteceu. Mas às vezes se
dá à vista de muitos, como atestam inúmeros testemunhos. Em um dos tipos de
morte, o espírito também morre, e sabe-se que isso acontece mesmo quando o
corpo ainda se mantém vigoroso por muitos anos. Há ainda casos em que, conforme
está comprovado, o espírito morre com o corpo, mas, passado algum tempo,
ressuscita no lugar onde o corpo se decompôs.
O
efeito funciona justamente porque o leitor não tem como checar se aquilo é real
ou não. O nome em si é um pseudolatim bem construído: “Necromantius”
aponta direto pra necromancia, a arte de invocar os mortos. Já “Parapelius” tem
uma sonoridade que lembra nomes latinizados de humanistas, tipo Paracelso —
outro nome que Bierce cita com naturalidade nos textos ocultistas da época. E é
bem provável que Ambrose Bierce leu e estudou várias obras de ocultismo e
esoterismo, como o Dumpier , personagem do seu conto. Arriscaríamos dizer que
seu desaparecimento misterioso já em idade avançada poderia ter alguma ligação
com alguma descoberta extraordinária relativa ao ocultismo e suas práticas que
ele fizera. Fantástico demais? Ambrose Bierce sempre fez do fantástico o seu
território predileto.
Na
história, a função de Parapelius Necromantius é dupla. Dampier é um estudioso
do oculto, então faz todo sentido ele recorrer a uma “autoridade” do ramo para
dar peso à regra da “tríade fatal”: três avisos, e o terceiro anuncia a morte.
Ao mesmo tempo, a citação deixa o leitor com a sensação de que existe um saber
esotérico por trás do fenômeno, sem que Bierce precise explicar nada. Ele
confia no poder do silêncio e da sugestão.
Outros
escritores, como Lovecraft — que admirava Bierce — usaram a mesma técnica. No
ensaio Supernatural Horror in Literature
(1927), Lovecraft elogia a atmosfera sombria e a economia de contos como
“Beyond the Wall”, “The Damned Thing” e “The Middle Toe of the Right Foot”. Ele
reconhece o domínio que Bierce tinha sobre o clima de horror e a crueldade fria
dos desfechos, mas também faz uma ressalva: acha que às vezes Bierce
sacrificava a construção do ambiente por causa da pressa ou da ironia.
O
Necronomicon, o livro fictício mais
famoso de Lovecraft, é o exemplo óbvio dessa mesma estratégia. O livro e seu
autor, o “árabe louco” Abdul Alhazred, são invenções puras. Lovecraft os
menciona em vários contos como se fossem reais. O mesmo acontece com De Vermis Mysteriis, Cultes des Goules e Unaussprechlichen Kulten — alguns desses foram criados por amigos
do círculo, como Robert Bloch e Robert E. Howard, e depois entraram no universo
coletivo.
Mas
tem uma diferença importante. Bierce usa o recurso de forma mais isolada e
irônica: um nome aqui, uma citação ali. O leitor sente o cheiro de erudição
sinistra, mas isso nunca vira um sistema. Lovecraft, por outro lado,
transformou a técnica em mitologia. Os livros inventados se entrelaçam, ganham
histórias de tradução, censura e perda, e passam a fazer parte do próprio
universo ficcional. É a diferença entre um adereço e uma estrutura narrativa
completa.
Não
podemos esquecer de outros autores que usaram esse tipo de metaficção. Antes de
Bierce e Lovecraft, escritores como Poe, Hawthorne e, sobretudo, Robert W.
Chambers — com The King in Yellow
(1895) — já tinham usado esse tipo de estratégia literária para atrair a
atenção do leitor. Na ficção científica, até Asimov, no seu livro Foudation,
usou o artifício literário genial. Chambers é provavelmente a influência mais
direta na ideia do “livro maldito” em Lovecraft. Assim, mais do que “beber na
fonte de Bierce”, Lovecraft herdou uma tradição gótica e a levou ao extremo.
Por fim, temos aqui Bierce em sua melhor forma, sempre e sempre genial.
*
Leia
este conto em HQ elaborada por R. S. de Farias: https://rogeriofarias.yolasite.com/ambrose-bierce-conto-hq.php
*
Nota:
[1]
“Não sou
mais quem eu era”, traduzido do latim. (N. do T).

Barão amigo, até hoje estou estudando esse conto do Bierce. Mohun Dampier, estudioso do oculto e do esotérico, dedicara-se a vida toda a esses estudos proibidos mas no entanto , por puro egoísmo, que ele reconheceu depois, fora incapaz de dar atenção a uma garota sofredora e triste. Morta por moléstia terrível, já no Além, continuara a pedir-lhe atenção, amor e carinho. Este conto merecia um filme ou episódio de uma série no Netflix.
ResponderExcluir...(continuando) Dampier "estudarva o inferno", e também gozava, felizmente, de excelente saúde mental, que o resguardava das crenças extravagantes e perigosas; suas incursões pelo sobrenatural detinham-se nos limites do que era conhecido e aceito como certo". Se Dampier tivesse dado atenção à mulher que certamente ele se apaixonara mas que seu sacerdócio pelos estudos proibidos o impedia, ele teria conhecido o amor e salvo a jovem que era triste e infeliz. Mas ela continuou insistindo, ela sofre até depois de morta, na dimensão limítrofe, tentando contactar Dampier por qual ela se apaixonara e também a quem ela pedia ajuda, por timidez talvez, através de batidas na parede. Impressionante este conto. Ambrose Bierce é um gênio. Claro que Bierce também estudava o oculto, insisto. E seu desaparecimento misterioso nos faz pensar e imaginar se ele não teria descoberto algum portal para o Desconhecido, pois "há vários tipos de morte", segundo Hali.
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