O GAROTO ATORMENTADO POR DEMÔNIOS - Narrativa Clássica de Terror - Antonio de Torquemada



O GAROTO ARTORMENTADO POR DEMÔNIOS
Antonio de Torquemada
(c. 1507 – 1569)

Vemos muitas vezes que os demônios existem para atormentar e extenuar os homens, não somente causando-lhe grande danos, senão também trazendo-lhes a morte, e de duas coisas, que eu sei muito bem notórias, uma vos quero dar por exemplo.

Na vila onde eu nasci e me criei, havia um homem honrado e letrado, o qual tinha dois filhos, um dos quais poderia ter doze ou treze anos.  O garoto fez uma travessura que irritou a sua mãe de uma tal maneira que esta começou a oferecê-lo e encomendá-lo muitas vezes ao demônio, desejando que levasse o filho consigo.

Isto aconteceu à dez da noite, que se fazia muito escura. E como a mãe não se cansava de proferir aquelas maldições, o garoto, com medo, correu ao curral da casa e ali desapareceu. E sumiu de um modo que, ainda que o procurassem com todo cuidado, não o puderam achar. E disto ficaram os pais muito admirados, porque as portas estavam cerradas e não havia por onde o garoto poderia ter saído.  

E havendo, assim, passado das duas horas, estando já os pais fatigados, ouviram um estrondo em uma câmara situada acima deles, e escutaram também o menino, que, com muita dor, parecia estar gemendo. Lá subindo, e abrindo a porta, que estava fechada a chave, acharam-no tão maltratado que era a maior lástima do mundo. Além de levar toda a roupa rasgada e reduzida a muitos pedaços, tinha o rosto, as mãos e quase todo o corpo contundido, coberto por arranhões, como se produzidos por espinhos. E ficara o menino tão desfigurado e deformado que, durante toda a noite, os pais não descansaram em fazer o possível para curá-lo, dando-lhe todos os benefícios que poderiam acorrer em seu proveito.

No dia seguinte, quando o menino parecia haver recobrado o juízo, perguntaram-lhe o que lhe acontecera durante a noite.  Ele disse que, estando no curral, havia visto, sobre si, uns homens enormes, horrendos e assustadores. Estes, sem nada dizer, agarraram-no e o levaram pelos ares com grande velocidade, e não há no mundo o que possa voar tão rapidamente. Descendo a uns bosques muito cheios de espinhos, arrastaram-no, por meio deles, de uma parte e para outra. Puseram-no, assim, numa situação que, por fim, haveria de matá-lo. Mas ele teve o tino de encomendar-se, com grande fé, à Nossa Senhora, para que o valesse. Naquele instante, aquelas visões, que lhe haviam arrastado pelos ares, meteram-no pela janela pequena da câmara e ali o deixaram, retornando para onde haviam vindo.

Conheci este garoto muito tempo depois, e da aflição que passou ficou surdo e abobalhado, de maneira que nunca voltou a ser o que era dantes, e pesava-lhe que perguntassem ou trouxessem à memória aquilo por que havia passado.


Versão em português: Paulo Soriano.
Narrativa constante do Jardín de Flores Curiosas, 1575.


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ESPECTROS PERVERSOS - Narrativa Clássica de Terror - Augustin Calmet


ESPECTROS PERVERSOS
Augustin Calmet
(1672 – 1757)

Conta Carl Ferdinand von Schertz, em sua obra intitulada Magia Posthuma, que, numa certa aldeia, uma mulher veio a falecer após receber os santos sacramentos, havendo sido sepultada da forma habitual.

Quatro dias após o seu falecimento, os moradores do vilarejo  ouviram um grande ruído e uma extraordinária algazarra, e viram um fantasma que se manifestava tanto sob a forma de cão quanto sob a de homem, e não aparecia a apenas uma pessoa, senão a várias,  causando a estas grande aflição, apertando-lhes a garganta e comprimindo-lhes o estômago, de modo a sufocá-las. Machucava-lhes quase todo o corpo e as reduzias à extrema fraqueza para que ficassem lívidas, magras e extenuadas.  O espectro também atacava animais, e algumas vacas foram encontradas debilitadas e semimortas, às vezes amarradas entre si pelo rabo. Com seus mugidos, os animais expressavam a dor que sentiam. Viam-se cavalos vergados pelo cansaço, suando sobretudo pelo dorso, acalorados e sem fôlego, exalando espuma, como costumam fazer após uma longa e extenuante viagem.  Essas calamidades duraram vários meses.

Von Schertz narra a aparição de um pastor da aldeia de Blow, próxima à cidade boêmia de Kadam, que apareceu durante um certo tempo. O espectro chamava certas pessoas, que morriam inexoravelmente em oito dias.

Os camponeses de Blow exumaram o corpo do pastor e o fixaram no chão com uma estaca, que lhe perpassava o corpo.  No estado em que se encontrava, o homem zombava dos que lhe impingiam tal sofrimento, dizendo-lhes que eram muito gentis em lhe darem um bastão com que se  defender dos cães.

Na mesma noite, voltou a levantar-se e passou a assustar várias pessoas, e estrangulou mais gente que antes.  Depois, entregaram-no ao carrasco, que o pôs em uma carroça para conduzi-lo para fora da aldeia e atear-lhe fogo.

O cadáver uivava loucamente, agitando as mãos e os pés como se estivesse vivo. E quando o atravessaram novamente com uma estaca, saltou muito altos gritos, com o seu corpo vertendo um grande volume de sangue rubro.

Finalmente, consumiram-no no fogo e a execução deu cabo às manifestações e assombrações do espectro.


Versão em português e adaptação textual: Paulo Soriano.
Narrativa constante do Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenants de Hongrie, de Moravie, etc. (Tratado sobre as aparições dos espíritos e sobre os vampiros ou redivivos da Hungria, da Morávia etc.), de 1751.


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LANÇAMENTO DA EDITORA MONDRONGO: NARRATIVAS FANTÁSTICAS DO MALLEUS MALEFICARUM


Autorizados pelo papa Inocêncio VIII, os inquisidores dominicanos Heinrich Kramer (c. 1430 – 1505) e Jakob Sprenger (1435 – 1495) publicaram, em 1487, o mais completo e conhecido tratado sobre bruxaria, o Malleus Maleficarum. Este livro, também conhecido como O Martelo das Feiticeiras (ou das Bruxas), se tornou o mais importante manual de caça às bruxas da Inquisição católica.  Com lastro em suas lições teológicas e orientações jurídicas, mais de cem mil pessoas foram levadas à morte cruel, pelo garrote e pela fogueira, nos quatro séculos que se seguiram à sua publicação.

Para ilustrar as suas canhestras doutrinas teológicas, os inquisidores Kramer e Sprenger recorreram a fatos exemplares, que reputavam verdadeiros, por mais absurdos e inverossímeis que, hoje, nos possam parecer. Neles, as bruxas, orientadas por demônios, detinham o mágico poder de causar os mais abjetos malefícios: arruinar colheitas, destruir reses, convolar homens em bestas, impedir a procriação humana e animal, provocar abortos e a ablação de pênis, impingir horrendas enfermidades e, mesmo, pespegar a morte.

Nesta breve antologia, organizada e traduzida por Paulo Soriano, reúnem-se dezesseis entre as breves e interessantes narrativas, impregnadas do espírito supersticioso da época, mas que hoje diríamos fantásticas, escritas pelos famosos e influentes demonólogos alemães.

Para adquirir o  livro, clique aqui ou entre em contato, por e-mail,  com a editora: contato@mondrongo.com.br 

Desde já, a Editora Mondrongo agradece a sua atenção.

                (Para ler as duas primeiras narrativas, clique aqui)



NARRATIVAS FANTÁSTICAS DO MALLEUS MALEFICARUM
Autores: HEINRICH KRAMER e JAKOB SPRENGER
Organizador e Tradutor: Paulo Soriano
Editor: Gustavo Felicíssimo
Gênero: Narrativas
Nº de páginas: 100
Ano: 2019
Formato: 15 x 22 cm
Preço: 35,00
contato@mondrongo.com.br



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A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFOROS - Conto Clássico Fantástico - Hans Christian Andersen

A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFOROS
Hans Christian Andersen (1805 – 1875)


Assim como os Irmãos Grimm e Charles Perrault, o dinamarquês Hans Christian Andersen é uma grande estrela a cintilar no universo fantástico dos contos de fadas.
“A Pequena Vendedora de Fósforos”, porém, destoa dos folclóricos e alegóricos contos da carochinha. Sem perder os contornos fantásticos, mergulha no impiedoso mundo da fome, da miséria e da solidão.
No último dia do ano, uma garotinha extremamente pobre enfrenta o frio e a neve para vender os seus fósforos. Mas ninguém quer comprar em sua mão, nem se apieda de sua miserável condição...
Um conto trágico. Uma das mais tristes e comoventes histórias jamais escritas.

Fazia um frio terrível, nevava e começava a escurecer. Era a última noite do ano, véspera do Ano Novo. Em meio ao frio e à escuridão, caminhava pela rua uma menina pobre, com a cabeça descoberta e os pés descalços. Ao sair de casa, ela bem que levava consigo um par de chinelos. Mas estes de nada lhe serviram. Eles eram grandes demais. Eram os chinelos que a sua mãe já havia usado, e eram tão grandes nos pés da garota que ela os perdeu ao cruzar a rua, correndo, para escapar das duas carruagens que vinham a toda velocidade em direções opostas. Um dos chinelos não foi mais encontrado, e o outro calçara-o um molecote, dizendo que serviria de berço no dia em que tivesse filhos.

Assim, pois, andava a pobrezinha, com os pezinhos descalços, enrubescidos e azulados pelo frio. Levava, no velho avental, um punhado de caixas de fósforos; na mão, exibia, como amostra, oura caixa. Durante o dia todo, ninguém havia comprado em sua mão. Ninguém lhe dera, sequer, um centavo. Sentia muita fome, muito frio. Era o próprio retrato da miséria. Pobre menina! Os flocos de neve pousavam em seus longos cabelos louros, que caíam em lindos cachos sobre os ombros. Mas ela não se importava com eles. Em todas as janelas, as luzes cintilavam e à rua chegava um agradabilíssimo aroma de ganso assado. Era véspera de Ano Novo e... sim, ela se lembrava disto.

Num cantinho entre duas casas — uma das quais projetava-se além da outra — a menina sentou-se, de cócoras, no chão. Escondeu os pés descalços sob o corpo, mas os sentiu mais regelados do que nunca. Ela não se atrevia a votar para a casa, pois levaria uma sura do pai se o fizesse: não vendera uma caixinha sequer e retornaria sem um mísero centavo nas mãos. Além disto, também fazia frio em casa: apenas um telhado servia-lhes de proteção. Lá, o vento, esgueirando-se entre as frestas, atirava-se sibilante no interior, apesar da palha e dos velhos trapos com que eram tapadas as maiores rachaduras da parede. Suas mãos estavam congeladas. Pobrezinha! Talvez um fósforo aceso pudesse aquecê-las. Bem que poderia acender um deles, riscando-o na caixa e mantendo-o contra a parede para esquentar os dedos. Ela tirou um palito e — cham! — como o fósforo ardia, como queimava! Elevou-se uma chama brilhante, quente, como a de uma pequena vela, sobre a qual ela estendeu a mãozinha. Era um lume maravilhoso! A menina se viu sentada diante de um grande fogão de ferro, com os botões e revestimento de latão polido. E o fogo ardia tão abençoadamente! Tão maravilhosamente a aquecia! A criança esticou os pés para aquecê-los. Então a chama definhou, o fogão desapareceu, e ela viu que tinha apenas os restos de um fósforo queimado em sua mão.

Ela acendeu outro. Quando ardeu, projetou a sua luz sobre a parede, tornando-a transparente como gaze. Então a menina pôde vislumbrar o interior de uma sala onde a mesa estava posta, coberta por uma toalha branca como a neve, sobre a qual repousava uma travessa de porcelana. Um ganso assado, recheado com maçãs e ameixas secas, fumegava em seu centro. O mais espantoso foi que o ganso saltou da travessa, com garfos e facas espetados no dorso, e rumou direto para a menina. Mas naquele instante apagou-se o fósforo, e em seu rastro ficou apenas a visão da parede espessa e fria.

Quando acendeu outro fósforo, a menina se viu sentada sob uma lindíssima árvore de Natal. Era ainda mais alta e mais bela que a que vira no dia de Natal, através das vidraças do rico comerciante. Entre os seus verdes ramos, uma miríade de velinhas ardia. E os enfeites rutilantes, iguais aos que vira na vitrine da loja, olhavam para ela. A pequenina estendeu os bracinhos para a árvore... Mas, então, o fósforo apagou-se. Todas as luzinhas se elevaram e ela percebeu que não eram senão as estrelas cintilantes no céu. Uma dela se desprendeu, trançando no céu uma longa linha de luz.

“Alguém está morrendo” — pensou a garotinha. A sua velha avó, a única pessoa que a havia amado no mundo, e que agora estava morta, lhe dissera:

— Quando cai uma estrela, uma alma se eleva a Deus.

Acendeu mais um fósforo, riscando-o contra a parede. Desta feita, em meio a uma grande luz, brilhava, clara e radiante, gentil e abençoada, a sua avozinha.

— Vovozinha — exclamou a menina —, leva-me contigo! Sei que, assim que a luz do fósforo se apagar, tu desaparecerás, da mesma forma que desapareceram a estufa, o delicioso ganso e a árvore de Natal.

A menina acendeu, num feixe, todos fósforos restantes, louca do desejo de conservar consigo a velha avó. Os fósforos, então, brilharam com uma luz mais intensa que o próprio dia. Nunca a avozinha lhe parecera tão grande e tão bonita. Ela tomou a menina nos braços e, felizes, envolvidas por um imenso esplendor, alçaram um voo às imensas alturas, rumando para onde não havia frio, fome ou medo: estavam agora com Deus!

Mas, na esquina, encostada à parede, onde se sentara, a menina, com as faces rosadas, sorria. Estava morta, morta do frio congelante, na última noite do ano velho.

A luz matinal do Ano Novo incidiu sobre o pequeno cadáver da criança que, sentada, conservava os palitos fósforos na mão, um dos quais quase completamente consumido.

— Ela queria aquecer-se — disse algum transeunte.

Mas ninguém podia imaginar as coisas maravilhosas que ela tinha visto, nem o esplendor e a felicidade com que, na companhia da avozinha, ascendera à glória do Ano Novo.


Versão em português: Paulo Soriano.
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A RESSURRECTA DE COLÔNIA - Conto Clássico de Horror - Alfred von Reumont


A RESSURRECTA DE COLÔNIA
Alfred von Reumont[1]
(1808 – 1887)

O Reno, em todo o seu curso, é pela imaginação popular povoado de entes sobrenaturais, e as suas margens havidas por cenas de sucessos maravilhosos, versões ou texto de outros análogos que em todos os tempos e em todos os povos mereceram credulidade.

Entre muitos livros que existem, contando vários acontecimentos, há um, nítido e adornado de belas gravuras em aço, intitulado Legendes des bords du Rhin, e em que se acha a compilação dessas histórias de prodígios e aventuras. Dela extraímos seguinte para exemplo.

No ano de 1400 era Colônia assolada pelo contagio voraz e rápido que ceifava inumeráveis vidas, crescendo a tão subido numero a mortandade, que não havia lugar nem tempo para as honras fúnebres, sendo os cadáveres arremessados a montões para valas amplíssimas.

Vivia então em Neumarkt uma senhora mui respeitável, casada com um fidalgo dos mais ricos daquele departamento. Caiu enferma, e em breves dias foi transferida do leito para a tumba. Seu marido a mandou sepultar no cemitério dos Santos Apóstolos. Mas, reparando os coveiros que a defunta levava em um dos dedos um anel de ouro, resolveram despojá-la daquela joia quando fosse alta noite. Quando lhes pareceu que seriam horas, protegidos pela escuridão da noite, dirigiram-se ao cemitério. Tiraram a terra da cova, abriram o caixão, e quando um deles pegou no dedo, e estava tirando o anel, o suposto cadáver suspirou profundamente, e fez esforço para sentar se, o que efetuou. Os coveiros ficarão assombrados, e deitaram a fugir sem quererem atender à voz suplicante da ressuscitada, que ficou abandonada e entregue à maior agonia, como é fácil de imaginar.

A senhora saiu da cova, pegou a lanterna que os coveiros deixaram e arrastou os pés como pôde até a casa onde habitara. Bateu; porém, quando à pergunta — “quem bate tão rijo?” —, respondeu: “a dona da casa”.

Os criados, conhecendo-lhe a voz, amedrontam-se, e esconderam-se nos seus quartos. Mas a senhora continuou a bater até que seu marido, acordando , ordenou aos criados que fossem ver quem a desoras fazia tanto barulho  na porta, ao que eles, transidos de medo,  replicaram que era a alma de sua ama que pretendia entrar, e que eles não iriam à porta pelo maior interesse que existisse no mundo.

O amo descompô-los, mas, como lhe certificassem que haviam reconhecido a voz da senhora, foi ele próprio à janela saber quem batia. Ao divisar, junto à porta, um vulto embrulhado em um lençol, arrepiou-se-lhe o corpo, parecendo-lhe também ouvir a fala de sua esposa, que solicitava entrar. Mas, cobrando ânimo, perguntou de novo:

—Quem sois vós?

— Já não conheces a fala da tua mulher? — tornou o vulto, soluçando.

— Tão impossível é seres minha mulher, como soltarem-se agora os cavalos e subirem ao palheiro.

Apenas tinha acabado de proferir estas palavras, começou a ouvir-se o estrépito que os cavalos faziam a subir os degraus da escada. Então o fidalgo correu imediatamente a abrir a porta à sua esposa, à qual prodigalizou todos os socorros que o desvelo lhe sugeriu para reanimar a mísera senhora semimorta de frio, e restabelecê-la completamente.

Por espaço de muitos anos viveu a senhora de perfeita saúde, e até deu à luz três filhos sadios e bem nutridos; porém, desde aquele sucesso, ninguém mais a viu rir; trabalhou assiduamente a bordar uma tapeçaria em que era figurada a sua ressurreição, e de que fez presente à igreja dos Santos Apóstolos.

Finalmente falecendo em idade avançada, foi depositada à entrada da igreja, junto a seu esposo, em mausoléu alto, do qual saíam sons harmoniosos que enlevavam quem lhes prestava atento ouvido. A história desta ressurreição foi pintada à entrada da porta principal do templo para perpétua memória. Mas confundida na ruína de outras muitas antigualhas da cidade de Colônia, está essa pintura meio apagada. Também o viajante procurará hoje debalde os cavalos de pau, que , para lembrança do caso, estavam colocados, segundo refere a tradição, à janela do palheiro da casa em que teve lugar o acontecimento, como é fama.

Referem-se casos pasmosos de catalepsia; talvez que a algum deles se deva a origem deste conto, exagerado, como é usual, quando o sucesso data de longes eras, tendo passado de geração em geração.


[1] Recontado por autor anônimo do séc. XIX. Tradução/adaptação de autor desconhecido.

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O LOBISOMEM - Conto Clássico Fantástico - Maria de França



O LOBISOMEM
Maria de França
(c. 1160 – 1210)

Existia em Bretanha um barão do qual sempre ouvi dizer bem. Era um formoso cavalheiro, nobre em todas as suas ações, prezado pelo rei, e respeitado por todos os seus vizinhos. Tinha ele casado com uma jovem de família ilustre, e que parecia dotada de excelentes qualidades; amavam-se reciprocamente; mas o que inquietava grandemente a dama era ausentar-se o marido três dias inteiros por semana sem que ela pudesse descobrir qual fosse o motivo de tal ausência.

Um dia, entrando o barão em casa mais alegre do que costumava, resolveu ela aproveitar-se desta boa disposição e lhe disse:

—Senhor, há uma cousa que vos desejo perguntar, mas temo que vos ofendais da minha curiosidade.

—Falai, senhora — respondeu o barão.

-- Vós me animais — tornou ela — e por essa razão devo comunicar-vos que é tal a minha aflição nos dias em que costumais estar ausente, tal o susto que tenho de perder-vos, que, senão me tranquilizais, depressa morrerei. Dizei-me, por favor, o lugar onde vos ocultais, e que objeto pode assim fazer-vos abandonar a casa.

—Valha-me Deus, senhora! — tornou o barão. —Se eu o declarar, talvez seja isso contra mim; pois é um segredo tal de que há de resultar infalivelmente a diminuição, se não for a perda total do amor que me tendes.

A baronesa, longe de considerar esta resposta como gracejo, não deixou de teimar, e com perseverança tal que o barão não teve outro remédio senão contar-lhe a sua aventura sem ocultar-lhe circunstância alguma.

— Senhora, eu me transformo em lobisomem; entro no próximo bosque, e na parte onde ele é mais espesso, ali me alimento de raízes e de rapina.

A baronesa, não satisfeita ainda com esta explicação, quis saber se tirava o vestuário e onde o guardava.

—Eu o tiro, mas não vos direi onde o guardo, porque se o perder, ficarei toda a vida lobisomem.

—Senhor — respondeu a baronesa —, amando-vos eu de todo o meu coração, de que me parece estais capacitado, não deveis desconfiar de mim, na certeza de que não só saberei guardar o segredo, mas igualmente o considerarei como prova de vossa afeição e confiança. Creio que não tenho dado passo algum que possa ofender-vos, e nessa convicção me julgo com direito a merecer de vós a fineza que vos peço.

Enfim, tanto suplicou, que o pobre barão lhe declarou o lugar onde escondia a sua roupa, durante o tempo de sua indispensável metamorfose. A baronesa, quando acabou de ouvir a confissão de seu marido, ficou sumamente assustada, e desde então tratou de separar-se dele. Na primeira ocasião em que o barão se ausentou, mandou chamar um homem de seu conhecimento e confiou-lhe o segredo, ordenando lhe que fosse imediatamente tirar a roupa escondida, e a trouxesse, o que efetuou sem contratempo.

O barão não apareceu mais, nem isso causou admiração, visto costumar ele estar ausente três dias por semana; porém, como a sua ausência se prolongasse demasiadamente, mandou a baronesa procurá-lo por toda a parte, sabendo perfeitamente a impossibilidade de o encontrar.

Passados alguns meses, casou a baronesa com o sujeito que já linha escolhido, o que fora furtar a roupa do barão, e assim foi vivendo até que, afinal, recebeu o castigo que merecia.

Um ano depois do casamento, indo o rei à caça, entrou no bosque onde estava o lobisomem. Os cães, logo que se lhes soltou a trela, o acharam e o perseguiram todo o dia, de maneira que pouco lhe faltou para ser despedaçado.

Vendo-se inteiramente perdido, correu para o lugar onde estava o rei, a implorar a sua proteção, e não lhe largou o estribo. O rei, quando viu o lobo, ficou assustadíssimo. Chamou todo o seu séquito, e lhes disse:

 — Senhores, vede esta maravilha; vede como esta fera se humilha! Parece ser dotada de inteligência humana, e pedir compaixão. Não lhe façais mal, e mandai meter a trela aos cães; e que venham longe, pois hoje não caço mais.

O rei afastou-se da comitiva, acompanhado de perto pelo lobo, que o seguiu até o palácio, onde o rei, muito contente por estar de posse do animal o mais raro que tinha visto, não cessava de o recomendar a todos os seus criados, e até permitia que ele dormisse na sua câmara.

Querendo o rei, um dia, dar um grande baile, mandou convidar todos os fidalgos da corte, e quando eles entraram, estando o lobo deitado a um canto da primeira sala, logo que apareceu o cortesão que tinha casado com a baronesa, lançou-se a ele de um salto, e mordeu-o com ferocidade. Este acontecimento causou espanto aos circunstantes; correu a notícia de casa em casa e todos foram de opinião quo o lobo tivera motivo para acometer aquele homem, atenta a sua mansidão para com todos.

Pouco tempo depois deste acontecimento, saiu o rei à caça ao bosque onde havia encontrado o lobo (que nesta ocasião também o acompanhou), e por ser tarde, passou a noite em uma quinta que havia nas imediações.

A baronesa teve disso noticia, vestiu-se ricamente, e foi fazer-lhe urna visita, levando-lhe alguns presentes. Porém, assim que o lobo a avistou, lançou-se a ela com furor, e cortou-lhe o nariz com os dentes! Que vingança mais cruel poderia ele tomar? Quiseram matá-lo; mas um cortesão sábio opôs-se, dizendo ao rei que, sendo aquele animal tão manso, e acontecendo mostrar-se feroz  para com aquele homem e aquela mulher, que eram casados, algum ressentimento tinha, e seria conseguintemente justo mandar prender aquela mulher, e tratar de exigir delia algumas informações a tal respeito.

O Rei seguiu o conselho e mandou prender a mulher e o marido em prisão separada. Logo depois, por meio de rigor, foram obrigados a confessar. Então, entregando o vestuário furtado ao barão, e sendo este posto em uma sala onde o lobo estava dormindo, e fechando-se-lhe as portas, passada meia hora entrou o rei, e em lugar do lobo achou o barão, a quem era muito afeiçoado. Ouviu a narração deste acontecimento, de que resultou ser a pérfida esposa e seu cúmplice lançados fora do país. Tivera filhos quase todos defeituosos, e as filhas principalmente nasceram sem nariz, sendo conhecidas pelo apelido de desnarigadas.

Versão em português de autor desconhecido do séc. XIX.
Fonte: “Novo Correio das Modas” (RJ), 1853.

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A CAVEIRA DE D. LEONOR - Conto Clássico de Horror - Escritor anônimo do século XIX


A CAVEIRA DE D. LEONOR
Anônimo do séc. XIX

Faz alguns anos que fui convidado por um amigo a passar uns dias fora da cidade. Aproveitei alguns dias santos e fui. No primeiro dia de guarda que tivemos, depois de tomar logo ao nascer do Sol a mais bela e aromática xícara de café que jamais foi feita por mãos de anéis, depois de ir admirar uma linda queda d'água que ficava a algumas braças distante da casa, depois de dar algumas voltas no mais frondoso e florido laranjal, depois, enfim, de muito vaguear, muito meditar, muito conversar, almoçamos um desses almoços que não conhecem os nossos gastrônomos da cidade, acostumados a pratinhos e guisadinhos, mas que conhecem os nossos abastados fazendeiros: almoço que bastara para o jantar de um regular convento de frades.

Estavam os cavalos prontos, de modo que, acabado almoço, cavalgamos, e lá fomos diretos à freguesia para ouvir missa. Na sacristia encontramos o vigário, homem de cinquenta anos, com uma destas fisionomias austeras que indicam um espírito cheio de retidão, uma prática constante da virtude; uma fisionomia tal qual em idade semelhante a devia ter um S. Jerônimo, ou outro santo de igual quilate; fisionomia que, apesar de tudo, não pode deixar de atrair a simpatia e o respeito de quem a vê. E, todavia, impossível é achar maior afabilidade. Meu amigo foi recebido como devia ser; eu, e mais companheiros, como amigos do meu amigo. Travou-se conversação geral; mas nem por isso o bom vigário deixava de falar a todas as pessoas que entravam para a igreja, e a todos como se com todos entretivesse muito particular amizade.

Uma mulher, porém, entrou toda vestida de rigoroso preto, e mostrando no rosto todos os sinais de um violento padecer — não padecer físico, mas um padecer moral. Não se poderia adivinhar se era a perda de um esposo ou de um filho, ou se era algum pungente remorso; mas era alguma coisa que estava no fundo de seu coração, alguma coisa que lhe amargurava em extremo a existência.

Ao passar pelo vigário, abaixou os olhos; o vigário fitou nela os seus por modo tão extraordinário que me espantou: era uma mistura de dor, de indignação, de repreensão, de compaixão; era um olhar que significava mil emoções diferentes.

Minutos depois, foi ele para o altar. E todos nós fomos assistir ao santo sacrifício.

E a mulher não se retirava de meu pensamento e nem o olhar do vigário. Essa mulher e esse olhar me conservavam em continuada distração.

Chegou a ocasião em que o sacerdote, depois de proferidas as palavras da consagração, eleva a divina hóstia, figurando assim a elevação da cruz em que foi pregado o Redentor dos homens. Mal o símbolo sagrado foi depositado sobre o altar, ouvi uma voz que dizia um Padre Nosso e uma Ave Maria pelas almas do purgatório. Voltei-me: era ainda a mulher, a mulher que em pé acabava de pedir essa oração. E em pé se conservou até que, proferidas as palavras sagradas sobre o cálix, foi este elevado pelo sacerdote.

Acabou-se o sacrifício. Voltamos para casa; mas a mulher e o olhar do vigário, e aquela oração... nada me saía da lembrança. Segunda e terceira vez fui à missa, e sempre a mesma coisa: sempre essa mulher, sempre esse olhar do vigário, sempre esse Padre Nosso e essa Ave Maria entre o levantar das duas espécies sob cujas aparências o Divino Mestre consentiu ficar entre nós, e que já são ele mesmo. Se tivesse bastante familiaridade com o vigário, talvez a ele me tivesse dirigido a pedir-lhe a explicação de tudo isto. Não me animei: supus mesmo que fosse baldada a minha diligência. Contentei-me, pois, em pedi-la ao meu amigo. Eis aqui o que me ele contou.

“Fernando de Miranda era um mediano fazendeiro destes lugares. Foi casado com Leonor de Macedo, de quem teve uma filha, e com quem viveu na mais perfeita harmonia por mais de doze anos, no fim dos quais ficou viúvo, maior de quarenta e cinco anos, e sua filha com dez. Fernando de Miranda sentiu por extremo a morte de sua mulher.

“Nas terras de Fernando vivia Gaspar Álvares, homem casado, pai de duas filhas de cerca de vinte anos cada uma. A mais velha era Juliana Álvares. As duas famílias viviam na maior intimidade: Leonor de Macedo não passava um só dia que não tivesse em sua companhia alguma das filhas de Álvares, mas de preferência a mais velha, cujos carinhos para com a filha de Fernando não tinham iguais.

“Por morte de Leonor viu-se Fernando só com uma filha a de dez anos. Pensou e pensou o que faria para não arredar de si esse penhor de sua passada felicidade. Pensou e pensou muito, até que, por fim, decidiu-se a pedir a mão de Juliana Álvares, que facilmente lhe foi dada. Ainda não eram passados quinze dias de seu segundo casamento, uma terrível e perniciosa enfermidade lhe roubou sua filha. Foi para Fernando uma segunda viuvez: não que não estimasse ele sua mulher; mas essa filha lhe recordava os seus primeiros amores, era a representação desse ente, que havia tanto amado, que tantos anos lhe dera de ventura. Era, enfim, a carne de sua carne, o osso de seus ossos.

“Para lhe mais agravar sua dor, Juliana começou a desenvolver um péssimo gênio: a cada momento e por tudo achava motivo para uma desavença com seu marido. Debalde procurou ele vencê-la pela brandura e paciência; debalde procurava fazer-lhe todos os mimos. Tudo era inútil: o caráter de Juliana cada vez se azedava mais.

“Fernando tinha um amigo, amigo íntimo. Sendo por ele visitado um dia em que seu coração trasbordava de pesar, deixou correr esse rio de amargura, e ao mesmo tempo recordou com saudade a ventura de que gozara em seu primeiro matrimônio. Sem que Fernando o soubesse, Juliana tudo ouvira.

“No dia seguinte, à noite, foi Fernando deitar-se, mas sentiu na alcova um mau cheiro. Juliana estava de lado, sentada em uma cadeira. Queixou-se ele. Ela lhe respondeu que era impossível, que em vez de mau cheiro antes ele devia sentir um perfume. Ao deitar-se, achou Fernando alguma coisa na cama...

 “Era a caveira de Leonor...

“Era a caveira de Leonor, que Juliana linha comprado ao coveiro.

“Era a caveira de Leonor, que Juliana, irritada pelo que ouvira a seu marido, lhe pusera na cama, para dele vingar-se.

“Fernando estreitou nos braços essa caveira: nunca mais a quis deixar de si.

“Fatal melancolia se apoderou dele. Pouco e pouco foi perecendo, até que, dentro de alguns meses, deixou de existir.

“Juliana Álvares é essa mulher que vistes. Há cinco anos que é viúva; há cinco anos que todos os dias assiste ao santo sacrifício da missa e, todos os dias, entre o levantar da hóstia e do cálix, faz o que lhe vistes fazer: acusa-se assim publicamente do seu crime, e deixa conhecer a todos o seu remorso. Foi penitência que a si mesmo se impôs, ou foi-lhe imposta no segredo da confissão? Eis o que só ela e o vigário, seu confessor, sabem. Quer seja uma, quer outra coisa, é o mais temível dos castigos. Estou certo que nenhum legislador poderia achar pena mais forte para tal delito”.

Algum tempo depois, Juliana Álvares enfermou. O vigário procurou o bispo e teve com ele larga conferência. Voltando, foi à casa de Juliana que, daí a alguns dias, recebeu os Sacramentos da Igreja e morreu em paz.

Fonte: “Novo Correio das Modas” (RJ), edição nº 1, 1853.

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O HOMEM DA PERNA MECÂNICA - Conto Clássico Fantástico - Carl Groder



O HOMEM DA PERNA MECÂNICA
Carl Groder
(Séc. XIX)
Tradução de Th. I.

Quem já esteve em Roterdã há de infalivelmente lembrar-se de uma casa de dois andares, sita no subúrbio, e contígua à baía do canal que corre entre esta cidade e as de Haia, Leida e outras. Digo que há de infalivelmente lembrar-se, porque de necessidade devem ter-lhe mostrado, em razão de haver sido habitada em outro tempo pelo mais engenhoso artista que a Holanda tem produzido, sem falar da sua filha, a mais linda rapariga de quantas tem nascido no recinto de um solar holandês.

Desgraçadamente, não é com a formosa Branca que temos agora de ocupar-nos, senão com o velho cavalheiro seu pai. Sua profissão era de fazer instrumentos cirúrgicos; mas a fama que havia adquirido nasceu principalmente de sua pasmosa habilidade em fabricar pernas de pau e de cortiça.

Sua reputação era tamanha neste ramo de ciência humana, que aqueles que a natureza tinha ludibriado ou o acaso mesmo, negando-lhes ou arruinando-lhes uma tão necessária parte do corpo, vinham manquejando ter com ele aos cardumes; e, por mais desesperado que fosse o caso, eram logo, segundo a opinião do vulgo, “postos de novo sobre suas pernas”.  Muitos coxos, que já tinham por impossível a cura da sua deformidade, e cuja única consolação consistia  em uma sorrateira censura feita de quando em quando à Providência, por ter confiado seu saber a um  jornaleiro, achavam-se depois tão maravilhosamente consertados, tão elegantemente especados por Mijnheer Tourningvort, que entram a duvidar se um sustentáculo de madeira ou de cortiça não era, em última análise, preferível ao de carne e osso, já cediço, e tão sujeito a riscos. E, em verdade, se vós, meus caros leitores, tivésseis observado quão delicadas e excelentes eram as produções trabalhadas por este habilidoso artista, ter-vos-íeis visto embaraçados em decidir a questão por vós mesmos; muito principalmente seja fostes alguma vez atormentados pela gota ou pelos calos nos vossos dedos dos pés.

Numa manhã, em ocasião que Mijneer Tourningvort se ocupava em dar a uma barriga de perna e um artelho a alisadura e polimento finais, entrou um mensageiro no seu estúdio (é preciso falar classicamente), e lhe pediu que já e já o acompanhasse à morada de Mijnheer Van Wodenblock; era a morada do mais rico negociante de Rotterdam. Também o artista só gastou tempo em pôr a sua melhor cabeleira; e saltou para a rua, levando em uma mão seu chapéu de três bicos, e na outra sua bengala de castão de prata.

      O caso era este: Mijnheer Van Wodenblock , dias antes, tinha-se dado ao louvável trabalho de expelir da sua casa a um parente pobre; e como tentasse com um ligeiro impulso apressar a incômoda descida dos degraus a este miserável (porque Mijnheer mui raras vezes usava de cerimônias com seus parentes), perdeu desgraçadamente o equilíbrio, e caindo de cabeça para baixo, rolou pelos degraus desde o topo até à base. Quando recobrou os sentidos, verificou que tinha quebrado a perna direita, e que estava com três dentes de menos. Seus primeiros pensamentos foram de processar o mísero parente por crime de homicídio; mas, sendo de um natural misericordioso, contentou-se com mandá-lo para uma prisão, por falta de certo pagamento, deixando-o saborear ali a confortadora reflexão de que sua mulher e filhos estavam em casa morrendo à míngua.

Um dentista logo supriu o inválido com três dentes, que havia arrancado da boca de um poeta indigente, a preço de dez vinténs cada um, e pelos quais leve a prudência de pedir vinte guinéus ao rico negociante.

   O médico, lembrando-se, ao examinar a perna, que estava na maior necessidade de um tal objeto, cortou-a com muito cuidado, e levou-a em seu carro, para dar lições a seus discípulos. Tão acautelado era Mijnheer Van Wodenblock que se tinha acostumado a andar passo a passo, sem nunca ter dado um salto; e vendo-se, agora, algum tanto prejudicado no belo cômodo de seu primeiro modo de ação, mandou chamar o nosso amigo à baía do canal, afim de lhe dar instruções concernentes ao suplemento, de que desejava prover-se no lugar da perna perdida. O artífice subiu à câmara do opulento burguês, e deu com ele reclinado sobre uma camilha em companhia de sua perna esquerda, que se mostrava tão respeitável como sempre; ao passo que o desventurado coto direito jazia envolvido em ataduras, como se fosse cousa de pouca importância.

—Tourningvort, já deveis estar informado da minha desgraça; ela pôs-me de cama, e a toda Roterdã em confusão. Mas não falemos nisso. Eu preciso que me façais uma perna; mas quero, senhor, a mais excelente perna que se possa fazer, e a melhor que tenhais feito em dias de vossa vida.

Tourningvort inclinou-se.

— Eu não olho para o preço...

 Tourningvort fez uma rasgada cortesia.

— ...contanto que ela deixe de ré quanto tenhais feito de semelhante espécie. Não quero por maneira alguma esses canudos de madeira que costumais fazer. Haveis de fabricar-me uma perna de cortiça, leve e elástica, e haveis de pôr-lhe tantas molas quantas tem um relógio. Eu nada entendo do negócio, e por isso não posso ser mais explicito em minhas instruções. Em um ponto, porém, estou bem determinado: é que a perna deve ser tão boa como a que perdi. Estou certo que isso não é coisa impossível de obter-se; e se eu a conseguir de vós, vossa recompensa chegará a mil guinéus.

O Prometeu batavo declarou que, para contentar a Mijnheer Van Wodenblock, ia fazer mais do que havia feito o engenho humano, e assegurou que, dentro dos seis dias, havia de apresentar-lhe uma perna que escarneceria de todas essas pernas ordinárias que trazem os homens da plebe.

Esta segurança não era certamente uma tola jactância. Os conhecimentos de Tourningvort eram não só teóricos como também práticos. E na manhã deste mesmo dia, tinha ele conseguido, segundo imaginava, pôr o selo a uma descoberta favorita, em cuja execução trabalhava havia já muito tempo. Como todos os outros fabricantes de pernas terrestres, ele tinha sempre observado que a principal dificuldade, que embaraçava o seu progresso para a perfeição, cifrava-se em ser aparentemente impossível o introduzir-lhes alguma peça no lugar das juntas, capaz de ser regulada à vontade, e de executar as importantes funções, pelo seu sistema inventadas, por meio de uma construção mecânica do joelho e do artelho. Nosso filósofo empregou muitos anos em procurar obviar este grande inconveniente; e posto que se tivesse avantajado a todos os outros, foi só agora que chegou a persuadir-se estar senhor do grande segredo. Sua primeira tentativa para levá-lo a efeito devia ser exibida na perna que tinha de fazer para Mijnheer Van Wodenblock.

Ao escurecer do sexto dia, contado daquele a que já aludi, com sua perna mágica cuidadosamente enfardada, apareceu o agudo artista pela segunda vez diante do esperançoso e impaciente Wodenblock. Notava-se nos cinzentos olhos de Tourningvort a satisfação, que parecia dar a entender, que ele valia com justiça os mil guinéus (já destinados para o dote do casamento de Branca), afora a celebridade, a gloria, a imortalidade, de que afinal se julgava seguro. Ele desatou sua preciosa trouxa, e gastou algumas horas em mostrar e explanar ao regalado burguês os acrescentamentos que havia feito no maquinismo interno e o efeito para que cada um devia servir. A primeira noite foi consumida em discussões a respeito das multiplicadas rodas e das molas que atuavam outras. Às horas de recolher estavam ambos satisfeitos da perfeição da obra. E a instâncias de seu importuno comitente, consentiu o artista em ficar ali o resto da noite, a fim de, na manhã seguinte bem cedo, compor-lhe o postiço membro, e ver quão bem tinha cumprido sua promessa. Com efeito, ao outro dia, muito cedo, estavam ultimados todos os arranjos necessários. E Mijnheer Van Wodenblock passeava as ruas em êxtase, abençoando a faculdade inventiva de um homem tão hábil que pôde levar ao cabo um trabalho tão primoroso como a sua perna. Em verdade, ela parecia ter surtido maravilhoso efeito. No modo de andar do negociante não havia esforço ou constrangimento algum:  todas as juntas executavam suas funções sem o socorro de ossos ou músculos. Ninguém, nem mesmo um conhecedor de aleijões, teria podido suspeitar que existisse coisa tão extraordinária, como uma coleção de molas e de pesos exatamente ajuntados, debaixo das largas e bem talhadas calças do corpulento holandês; e se não fora um trêmulo e fraco movimento ocasionado pelo rápido volver de cerca de vinte pequenas rodas no interior, e um constante tinido, semelhante ao do relógio, posto que alguma coisa mais forte, ainda ele não se teria advertido que não estava a todos os respeitos como era antes de levantar o pé direito para dar uma bênção de despedida a seu mísero parente.

Radiando de contente marchava ele sempre avante, até que deu consigo em frente da casa da câmara; e ali, junto ao paiol dos degraus que vão ter à porta principal, avistou seu antigo amigo Mijnheer Van Outern, que o esperava para saudá-lo. Ele apressou os passos, e ambos estenderam mutuamente as mãos em sinal de congratulação, antes que estivessem bastante perto para se estreitarem em um amigável abraço. Finalmente, o negociante tocou o lugar onde estava Van Outern; mas qual não foi o pasmo deste digno homem ao vê-lo passar aceleradamente, posto que ainda com a mão estendida para ele, sem ao menos deter-se um instante para lhe dizer: “Como passa vossa mercê?”. Todavia, não era isso uma falta do nosso herói. Sua própria admiração foi mil vezes maior, quando chegou a convencer-se de que não linha um poder qualquer para determinar quando, onde, ou como sua perna deveria mover-se! Enquanto aconteceu estarem seus desejos com a maneira por que o maquinismo parecia destinado a operar, tudo tinha ido às mil maravilhas, ignorando ele até que ponto estava sujeito a essas forças independentes, e que per si mesmas pareciam mover-se, por persuadir-se ter sobre elas um poder, que agora conhecia nunca ter possuído. Sumo desejo teve ele de parar para falar com Mijnheer Van Outern; mas sua perna continuava a andar, e era forçado a segui-la. Muitos esforços fez para moderar seus passos, mas todos foram baldados. Agarrava-se aos portais, às grades e às paredes; mas a perna puxava por ele com tal violência, que de medo de deslocar os braços era obrigado a ir sempre marchando.

Ele começou a ter serias apreensões pelas consequências do não esperado aspecto que o negócio tinha tomado; e sua única esperança era que as estranhas e espantosas forças que pareciam arruinar a complicada construção de sua perna depressa se esgotariam; disto, porém, não descobria o menor sinal. Aconteceu seguirem direção do canal de Leyde; e quando esteve à vista da casa de Mijnheer Tourningvort, chamou em altas vozes o artífice para vir em seu socorro. Este, chegando à janela, mostrou um semblante de admiração.

— Maroto, gritou-lhe Wodenblock —, desce cá neste mesmo instante! Foi por ódio que tu me fizeste esta perna? Até agora não me tem sido possível parar um momento! Desde que deixei minha casa, estou sempre a andar, e só em direitura para diante; e menos que tu não me faças parar, sabe o céu quanto tenho ainda que andar! Não estejas aí a bocejar, vem, socorre-me depressa, ou, aliás, estarei a perder-te de vista, e tu não serás capaz do apanhar-me.

O mecânico empalideceu. Certo de que não estava ele preparado para esta nova dificuldade.  Entretanto, sem perda de um momento, seguiu o negociante para fazer quanto pudesse, a fim de desembaraçá-lo de um estado tão desagradável. O negociante, ou antes a sua perna, caminhava com velocidade, e Tourningvort, que era homem já entrado em anos, não achava muito fácil esse trabalho de agarrá-lo. Não obstante, ele o conseguiu finalmente, e, tomando Wodenhlock em seus braços, o levantou ao alto. Mas o estratagema (se a isso assim se pôde chamar) o não sortiu efeito; antes, a força impulso da perna precipitou-o para diante com a sua carga, da mesma forma que dantes. Ele pôs o negociante outra vez em terra, e, abaixando-se, apertou com força uma das molas que puxava para trás. No mesmo instante o infeliz Mijnheer Van Wodenhlock partiu como uma seta, clamando com os mais lastimosos acentos:

—Estou perdido! Estou perdido! Estou possesso! Tenho um demônio no corpo na forma de uma perna de cortiça! Façam-me parar! Pelo amor de Deus, façam-me parar! Já estou esfalfado, desfalecendo! Não haverá uma alma caridosa que me faça esta perna em pedaços? Tourningvort! Tourningvort, tu me assassinaste!

 O artista, perplexo e atônito, ficou em uma situação que por certo não era de invejar-se. Conhecendo apenas o que tinha feito, deixou-se cair sobre os joelhos, torceu as mãos, e, com as pupilas contraídas e pasmadas, viu o mais rico negociante de Roterdã a correr ao longo do canal com a rapidez de um búfalo raivoso em direção a Leida, gritando por socorro tão alto como sua fraqueza lhe permitia.

A cidade de Leida está a mais do vinte milhas de Roterdã; e, todavia, ainda o Sol não se tinha posto, quando a Sra. Backsneider, que estava sentada à janela de sua sala, defronte do Leão de Ouro, a tomar chá e a cortejar os conhecidos que passavam, observou que vinha alguém pela rua adiante com furiosa pressa. Suas faces eram pálidas como a cinza, e mal podia abrir a boca para tomar fôlego; mas, ainda assim, sem desviar-se para a direita nem para a esquerda, precipitava se com o mesmo grau de rapidez, a ponto de já estar quase fora de vista antes que se tivesse tempo de exclamar:

֫— Deus de Misericórdia! Não era aquele Mijnheer Van Wodenblock, o mais rico negociante de Roterdã?

O dia seguinte era domingo. Os habitantes do Harlemo iam à igreja, com seus melhores atavios, para fazer suas orações e ouvir seu excelente órgão, quando alguma coisa a modo de um corpo animado arremessou-se através da praça do mercado: Ia branco, azul, frio e mudo, com os olhos parados, os beiços lívidos, os dentes à mostra, e as mãos carcomidas, em horroroso silencio. Foi cada um arredando-se para lhe dar passagem. E não houve uma só pessoa em Harlermo que não ficasse acreditando que aquilo era um corpo morto, dotado de movimento. Ele atravessou a aldeia e a cidade e prosseguiu seu caminho para os bosques e prados da Alemanha. Tem-se passado semanas, meses e anos; mas de tempos a tempos tem sido vista a terrível figura, e continua a sê-lo em várias partes do norte da Europa. A roupa, entretanto, que costumava trazer aquele que em outro tempo tinha sido Mijnheer Van Wodenblock, desfazia-se todo em pó; as mesmas carnes tinham-lhe caído dos ossos: e ele já não era mais que um esqueleto! Um esqueleto em tudo, menos na perna de pau, a qual, ainda em sua primitiva rotundidade e tamanho, continua presa a uma forma de um espectro, um perpetuum mobile, arrastando os fatigados ossos para todo sempre sobre a terra!

Dignem-se os santos de nossa devoção livrar-nos de pernas quebradas. E que nunca mais torne a aparecer um operário como Tourningvort para munir-nos com seus suplementos de um poder tão misterioso e tremendo.


Fonte: “Novo Correio das Modas” (RJ), edição nº 1, 1853.

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