A CONFISSÃO - Conto Clássico de Crime e Horror - Guy de Maupassant

A CONFISSÃO

Guy de Maupassant

Tradução de Paulo Soriano

 

Marguerite de Thérelles estava morrendo. Embora tivesse apenas cinquenta e seis anos, aparentava pelo menos setenta e cinco. Ofegava, mais pálida que os lençóis, sacudida por tremores terríveis, o rosto contorcido, os olhos arregalados, como se tivesse visto algo de horrível.

A sua irmã mais velha, Suzanne, seis anos mais velha, ajoelhada junto à cama, soluçava. Uma mesinha, colocada junto ao leito da moribunda, tinha, sobre um guardanapo, duas velas acesas, pois aguardavam o padre que deveria administrar a extrema-unção e a última comunhão.

O recinto tinha o sinistro aspecto de quarto de um moribundo, aquela atmosfera de despedida desesperada. Frascos de remédio espalhados pelos móveis, lençóis pendurados nos cantos, empurrados para o lado ou varridos. As cadeiras desarrumadas pareciam assustadas, como se tivessem fugido em todas as direções. A temível morte estava ali, escondida, à espreita.

A história das duas irmãs era comovente. Era contada em toda a região; já tinha feito muita gente chorar.

Suzanne, a mais velha, fora amada loucamente, outrora, por um jovem a quem amava. Ficaram noivos. Aguardava-se apenas o dia marcado para o casamento quando Henri de Sampierre morreu subitamente.

O desespero da jovem foi terrível e ela jurou que nunca mais se casaria. E manteve a sua promessa. Vestiu-se com roupas de viúva, das quais jamais se apartou.

Então, certa manhã, sua irmãzinha, Marguerite, que tinha apenas doze anos, veio atirar-se aos braços da irmã mais velha e disse-lhe:

— Irmã mais velha, eu não quero que sejas infeliz. Eu não quero que chores a vida inteira. Eu nunca, jamais, jamais vou te deixar! Eu também não vou me casar. Ficarei ao teu lado sempre, sempre, sempre.

Suzanne a beijou, comovida por aquela devoção infantil, mas não acreditou na promessa. 

Mas a mocinha também cumpriu sua palavra e, apesar dos apelos dos pais e das súplicas da irmã mais velha, nunca se casou. Era bonita, muito bonita; recusou muitos rapazes que pareciam amá-la; nunca mais se afastou da irmã.

*

Viveram juntas todos os dias das suas vidas, sem se separarem uma única vez. Caminhavam lado a lado, inseparavelmente unidas. Mas Marguerite parecia sempre triste, oprimida, mais sombria que a irmã mais velha, como se, talvez, o seu sublime sacrifício a tivesse destroçado. Envelheceu mais depressa, os seus cabelos embranqueceram já aos trinta anos e, em frequente sofrimento, parecia afligida por um mal desconhecido que a consumia.

Agora era ela que iria morrer primeiro.

Já não falava há vinte e quatro horas. Disse apenas, aos primeiros raios da aurora:

— Ide buscar o padre, chegou a hora.

E permaneceu deitada de costas, sacudida por espasmos, os lábios agitados, como se palavras terríveis lhe subissem do coração, incapazes de sair, os olhos arregalados de pavor, uma visão terrível.

A irmã, dilacerada pela dor, chorava desconsoladamente, com a testa apoiada na beira da cama, e repetia:

— Margot, minha pobre Margot, minha pequenina!

Ela sempre a chamava de “minha pequenina”, assim como a irmã mais nova sempre a chamava de “irmã mais velha”.

Ouviram-se passos na escada. A porta se abriu. Apareceu um coroinha, seguido pelo velho padre de sobrepeliz. Assim que o viu, a moribunda sentou-se de um salto, abriu os lábios, balbuciou duas ou três palavras e começou a arranhar as unhas como se quisesse fazer um buraco nelas.

O padre Simon aproximou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a na testa e, com voz suave, disse:

— Que Deus te perdoe, minha filha; sê corajosa, chegou a tua hora, fala.

Então Marguerite, tremendo da cabeça aos pés, e agitando a cama inteira com movimentos nervosos, balbuciou:

— Senta-te, irmã mais velha, escuta.

O padre inclinou-se para junto de Suzanne, que continuava caída aos pés da cama, ajudou-a a levantar-se, sentou-a numa poltrona e, tomando a mão de uma das duas irmãs em cada mão, pronunciou:

— Senhor, meu Deus! Dá-lhes força, derrama sobre elas a Tua misericórdia.

E Marguerite começou a falar. As palavras saíam-lhe da garganta extenuadamente, roucas e pontuadas.

*

— Perdoa-me, perdoa-me, irmã mais velha, perdoa-me! Oh! Se soubesses como, por toda a minha vida, temi este momento!…

Suzanne balbuciou em meio às lágrimas:

— O que é que te devo perdoar, pequenina? Deste-me tudo, sacrificaste tudo; és um anjo…

Mas Marguerite a interrompeu:

— Cala-te, cala-te! Deixa-me falar… não me interrompas… É horrível… deixa-me contar tudo… até o fim, sem te mexeres… Escuta… Lembras-te… lembras-te… do Henri?…

Suzanne estremeceu e olhou para a irmã. A irmã mais nova continuou:

— Para que entendas, tens que ouvir tudo.  Eu tinha doze anos, apenas doze, lembras-te bem disto, não é mesmo? E eu era mimada, fazia tudo o que queria!… Lembras-te bem de como me mimavam?… Ouve… Na primeira vez que ele veio, trazia botas de verniz; desceu do cavalo em frente à escadinha e se desculpou pelo traje, mas vinha trazer uma notícia ao papai. Lembras-te disso, não é?… Não digas nada… escuta. Quando eu o vi, fiquei completamente encantada, de tão bonito que ele me pareceu, e fiquei de pé num canto da sala durante todo o tempo em que ele falou. As crianças são estranhas… e terríveis… Oh! Sim… sonhei com ele!

“Ele voltou... várias vezes... E eu o olhava com todos os meus olhos, com toda a minha alma... Eu era grande para a minha idade... e muito mais astuta do que se pensava. Ele voltava sempre... Eu só pensava nele. Eu sussurrei:

“—Henri… Henri de Sampierre!

“Depois disseram que ele ia se casar contigo.  Foi uma tristeza… Oh, irmã mais velha!… Uma tristeza… uma tristeza! Chorei por três noites, sem dormir. Ele voltava todos os dias à tarde, depois do almoço…Lembras-te, não é mesmo? Não digas nada… escuta. Fazias bolos para ele, que ele adorava… com farinha, manteiga e leite… Oh! Eu sei como… eu ainda os faria, se fosse preciso.  Ele os devorava, em uma mordida, e depois tomava uma taça de vinho… E então dizia: ‘Está delicioso’.  Lembras-te de como ele dizia isso?

“Eu estava com ciúmes, com ciúmes!… O dia de teu casamento estava chegando. Faltavam apenas quinze dias. Eu estava enlouquecendo. Eu dizia a mim mesma: ‘Ele não vai se casar com a Suzanne, não, eu não quero… É comigo que ele vai se casar, quando eu crescer. Nunca vou encontrar alguém de quem goste tanto…’ Mas uma noite, dez dias antes do teu casamento, tu foste passear com ele em frente ao castelo, ao luar… e lá… debaixo do abeto, debaixo do enorme abeto… ele te beijou… beijou… nos teus dois braços… por tanto tempo… Lembras-te, não é? Provavelmente foi a primeira vez… sim… Estavas tão pálida quando voltaste para a sala!

“Eu vos vi; eu estava lá, no monte. Fiquei furiosa! Se eu pudesse, ter-vos-ia matado!

“Disse para mim mesma: ‘Ele não vai se casar com a Suzanne, nunca! Ele nunca vai se casar com ninguém. Eu ficaria muito infeliz...’  E, de repente, comecei a odiá-lo terrivelmente.”

“Então, sabes o que eu fiz?... Ouve. Eu tinha visto o jardineiro preparando almôndegas para matar os cães vadios.  Ele esmagava uma garrafa com uma pedra e colocava os cacos triturados em uma almôndega.

“Peguei um frasquinho de farmácia da minha mãe, esmaguei-o com um martelo e escondi o vidro no bolso. Era um pó brilhante… No dia seguinte, como tinhas acabado de fazer os bolinhos, abri-os ao meio com uma faca e coloquei o vidro lá dentro… Ele comeu três… Eu comi um também…Joguei fora os outros seis no lago… Os dois cisnes morreram três dias depois… Lembras-te?… Oh! Não digas nada… escuta, escuta… Só eu é que não morri…  mas eu sempre estive doente… escuta… Ele morreu… você sabe… escuta… isso não é nada… Vem depois, mais tarde… sempre… o mais terrível… escuta…

“Minha vida, toda a minha vida... que tortura! Eu disse a mim mesma: ‘Não voltarei a afastar-me da minha irmã... E contar-lhe-ei tudo, na hora da morte…’ É isso. E, desde então, sempre pensei no momento, no momento em que eu te contaria tudo... E eis que o momento chegou…... É terrível... Oh... irmã mais velha!"

“Eu sempre pensava, de manhã e à tarde, dia e noite: ‘terei de lhe dizer isto, um dia’... Eu estava à espera… Que tortura!… Já está feito… Não digas nada… Agora estou com medo… Estou com medo… Oh! Estou com medo.  E se fosse vê-lo de novo, daqui a pouco, quando já estiver morta… … Vê-lo de novo… Pensas nisso?… A primeira vez!… Eu não me atreverei… Tem que ser feito… Eu vou morrer… Quero que me perdoes. Quero mesmo... Eu não posso ir até ele sem isso. Oh! Diga-lhe para me perdoar, padre, diga-lhe... Eu te imploro. Eu não posso morrer sem isso...”

*

Ela ficou em silêncio, ofegante, arranhando o lençol com as unhas crispadas…

Suzanne escondera o rosto nas mãos e já não se mexia. Pensava nele, a quem poderia ter amado por tanto tempo! Que vida maravilhosa teriam tido! Ela o viu novamente, no passado desaparecido, naquele velho passado para sempre extinto.  Amados mortos! Como vos dilaceram o coração! Oh! Aquele beijo, o único beijo dele! Guardara-o na alma. E, depois, nada mais, nada mais em toda a sua existência!…

O padre levantou-se subitamente e, com voz forte e vibrante, exclamou:

— Senhorita Suzanne, a sua irmã vai morrer!

Então Suzanne, abrindo as mãos, exibiu o rosto encharcado de lágrimas e, correndo em direção à irmã, beijou-a com toda a força, balbuciando:

— Eu te perdoo, eu te perdoo, minha pequenina...

 

Ilustração: PS/Gemini. 

 

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