DO OUTRO LADO DA PAREDE - Conto Clássico de Terror - Ambrose Bierce

DO OUTRO LADO DA PAREDE
Ambrose Bierce

 (1842–1914)

Tradução de R. S. de Farias

 

 

Título original: Beyond the Wall

Obra original: Em domínio público

Tradução, revisão e pós-edição: R. S. de Farias (com auxílio de tradução automática e IA)

Ilustrações e arte-final: IA (sob prompt e layout de R. S. de Farias)

Supervisão final: Paulo Soriano

 

 

Muitos anos atrás, a caminho de Nova York, vindo de Hong Kong, detive-me uma semana em São Francisco. Fazia tempo que não via a cidade e, durante minha ausência, os negócios no Oriente haviam prosperado além de toda expectativa. Rico o bastante para me permitir o luxo, resolvi regressar à terra natal e reatar com os companheiros de juventude que ainda vivessem e conservassem de mim alguma lembrança afetuosa. O mais caro entre eles era Mohun Dampier, antigo colega de colégio, com quem mantivera uma correspondência irregular, até que, como tantas vezes acontece entre homens, deixamos de nos escrever.

Compreende-se sem esforço: a disposição para redigir uma simples carta de cortesia diminui na razão inversa do quadrado da distância entre remetente e destinatário. É lei, pura e simples.

Lembrava-me de Dampier como um homem vigoroso e bem-apessoado, de gostos afins aos meus, avesso ao trabalho e singularmente indiferente a muitas das coisas que costumam inquietar os homens — a riqueza entre elas, da qual, paradoxalmente, a herança lhe dera o bastante para nunca sentir a falta. Sua família, uma das mais aristocráticas e conhecidas do país, orgulhava-se de jamais ter produzido um comerciante, um político ou qualquer criatura agraciada com distinção pública. Mohum tinha veia sentimental e, por temperamento, inclinava-se ao estudo do oculto. Gozava, felizmente, de excelente saúde mental, que o resguardava das crenças extravagantes e perigosas; suas incursões pelo sobrenatural detinham-se nos limites do que era conhecido e aceito como certo.

Na noite em que fui visitá-lo, desabava uma tempestade. O inverno californiano estava no auge: uma chuva incessante afogava as ruas desertas e, empurrada por rajadas irregulares, vergastava as casas com violência extraordinária. O cocheiro teve dificuldade em achar o endereço, num bairro residencial pouco povoado, junto à praia. A casa, de aspecto bastante desagradável, erguia-se no centro de um terreno onde, até onde o escuro me deixava distinguir, não havia flor nem relva. Três ou quatro árvores, dobradas e gemendo sob o temporal, pareciam querer fugir daquele cenário lúgubre e buscar melhor sorte em algum lugar distante, para além do mar. A construção, de tijolos, tinha dois andares e uma torre num dos cantos, que se alçava mais um pavimento acima do resto.

A torre era a única parte iluminada. A visão da casa me gelou, e o calafrio piorou quando a água, escorrendo-me pelas costas, me encharcou na corrida até o abrigo do pórtico. Em resposta à carta em que anunciara o desejo de visitá-lo, Dampier escrevera: Não bata. Abra a porta e suba. Foi o que fiz.

Uma lâmpada a gás, no fim do segundo lance, mal alumiava a escada. Alcancei o patamar sem derrubar nada e atravessei a porta que dava para o aposento quadrado e iluminado da torre. Dampier, de roupão e chinelos, veio ao meu encontro, como eu esperava. A princípio, pensei que poderia ter-me recebido de modo mais apropriado no vestíbulo; mas, ao vê-lo, esqueci qualquer possível descortesia.

Já não era o mesmo homem. Embora estivesse apenas na meia-idade, tinha os cabelos grisalhos e andava muito curvado. Estava extremamente magro; as feições, angulosas, e a pele, enrugada e pálida como a morte, não conservavam o menor vestígio de cor. Os olhos, desmesuradamente grandes, ardiam com uma luz misteriosa. Convidou-me a sentar, ofereceu-me um charuto e declarou, com evidente sinceridade e uma solenidade quase excessiva, que estava encantado com a minha visita.

Trocamos em seguida algumas palavras sem importância. Enquanto conversávamos, uma tristeza funda foi tomando conta de mim diante da transformação que ele sofrera. Deve tê-lo percebido, pois de repente abriu um largo sorriso e disse:

— Decepcionei você: non sum qualis eram [1].

Sem saber bem o que responder, acabei comentando:

— Não, que nada... Bem, não sei. Seu latim continua o mesmo de sempre.

Ele voltou a sorrir.

— Não — disse. — Por ser língua morta, essa particularidade só tende a se acentuar. Mas tenha paciência, por favor. Espere um pouco: no lugar para onde vou há uma língua melhor. Importa-se de receber uma mensagem escrita nela?

Enquanto falava, o sorriso lhe foi sumindo do rosto. Ao terminar, fitou-me com uma seriedade que me deu angústia. Ainda assim, eu não estava disposto a deixar-me impressionar, muito menos a revelar o quanto me perturbava aquele presságio de morte.

— Suponho que ainda vai demorar até que a linguagem humana deixe de nos servir — observei. — E, quando isso acontecer, a necessidade dela e a sua utilidade já terão desaparecido.

Meu amigo não respondeu. A conversa tomara um rumo sombrio e eu não via como torná-la mais amena; calei-me também.

De súbito, quando a tempestade amainou e o silêncio, quase mortal, contrastou de maneira opressiva com o estrondo que o precedera, ouvi uma batida suave na parede às minhas costas. Parecia ter sido produzida por uma mão, mas não era a batida de quem pede para entrar. Era antes um sinal combinado, uma tentativa de anunciar a presença de alguém no aposento contíguo. Creio que a maioria de nós já viveu mais experiências desse gênero do que gostaria de admitir.

Olhei para Dampier. Se havia algum divertimento em meu rosto, ele não o notou. Parecia ter-se esquecido de mim e contemplava a parede com um olhar cuja natureza não sei definir, embora ainda o recorde com perfeita nitidez.

A situação era desconcertante. Levantei-me, decidido a partir. Só então meu amigo reagiu.

— Volte a sentar-se, por favor — pediu. — Não é nada. Não há ninguém ali.

A batida se repetiu, tão suave e lenta quanto antes, com a mesma insistência.

— Lamento — respondi. — Já é tarde. Quer que eu volte amanhã?

Sorriu outra vez, agora com certa rigidez.

— É muita gentileza sua, mas não há necessidade. Garanto-lhe que este é o único aposento da torre e que não há ninguém ali. Pelo menos...

Deixou a frase em suspenso, ergueu-se e abriu uma janela, a única abertura na parede de onde vinha o ruído.

— Veja por si mesmo.

Sem saber o que mais fazer, acompanhei-o e debrucei-me para fora. A luz de um poste próximo permitia ver com clareza, através da cortina escura de água que voltara a desabar em torrentes, que não havia ninguém. Além da parede nua da torre, nada, absolutamente nada. Dampier fechou a janela, indicou-me a cadeira e tornou a sentar-se.

O incidente, em si, nada tinha de particularmente misterioso. Havia uma dúzia de explicações possíveis, embora nenhuma me tenha ocorrido até hoje. O que me impressionou foi o empenho de meu amigo em tranquilizar-me. A atitude dele emprestava ao fato uma importância que, de outro modo, talvez não tivesse. Demonstrara que não havia ninguém ali, e era justamente isso que tornava tudo interessante. E continuava sem explicar o que acontecera. Seu silêncio começou a irritar-me e, de certo modo, pareceu-me ofensivo.

— Meu caro amigo — disse eu, com um fio de ironia —, não pretendo contestar-lhe o direito de hospedar quantos espectros queira, segundo suas ideias de companheirismo. Isso não me diz respeito. Mas sou apenas um homem de negócios, de gostos essencialmente terrenos, e não preciso de fantasmas para sentir-me acompanhado ou tranquilo. Prefiro, portanto, voltar ao meu hotel, onde os hóspedes ainda são de carne e osso.

Reconheço que não foi um discurso muito cortês. Dampier, porém, não mostrou ressentimento.

— Peço-lhe que não vá — disse. — Sua presença me faz muito bem. Confesso que já ouvi, em duas outras ocasiões, exatamente o que você ouviu esta noite. Agora sei que não eram ilusões minhas, e isso tem para mim uma importância extraordinária, muito maior do que você imagina. Acenda outro charuto e tenha um pouco de paciência enquanto lhe conto tudo.

A chuva voltava a engrossar, com um rumor monótono, cortado de tempos em tempos pelo estalo dos galhos açoitados pelo vento. Era bastante tarde, mas a compaixão e a curiosidade me fizeram ouvir com atenção o relato de Dampier. Não o interrompi uma única vez.

— Dez anos atrás — começou ele —, eu morava num apartamento térreo, numa das casas geminadas de Rincon Hill, do outro lado da cidade. A região já fora das mais elegantes de São Francisco, mas decaíra, em parte porque sua arquitetura antiquada deixara de agradar aos nossos cidadãos mais ricos, em parte porque certas obras públicas lhe haviam comprometido ainda mais o aspecto. A fileira de casas em que eu vivia ficava um pouco recuada da rua. Cada residência tinha um jardim minúsculo, separado dos vizinhos por cercas de ferro. Um caminho de cascalho, ladeado de buxos e traçado com precisão matemática, levava do portão à porta de entrada.

“Certa manhã, ao sair, vi uma moça entrar no jardim da casa à esquerda. Era um dia quente de junho, e ela vestia branco, leve. Um amplo chapéu de palha, enfeitado ao gosto da época com flores e fitas, pendia-lhe dos ombros. Mas minha atenção não se demorou nas roupas delicadas. Era impossível olhar-lhe o rosto sem perceber nele algo de sobrenatural.

“Não, não tema: não vou obscurecer a imagem com uma descrição. Era de uma beleza extraordinária. Toda a formosura que eu vira ou sonhara até então parecia ter encontrado expressão naquela figura viva e incomparável, obra da mão do Artista Divino.

“A visão me abalou tão profundamente que, sem pensar sequer na impropriedade do gesto, tirei o chapéu, como faria um católico devoto ou um protestante de boa família diante da imagem da Virgem. A moça não pareceu ofender-se. Lançou-me um olhar de seus magníficos olhos escuros, que me deixou sem fôlego, e entrou em casa sem dizer palavra.

“Fiquei imóvel por alguns instantes, chapéu na mão, consciente da minha falta de modos e tão tomado pela emoção que aquela beleza incomparável despertara em mim que a vergonha foi menor do que deveria ter sido. Por fim, retomei o caminho. Meu corpo seguiu adiante, mas meu coração ficou naquele jardim.

“Em qualquer outro dia, eu teria permanecido fora até o anoitecer. Naquela tarde, porém, voltei por volta das três, fingindo interesse pelas poucas flores insignificantes do jardim, que jamais haviam merecido de mim um olhar. Esperei em vão. A moça não apareceu.

“À noite inquieta seguiu-se um dia de expectativa e frustração. No outro, entretanto, enquanto vagava sem rumo pelo bairro, encontrei-a de novo. Naturalmente, não repeti a tolice de tirar o chapéu. Tampouco ousei fitá-la tempo bastante para trair meu interesse. Meu coração, contudo, batia descompassado. Eu tremia e, quando ela me reconheceu com um olhar de seus grandes olhos negros — um olhar franco, sem atrevimento nem coqueteria —, senti o rosto arder.

“Não quero cansá-lo com minúcias. Basta dizer que voltei a encontrá-la muitas vezes, embora jamais lhe dirigisse a palavra ou procurasse chamar-lhe a atenção. Não fiz o menor esforço para conhecê-la. Talvez seja difícil compreender esse autodomínio, que me exigia sacrifício tão grande. Eu estava, sem dúvida, perdidamente apaixonado. Mas como poderia alguém mudar, de uma hora para outra, a própria maneira de pensar ou transformar o próprio caráter?

“Eu pertencia àquela categoria de homens que alguns tolos chamam de aristocratas e que outros, ainda mais tolos, têm orgulho de integrar. Apesar de toda a beleza, de todos os encantos e da elegância daquela moça, ela não era da minha classe.

“Descobri-lhe o nome — que aqui não importa — e colhi algumas informações sobre a família. Era órfã e vivia numa pensão mantida por uma tia idosa, corpulenta e insuportável, de quem dependia inteiramente. Minha renda era modesta, e eu não tinha talento para o casamento; suponho que seja qualidade que nunca possuí. Unir-me àquela família seria adotar-lhe o modo de vida, abandonar meus livros e estudos e, socialmente falando, descer ao nível da gente comum.

“Sei que tais considerações são passíveis de censura e não me sinto em condições de defendê-las. Aceito o julgamento, mas, por estrita justiça, todos os meus antepassados, ao longo das gerações, deveriam sentar-se comigo no banco dos réus. Que me fosse permitido, ao menos, invocar como atenuante a tirania do sangue. Cada glóbulo dele se revoltava contra semelhante união.

“Em suma, meus gostos, meus hábitos, meus instintos e até o pouco bom senso que me restava depois de apaixonado conspiravam contra o casamento. Além disso, eu era um romântico incurável e achava um encanto refinado naquela relação impessoal, puramente espiritual, que a intimidade poderia vulgarizar e que o casamento, sem dúvida, dissiparia.

“Nenhuma criatura, dizia a mim mesmo, poderia ser mais encantadora do que aquela mulher. O amor é um sonho delicioso. Por que, então, eu haveria de procurar despertar?

“A conclusão de todo esse raciocínio era evidente. Minha honra, meu orgulho, minha prudência e a preservação dos meus ideais exigiam que eu fugisse. Mas eu era fraco demais para fazê-lo. O máximo que conseguia, a custo enorme, era deixar de ver a moça. E foi o que fiz.

“Passei a evitar até os encontros casuais no jardim. Só saía quando sabia que ela já partira para as aulas de música e voltava depois do anoitecer. Ainda assim, vivia como em transe, entregue às fantasias mais deliciosas. Toda a minha existência intelectual passou a girar em torno delas.

“Ah, meu caro amigo! Você está tão habituado a agir segundo a razão que não pode imaginar o paraíso de loucura em que vivi.

"Certa tarde, o diabo me fez ver que eu era um perfeito idiota. Numa conversa sem propósito, que não busquei, soube pela língua solta da minha senhoria que o quarto da moça ficava ao lado do meu, separado apenas por uma parede divisória.

“Tomado por um impulso súbito e indigno, dei algumas batidinhas suaves na parede. Não obtive resposta, evidentemente. Mas eu não estava disposto a aceitar uma recusa, nem mesmo de uma parede. Perdi o juízo e repeti aquela tolice, aquela transgressão. Como o resultado foi outra vez nulo, tive ao menos o bom senso de desistir.

“Cerca de uma hora depois, enquanto me ocupava de alguns estudos sobre o inferno, ouvi — ou julguei ouvir — uma resposta ao meu chamado. Deixei os livros caírem e, num salto, estava junto à parede. Com toda a firmeza que meu coração permitia, bati três vezes.

“A resposta veio clara e inconfundível: uma, duas, três batidas, repetindo exatamente o meu sinal.

“Foi tudo o que aconteceu, mas bastou. Foi, na verdade, mais que suficiente. Aquele delírio prosseguiu na tarde seguinte e em muitas outras. E, a cada vez, era sempre eu quem dava a última palavra.

“Durante todo esse período, fui inteiramente feliz. Ainda assim, com a teimosia que me caracteriza, mantive a decisão de não ver a moça. Até que, como era inevitável, as respostas cessaram.

“Está zangada, pensei. Acha que sou tímido demais para dar o passo seguinte.

"Resolvi então procurá-la, conhecê-la e... Bem, nem naquele tempo soube o que poderia ter acontecido, nem sei agora.

"Sei apenas que passei vários dias tentando encontrá-la, sem resultado. Não a via nem a ouvia. Percorri, em vão, as ruas onde costumávamos nos cruzar e vigiei, da janela, o jardim da casa vizinha. Não a vi entrar nem sair. Abatido, concluí que partira. Mesmo assim, não quis esclarecer minhas dúvidas perguntando à senhoria, por quem já nutria profunda aversão desde que me falara da moça com menos respeito do que eu julgava tolerável.

“Então chegou a noite fatídica.

“Exausto de tanta emoção, indecisão e desalento, deitei-me cedo e consegui dormir por algum tempo. Perto da meia-noite, alguma coisa — um poder maligno empenhado em destruir para sempre a minha paz — despertou-me e me fez sentar na cama, atento a algo que eu mesmo não saberia nomear.

“Julguei ouvir batidas leves na parede: o fantasma de um sinal conhecido. Um instante depois, repetiram-se. Uma, duas, três, com a mesma intensidade de outrora. Mas dessa vez encontraram em mim uma consciência desperta, tensa, pronta para responder.

“Eu já ia retribuir o chamado quando o Inimigo da Paz tornou a intrometer-se em meus assuntos, sugerindo-me, com malícia, uma pequena vingança.

“Como ela me ignorara cruelmente por tanto tempo, eu a trataria da mesma maneira.

“Que tolice! Que Deus me perdoe!

"Passei o resto da noite em claro, ouvindo e alimentando minha obstinação com justificativas cínicas. Na manhã seguinte, já tarde, ao sair de casa, encontrei a senhoria que entrava.

“— Bom dia, senhor Dampier — disse ela. — Soube do que aconteceu?

“Respondi que não, e fiz questão de deixar claro, pelo gesto, que pouco me importava. Ela, porém, não pareceu notar minha indiferença.

“— Foi com a moça da casa ao lado. Estava doente. Como? O senhor não soube de nada? Ela estava doente havia semanas e agora...

“Quase me atirei sobre ela.

“— E agora... o quê? — gritei.

“— Morreu.

“Mas há ainda algo mais.

“Soube depois que, no meio daquela noite, a moça despertara de um longo estupor, após uma semana de delírio. Seu último desejo fora que deslocassem a cama para o extremo oposto do quarto. Os que a assistiam julgaram tratar-se de mais um desvario da febre, mas atenderam ao pedido.

“E foi ali, naquele canto, que a pobre alma agonizante fez sua frágil tentativa de restabelecer uma comunicação rompida; de reatar o fio dourado do sentimento que ligava a sua inocência à minha vil monstruosidade — monstruosidade empenhada em professar lealdade brutal e cega à lei do Ego.

“Como poderia eu reparar meu erro? É possível rezar missas pelo repouso de almas que, em noites como esta, vagueiam longe de nós, arrastadas de um lado a outro por ventos caprichosos? Almas que surgem em meio à tempestade e às trevas, trazendo sinais e presságios que parecem evocar lembranças e anunciar a condenação?

“Esta foi a terceira visita.

“Na primeira, permaneci cético e procurei explicar o fato por meios naturais. Na segunda, respondi às batidas, que se repetiram várias vezes, mas sem resultado algum. Esta noite completa a tríade fatal de que fala Parapelius Necromantius.

“É tudo o que posso dizer...”

Quando Dampier terminou o relato, não encontrei nada de importante a dizer. Fazer perguntas teria sido uma indelicadeza atroz. Levantei-me e desejei-lhe uma boa-noite, procurando exprimir no gesto toda a compaixão que sentia. Ele apertou-me a mão em silêncio, em agradecimento.

Naquela noite, a sós com a sua tristeza e o seu remorso, Mohun Dampier cruzou a fronteira do Desconhecido.

 

 

 

 

Nota do tradutor:

Beyond the Wall, sem dúvida, é um dos mais brilhantes contos escritos por Ambrose Bierce.  Tem uma atmosfera gótica, sombria, lembrando de certa forma o estilo dos contos de Poe. Arriscaríamos dizer, sem exagero, que tal conto é a obra-prima de Ambrose Bierce.

Uma curiosidade: Parapelius Necromantius, citado no conto, não passa de uma criativa e genial invenção literária de Ambrose Bierce, um personagem ou filósofo esotérico fictício que soa como se tivesse existido de fato em algum momento da história e da literatura ocultista e esotérica. Trata-se do uso genial da metaficção!... Não existe autor, tratado ou qualquer registro ocultista com esse nome. Ele criou Parapelius Necromantius só para soar como se fosse um erudito medieval ou renascentista especialista em demonologia e necromancia que teria realmente existido. O nome parece ter sido inspirado num ocultista que realmente existiu: Parecelso.

Bierce fazia isso frequentemente.  Em vários contos ele cita livros e autoridades que nunca existiram, só pra dar aquele ar de erudição sombria. Por exemplo, esta citação do filósofo fictício Hali, no conto An Inhabitant of Carcosa :

Pois existem diversos tipos de morte: em algumas, o corpo permanece; em outras, desaparece por completo junto com o espírito. Isso costuma ocorrer apenas na solidão (é a vontade de Deus) e, como ninguém vê o fim, dizemos que o homem se perdeu ou partiu em uma longa jornada, o que de fato aconteceu. Mas às vezes se dá à vista de muitos, como atestam inúmeros testemunhos. Em um dos tipos de morte, o espírito também morre, e sabe-se que isso acontece mesmo quando o corpo ainda se mantém vigoroso por muitos anos. Há ainda casos em que, conforme está comprovado, o espírito morre com o corpo, mas, passado algum tempo, ressuscita no lugar onde o corpo se decompôs.

O efeito funciona justamente porque o leitor não tem como checar se aquilo é real ou não. O nome em si é um pseudolatim bem construído: “Necromantius” aponta direto pra necromancia, a arte de invocar os mortos. Já “Parapelius” tem uma sonoridade que lembra nomes latinizados de humanistas, tipo Paracelso — outro nome que Bierce cita com naturalidade nos textos ocultistas da época. E é bem provável que Ambrose Bierce leu e estudou várias obras de ocultismo e esoterismo, como o Dumpier , personagem do seu conto. Arriscaríamos dizer que seu desaparecimento misterioso já em idade avançada poderia ter alguma ligação com alguma descoberta extraordinária relativa ao ocultismo e suas práticas que ele fizera. Fantástico demais? Ambrose Bierce sempre fez do fantástico o seu território predileto.

Na história, a função de Parapelius Necromantius é dupla. Dampier é um estudioso do oculto, então faz todo sentido ele recorrer a uma “autoridade” do ramo para dar peso à regra da “tríade fatal”: três avisos, e o terceiro anuncia a morte. Ao mesmo tempo, a citação deixa o leitor com a sensação de que existe um saber esotérico por trás do fenômeno, sem que Bierce precise explicar nada. Ele confia no poder do silêncio e da sugestão.

Outros escritores, como Lovecraft — que admirava Bierce — usaram a mesma técnica. No ensaio Supernatural Horror in Literature (1927), Lovecraft elogia a atmosfera sombria e a economia de contos como “Beyond the Wall”, “The Damned Thing” e “The Middle Toe of the Right Foot”. Ele reconhece o domínio que Bierce tinha sobre o clima de horror e a crueldade fria dos desfechos, mas também faz uma ressalva: acha que às vezes Bierce sacrificava a construção do ambiente por causa da pressa ou da ironia.

O Necronomicon, o livro fictício mais famoso de Lovecraft, é o exemplo óbvio dessa mesma estratégia. O livro e seu autor, o “árabe louco” Abdul Alhazred, são invenções puras. Lovecraft os menciona em vários contos como se fossem reais. O mesmo acontece com De Vermis Mysteriis, Cultes des Goules e Unaussprechlichen Kulten — alguns desses foram criados por amigos do círculo, como Robert Bloch e Robert E. Howard, e depois entraram no universo coletivo.

Mas tem uma diferença importante. Bierce usa o recurso de forma mais isolada e irônica: um nome aqui, uma citação ali. O leitor sente o cheiro de erudição sinistra, mas isso nunca vira um sistema. Lovecraft, por outro lado, transformou a técnica em mitologia. Os livros inventados se entrelaçam, ganham histórias de tradução, censura e perda, e passam a fazer parte do próprio universo ficcional. É a diferença entre um adereço e uma estrutura narrativa completa.

Não podemos esquecer de outros autores que usaram esse tipo de metaficção. Antes de Bierce e Lovecraft, escritores como Poe, Hawthorne e, sobretudo, Robert W. Chambers — com The King in Yellow (1895) — já tinham usado esse tipo de estratégia literária para atrair a atenção do leitor. Na ficção científica, até Asimov, no seu livro Foudation, usou o artifício literário genial. Chambers é provavelmente a influência mais direta na ideia do “livro maldito” em Lovecraft. Assim, mais do que “beber na fonte de Bierce”, Lovecraft herdou uma tradição gótica e a levou ao extremo. Por fim, temos aqui Bierce em sua melhor forma, sempre e sempre genial.

 

*

 

Leia este conto em HQ elaborada por R. S. de Farias: https://rogeriofarias.yolasite.com/ambrose-bierce-conto-hq.php

 

*

Nota:

 


[1] “Não sou mais quem eu era”, traduzido do latim. (N. do T).

 

Comentários

  1. Barão amigo, até hoje estou estudando esse conto do Bierce. Mohun Dampier, estudioso do oculto e do esotérico, dedicara-se a vida toda a esses estudos proibidos mas no entanto , por puro egoísmo, que ele reconheceu depois, fora incapaz de dar atenção a uma garota sofredora e triste. Morta por moléstia terrível, já no Além, continuara a pedir-lhe atenção, amor e carinho. Este conto merecia um filme ou episódio de uma série no Netflix.

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  2. ...(continuando) Dampier "estudarva o inferno", e também gozava, felizmente, de excelente saúde mental, que o resguardava das crenças extravagantes e perigosas; suas incursões pelo sobrenatural detinham-se nos limites do que era conhecido e aceito como certo". Se Dampier tivesse dado atenção à mulher que certamente ele se apaixonara mas que seu sacerdócio pelos estudos proibidos o impedia, ele teria conhecido o amor e salvo a jovem que era triste e infeliz. Mas ela continuou insistindo, ela sofre até depois de morta, na dimensão limítrofe, tentando contactar Dampier por qual ela se apaixonara e também a quem ela pedia ajuda, por timidez talvez, através de batidas na parede. Impressionante este conto. Ambrose Bierce é um gênio. Claro que Bierce também estudava o oculto, insisto. E seu desaparecimento misterioso nos faz pensar e imaginar se ele não teria descoberto algum portal para o Desconhecido, pois "há vários tipos de morte", segundo Hali.

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