OLIGARCO - Conto de Terror - L. Alexandre Santos


 

OLIGARCO

L. Alexandre Santos

DIA 1

Avançava em passos lentos, sujos de barro e memória, até alcançar a casa que me acolheria; um refúgio erguido contra as cidades, essas feridas abertas pela pobreza e pela fumaça que enegrece o ar. Aqui, tudo parecia um rumor distante, quase um mito. As casas de madeira alinhavam-se ao caminho como testemunhas mudas, e seus telhados humildes arrancavam de mim um sorriso involuntário, como se a própria alegria tivesse sido convertida em hino daquela solidão festiva.

Sem filhos que herdassem meu nome, sem a mulher que a leucemia me roubou em silêncio, sem a mãe que a idade consumiu até a última centelha de voz. De meu pai, não restou sequer lembrança; apenas a ausência, um buraco cavado antes mesmo do meu nascimento. Amigos, tampouco os tive; a vida me negou cumplicidades, como se eu houvesse nascido para o deserto.

A solidão, essa companheira áspera, exigia de mim um propósito, uma metamorfose. Eu precisava de uma mudança tão radical quanto a própria morte, e foi nesse lugar, distante de tudo, onde o silêncio se estende, que vi a possibilidade de me reencontrar, de talvez descobrir, enfim, quem sou e qual destino me cabe sob o céu dos esquecidos.

Enquanto tais memórias me rasgavam por dentro, meus pés já me haviam conduzido até a soleira da minha casa: a fechadura, tímido sol de metal, cintilava sob a guarda das tábuas robustas, firmes e sólidas. Meus dedos pousaram na maçaneta e a giraram com esforço: pesada, obstinada, parecia resguardar segredos. Ainda assim, cedeu ao toque, e a porta abriu-se.

No interior, velas cravadas em suportes da cor do barro espalhavam sua claridade trêmula, quebrando a noite em fragmentos e oferecendo uma falsa doçura ao olhar do intruso. A ausência de eletricidade, tão absoluta naquela vila, enchia-me de uma satisfação estranha. Ali estava tudo o que um homem solitário podia querer para si, sem modéstia, sem carência, entre aquelas tábuas e aquela porta que agora me acolhia como um ventre tardio.

Afundei-me na poltrona de veludo, e sua maciez aboliu minha carne e meus ossos, como se já não me restasse corpo algum, apenas a lembrança dele. Ao meu lado, um livro escorregou como fruto maduro e tombou em minhas mãos; suas páginas, ao se deixarem folhear, escoavam entre meus dedos como areia, enquanto a leitura dissolvia a própria noção de estar ali. O relógio insistia em seu tique-taque mecânico, e ainda assim, em minha mente, só se multiplicavam o silêncio e a vastidão da imaginação.

O volume, em sua secura antiga, narrava uma lenda local: uma criatura híbrida, meio lobo sem pelos, meio homem, de estatura desmedida e ossatura à mostra, as costelas salientando-se mesmo à distância como grades de uma prisão orgânica. Seus membros grotescos alongavam-se como patas de aranha, longos demais, errados demais, como se o corpo tivesse sido arquitetado unicamente para a deformidade. E dizia a lenda que corria mais veloz que o guepardo em seu ápice, possuía a força faminta de um tigre, e que seu alimento não era senão carne humana, arrancada ainda quente de suas vítimas.

Fechei o livro e deixei que meus olhos repousassem no relógio: a noite já havia descido sobre mim como uma sentença inevitável. Meu corpo, quase sem vontade própria, arrastou-se até a janela, e pela fresta percebi a solidão infiltrando-se em minhas retinas como um veneno lento. A imagem da criatura ainda ardia em minha mente, gravada como ferro em brasa. Minhas mãos tremiam, e meu pensamento, febril, multiplicava-se em exageros e delírios. Nunca dera crédito a lendas; mas ali, naquele território desconhecido para mim e talvez para o próprio mundo, tudo parecia conspirar contra minha descrença. Cercado por pensamentos que se desdobravam em todos os cantos, rendi-me ao cansaço viscoso, persistente, arrastando-me como um predador paciente, até que, finalmente, me derrubei no sono, entregue ao esquecimento que mais parecia uma queda.

DIA 2

Pela manhã, abri todas as janelas, e os raios solares invadiram cada canto como uma multidão sem freio. Do lado de fora, vi crianças brincando, como se cada gesto fosse o último sopro de suas pequenas vidas. Mas então algo me deteve, pois ficaram imóveis de repente, paradas como estátuas, pareciam dialogar com alguém que não estava ali; um amigo imaginário coletivo, talvez, uma presença invisível compartilhada entre elas. Nenhuma risada. Nenhum sorriso. Apenas um silêncio espesso, tão denso que parecia se infiltrar pela casa e me roubar o fôlego. Talvez fosse apenas o peso da noite anterior ainda colado à minha pele, talvez apenas a lenda insistindo em me rondar.

— Crianças... estão bem? — perguntei, quase num grito, incapaz de conter a inquietação que me queimava o peito.

Elas me fitaram por alguns segundos, longos, quase intermináveis, e então dispararam em corrida súbita, como se competissem por uma vitória invisível. O que já era estranho tornou-se ainda mais perturbador. “O que faço aqui?”, pensei, cercado por dúvidas que se multiplicavam. Seria aquela vila apenas um sonho desmascarado, ou seria eu o estrangeiro que precisava dobrar-se a costumes indecifráveis?

Enquanto me perdia nesse abismo de perguntas, um vulto se insinuou pela janela: um homem de barba cerrada, que só percebi quando já estava perto demais. O facão em sua mão brilhou como um aviso, e minha alma recuou antes mesmo que meus pés o fizessem.

— Num faça isso, forasteiro... num vá assustá as criança. — A voz dele era grave, arrastada, e o cheiro pútrido que o cercava revolveu meu estômago.

— Apenas lhes perguntei se estavam bem — respondi rápido, tentando disfarçar o incômodo. — Pareciam conversar com alguém... embora nada houvesse ali.

O homem lançou um olhar demorado ao redor, depois cravou os olhos nos meus. Aproximou-se ainda mais e, num sussurro rouco, disse:

— Se cuida, forasteiro...

Não eram apenas as crianças que se comportavam de modo estranho. Aquelas palavras soavam como ameaça ou como aviso?

Minhas pernas já não me obedeciam como deviam, e minhas mãos, assim como os pés, pareciam seguir um compasso estranho, como se um maestro invisível conduzisse meu corpo contra a minha vontade.

Ainda com o olhar para fora da janela, vi passar algumas pessoas pela estrada. Choravam alto, em lamentos que dilaceravam o ar. Quatro mulheres e um homem; este último carregava nos braços uma criança inerte, que parecia mais leve do que deveria ser. De onde eu estava, as lágrimas me eram visíveis; cristais líquidos que deslizavam pela pele em linhas de desespero. Consegui ver uma mancha vermelha que tingia o rosto da pequena, e de seu corpo caíam gotas de sangue, marcando o chão em intervalos regulares, como uma contagem silenciosa da dor.

Uma das mulheres, entre soluços que rasgavam a garganta, deixou escapar:

— Aquela criatura voltou...

A mesma do livro? A pergunta incendiou meu peito, e o coração martelou como se quisesse romper as costelas para fugir antes de mim. Quis falar, interrogar, mas a boca permaneceu selada. Naquele instante compreendi que o silêncio era o mais sábio que qualquer palavra.

Foi então que outro homem surgiu, avançando em minha direção. Talvez o pai de mais uma criança estranha, pensei. Respirei fundo, e contei até dez.

— O senhor é o novo vizinho, né? — disse ele, voz grave e sem rodeios, como quem não sabe gastar palavra. Ainda assim, sua presença dissipou parte da tensão que me corroía.

— Sim. Cheguei ontem e devo dizer... visualmente, este lugar é deslumbrante — respondi, arriscando um passo à frente. — Mas... o que aconteceu? — perguntei, indicando a cena que ainda se dissolvia ao longe.

Ele coçou a barba cerrada e desviou o olhar, como se carregasse o peso de um segredo que não lhe cabia revelar.

— Aqui sempre tem coisa errada. Criança, bicho, gente... não importa. Alguma coisa leva.

As palavras soaram secas, como pedra lançada ao fundo de um poço. Só então estendeu a mão, numa demora que me pareceu calculada:

— Joel. Moro ali adiante.

Apertei-lhe a mão, e nela senti a aspereza de quem trabalha a terra. Ele apenas deu de ombros, virou-se e partiu sem acrescentar mais nada, deixando em mim a sensação incômoda de que a conversa não havia terminado, apenas se retirado para outro tempo.

À tarde, decidi caminhar pelos arredores, como quem busca decifrar um território estrangeiro. As ruas de terra se estendiam diante de mim como veias ressecadas, levando a lugar nenhum. De ambos os lados, as casas de madeira eram mais antigas que os próprios corpos que as habitavam. Quase não havia movimento; apenas sombras que surgiam e sumiam atrás das cortinas, como se a vila inteira respirasse em segredo, ocultando de mim o coração que pulsava em seu silêncio.

Diante de um portão, uma mulher idosa balançava o corpo para frente e para trás, num compasso lento, como um pêndulo enferrujado. Não me dirigiu palavra alguma. Nos braços, carregava uma boneca imunda, sem olhos, que embalava com ternura inquietante, como se fosse um bebê. Quando passei, não se moveu; acompanhou-me apenas com o olhar fixo, e por um instante tive a impressão de que murmurava algo inaudível, um lamento sem voz, pois seus lábios permaneciam cerrados.

Mais adiante, um grupo de homens se reunia em torno de uma carroça quebrada. Nenhum tentava repará-la; estavam imóveis, hipnotizados pela roda partida. Ao perceberem minha presença, um deles ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, mas o rosto permanecia seco, a pele marcada apenas pela aridez de quem já exauriu todas as lágrimas e agora carrega apenas o vazio.

Continuei andando, forçando os passos contra a resistência do próprio corpo, até alcançar um pequeno curral onde algumas crianças brincavam. Mas não havia riso, apenas corridas em círculos, como se obedecessem a uma ordem invisível, uma coreografia herdada do silêncio. De súbito, uma delas tombou de joelhos e começou a rasgar a terra com as próprias mãos, em fúria desesperada. As outras a cercaram em quietude solene e, de uma vez, voltaram o rosto para mim. O peso daqueles olhares infantis, implacáveis e mudos, atravessou-me como lâmina. Apressado, segui adiante, fugindo da infância que ali parecia conspirar contra mim.

A cada esquina, a vila desvelava uma nova fissura em sua estranheza, como se eu estivesse aprisionado dentro de um sonho que já conhecia de antemão os contornos do meu medo. Foi nesse estado que reencontrei Joel, o qual estava sentado no batente da própria porta, afiando sem pressa uma faca curta. Quando passei, ergueu o olhar e deixou escapar um comentário.

— Estranho aqui, né? — disse, cuspindo no chão antes de passar o pano na lâmina.

— De fato... o silêncio é quase insuportável.

Ele deu um riso curto, sem humor, como quem ri de uma verdade.

— Silêncio não... é espera. — Suas palavras caíram pesadas, deixando no ar uma pausa que me atravessou como prenúncio. — Todo mundo aqui parece esperar alguma coisa.

Quis perguntar o que queria dizer, mas ele já se erguia, guardando a faca e se virando.

— Vai se acostumar — murmurou, antes de entrar em casa.

Fiquei parado diante da porta fechada, sentindo que a vila inteira me olhava através daquela madeira. Perguntei a mim mesmo que espécie de espera era aquela... e se, por acaso, não fosse eu o motivo dela.

Ao cair da noite, decidi recolher-me cedo. No caminho de volta, reparei em uma janela entreaberta com uma vela acesa tremulava lá dentro, mas o que me perturbou foi a sombra projetada na parede. Parecia uma figura recurvada, de braços desproporcionais, que se agitava como se quisesse escapar do quarto. Pisquei, e a imagem se desfez, era apenas uma cortina balançando. Ainda assim, voltei apressado para minha casa, com a sensação de que a própria vila me observava pelos buracos das fechaduras.

DIA 3

Com os olhos despertos, levantei-me, joguei água no rosto e mastiguei algumas bolachas que havia trazido comigo. Foi então que um bater leve na porta me arrancou da solitude. Ao abri-la, encontrei Joel. 

— Não gosto de falar na rua. — Ergueu o queixo em direção ao interior da casa. — Posso entrar?

Fiz um gesto breve, quase automático, e ele entrou sem hesitar. Movia-se pela sala como quem já conhecesse cada canto. Sentou-se de imediato em minha poltrona, como se o lugar lhe pertencesse. Engoli a estranheza, recordando-me de que a solidão não perdoa quem recusa companhia. Além disso, era prudente, pois naquela vila, hostilidades poderiam nascer de um simples olhar torto.

Decidi assumir o papel de anfitrião. Fui à cozinha, e preparei café. O silêncio entre nós se estendeu como corda tensa, prestes a estalar. Joel aguardava imóvel, paciente, e por um instante pensei que tivesse adormecido no conforto da quietude. Enganei-me.

Quando retornei e depositei as canecas fumegantes sobre a mesinha, sentei-me diante dele. Seus olhos, ao se fixarem nos meus, ardiam num brilho inquieto, como se guardassem algo que não devia ser dito. Abriu um sorriso largo, de canto a canto, antes de saborear um gole do café. Tornou a pousar a caneca sobre a mesa, inclinou-se para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos, como quem se prepara para uma confidência.

— Aquilo que viu lá fora... aquilo de que me perguntou ontem pela manhã... — sua voz desceu a um tom mais baixo, quase um sussurro. — É obra do Oligarco. Pelo menos... é o que dizem.

O nome tombou em meus ouvidos como pedra lançada ao fundo de um poço. Oligarco. Jamais o havia escutado, e, no entanto, soava familiar, como se estivesse gravado em mim desde sempre. Joel percebeu minha perplexidade, a testa franzida, a sobrancelha arqueada, o pedido mudo por respostas.

Ele desviou o olhar para a lateral da sala e, como se obedecesse a um roteiro já escrito, estendeu a mão e apanhou o mesmo livro que eu lera no dia em que cheguei. Havia em seu gesto uma naturalidade inquietante, como se tudo estivesse previsto, como se o livro o tivesse aguardado. Entregou-me o volume.

— Nesse livro, o nome do monstro não aparece.

— Ele... ele é real? — perguntei, a voz quase trêmula, sem ousar afastar os olhos da capa gasta que agora parecia pesar como pedra em minhas mãos.

— Todos aqui acreditam que sim. — A voz dele não soou como simples resposta, mas como sentença já repetida mil vezes. — Dizem que foi ele quem levou aquela criança... que foi o Oligarco quem a matou.

Engoli em seco. A ideia soava absurda, mas minha voz escapou antes que pudesse contê-la:

— Se realmente existe, o povo tem que se unir e caçá-lo.

Joel balançou a cabeça devagar, como quem já ouvira essa proposta:

— Já tentaram, muitas vez... Mas o Oligarco é ligeiro. Bicho covarde, só aparece quando sabe que não vai perder... ou que não vai se machucar.

Com calma, tomou o livro das minhas mãos e o folheou até encontrar o que buscava. Na página 72, virou o volume em minha direção e apontou para uma nota de rodapé quase invisível, escondida.

— O autor desse livro não botou o nome dele onde todo mundo pudesse ver. Escondeu aqui, de propósito, como se fosse coisa pra poucos. Minha vista já não alcança letra miúda, nem com as melhores lentes... Mas você, você consegue.

Do bolso esquerdo retirou uma pequena lupa e a depositou entre meus dedos. Inclinei-me sobre as letras diminutas e, com esforço, consegui decifrar: “Arauto, número 22.”

— Perfeito! — exclamou Joel, os olhos acesos como brasas. — Quer ir até ele?

Hesitei. As palavras dele cortavam fundo:

— As pessoas daqui parecem viver mergulhadas em um torpor... ninguém sabe ler, ninguém sabe nada. Nós dois podemos descobrir mais sobre esse ser e confirmar se é real.

Um arrepio percorreu minha espinha. Não há muito o que fazer aqui, afinal, talvez esse fosse o proposito que aguardava. Mas dentro de mim algo se agitava em protesto. O que estava fazendo? Eu mal havia chegado, e já me colocava no papel de detetive, como se buscasse forçar a própria sorte. Aceitara sem pensar, e só depois percebi a gravidade do que me comprometera.

Eu o questionei como iriamos achar uma pessoa só com seu nome e um número, mas ele, por algum motivo, tinha certeza de que era alguém daquela vila, só precisávamos achar o número da casa. Era simples. Tão simples que me assustava.

Joel colocou o livro sob o braço. Levantamos, e numa respiração funda, nossos olhares se cruzaram; movemos a cabeça ao mesmo tempo, como quem sela um pacto silencioso: estamos prontos. Tranquei as janelas antes de sairmos.

O lado de fora estava deserto. Nenhum som, nenhum rastro. A pergunta latejou em minha mente: estariam caçando o monstro? Girei os olhos para todos os lados até que percebi a fumaça, erguendo-se em véus sombrios, e uma multidão aglomerada formando um círculo denso.

— Já vi coisas que você ainda não viu. Quer se aproximar? — disse Joel, em tom misterioso.

As palavras me confundiram, mas a curiosidade foi mais forte. Um sorriso torto escapou de mim, e começamos a avançar em passos longos e silenciosos, como predadores tentando não ser notados.

Quanto mais próximos, mais a fumaça se enroscava em nossa pele e garganta. Contivemos a tosse, até que o fogo surgiu diante de nós: uma estrutura de madeira em chamas. Sobre ela, reconheci, ainda que por instantes, o garoto atacado pelo suposto monstro. Logo as labaredas engoliram tudo.

A multidão, de olhos fixos no fogo, parecia paralisada, como se estivessem hipnotizadas. Antes que notassem nossa presença, Joel tocou meu braço com firmeza e, com o olhar, indicou o caminho oposto. Recuando em silêncio, nos afastamos até a escuridão nos engolir.

— O que exatamente presenciei ali? — perguntei.

— Toda vez que o monstro leva alguém, eles fazem isso.

— Um ritual?!

— Parece. — Joel deu de ombros, sem surpresa na voz. — Agora, vamos até a casa vinte e dois.

Seguimos pela vila. As casas não obedeciam a ordem alguma, os números espalhavam-se como peças de um jogo insano. O “22” podia estar em qualquer esquina. Caminhamos por horas. Meus pés ardiam, o suor escorria em rios pelo rosto, e a temperatura parecia aumentar a cada passo. Olhei para Joel e estava sereno, intacto, sem suor, como se sua caminhada estivesse apenas começando. Enquanto eu quase desfalecia, ele sorria.

— Achei. Ali — apontou, firme, para uma casa estreita, de madeira carcomida e fungada.

— Parece abandonada... — murmurei, enquanto nos aproximávamos da porta.

Toque. Toque.

Esperamos um pouco. Batemos outra vez. Chamamos pelo nome. Silêncio.

Joel, impaciente, colocou a mão na maçaneta e tentou girá-la, mas estava trancada. Por um instante, pensei que Arauto estivesse entre a multidão, reunido no ritual de fogo. Afinal, a vila inteira parecia estar lá. Mas Joel, por alguma razão insondável, não compartilhava da minha dúvida; seu rosto mantinha uma confiança inabalável, como se tivesse certeza de que o homem estava dentro daquela casa.

— Já vou! — gritou uma voz rouca, abafada, do outro lado da porta.

Em seguida, soou o tilintar de muitas chaves. O ferro arranhava o miolo da fechadura como se nem o próprio dono soubesse qual delas pertencia à porta. O ruído prolongou-se em tentativas incontáveis, até que, por fim, um estalo seco anunciou a rendição do trinco.

A porta abriu-se com lentidão cerimonial, revelando diante de nós um homem baixo, de rosto enrugado como casca de árvore antiga. Uma bengala trêmula sustentava-lhe o corpo frágil, mas os olhos, firmes como lâminas, nos atravessaram com desconfiança.

— O que querem? — perguntou, em voz grave e arrastada.

Joel não respondeu de imediato. Retirou o livro debaixo do braço e o ergueu, exibindo a capa diante dele.

Um esgar quase divertido atravessou o rosto do velho.

— Ora, ora... então ainda existe quem saiba ler por estas bandas? — Um sorriso curto, quase cruel, riscou-lhe os lábios. — Entrem.

Sentamo-nos em cadeiras cuja madeira rangia como se implorasse descanso. O velho deixou os olhos passearem por nossos corpos de cima a baixo, coçou o queixo áspero e então murmurou:

— Vieram saber se o Oligarco é real? Pois escutem bem: neste livro, não há palavra inventada. Cada linha é verdade e cada página é testemunho.

— O senhor chegou a vê-lo? — perguntei, engolindo em seco, mas mantendo o timbre da voz firme.

— Vi — respondeu o velho, e sua voz parecia talhar o ar. — E não apenas vi... presenciei quando dilacerava pessoas. Quando devorava suas carnes ainda quentes.

Um silêncio denso se instalou entre nós, quase palpável, como se impregnasse as paredes.

Joel disse:

— Viemos com o propósito de capturá-lo, de destruí-lo. Buscamos em sua experiência o entendimento do que devemos fazer.

O velho estreitou os olhos, e um esboço de riso zombeteiro deformou-lhe o rosto:

— Não sejam tolos. A coisa mais sensata é partir. Esta vila é uma prisão, e o Oligarco... o Oligarco é apenas um dos monstros que a guardam.

Joel se adiantou:

— O que quer dizer com isso?

O velho inclinou-se um pouco para frente, a voz carregada de desdém:

— Olhem bem para as pessoas desta vila. Talvez ainda não tenham vivido tempo suficiente aqui para notar..., mas aqui se mata por um olhar atravessado, por uma palavra fora de hora. Tudo neste lugar é monstruoso. O Oligarco é necessário. Ele é a faxina que o destino envia. É um mal necessário, uma força da natureza. — Fez uma pausa, e sua voz desceu a um sussurro. — Só não se esqueçam: não confiem em ninguém. Ele pode estar entre nós... disfarçado em forma humana.

Senti o corpo congelar. Não esperava ouvir palavras tão brutais. Eu intuía que havia algo de errado nos habitantes desta vila, mas não supunha que a deformidade chegasse a tal profundidade.

De súbito, fomos interrompidos por um zumbido que tomou conta da casa. O som não apenas feria os ouvidos: atravessava o ar como lâmina. Logo depois, outros ruídos emergiram, indecifráveis, como se o próprio vento carregasse segredos. O medo, esse sim era claro; arrepiava a pele como o toque de garras invisíveis.

— Ele está por perto... — murmurou o velho, enquanto percorria a casa apressado, trancando portas e janelas com gestos mecânicos. — Aproximem-se.

Obedecemos. Pela fenda de uma rachadura na porta, espiamos o exterior e tudo estava mergulhado numa escuridão absoluta, tão densa que parecia respirar. O tempo, nesse estado, dissolveu-se sem que eu notasse. Quando recuperei a noção, o dia já avançava em direção à meia-noite.

Joel e eu permanecíamos vigilantes. O suor descia da minha testa em gotas que caíam no chão como se marcassem o tempo. Minhas pernas tremiam, e o sangue parecia concentrar-se apenas no impulso de fugir a qualquer instante. Os sons persistiam, obstinados, mas diante de nós só havia a escuridão que tudo engolia.

O velho retirou o relógio do pulso com lentidão ritual, depositou-o sobre a mesa e, em voz grave, anunciou:

— Meia-noite.

DIA 4

O som se intensificava a cada instante. Ficamos imóveis, paralisados, com a respiração suspensa, sem ousar emitir sequer um sussurro. Então, um estrondo veio do telhado, como se o monstro tivesse saltado ali para observar tudo do alto, com clareza predatória.

Desviamos os olhos da porta e, ao procurar o velho, ficamos atônitos ao perceber que ele não estava mais lá. Fugiu? Escondeu-se? pensei, buscando as pupilas de Joel como se nelas houvesse respostas. Respirávamos o mais baixo possível, e cada passo que dávamos era uma oração silenciosa contra a morte. Caminhamos até o cômodo ao lado, à procura dele.

A porta estava trancada. Desistimos de forçá-la, qualquer ruído poderia ser fatal. Ficamos ali, apenas ouvindo os sons que nos rodeavam. Então, tão repentino quanto havia surgido, o barulho cessou, como se nunca tivesse existido.

Esperamos mais alguns segundos em imobilidade sufocante. Por fim, decidimos arrombar a porta. Era visível sua fragilidade; em duas ombradas, ela cedeu. O quarto, no entanto, estava vazio. A janela permanecia entreaberta, deixando entrar o frio da noite. O velho havia sido levado. Uma vítima do monstro.

Espantados, fechamos a janela e retornamos à cozinha. Sentamo-nos novamente nas cadeiras bambas, sem palavras, aguardando apenas que um pouco de claridade surgisse no céu para corrermos às nossas casas com a mínima sensação de segurança.

Meus olhos recusavam-se a ceder ao repouso, embora o sono me rondasse como fera paciente. A mente prosseguia em tormenta incessante, negando-me qualquer trégua. Quando decidi vir a esta vila, julgava buscar paz; ansiava por um refúgio distante, um lugar onde pudesse sepultar o passado. No entanto, sob a mesma chama, ardia também a ânsia de um propósito, de uma razão para prosseguir.

Desejava partir, mas a ideia de fugir outra vez me era igualmente insuportável. Dentro de mim, as próprias estruturas da mente colidiam como placas tectônicas em convulsão, e tal embate tornava o descanso impossível. Uma dor de cabeça começou a rondar-me, pesada, insistente, como martelo invisível sobre as têmporas.

Voltei os olhos para Joel. Sem que pronunciasse palavra, sua expressão refletia os mesmos abismos que me consumiam por dentro.

— Devemos correr? — indaguei a Joel, quando um fio de luz insinuou-se pela rachadura da porta. Olhei o relógio do Arauto, que agora prendia firmemente ao meu pulso, e compreendi que era a hora.

Abri a porta com a lentidão, esquadrinhando os arredores. Joel saiu primeiro; segui-lhe os passos, fechando atrás de nós a madeira. Nossos olhares cansados foram a única despedida possível, e então corremos, cada um em direção à própria casa.

Enquanto avançava pelas ruas, percebi que tudo permanecia intacto. As casas, as árvores, as estradas... como se nada tivesse acontecido. “Talvez o monstro tenha se saciado com o velho”, pensei, tentando me enganar. Pessoas já trabalhavam na vila; alguns tiravam leite das vacas, outros cortavam lenha. Tudo parecia normal, como se não tivessem ouvido nada, como se na noite anterior não tivessem queimado uma criança. Pessoas sem sentimentos... era o que não saía da minha cabeça.

Ao chegar em casa, deixei-me cair na poltrona, ofegante. Minha respiração arfava e o coração martelava tão rápido que temi não suportar. Naquele instante percebi o preço de uma vida sedentária, de nunca ter preparado o corpo para correr da própria morte.

Quando, enfim, a pulsação cedeu, levantei-me. Fui ao quarto, percorri os olhos pelo espaço. Depois à cozinha, inspecionando cada detalhe, como se buscasse algum sinal de que ainda estava seguro. Voltei ao quarto, peguei algumas roupas e as mantive nas mãos, pronto para enfiá-las em uma mala e desaparecer daquele lugar.

Mas hesitei. Decidi esperar. Precisava conversar com Joel antes.

Retornei à poltrona e fechei os olhos, tentando repousar. O sono, porém, não veio. Em vez disso, a imagem daquela criatura continuava a me possuir — como se estivesse dentro de mim, em transe, rondando cada pensamento, cada batida do coração.

Gritos de crianças brincando começaram a corroer o ambiente. Por algum motivo, aquilo me deixava ainda mais pensativo, como tudo naquele lugar. Caminhei até a cozinha e abri a janela, torcendo para que não visse ninguém conversando com o vazio novamente.

Duas meninas e três meninos, inteiramente nus, corriam pela rua. Ao perceberem minha presença, detiveram-se por um instante e, em seguida, dispararam em fuga, como se houvessem avistado um espectro. Da última vez, haviam afirmado que eu os assustava; só me faltava que repetissem o refrão e alguém viesse cobrar-me por isso. Fechei a janela com presteza.

Precisava ocupar a mente, afastá-la da vertigem. Decidi escrever. Tomei um caderno e uma caneta que repousavam entre minhas roupas, sentei-me à mesa e comecei a registrar os acontecimentos da vila. Após duas páginas, soou na porta um insistente toc, toc. Fechei o caderno, guardei a caneta no bolso, e caminhei até a pia. Lancei água ao rosto, numa tentativa vã de disfarçar as olheiras, e abri a porta.

— O forasteiro... mexeno cum criança de novo, hein? — rosnou o mesmo homem do outro dia, com um facão pendurado ao cinto.

Eu já estava exausto demais para discutir. Empurrei a porta com todas as forças, tentando fechá-la, mas ele resistiu. Coloquei o peso do corpo contra a madeira e, por um instante, acreditei que poderia contê-lo. Engano meu, sua força descomunal fez a porta se escancarar de súbito, arremessando-me ao chão.

Ele entrou, trancou a porta e me fitou como se eu fosse um animal de corte, já marcado para o abate.

— Sabe o que nóis faz com pedófilo aqui? — perguntou, os olhos faiscando ódio cru.

Levantei-me de súbito, tentando falar, explicar-me, mas minhas palavras não encontravam nele nenhum ouvido; ou fingia não ouvir, ou o ódio já lhe havia vedado a razão. Avançou contra mim, e corri pela casa, derrubando móveis e objetos no desespero de retardar-lhe a marcha. Tudo inútil. Ele avançava como um gigante.

Quando puxou o facão do cinto e veio em minha direção com passos de chumbo, percebi que não havia mais fuga possível. Encurralado pelos próprios móveis, senti a mão áspera prender-me o pescoço. A lâmina ergueu-se no ar, refletindo a luz trêmula da cozinha como prenúncio de sentença.

Foi então que me lembrei da caneta no bolso. Instintivamente, arranquei-a e cravei-a em seu ouvido. O grito que se seguiu não parecia humano, era um urro dilacerante, carregado de fúria e dor. Ele me largou no mesmo instante, cambaleando, ajoelhando-se, e urrando como fera ferida.

Corri para me afastar, mas a verdade se impôs com clareza inexorável, não poderia deixá-lo vivo. Ele encontraria um meio de me matar. Era ele ou eu.

Tomei uma faca da cozinha, firmei a respiração e enterrei-a em seu pescoço. Retirei, cravei novamente. Uma, duas, três, quatro vezes. O sangue jorrou quente, respingando no chão, em minhas mãos, no próprio ar, como se quisesse impregnar todo o ambiente de sua presença derradeira.

Ele tombou de lado, respirando em gargarejos cada vez mais rarefeitos, até que o som se extinguiu por completo.

O silêncio que então se instalou era mais pesado do que qualquer grito, como se a própria casa tivesse testemunhado o crime e se calado em luto.

Meu coração disparava. Todo o meu ser clamava por uma única ação, ocultar o corpo. Mas, antes que pudesse mover-me, a porta de minha casa se abriu. Num sobressalto descomunal, ergui a faca, pronto para atacar quem ousasse transpor aquele limiar.

— Calma... sou eu — disse Joel, erguendo as mãos. — Eu ouvi uns barulho... fiquei preocupado... Espera... o que foi isso? — perguntou, os olhos arregalando-se ao deparar-se com as manchas de sangue que salpicavam o chão.

Contei-lhe tudo, sem omitir detalhe. Ele me ouviu em silêncio, e, para minha surpresa, não me julgou nem me acusou. Apenas assentiu, como se já pressentisse tal desfecho, e declarou que me auxiliaria. Pela primeira vez, desde minha chegada àquela vila, senti-me olhado com verdadeira fraternidade.

— A turma daqui merece é isso mesmo... tudo bicho ruim, tudo lixo — rosnou Joel, cuspindo sobre o corpo morto. — Vamo esperar escurecer. A gente enterra ele no meio da mata, bem longe daqui.

Concordei, tomado por alívio. Levamos o cadáver para o quarto e, juntos, limpamos cada vestígio de sangue da casa. O trabalho foi longo, silencioso, mas a minha mente ainda borbulhava sobre o que fiz e o que farei.

Joel parecia compreender meu desespero melhor do que eu próprio. Agradeci-lhe inúmeras vezes. Entre panos encharcados e baldes tingidos de vermelho, conversamos e, pouco a pouco, o peso em meu peito começou a se dissolver.

DIA 5

— Meia-noite em ponto. Bora! — disse Joel, enquanto amarrava a pá nas costas como se fosse uma mochila.

Retiramos o corpo do quarto, arrastando-o até a porta. Eu a abri, observei ao redor, dei alguns passos à frente, atentei-me a cada detalhe e, ao perceber que não havia ninguém, voltei e juntos carregamos o corpo. Caminhamos em passos silenciosos pela mata, cruzando árvores imensas e outras pequenas, até chegarmos a um trecho mais denso. Andamos o quanto nossos corpos permitiram, até que o cansaço se tornou insuportável. Soltamos o corpo e respiramos fundo, tentando controlar o ar que já escapava em ritmo acelerado. Olhei ao redor e nada além da mata cerrada. As casas estavam tão distantes que não era possível ver sequer um traço delas. A lua cheia iluminava o breu, tornando o ambiente ainda mais amedrontador.

Joel passou o dorso da mão pela testa para secar o suor. Ergueu o rosto, como se quisesse observar a lua, mas seus olhos fechados mostravam que não era essa sua intenção. Ficou assim até recuperar o fôlego.

Então, desamarrou a pá e começou a cavar sem nada dizer.

— Precisamos desaparecer daqui — falei, ainda ofegante.

— Se a gente some agora, vão desconfiar logo do sumiço dele. Melhor esperar uns dia... deixar a poeira baixar — disse Joel, jogando torrões de terra e grama para o alto. De súbito, parou e me fitou com firmeza. — Nesse meio tempo, podemos caçar o Oligarco.

Por que ele deseja tanto isso? pensei, enquanto o suor me escorria pela nuca. O risco era imenso. Já havíamos testemunhado do que aquela criatura era capaz.

— Eu tô te ajudando com isso... — insistiu Joel, a voz carregada de expectativa. — Quero que me ajude também. Vamos ser parceiros e capturar ele, ou matar ele. Pensa só... nóis ficaríamos ricos, famosos... o povo ia chamar a gente de os caçadores de lenda.

Não havia pensado por esse lado, mas reconheci que poderia, de fato, ser o início de um grande sucesso. A questão que permanecia era de como capturar um monstro? Perguntei isso enquanto tomava a pá de suas mãos para auxiliá-lo na escavação.

— Primeiro precisamos descobrir onde ele se esconde, qual é sua toca. Se pode assumir outras formas, nada impede que seja um dos moradores da vila. Temos de observar, noite após noite, quem sai de casa. Quando soubermos quem é, interrogaremos... e o capturaremos. — disse Joel com firmeza.

Apenas concordei. Eu acabara de matar um homem, o que mais poderia fazer senão seguir adiante? Esses pensamentos rugiam em minha mente quando percebi que a cova já estava em tamanho adequado. Saí de dentro dela, aguardei que meu coração se acalmasse e então segurei as pernas do morto, enquanto Joel tomou-lhe os braços. Juntos, o erguemos e o lançamos na escuridão aberta da terra.

Após isso, comecei a cobrir o buraco, mas um movimento em minha visão periférica me deteve. Virei o rosto, certo de que era apenas uma ilusão urdida pelo cérebro fatigado. Contudo, segundos depois, um vulto atravessou o campo de minha visão, mas não era delírio, pois Joel também o percebera.

Nossos olhares se cruzaram, cúmplices no espanto, e então passamos a perscrutar todos os lados. A poucos metros, imóvel, uma criança nos fitava. Os olhos escancarados denunciavam o pavor. O corpo miúdo tremia, como se o próprio ar a castigasse.

— Ela viu tudo? — sussurrou Joel ao meu ouvido.

— Se ela falar, estamos condenados — respondi, ainda com o corpo paralisado.

A criança tremia tanto que parecia incapaz de se mover.

— Tudo bem? — perguntei com a voz mais doce que consegui, tentando soar amigável, enquanto dava os passos mais lentos da minha vida.

Quando me aproximei, percebi que era um garoto. Ele não respondeu, mas seus olhos marejados entregavam seu terror.

— Está tudo bem… — murmurei, chegando cada vez mais perto.

O menino disparou em direção às casas, e eu o segui com a pá ainda colada às minhas mãos, esquecida como se fosse extensão do meu corpo. Seus gritos ecoavam pela mata, rasgando o ar como lâminas, obrigando-me a correr mais rápido do que minhas pernas suportavam. Estendi os braços para agarrá-lo, mas ele escapou, leve e veloz como um sopro. Então, quando sua garganta explodiu no grito mais alto que já ouvi, algo em mim se rompeu. Desferi um golpe com a pá em seu rosto. O impacto foi tão violento que o garoto desabou imediatamente, como se a alma tivesse abandonado seu corpo.

Aproximei-me devagar, e o virei para mim. O rosto, coberto de sangue, não era mais um rosto de criança, mas uma máscara grotesca que me expulsou dois passos para trás. Tremendo, encostei os dedos em seu pescoço, e estava em vazio absoluto, nenhum sinal de vida, apenas o calor que ainda se instalava. O desespero me agarrou pela garganta, mas lutei para raciocinar, para dar algum sentido ao caos. Envolvi o corpo pequeno nos braços quando, de súbito, um facho de luz atravessou a escuridão e rasgou a mata como um punhal.

Vozes romperam a noite, homens e mulheres surgindo entre as árvores como espectros armados de fúria. O corpo do garoto escorregou de meus braços, pesado como um pecado, e corri em direção a Joel. Ele me encontrou no meio da escuridão, e juntos lançamos na fuga, sombras tentando engolir-se dentro de outras sombras.

Os perseguidores gritavam, porém não sabiam ao certo o que tinham visto; apenas vultos, espectros. Ainda assim, senti seus olhos cravados em minhas costas. Corríamos cegos, até que a própria noite nos acolheu e nos dissolveu. Ficamos escondidos, colados ao chão úmido, enquanto eles vasculhavam a mata. Só quando o tempo se arrastou até o amanhecer é que recuaram, deixando-nos no ventre da floresta.

Retornamos por uma longa volta, os pés arrastando-se até surgirmos próximos à casa do velho Arauto, que era perto da mata fechada. Foi então que notei uma fumaça subindo ao céu, erguendo-se como uma prece negra. Lembrei-me que sempre queimavam os corpos tomados pelo Oligarco. Mas aquele fogo devia ser outro, e sua razão eu preferi sepultar no silêncio. Eu já carregava brasas suficientes dentro de mim.

Por fim emergimos da mata, invisíveis aos olhos dos homens, e seguimos em direção à minha casa. À frente, algumas crianças brincavam. Já aprendera a regra daquele lugar: não falar e não olhar. Mas, como se adivinhassem meu segredo, vieram ao meu encontro.

Pararam diante de mim, imóveis, pequenos corpos erguidos como estátuas. Seus olhos cravaram-se nos meus, e senti neles um tribunal.

O silêncio prolongou-se como um rito, até que uma voz fina, cristalina e implacável, rasgou o ar:

— Por que matou meu amigo?

Perplexo, senti minha língua presa ao céu da boca. O corpo, rígido, parecia não me pertencer. Como podiam saber? Quem lhes soprara meu crime? O mundo inteiro parecia ter parado para ouvir a acusação silenciosa daquelas crianças.

— O que... O que estão dizendo? Quem contou isso a vocês? — arrisquei, a voz vacilando sob uma máscara de firmeza.

Elas não responderam. Apenas ficaram ali, imóveis, seus olhos miúdos cravados em mim como punhais. Foi então que Joel avançou um passo, a sua sombra cortando o silêncio. Sua voz veio baixa, quase um sussurro conspiratório:

— Foi o Oligarco.

— O quê?! — exclamaram todas juntas, os olhos arregalados como portas escancaradas para o espanto.

Joel respirou fundo, inflando o peito, e então deixou as palavras caírem uma a uma, quase saboreando a invenção:

— Vocês não sabem? O Oligarco é bicho híbrido... meio lobo pelado, meio homem. Alto, esquelético, costela saltando pra fora. Os braço dele... parece perna de aranha, comprido, torto. E ele não come nada não... só carne humana, carne quente.

Os olhos das crianças, já arregalados, se dilataram ainda mais em surpresa e pavor. Antes que qualquer palavra brotasse de suas bocas, um som estranho, grave, indecifrável, como se viesse do próprio ventre da vila, ecoou pelos arredores. Bastou isso e elas se dispersaram em gritos mudos, correndo como quem foge da própria sombra.

— Não podemos ficar aqui! — falei, a voz tomada de urgência. — Se as crianças sabem, os adultos também já sabem... e agora todos vão querer meu sangue.

Avancei alguns passos em direção à minha casa, decidido a recolher o que pudesse e partir, mas Joel me prendeu pelo braço.

— Não faz isso não — murmurou, o olhar duro. — Pode tê alguém lá dentro, te esperando. É arriscado demais.

Ele tinha razão. Era impossível partir antes do anoitecer; a estrada, sempre vigiada, era como uma serpente cercada de olhos. Mesmo à noite, se soubessem do ocorrido, não haveria saída, apenas emboscadas na escuridão. Ainda assim, precisávamos tentar; se falhássemos, restaria a mata, e nela correríamos até o corpo se desfazer em cansaço, até o mundo terminar.

Escondemo-nos na mata próxima à casa do Arauto, o ponto mais ermo da vila, onde a vizinhança era quase inexistente. Ali nos enterramos entre as sombras, respirando baixo, como se o ar pudesse nos denunciar. O tempo, pesado como chumbo, caiu sobre mim, e os pensamentos vieram em enxame E se capturássemos o Oligarco e jogássemos nele toda a culpa? E se nos entregássemos agora, antes que fosse tarde? E se fingíssemos normalidade, como se nada tivesse acontecido? E se as crianças estivessem apenas brincando, e ninguém soubesse de nada? Cada “E se” era uma faca, cada hipótese um caminho que se fechava em labirinto.

As horas se arrastavam, pesadas. Meu estômago roncava sem cessar e meus olhos... já não recordava o que era dormir. O cansaço drenava minhas forças, e meu corpo movia-se como se fosse apenas um cadáver animado por hábito.

— Joel? O que está fazendo? — perguntei, ao perceber que ele se debruçava sobre um caderno de brochura de capa negra, riscando-o com insistência.

— Num sei se reparou..., mas o livro do velho sumiu junto com ele, naquele dia. — respondeu sem erguer os olhos. — Tô fazendo uma cópia. Era o único exemplar que tinha por aqui. A gente não pode deixar essa história sumir.

Notei que ele já estava nas últimas páginas. Não havia reparado antes, talvez porque meu corpo e mente estavam exaustos demais para notar qualquer coisa. Foi então que, por um instante, meus olhos se voltaram para a casa do Arauto. Uma mulher emergia de lá.

Aquilo me desconcertou. O velho desaparecera... e, até onde sabia, não possuía família. Quem, então, era ela?

Apontei a cena a Joel, e ele, conhecedor da vila mais do que eu, mergulhou comigo numa discussão acalorada. Entre hipóteses e desconfianças, a ideia tomou forma, áspera e terrível: talvez aquela mulher fosse o Oligarco.

Antes de partirmos, deveríamos investigar.

As pessoas já se recolhiam a suas casas, e o sol, em agonia, cedia espaço à lua. Nós, porém, permanecíamos à espreita, prontos para forçar entrada naquela morada. A última alternativa que nos restava.

Quando o instante pareceu propício, corremos até lá.

Janelas cerradas. Porta trancada. Restava-nos apenas a via mais arriscada, subir ao telhado e alcançar os fundos, na esperança de que alguma janela houvesse sido esquecida aberta.

Com o auxílio um do outro, vencemos a altura. Cada movimento produzia sons inevitáveis, e o telhado rangia sob nosso peso como se protestasse contra a profanação. Rastejamos agachados, atentos, medindo cada gesto para que nada se quebrasse e nenhum ruído excessivo denunciasse nossa presença.

À frente, estava o Arauto, ou, ao menos, o que restava dele. Seu corpo jazia aberto, vísceras expostas como um livro profano. Parecia estar ali há dias, abandonado ao tempo, mas o fedor só se revelou quando nos aproximamos. Então veio de súbito, brutal, como se o ar inteiro da casa apodrecesse de uma vez. Joel e eu não suportamos, dobramo-nos e vomitamos, vencidos pelo asco.

Recompostos a custo, seguimos adiante, ultrapassando aquela visão aterradora até alcançar o fundo da casa. Descemos com cautela. A janela do quarto estava escancarada, como convite ou armadilha, e por ali penetramos, deixando-a entreaberta para qualquer fuga necessária.

Vasculhamos cada espaço, cada canto, cada sombra. Nenhum sinal da mulher. Imaginei que, ao ouvir nossos passos no telhado, tivesse fugido, ou talvez jamais estivesse ali.

Todavia, vimos outra presença. Na cozinha, à mesa, estávamos nós mesmos. Joel e eu, mas não estes corpos exaustos que agora carregávamos, e sim versões anteriores, mergulhadas em pensamentos profundos. Não sabíamos como, nem por quê, mas havíamos sido lançados de volta no tempo, fragmentados, condenados a assistir aos mesmos acontecimentos por outra perspectiva, em outro corpo. Estaríamos fora do tempo?

Aproximamo-nos de nossos duplos, mas eles não podiam ver-nos, tampouco sentir nossa presença. A pergunta então me atravessou, afinal, e se estivéssemos mortos? Espíritos a rondar uma realidade que não mais nos pertencia?

A decisão, porém, impôs-se como instinto; fugir era o único caminho. Joel abandonou o caderno sobre a mesa e pela porta da frente, partimos.

Corremos em direção à saída da vila, sabedores de que ainda levaríamos horas para alcançá-la. Alternávamos entre correr, descansar e caminhar, num compasso exaustivo que parecia corroer as últimas forças. Quando meus olhos recaíram sobre o relógio, o ponteiro assinalava meia-noite.

DIA 6

Um estrondo rompeu a noite, dilacerando o silêncio. De trás de uma árvore adiante, surgiu um homem: fumava um cigarro de palha, a brasa ardendo como olho vigilante, e empunhava uma carabina que refletia a lua. Logo após, outros três homens emergiram da mata, fechando o cerco.

— Ocê chega na nossa vila, mata nosso povo... e ainda tenta fugi feito covarde — rosnou o primeiro, cuspindo no chão antes de ajeitar a arma no ombro.

Joel e eu erguemos os braços em rendição. Nossos olhares se encontraram; cochichamos em desespero sobre o que dizer. Então, reunindo o pouco de coragem que ainda me restava, declarei com voz firme, buscando a gravidade de quem fala uma verdade incontestável:

— Enganam-se os senhores. Não foi por minhas mãos nem pelas dele que se derramou o sangue desta vila. Toda desgraça aqui é obra do Oligarco.

Os quatro homens me fitaram com desconfiança. Um deles, franzindo a testa, perguntou o que era esse tal Oligarco. Foi então que compreendi que ninguém sabia do que eu falava. Ninguém acreditava, pois nenhum deles jamais ouvira esse nome. Aquele monstro que para mim já se tornara carne e sombra não passava, para eles, de um delírio sem raiz. Apenas eu e Joel sabíamos, ou pensávamos saber.

— Ocê fica olhando pros lado e resmungando sozinho — disse o homem, apontando a carabina para o meu rosto. — Num vai me dizê que arrumô amigo imaginário, né?

— Esse aí é doido — acrescentou outro, mais atrás. — Outro dia eu vi pela janela e ele tava tomando café com duas canecas, como se tivesse gente sentada na frente dele.

Ao ouvir aquilo, o terror me devorou por dentro. Eles não viam Joel. Nunca o viram. E, quando me atrevi a voltar o rosto em sua direção... não encontrei ninguém. O espaço vazio onde antes estava seu corpo tornou-se um abismo. Joel jamais existira.

O pânico me devorou inteiro. Será que enlouqueci? Será que tudo... Joel, Oligarco, até mesmo o velho escritor, não passava de invenção da minha mente cansada? Dias sem dormir teriam me feito perder a sanidade? Talvez nada fosse real. Talvez a “força da natureza” que eu acreditava ser necessária para limpar a vila não passasse de um mito criado pela minha própria loucura.

— Matô dois dos nossos... Louco ou não, vai queimá do mesmo jeito! — rosnou um dos homens, enquanto a turma fechava o cerco ao meu redor.

Meu destino estava selado. Minha loucura havia me transformado em assassino.

Fechei os olhos com violência, suplicando que tudo se dissolvesse como um sonho mau. O Pai Nosso escorreu de minha boca em atropelo, não como prece, mas como último espasmo de desespero. As palavras se embaralhavam, tropeçavam umas nas outras, e dentro do meu crânio a sensação era de queda, como quem despenca do alto da realidade para o fundo do nada.

Quando tornei a abrir os olhos, os homens já não estavam diante de mim. Apenas sons estranhos, impossíveis de identificar, preenchiam o silêncio.

Olhei ao redor e vi um corpo caído, com a perna arrancada como se tivesse sido puxada até se desprender. Outro jazia pendurado nos galhos de uma árvore, a barriga aberta, as vísceras expostas. Um terceiro estava aos meus pés, sem os olhos, como se alguém os tivesse devorado.

De repente, a voz de Joel ecoou em meu ouvido e ele tocou meu ombro.

— Viu? Eu disse que ele era real.

Virei para confirmar sua presença e não havia ninguém.

Um vulto se desprendeu das árvores, fluindo como sombra líquida. De início, vi apenas os braços compridos demais, quase tocando o chão, os dedos alongados arranhando a terra como se procurassem algo enterrado. Um rangido de articulações ressoava a cada movimento, como portas antigas se abrindo.

O corpo permanecia na sombra, mas um som escapava. Não um rugido, nem um grito, mas uma mastigação úmida, ritmada, que se confundia com o estalar de galhos. Tentei convencer-me de que era um animal, qualquer animal, mas a forma hesitava entre humano e fera, e cada vez que piscava parecia assumir outra silhueta.

Quando finalmente ergueu o rosto, não vi feições definidas. Apenas uma máscara de carne disforme, com olhos fundos demais, tão negros que refletiam minha própria imagem de volta. Senti como se encarasse a mim mesmo, deformado.

Um frio percorreu minha espinha. A criatura não parecia querer me atacar, apenas me observava, mastigando lentamente, como se já soubesse algo que eu ainda não sabia.

 

Ilustração: PS/Gemini.

 

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