OLIGARCO - Conto de Terror - L. Alexandre Santos
OLIGARCO
L.
Alexandre Santos
DIA
1
Avançava em passos
lentos, sujos de barro e memória, até alcançar a casa que me acolheria; um
refúgio erguido contra as cidades, essas feridas abertas pela pobreza e pela
fumaça que enegrece o ar. Aqui, tudo parecia um rumor distante, quase um mito.
As casas de madeira alinhavam-se ao caminho como testemunhas mudas, e seus
telhados humildes arrancavam de mim um sorriso involuntário, como se a própria
alegria tivesse sido convertida em hino daquela solidão festiva.
Sem filhos que
herdassem meu nome, sem a mulher que a leucemia me roubou em silêncio, sem a
mãe que a idade consumiu até a última centelha de voz. De meu pai, não restou
sequer lembrança; apenas a ausência, um buraco cavado antes mesmo do meu
nascimento. Amigos, tampouco os tive; a vida me negou cumplicidades, como se eu
houvesse nascido para o deserto.
A solidão, essa
companheira áspera, exigia de mim um propósito, uma metamorfose. Eu precisava
de uma mudança tão radical quanto a própria morte, e foi nesse lugar, distante
de tudo, onde o silêncio se estende, que vi a possibilidade de me reencontrar,
de talvez descobrir, enfim, quem sou e qual destino me cabe sob o céu dos
esquecidos.
Enquanto tais memórias
me rasgavam por dentro, meus pés já me haviam conduzido até a soleira da minha
casa: a fechadura, tímido sol de metal, cintilava sob a guarda das tábuas
robustas, firmes e sólidas. Meus dedos pousaram na maçaneta e a giraram com esforço:
pesada, obstinada, parecia resguardar segredos. Ainda assim, cedeu ao toque, e
a porta abriu-se.
No interior, velas
cravadas em suportes da cor do barro espalhavam sua claridade trêmula,
quebrando a noite em fragmentos e oferecendo uma falsa doçura ao olhar do
intruso. A ausência de eletricidade, tão absoluta naquela vila, enchia-me de
uma satisfação estranha. Ali estava tudo o que um homem solitário podia querer
para si, sem modéstia, sem carência, entre aquelas tábuas e aquela porta que
agora me acolhia como um ventre tardio.
Afundei-me na poltrona
de veludo, e sua maciez aboliu minha carne e meus ossos, como se já não me
restasse corpo algum, apenas a lembrança dele. Ao meu lado, um livro escorregou
como fruto maduro e tombou em minhas mãos; suas páginas, ao se deixarem folhear,
escoavam entre meus dedos como areia, enquanto a leitura dissolvia a própria
noção de estar ali. O relógio insistia em seu tique-taque mecânico, e ainda
assim, em minha mente, só se multiplicavam o silêncio e a vastidão da
imaginação.
O volume, em sua secura
antiga, narrava uma lenda local: uma criatura híbrida, meio lobo sem pelos,
meio homem, de estatura desmedida e ossatura à mostra, as costelas
salientando-se mesmo à distância como grades de uma prisão orgânica. Seus
membros grotescos alongavam-se como patas de aranha, longos demais, errados
demais, como se o corpo tivesse sido arquitetado unicamente para a deformidade.
E dizia a lenda que corria mais veloz que o guepardo em seu ápice, possuía a
força faminta de um tigre, e que seu alimento não era senão carne humana,
arrancada ainda quente de suas vítimas.
Fechei o livro e deixei
que meus olhos repousassem no relógio: a noite já havia descido sobre mim como
uma sentença inevitável. Meu corpo, quase sem vontade própria, arrastou-se até
a janela, e pela fresta percebi a solidão infiltrando-se em minhas retinas como
um veneno lento. A imagem da criatura ainda ardia em minha mente, gravada como
ferro em brasa. Minhas mãos tremiam, e meu pensamento, febril, multiplicava-se
em exageros e delírios. Nunca dera crédito a lendas; mas ali, naquele
território desconhecido para mim e talvez para o próprio mundo, tudo parecia
conspirar contra minha descrença. Cercado por pensamentos que se desdobravam em
todos os cantos, rendi-me ao cansaço viscoso, persistente, arrastando-me como
um predador paciente, até que, finalmente, me derrubei no sono, entregue ao
esquecimento que mais parecia uma queda.
DIA 2
Pela manhã, abri todas
as janelas, e os raios solares invadiram cada canto como uma multidão sem
freio. Do lado de fora, vi crianças brincando, como se cada gesto fosse o
último sopro de suas pequenas vidas. Mas então algo me deteve, pois ficaram
imóveis de repente, paradas como estátuas, pareciam dialogar com alguém que não
estava ali; um amigo imaginário coletivo, talvez, uma presença invisível
compartilhada entre elas. Nenhuma risada. Nenhum sorriso. Apenas um silêncio
espesso, tão denso que parecia se infiltrar pela casa e me roubar o fôlego.
Talvez fosse apenas o peso da noite anterior ainda colado à minha pele, talvez
apenas a lenda insistindo em me rondar.
— Crianças... estão
bem? — perguntei, quase num grito, incapaz de conter a inquietação que me
queimava o peito.
Elas me fitaram por
alguns segundos, longos, quase intermináveis, e então dispararam em corrida
súbita, como se competissem por uma vitória invisível. O que já era estranho
tornou-se ainda mais perturbador. “O que faço aqui?”, pensei, cercado por
dúvidas que se multiplicavam. Seria aquela vila apenas um sonho desmascarado,
ou seria eu o estrangeiro que precisava dobrar-se a costumes indecifráveis?
Enquanto me perdia
nesse abismo de perguntas, um vulto se insinuou pela janela: um homem de barba
cerrada, que só percebi quando já estava perto demais. O facão em sua mão
brilhou como um aviso, e minha alma recuou antes mesmo que meus pés o fizessem.
— Num faça isso,
forasteiro... num vá assustá as criança. — A voz dele era grave, arrastada, e o
cheiro pútrido que o cercava revolveu meu estômago.
— Apenas lhes perguntei
se estavam bem — respondi rápido, tentando disfarçar o incômodo. — Pareciam
conversar com alguém... embora nada houvesse ali.
O homem lançou um olhar
demorado ao redor, depois cravou os olhos nos meus. Aproximou-se ainda mais e,
num sussurro rouco, disse:
— Se cuida,
forasteiro...
Não eram apenas as
crianças que se comportavam de modo estranho. Aquelas palavras soavam como
ameaça ou como aviso?
Minhas pernas já não me
obedeciam como deviam, e minhas mãos, assim como os pés, pareciam seguir um
compasso estranho, como se um maestro invisível conduzisse meu corpo contra a
minha vontade.
Ainda com o olhar para
fora da janela, vi passar algumas pessoas pela estrada. Choravam alto, em
lamentos que dilaceravam o ar. Quatro mulheres e um homem; este último
carregava nos braços uma criança inerte, que parecia mais leve do que deveria
ser. De onde eu estava, as lágrimas me eram visíveis; cristais líquidos que
deslizavam pela pele em linhas de desespero. Consegui ver uma mancha vermelha
que tingia o rosto da pequena, e de seu corpo caíam gotas de sangue, marcando o
chão em intervalos regulares, como uma contagem silenciosa da dor.
Uma das mulheres, entre
soluços que rasgavam a garganta, deixou escapar:
— Aquela criatura
voltou...
A mesma do livro? A
pergunta incendiou meu peito, e o coração martelou como se quisesse romper as
costelas para fugir antes de mim. Quis falar, interrogar, mas a boca permaneceu
selada. Naquele instante compreendi que o silêncio era o mais sábio que
qualquer palavra.
Foi então que outro
homem surgiu, avançando em minha direção. Talvez o pai de mais uma criança
estranha, pensei. Respirei fundo, e contei até dez.
— O senhor é o novo
vizinho, né? — disse ele, voz grave e sem rodeios, como quem não sabe gastar
palavra. Ainda assim, sua presença dissipou parte da tensão que me corroía.
— Sim. Cheguei ontem e
devo dizer... visualmente, este lugar é deslumbrante — respondi, arriscando um
passo à frente. — Mas... o que aconteceu? — perguntei, indicando a cena que
ainda se dissolvia ao longe.
Ele coçou a barba
cerrada e desviou o olhar, como se carregasse o peso de um segredo que não lhe
cabia revelar.
— Aqui sempre tem coisa
errada. Criança, bicho, gente... não importa. Alguma coisa leva.
As palavras soaram
secas, como pedra lançada ao fundo de um poço. Só então estendeu a mão, numa
demora que me pareceu calculada:
— Joel. Moro ali
adiante.
Apertei-lhe a mão, e
nela senti a aspereza de quem trabalha a terra. Ele apenas deu de ombros,
virou-se e partiu sem acrescentar mais nada, deixando em mim a sensação
incômoda de que a conversa não havia terminado, apenas se retirado para outro
tempo.
À tarde, decidi
caminhar pelos arredores, como quem busca decifrar um território estrangeiro.
As ruas de terra se estendiam diante de mim como veias ressecadas, levando a
lugar nenhum. De ambos os lados, as casas de madeira eram mais antigas que os
próprios corpos que as habitavam. Quase não havia movimento; apenas sombras que
surgiam e sumiam atrás das cortinas, como se a vila inteira respirasse em
segredo, ocultando de mim o coração que pulsava em seu silêncio.
Diante de um portão,
uma mulher idosa balançava o corpo para frente e para trás, num compasso lento,
como um pêndulo enferrujado. Não me dirigiu palavra alguma. Nos braços,
carregava uma boneca imunda, sem olhos, que embalava com ternura inquietante,
como se fosse um bebê. Quando passei, não se moveu; acompanhou-me apenas com o
olhar fixo, e por um instante tive a impressão de que murmurava algo inaudível,
um lamento sem voz, pois seus lábios permaneciam cerrados.
Mais adiante, um grupo
de homens se reunia em torno de uma carroça quebrada. Nenhum tentava repará-la;
estavam imóveis, hipnotizados pela roda partida. Ao perceberem minha presença,
um deles ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, mas o
rosto permanecia seco, a pele marcada apenas pela aridez de quem já exauriu
todas as lágrimas e agora carrega apenas o vazio.
Continuei andando,
forçando os passos contra a resistência do próprio corpo, até alcançar um
pequeno curral onde algumas crianças brincavam. Mas não havia riso, apenas
corridas em círculos, como se obedecessem a uma ordem invisível, uma
coreografia herdada do silêncio. De súbito, uma delas tombou de joelhos e
começou a rasgar a terra com as próprias mãos, em fúria desesperada. As outras
a cercaram em quietude solene e, de uma vez, voltaram o rosto para mim. O peso
daqueles olhares infantis, implacáveis e mudos, atravessou-me como lâmina.
Apressado, segui adiante, fugindo da infância que ali parecia conspirar contra
mim.
A cada esquina, a vila
desvelava uma nova fissura em sua estranheza, como se eu estivesse aprisionado
dentro de um sonho que já conhecia de antemão os contornos do meu medo. Foi
nesse estado que reencontrei Joel, o qual estava sentado no batente da própria
porta, afiando sem pressa uma faca curta. Quando passei, ergueu o olhar e
deixou escapar um comentário.
— Estranho aqui, né? —
disse, cuspindo no chão antes de passar o pano na lâmina.
— De fato... o silêncio
é quase insuportável.
Ele deu um riso curto,
sem humor, como quem ri de uma verdade.
— Silêncio não... é
espera. — Suas palavras caíram pesadas, deixando no ar uma pausa que me
atravessou como prenúncio. — Todo mundo aqui parece esperar alguma coisa.
Quis perguntar o que
queria dizer, mas ele já se erguia, guardando a faca e se virando.
— Vai se acostumar —
murmurou, antes de entrar em casa.
Fiquei parado diante da
porta fechada, sentindo que a vila inteira me olhava através daquela madeira.
Perguntei a mim mesmo que espécie de espera era aquela... e se, por acaso, não
fosse eu o motivo dela.
Ao cair da noite,
decidi recolher-me cedo. No caminho de volta, reparei em uma janela entreaberta
com uma vela acesa tremulava lá dentro, mas o que me perturbou foi a sombra
projetada na parede. Parecia uma figura recurvada, de braços desproporcionais,
que se agitava como se quisesse escapar do quarto. Pisquei, e a imagem se
desfez, era apenas uma cortina balançando. Ainda assim, voltei apressado para
minha casa, com a sensação de que a própria vila me observava pelos buracos das
fechaduras.
DIA 3
Com os olhos despertos,
levantei-me, joguei água no rosto e mastiguei algumas bolachas que havia
trazido comigo. Foi então que um bater leve na porta me arrancou da solitude.
Ao abri-la, encontrei Joel.
— Não gosto de falar na
rua. — Ergueu o queixo em direção ao interior da casa. — Posso entrar?
Fiz um gesto breve,
quase automático, e ele entrou sem hesitar. Movia-se pela sala como quem já
conhecesse cada canto. Sentou-se de imediato em minha poltrona, como se o lugar
lhe pertencesse. Engoli a estranheza, recordando-me de que a solidão não perdoa
quem recusa companhia. Além disso, era prudente, pois naquela vila,
hostilidades poderiam nascer de um simples olhar torto.
Decidi assumir o papel
de anfitrião. Fui à cozinha, e preparei café. O silêncio entre nós se estendeu
como corda tensa, prestes a estalar. Joel aguardava imóvel, paciente, e por um
instante pensei que tivesse adormecido no conforto da quietude. Enganei-me.
Quando retornei e
depositei as canecas fumegantes sobre a mesinha, sentei-me diante dele. Seus
olhos, ao se fixarem nos meus, ardiam num brilho inquieto, como se guardassem
algo que não devia ser dito. Abriu um sorriso largo, de canto a canto, antes de
saborear um gole do café. Tornou a pousar a caneca sobre a mesa, inclinou-se
para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos, como quem se prepara para uma
confidência.
— Aquilo que viu lá
fora... aquilo de que me perguntou ontem pela manhã... — sua voz desceu a um
tom mais baixo, quase um sussurro. — É obra do Oligarco. Pelo menos... é o que
dizem.
O nome tombou em meus
ouvidos como pedra lançada ao fundo de um poço. Oligarco. Jamais o havia
escutado, e, no entanto, soava familiar, como se estivesse gravado em mim desde
sempre. Joel percebeu minha perplexidade, a testa franzida, a sobrancelha
arqueada, o pedido mudo por respostas.
Ele desviou o olhar
para a lateral da sala e, como se obedecesse a um roteiro já escrito, estendeu
a mão e apanhou o mesmo livro que eu lera no dia em que cheguei. Havia em seu
gesto uma naturalidade inquietante, como se tudo estivesse previsto, como se o
livro o tivesse aguardado. Entregou-me o volume.
— Nesse livro, o nome
do monstro não aparece.
— Ele... ele é real? —
perguntei, a voz quase trêmula, sem ousar afastar os olhos da capa gasta que
agora parecia pesar como pedra em minhas mãos.
— Todos aqui acreditam
que sim. — A voz dele não soou como simples resposta, mas como sentença já
repetida mil vezes. — Dizem que foi ele quem levou aquela criança... que foi o
Oligarco quem a matou.
Engoli em seco. A ideia
soava absurda, mas minha voz escapou antes que pudesse contê-la:
— Se realmente existe,
o povo tem que se unir e caçá-lo.
Joel balançou a cabeça
devagar, como quem já ouvira essa proposta:
— Já tentaram, muitas
vez... Mas o Oligarco é ligeiro. Bicho covarde, só aparece quando sabe que não
vai perder... ou que não vai se machucar.
Com calma, tomou o
livro das minhas mãos e o folheou até encontrar o que buscava. Na página 72,
virou o volume em minha direção e apontou para uma nota de rodapé quase
invisível, escondida.
— O autor desse livro
não botou o nome dele onde todo mundo pudesse ver. Escondeu aqui, de propósito,
como se fosse coisa pra poucos. Minha vista já não alcança letra miúda, nem com
as melhores lentes... Mas você, você consegue.
Do bolso esquerdo
retirou uma pequena lupa e a depositou entre meus dedos. Inclinei-me sobre as
letras diminutas e, com esforço, consegui decifrar: “Arauto, número 22.”
— Perfeito! — exclamou
Joel, os olhos acesos como brasas. — Quer ir até ele?
Hesitei. As palavras
dele cortavam fundo:
— As pessoas daqui
parecem viver mergulhadas em um torpor... ninguém sabe ler, ninguém sabe nada.
Nós dois podemos descobrir mais sobre esse ser e confirmar se é real.
Um arrepio percorreu
minha espinha. Não há muito o que fazer aqui, afinal, talvez esse fosse o
proposito que aguardava. Mas dentro de mim algo se agitava em protesto. O que
estava fazendo? Eu mal havia chegado, e já me colocava no papel de detetive,
como se buscasse forçar a própria sorte. Aceitara sem pensar, e só depois
percebi a gravidade do que me comprometera.
Eu o questionei como
iriamos achar uma pessoa só com seu nome e um número, mas ele, por algum
motivo, tinha certeza de que era alguém daquela vila, só precisávamos achar o
número da casa. Era simples. Tão simples que me assustava.
Joel colocou o livro
sob o braço. Levantamos, e numa respiração funda, nossos olhares se cruzaram;
movemos a cabeça ao mesmo tempo, como quem sela um pacto silencioso: estamos
prontos. Tranquei as janelas antes de sairmos.
O lado de fora estava
deserto. Nenhum som, nenhum rastro. A pergunta latejou em minha mente: estariam
caçando o monstro? Girei os olhos para todos os lados até que percebi a
fumaça, erguendo-se em véus sombrios, e uma multidão aglomerada formando um
círculo denso.
— Já vi coisas que você
ainda não viu. Quer se aproximar? — disse Joel, em tom misterioso.
As palavras me
confundiram, mas a curiosidade foi mais forte. Um sorriso torto escapou de mim,
e começamos a avançar em passos longos e silenciosos, como predadores tentando
não ser notados.
Quanto mais próximos,
mais a fumaça se enroscava em nossa pele e garganta. Contivemos a tosse, até
que o fogo surgiu diante de nós: uma estrutura de madeira em chamas. Sobre ela,
reconheci, ainda que por instantes, o garoto atacado pelo suposto monstro. Logo
as labaredas engoliram tudo.
A multidão, de olhos
fixos no fogo, parecia paralisada, como se estivessem hipnotizadas. Antes que
notassem nossa presença, Joel tocou meu braço com firmeza e, com o olhar,
indicou o caminho oposto. Recuando em silêncio, nos afastamos até a escuridão
nos engolir.
— O que exatamente
presenciei ali? — perguntei.
— Toda vez que o
monstro leva alguém, eles fazem isso.
— Um ritual?!
— Parece. — Joel deu de
ombros, sem surpresa na voz. — Agora, vamos até a casa vinte e dois.
Seguimos pela vila. As
casas não obedeciam a ordem alguma, os números espalhavam-se como peças de um
jogo insano. O “22” podia estar em qualquer esquina. Caminhamos por horas. Meus
pés ardiam, o suor escorria em rios pelo rosto, e a temperatura parecia
aumentar a cada passo. Olhei para Joel e estava sereno, intacto, sem suor, como
se sua caminhada estivesse apenas começando. Enquanto eu quase desfalecia, ele
sorria.
— Achei. Ali — apontou,
firme, para uma casa estreita, de madeira carcomida e fungada.
— Parece abandonada...
— murmurei, enquanto nos aproximávamos da porta.
Toque. Toque.
Esperamos
um pouco. Batemos outra vez. Chamamos pelo nome. Silêncio.
Joel,
impaciente, colocou a mão na maçaneta e tentou girá-la, mas estava trancada.
Por um instante, pensei que Arauto estivesse entre a multidão, reunido no
ritual de fogo. Afinal, a vila inteira parecia estar lá. Mas Joel, por alguma
razão insondável, não compartilhava da minha dúvida; seu rosto mantinha uma
confiança inabalável, como se tivesse certeza de que o homem estava dentro
daquela casa.
—
Já vou! — gritou uma voz rouca, abafada, do outro lado da porta.
Em seguida, soou o
tilintar de muitas chaves. O ferro arranhava o miolo da fechadura como se nem o
próprio dono soubesse qual delas pertencia à porta. O ruído prolongou-se em
tentativas incontáveis, até que, por fim, um estalo seco anunciou a rendição do
trinco.
A
porta abriu-se com lentidão cerimonial, revelando diante de nós um homem baixo,
de rosto enrugado como casca de árvore antiga. Uma bengala trêmula
sustentava-lhe o corpo frágil, mas os olhos, firmes como lâminas, nos
atravessaram com desconfiança.
—
O que querem? — perguntou, em voz grave e arrastada.
Joel
não respondeu de imediato. Retirou o livro debaixo do braço e o ergueu,
exibindo a capa diante dele.
Um
esgar quase divertido atravessou o rosto do velho.
—
Ora, ora... então ainda existe quem saiba ler por estas bandas? — Um sorriso
curto, quase cruel, riscou-lhe os lábios. — Entrem.
Sentamo-nos
em cadeiras cuja madeira rangia como se implorasse descanso. O velho deixou os
olhos passearem por nossos corpos de cima a baixo, coçou o queixo áspero e
então murmurou:
—
Vieram saber se o Oligarco é real? Pois escutem bem: neste livro, não há
palavra inventada. Cada linha é verdade e cada página é testemunho.
—
O senhor chegou a vê-lo? — perguntei, engolindo em seco, mas mantendo o timbre
da voz firme.
—
Vi — respondeu o velho, e sua voz parecia talhar o ar. — E não apenas vi...
presenciei quando dilacerava pessoas. Quando devorava suas carnes ainda
quentes.
Um
silêncio denso se instalou entre nós, quase palpável, como se impregnasse as
paredes.
Joel
disse:
—
Viemos com o propósito de capturá-lo, de destruí-lo. Buscamos em sua
experiência o entendimento do que devemos fazer.
O
velho estreitou os olhos, e um esboço de riso zombeteiro deformou-lhe o rosto:
—
Não sejam tolos. A coisa mais sensata é partir. Esta vila é uma prisão, e o
Oligarco... o Oligarco é apenas um dos monstros que a guardam.
Joel
se adiantou:
—
O que quer dizer com isso?
O
velho inclinou-se um pouco para frente, a voz carregada de desdém:
—
Olhem bem para as pessoas desta vila. Talvez ainda não tenham vivido tempo
suficiente aqui para notar..., mas aqui se mata por um olhar atravessado, por
uma palavra fora de hora. Tudo neste lugar é monstruoso. O Oligarco é
necessário. Ele é a faxina que o destino envia. É um mal necessário, uma força
da natureza. — Fez uma pausa, e sua voz desceu a um sussurro. — Só não se
esqueçam: não confiem em ninguém. Ele pode estar entre nós... disfarçado em
forma humana.
Senti
o corpo congelar. Não esperava ouvir palavras tão brutais. Eu intuía que havia
algo de errado nos habitantes desta vila, mas não supunha que a deformidade
chegasse a tal profundidade.
De
súbito, fomos interrompidos por um zumbido que tomou conta da casa. O som não
apenas feria os ouvidos: atravessava o ar como lâmina. Logo depois, outros
ruídos emergiram, indecifráveis, como se o próprio vento carregasse segredos. O
medo, esse sim era claro; arrepiava a pele como o toque de garras invisíveis.
—
Ele está por perto... — murmurou o velho, enquanto percorria a casa apressado,
trancando portas e janelas com gestos mecânicos. — Aproximem-se.
Obedecemos.
Pela fenda de uma rachadura na porta, espiamos o exterior e tudo estava
mergulhado numa escuridão absoluta, tão densa que parecia respirar. O tempo,
nesse estado, dissolveu-se sem que eu notasse. Quando recuperei a noção, o dia
já avançava em direção à meia-noite.
Joel
e eu permanecíamos vigilantes. O suor descia da minha testa em gotas que caíam
no chão como se marcassem o tempo. Minhas pernas tremiam, e o sangue parecia
concentrar-se apenas no impulso de fugir a qualquer instante. Os sons
persistiam, obstinados, mas diante de nós só havia a escuridão que tudo
engolia.
O
velho retirou o relógio do pulso com lentidão ritual, depositou-o sobre a mesa
e, em voz grave, anunciou:
—
Meia-noite.
DIA
4
O
som se intensificava a cada instante. Ficamos imóveis, paralisados, com a
respiração suspensa, sem ousar emitir sequer um sussurro. Então, um estrondo
veio do telhado, como se o monstro tivesse saltado ali para observar tudo do
alto, com clareza predatória.
Desviamos
os olhos da porta e, ao procurar o velho, ficamos atônitos ao perceber que ele
não estava mais lá. Fugiu? Escondeu-se? pensei, buscando as pupilas de
Joel como se nelas houvesse respostas. Respirávamos o mais baixo possível, e
cada passo que dávamos era uma oração silenciosa contra a morte. Caminhamos até
o cômodo ao lado, à procura dele.
A
porta estava trancada. Desistimos de forçá-la, qualquer ruído poderia ser
fatal. Ficamos ali, apenas ouvindo os sons que nos rodeavam. Então, tão
repentino quanto havia surgido, o barulho cessou, como se nunca tivesse
existido.
Esperamos
mais alguns segundos em imobilidade sufocante. Por fim, decidimos arrombar a
porta. Era visível sua fragilidade; em duas ombradas, ela cedeu. O quarto, no
entanto, estava vazio. A janela permanecia entreaberta, deixando entrar o frio
da noite. O velho havia sido levado. Uma vítima do monstro.
Espantados,
fechamos a janela e retornamos à cozinha. Sentamo-nos novamente nas cadeiras
bambas, sem palavras, aguardando apenas que um pouco de claridade surgisse no
céu para corrermos às nossas casas com a mínima sensação de segurança.
Meus
olhos recusavam-se a ceder ao repouso, embora o sono me rondasse como fera
paciente. A mente prosseguia em tormenta incessante, negando-me qualquer
trégua. Quando decidi vir a esta vila, julgava buscar paz; ansiava por um
refúgio distante, um lugar onde pudesse sepultar o passado. No entanto, sob a
mesma chama, ardia também a ânsia de um propósito, de uma razão para
prosseguir.
Desejava
partir, mas a ideia de fugir outra vez me era igualmente insuportável. Dentro
de mim, as próprias estruturas da mente colidiam como placas tectônicas em
convulsão, e tal embate tornava o descanso impossível. Uma dor de cabeça
começou a rondar-me, pesada, insistente, como martelo invisível sobre as
têmporas.
Voltei
os olhos para Joel. Sem que pronunciasse palavra, sua expressão refletia os
mesmos abismos que me consumiam por dentro.
—
Devemos correr? — indaguei a Joel, quando um fio de luz insinuou-se pela
rachadura da porta. Olhei o relógio do Arauto, que agora prendia firmemente ao
meu pulso, e compreendi que era a hora.
Abri
a porta com a lentidão, esquadrinhando os arredores. Joel saiu primeiro;
segui-lhe os passos, fechando atrás de nós a madeira. Nossos olhares cansados
foram a única despedida possível, e então corremos, cada um em direção à
própria casa.
Enquanto
avançava pelas ruas, percebi que tudo permanecia intacto. As casas, as árvores,
as estradas... como se nada tivesse acontecido. “Talvez o monstro tenha se
saciado com o velho”, pensei, tentando me enganar. Pessoas já trabalhavam na
vila; alguns tiravam leite das vacas, outros cortavam lenha. Tudo parecia
normal, como se não tivessem ouvido nada, como se na noite anterior não
tivessem queimado uma criança. Pessoas sem sentimentos... era o que não
saía da minha cabeça.
Ao
chegar em casa, deixei-me cair na poltrona, ofegante. Minha respiração arfava e
o coração martelava tão rápido que temi não suportar. Naquele instante percebi
o preço de uma vida sedentária, de nunca ter preparado o corpo para correr da
própria morte.
Quando,
enfim, a pulsação cedeu, levantei-me. Fui ao quarto, percorri os olhos pelo
espaço. Depois à cozinha, inspecionando cada detalhe, como se buscasse algum
sinal de que ainda estava seguro. Voltei ao quarto, peguei algumas roupas e as
mantive nas mãos, pronto para enfiá-las em uma mala e desaparecer daquele
lugar.
Mas
hesitei. Decidi esperar. Precisava conversar com Joel antes.
Retornei
à poltrona e fechei os olhos, tentando repousar. O sono, porém, não veio. Em
vez disso, a imagem daquela criatura continuava a me possuir — como se
estivesse dentro de mim, em transe, rondando cada pensamento, cada batida do
coração.
Gritos
de crianças brincando começaram a corroer o ambiente. Por algum motivo, aquilo
me deixava ainda mais pensativo, como tudo naquele lugar. Caminhei até a
cozinha e abri a janela, torcendo para que não visse ninguém conversando com o
vazio novamente.
Duas
meninas e três meninos, inteiramente nus, corriam pela rua. Ao perceberem minha
presença, detiveram-se por um instante e, em seguida, dispararam em fuga, como
se houvessem avistado um espectro. Da última vez, haviam afirmado que eu os
assustava; só me faltava que repetissem o refrão e alguém viesse cobrar-me por
isso. Fechei a janela com presteza.
Precisava
ocupar a mente, afastá-la da vertigem. Decidi escrever. Tomei um caderno e uma
caneta que repousavam entre minhas roupas, sentei-me à mesa e comecei a
registrar os acontecimentos da vila. Após duas páginas, soou na porta um
insistente toc, toc. Fechei o caderno, guardei a caneta no bolso, e
caminhei até a pia. Lancei água ao rosto, numa tentativa vã de disfarçar as
olheiras, e abri a porta.
—
O forasteiro... mexeno cum criança de novo, hein? — rosnou o mesmo homem do
outro dia, com um facão pendurado ao cinto.
Eu
já estava exausto demais para discutir. Empurrei a porta com todas as forças,
tentando fechá-la, mas ele resistiu. Coloquei o peso do corpo contra a madeira
e, por um instante, acreditei que poderia contê-lo. Engano meu, sua força
descomunal fez a porta se escancarar de súbito, arremessando-me ao chão.
Ele
entrou, trancou a porta e me fitou como se eu fosse um animal de corte, já
marcado para o abate.
—
Sabe o que nóis faz com pedófilo aqui? — perguntou, os olhos faiscando ódio
cru.
Levantei-me
de súbito, tentando falar, explicar-me, mas minhas palavras não encontravam
nele nenhum ouvido; ou fingia não ouvir, ou o ódio já lhe havia vedado a razão.
Avançou contra mim, e corri pela casa, derrubando móveis e objetos no desespero
de retardar-lhe a marcha. Tudo inútil. Ele avançava como um gigante.
Quando
puxou o facão do cinto e veio em minha direção com passos de chumbo, percebi
que não havia mais fuga possível. Encurralado pelos próprios móveis, senti a
mão áspera prender-me o pescoço. A lâmina ergueu-se no ar, refletindo a luz
trêmula da cozinha como prenúncio de sentença.
Foi
então que me lembrei da caneta no bolso. Instintivamente, arranquei-a e
cravei-a em seu ouvido. O grito que se seguiu não parecia humano, era um urro
dilacerante, carregado de fúria e dor. Ele me largou no mesmo instante,
cambaleando, ajoelhando-se, e urrando como fera ferida.
Corri
para me afastar, mas a verdade se impôs com clareza inexorável, não poderia
deixá-lo vivo. Ele encontraria um meio de me matar. Era ele ou eu.
Tomei
uma faca da cozinha, firmei a respiração e enterrei-a em seu pescoço. Retirei,
cravei novamente. Uma, duas, três, quatro vezes. O sangue jorrou quente,
respingando no chão, em minhas mãos, no próprio ar, como se quisesse impregnar
todo o ambiente de sua presença derradeira.
Ele
tombou de lado, respirando em gargarejos cada vez mais rarefeitos, até que o
som se extinguiu por completo.
O
silêncio que então se instalou era mais pesado do que qualquer grito, como se a
própria casa tivesse testemunhado o crime e se calado em luto.
Meu coração disparava.
Todo o meu ser clamava por uma única ação, ocultar o corpo. Mas, antes que
pudesse mover-me, a porta de minha casa se abriu. Num sobressalto descomunal,
ergui a faca, pronto para atacar quem ousasse transpor aquele limiar.
— Calma... sou eu —
disse Joel, erguendo as mãos. — Eu ouvi uns barulho... fiquei preocupado...
Espera... o que foi isso? — perguntou, os olhos arregalando-se ao deparar-se
com as manchas de sangue que salpicavam o chão.
Contei-lhe tudo, sem
omitir detalhe. Ele me ouviu em silêncio, e, para minha surpresa, não me julgou
nem me acusou. Apenas assentiu, como se já pressentisse tal desfecho, e
declarou que me auxiliaria. Pela primeira vez, desde minha chegada àquela vila,
senti-me olhado com verdadeira fraternidade.
— A turma daqui merece
é isso mesmo... tudo bicho ruim, tudo lixo — rosnou Joel, cuspindo sobre o
corpo morto. — Vamo esperar escurecer. A gente enterra ele no meio da mata, bem
longe daqui.
Concordei, tomado por
alívio. Levamos o cadáver para o quarto e, juntos, limpamos cada vestígio de
sangue da casa. O trabalho foi longo, silencioso, mas a minha mente ainda
borbulhava sobre o que fiz e o que farei.
Joel parecia
compreender meu desespero melhor do que eu próprio. Agradeci-lhe inúmeras
vezes. Entre panos encharcados e baldes tingidos de vermelho, conversamos e,
pouco a pouco, o peso em meu peito começou a se dissolver.
DIA 5
— Meia-noite em ponto.
Bora! — disse Joel, enquanto amarrava a pá nas costas como se fosse uma
mochila.
Retiramos o corpo do
quarto, arrastando-o até a porta. Eu a abri, observei ao redor, dei alguns
passos à frente, atentei-me a cada detalhe e, ao perceber que não havia
ninguém, voltei e juntos carregamos o corpo. Caminhamos em passos silenciosos
pela mata, cruzando árvores imensas e outras pequenas, até chegarmos a um
trecho mais denso. Andamos o quanto nossos corpos permitiram, até que o cansaço
se tornou insuportável. Soltamos o corpo e respiramos fundo, tentando controlar
o ar que já escapava em ritmo acelerado. Olhei ao redor e nada além da mata
cerrada. As casas estavam tão distantes que não era possível ver sequer um
traço delas. A lua cheia iluminava o breu, tornando o ambiente ainda mais
amedrontador.
Joel passou o dorso da
mão pela testa para secar o suor. Ergueu o rosto, como se quisesse observar a
lua, mas seus olhos fechados mostravam que não era essa sua intenção. Ficou
assim até recuperar o fôlego.
Então, desamarrou a pá
e começou a cavar sem nada dizer.
— Precisamos
desaparecer daqui — falei, ainda ofegante.
— Se a gente some
agora, vão desconfiar logo do sumiço dele. Melhor esperar uns dia... deixar a
poeira baixar — disse Joel, jogando torrões de terra e grama para o alto. De
súbito, parou e me fitou com firmeza. — Nesse meio tempo, podemos caçar o
Oligarco.
Por que ele deseja
tanto isso? pensei, enquanto o suor me escorria pela nuca. O
risco era imenso. Já havíamos testemunhado do que aquela criatura era capaz.
— Eu tô te ajudando com
isso... — insistiu Joel, a voz carregada de expectativa. — Quero que me ajude
também. Vamos ser parceiros e capturar ele, ou matar ele. Pensa só... nóis
ficaríamos ricos, famosos... o povo ia chamar a gente de os caçadores de
lenda.
Não havia pensado por
esse lado, mas reconheci que poderia, de fato, ser o início de um grande
sucesso. A questão que permanecia era de como capturar um monstro? Perguntei
isso enquanto tomava a pá de suas mãos para auxiliá-lo na escavação.
— Primeiro precisamos
descobrir onde ele se esconde, qual é sua toca. Se pode assumir outras formas,
nada impede que seja um dos moradores da vila. Temos de observar, noite após
noite, quem sai de casa. Quando soubermos quem é, interrogaremos... e o capturaremos.
— disse Joel com firmeza.
Apenas concordei. Eu
acabara de matar um homem, o que mais poderia fazer senão seguir adiante? Esses
pensamentos rugiam em minha mente quando percebi que a cova já estava em
tamanho adequado. Saí de dentro dela, aguardei que meu coração se acalmasse e
então segurei as pernas do morto, enquanto Joel tomou-lhe os braços. Juntos, o
erguemos e o lançamos na escuridão aberta da terra.
Após isso, comecei a
cobrir o buraco, mas um movimento em minha visão periférica me deteve. Virei o
rosto, certo de que era apenas uma ilusão urdida pelo cérebro fatigado.
Contudo, segundos depois, um vulto atravessou o campo de minha visão, mas não
era delírio, pois Joel também o percebera.
Nossos olhares se
cruzaram, cúmplices no espanto, e então passamos a perscrutar todos os lados. A
poucos metros, imóvel, uma criança nos fitava. Os olhos escancarados
denunciavam o pavor. O corpo miúdo tremia, como se o próprio ar a castigasse.
— Ela viu tudo? —
sussurrou Joel ao meu ouvido.
— Se ela falar, estamos
condenados — respondi, ainda com o corpo paralisado.
A criança tremia tanto
que parecia incapaz de se mover.
— Tudo bem? — perguntei
com a voz mais doce que consegui, tentando soar amigável, enquanto dava os
passos mais lentos da minha vida.
Quando me aproximei,
percebi que era um garoto. Ele não respondeu, mas seus olhos marejados
entregavam seu terror.
— Está tudo bem… —
murmurei, chegando cada vez mais perto.
O menino disparou em
direção às casas, e eu o segui com a pá ainda colada às minhas mãos, esquecida
como se fosse extensão do meu corpo. Seus gritos ecoavam pela mata, rasgando o
ar como lâminas, obrigando-me a correr mais rápido do que minhas pernas suportavam.
Estendi os braços para agarrá-lo, mas ele escapou, leve e veloz como um sopro.
Então, quando sua garganta explodiu no grito mais alto que já ouvi, algo em mim
se rompeu. Desferi um golpe com a pá em seu rosto. O impacto foi tão violento
que o garoto desabou imediatamente, como se a alma tivesse abandonado seu
corpo.
Aproximei-me devagar, e
o virei para mim. O rosto, coberto de sangue, não era mais um rosto de criança,
mas uma máscara grotesca que me expulsou dois passos para trás. Tremendo,
encostei os dedos em seu pescoço, e estava em vazio absoluto, nenhum sinal de
vida, apenas o calor que ainda se instalava. O desespero me agarrou pela
garganta, mas lutei para raciocinar, para dar algum sentido ao caos. Envolvi o
corpo pequeno nos braços quando, de súbito, um facho de luz atravessou a
escuridão e rasgou a mata como um punhal.
Vozes romperam a noite,
homens e mulheres surgindo entre as árvores como espectros armados de fúria. O
corpo do garoto escorregou de meus braços, pesado como um pecado, e corri em
direção a Joel. Ele me encontrou no meio da escuridão, e juntos lançamos na
fuga, sombras tentando engolir-se dentro de outras sombras.
Os perseguidores
gritavam, porém não sabiam ao certo o que tinham visto; apenas vultos,
espectros. Ainda assim, senti seus olhos cravados em minhas costas. Corríamos
cegos, até que a própria noite nos acolheu e nos dissolveu. Ficamos escondidos,
colados ao chão úmido, enquanto eles vasculhavam a mata. Só quando o tempo se
arrastou até o amanhecer é que recuaram, deixando-nos no ventre da floresta.
Retornamos por uma
longa volta, os pés arrastando-se até surgirmos próximos à casa do velho
Arauto, que era perto da mata fechada. Foi então que notei uma fumaça subindo
ao céu, erguendo-se como uma prece negra. Lembrei-me que sempre queimavam os
corpos tomados pelo Oligarco. Mas aquele fogo devia ser outro, e sua razão eu
preferi sepultar no silêncio. Eu já carregava brasas suficientes dentro de mim.
Por
fim emergimos da mata, invisíveis aos olhos dos homens, e seguimos em direção à
minha casa. À frente, algumas crianças brincavam. Já aprendera a regra daquele
lugar: não falar e não olhar. Mas, como se adivinhassem meu segredo, vieram ao
meu encontro.
Pararam
diante de mim, imóveis, pequenos corpos erguidos como estátuas. Seus olhos
cravaram-se nos meus, e senti neles um tribunal.
O
silêncio prolongou-se como um rito, até que uma voz fina, cristalina e
implacável, rasgou o ar:
—
Por que matou meu amigo?
Perplexo,
senti minha língua presa ao céu da boca. O corpo, rígido, parecia não me
pertencer. Como podiam saber? Quem lhes soprara meu crime? O mundo inteiro
parecia ter parado para ouvir a acusação silenciosa daquelas crianças.
—
O que... O que estão dizendo? Quem contou isso a vocês? — arrisquei, a voz
vacilando sob uma máscara de firmeza.
Elas
não responderam. Apenas ficaram ali, imóveis, seus olhos miúdos cravados em mim
como punhais. Foi então que Joel avançou um passo, a sua sombra cortando o
silêncio. Sua voz veio baixa, quase um sussurro conspiratório:
—
Foi o Oligarco.
—
O quê?! — exclamaram todas juntas, os olhos arregalados como portas
escancaradas para o espanto.
Joel
respirou fundo, inflando o peito, e então deixou as palavras caírem uma a uma,
quase saboreando a invenção:
—
Vocês não sabem? O Oligarco é bicho híbrido... meio lobo pelado, meio homem.
Alto, esquelético, costela saltando pra fora. Os braço dele... parece perna de
aranha, comprido, torto. E ele não come nada não... só carne humana, carne
quente.
Os
olhos das crianças, já arregalados, se dilataram ainda mais em surpresa e
pavor. Antes que qualquer palavra brotasse de suas bocas, um som estranho,
grave, indecifrável, como se viesse do próprio ventre da vila, ecoou pelos
arredores. Bastou isso e elas se dispersaram em gritos mudos, correndo como
quem foge da própria sombra.
—
Não podemos ficar aqui! — falei, a voz tomada de urgência. — Se as crianças
sabem, os adultos também já sabem... e agora todos vão querer meu sangue.
Avancei
alguns passos em direção à minha casa, decidido a recolher o que pudesse e
partir, mas Joel me prendeu pelo braço.
—
Não faz isso não — murmurou, o olhar duro. — Pode tê alguém lá dentro, te
esperando. É arriscado demais.
Ele
tinha razão. Era impossível partir antes do anoitecer; a estrada, sempre
vigiada, era como uma serpente cercada de olhos. Mesmo à noite, se soubessem do
ocorrido, não haveria saída, apenas emboscadas na escuridão. Ainda assim,
precisávamos tentar; se falhássemos, restaria a mata, e nela correríamos até o
corpo se desfazer em cansaço, até o mundo terminar.
Escondemo-nos
na mata próxima à casa do Arauto, o ponto mais ermo da vila, onde a vizinhança
era quase inexistente. Ali nos enterramos entre as sombras, respirando baixo,
como se o ar pudesse nos denunciar. O tempo, pesado como chumbo, caiu sobre
mim, e os pensamentos vieram em enxame E se capturássemos o Oligarco e
jogássemos nele toda a culpa? E se nos entregássemos agora, antes que fosse
tarde? E se fingíssemos normalidade, como se nada tivesse acontecido? E se as
crianças estivessem apenas brincando, e ninguém soubesse de nada? Cada “E
se” era uma faca, cada hipótese um caminho que se fechava em labirinto.
As
horas se arrastavam, pesadas. Meu estômago roncava sem cessar e meus olhos...
já não recordava o que era dormir. O cansaço drenava minhas forças, e meu corpo
movia-se como se fosse apenas um cadáver animado por hábito.
—
Joel? O que está fazendo? — perguntei, ao perceber que ele se debruçava sobre
um caderno de brochura de capa negra, riscando-o com insistência.
—
Num sei se reparou..., mas o livro do velho sumiu junto com ele, naquele dia. —
respondeu sem erguer os olhos. — Tô fazendo uma cópia. Era o único exemplar que
tinha por aqui. A gente não pode deixar essa história sumir.
Notei
que ele já estava nas últimas páginas. Não havia reparado antes, talvez porque
meu corpo e mente estavam exaustos demais para notar qualquer coisa. Foi então
que, por um instante, meus olhos se voltaram para a casa do Arauto. Uma mulher
emergia de lá.
Aquilo
me desconcertou. O velho desaparecera... e, até onde sabia, não possuía
família. Quem, então, era ela?
Apontei
a cena a Joel, e ele, conhecedor da vila mais do que eu, mergulhou comigo numa
discussão acalorada. Entre hipóteses e desconfianças, a ideia tomou forma,
áspera e terrível: talvez aquela mulher fosse o Oligarco.
Antes
de partirmos, deveríamos investigar.
As pessoas já se
recolhiam a suas casas, e o sol, em agonia, cedia espaço à lua. Nós, porém,
permanecíamos à espreita, prontos para forçar entrada naquela morada. A última
alternativa que nos restava.
Quando o instante
pareceu propício, corremos até lá.
Janelas cerradas. Porta
trancada. Restava-nos apenas a via mais arriscada, subir ao telhado e alcançar
os fundos, na esperança de que alguma janela houvesse sido esquecida aberta.
Com o auxílio um do
outro, vencemos a altura. Cada movimento produzia sons inevitáveis, e o telhado
rangia sob nosso peso como se protestasse contra a profanação. Rastejamos
agachados, atentos, medindo cada gesto para que nada se quebrasse e nenhum
ruído excessivo denunciasse nossa presença.
À frente, estava o
Arauto, ou, ao menos, o que restava dele. Seu corpo jazia aberto, vísceras
expostas como um livro profano. Parecia estar ali há dias, abandonado ao tempo,
mas o fedor só se revelou quando nos aproximamos. Então veio de súbito, brutal,
como se o ar inteiro da casa apodrecesse de uma vez. Joel e eu não suportamos,
dobramo-nos e vomitamos, vencidos pelo asco.
Recompostos a custo,
seguimos adiante, ultrapassando aquela visão aterradora até alcançar o fundo da
casa. Descemos com cautela. A janela do quarto estava escancarada, como convite
ou armadilha, e por ali penetramos, deixando-a entreaberta para qualquer fuga
necessária.
Vasculhamos cada
espaço, cada canto, cada sombra. Nenhum sinal da mulher. Imaginei que, ao ouvir
nossos passos no telhado, tivesse fugido, ou talvez jamais estivesse ali.
Todavia, vimos outra
presença. Na cozinha, à mesa, estávamos nós mesmos. Joel e eu, mas não estes
corpos exaustos que agora carregávamos, e sim versões anteriores, mergulhadas
em pensamentos profundos. Não sabíamos como, nem por quê, mas havíamos sido lançados
de volta no tempo, fragmentados, condenados a assistir aos mesmos
acontecimentos por outra perspectiva, em outro corpo. Estaríamos fora do tempo?
Aproximamo-nos de
nossos duplos, mas eles não podiam ver-nos, tampouco sentir nossa presença. A
pergunta então me atravessou, afinal, e se estivéssemos mortos? Espíritos a
rondar uma realidade que não mais nos pertencia?
A decisão, porém,
impôs-se como instinto; fugir era o único caminho. Joel abandonou o caderno
sobre a mesa e pela porta da frente, partimos.
Corremos em direção à
saída da vila, sabedores de que ainda levaríamos horas para alcançá-la.
Alternávamos entre correr, descansar e caminhar, num compasso exaustivo que
parecia corroer as últimas forças. Quando meus olhos recaíram sobre o relógio,
o ponteiro assinalava meia-noite.
DIA 6
Um estrondo rompeu a
noite, dilacerando o silêncio. De trás de uma árvore adiante, surgiu um homem:
fumava um cigarro de palha, a brasa ardendo como olho vigilante, e empunhava
uma carabina que refletia a lua. Logo após, outros três homens emergiram da
mata, fechando o cerco.
— Ocê chega na nossa
vila, mata nosso povo... e ainda tenta fugi feito covarde — rosnou o primeiro,
cuspindo no chão antes de ajeitar a arma no ombro.
Joel e eu erguemos os
braços em rendição. Nossos olhares se encontraram; cochichamos em desespero
sobre o que dizer. Então, reunindo o pouco de coragem que ainda me restava,
declarei com voz firme, buscando a gravidade de quem fala uma verdade
incontestável:
— Enganam-se os
senhores. Não foi por minhas mãos nem pelas dele que se derramou o sangue desta
vila. Toda desgraça aqui é obra do Oligarco.
Os quatro homens me
fitaram com desconfiança. Um deles, franzindo a testa, perguntou o que era esse
tal Oligarco. Foi então que compreendi que ninguém sabia do que eu falava.
Ninguém acreditava, pois nenhum deles jamais ouvira esse nome. Aquele monstro que
para mim já se tornara carne e sombra não passava, para eles, de um delírio sem
raiz. Apenas eu e Joel sabíamos, ou pensávamos saber.
— Ocê fica olhando pros
lado e resmungando sozinho — disse o homem, apontando a carabina para o meu
rosto. — Num vai me dizê que arrumô amigo imaginário, né?
— Esse aí é doido —
acrescentou outro, mais atrás. — Outro dia eu vi pela janela e ele tava tomando
café com duas canecas, como se tivesse gente sentada na frente dele.
Ao ouvir aquilo, o
terror me devorou por dentro. Eles não viam Joel. Nunca o viram. E, quando me
atrevi a voltar o rosto em sua direção... não encontrei ninguém. O espaço vazio
onde antes estava seu corpo tornou-se um abismo. Joel jamais existira.
O pânico me devorou
inteiro. Será que enlouqueci? Será que tudo... Joel, Oligarco, até mesmo o
velho escritor, não passava de invenção da minha mente cansada? Dias sem dormir
teriam me feito perder a sanidade? Talvez nada fosse real. Talvez a “força da natureza”
que eu acreditava ser necessária para limpar a vila não passasse de um mito
criado pela minha própria loucura.
— Matô dois dos
nossos... Louco ou não, vai queimá do mesmo jeito! — rosnou um dos homens,
enquanto a turma fechava o cerco ao meu redor.
Meu destino estava
selado. Minha loucura havia me transformado em assassino.
Fechei os olhos com
violência, suplicando que tudo se dissolvesse como um sonho mau. O Pai Nosso
escorreu de minha boca em atropelo, não como prece, mas como último espasmo de
desespero. As palavras se embaralhavam, tropeçavam umas nas outras, e dentro do
meu crânio a sensação era de queda, como quem despenca do alto da realidade
para o fundo do nada.
Quando tornei a abrir
os olhos, os homens já não estavam diante de mim. Apenas sons estranhos,
impossíveis de identificar, preenchiam o silêncio.
Olhei ao redor e vi um
corpo caído, com a perna arrancada como se tivesse sido puxada até se
desprender. Outro jazia pendurado nos galhos de uma árvore, a barriga aberta,
as vísceras expostas. Um terceiro estava aos meus pés, sem os olhos, como se
alguém os tivesse devorado.
De repente, a voz de
Joel ecoou em meu ouvido e ele tocou meu ombro.
— Viu? Eu disse que ele
era real.
Virei para confirmar
sua presença e não havia ninguém.
Um vulto se desprendeu
das árvores, fluindo como sombra líquida. De início, vi apenas os braços
compridos demais, quase tocando o chão, os dedos alongados arranhando a terra
como se procurassem algo enterrado. Um rangido de articulações ressoava a cada
movimento, como portas antigas se abrindo.
O corpo permanecia na
sombra, mas um som escapava. Não um rugido, nem um grito, mas uma mastigação
úmida, ritmada, que se confundia com o estalar de galhos. Tentei convencer-me
de que era um animal, qualquer animal, mas a forma hesitava entre humano e fera,
e cada vez que piscava parecia assumir outra silhueta.
Quando finalmente
ergueu o rosto, não vi feições definidas. Apenas uma máscara de carne disforme,
com olhos fundos demais, tão negros que refletiam minha própria imagem de
volta. Senti como se encarasse a mim mesmo, deformado.
Um frio percorreu minha
espinha. A criatura não parecia querer me atacar, apenas me observava,
mastigando lentamente, como se já soubesse algo que eu ainda não sabia.
Ilustração: PS/Gemini.

Comentários
Postar um comentário