O TRAVESSEIRO DE PENAS - Conto Clássico de Terror - Horacio Quiroga



O TRAVESSEIRO DE PENAS
Horacio Quiroga
(1878 – 1937)
Tradução de Paulo Soriano

Sua lua de mel foi um longo calafrio. Loura, angelical e tímida, o duro temperamento de seu marido regelou-lhe as sonhadas fantasias de noiva. Ela o queria muito. Todavia, às vezes, quando voltavam à noite juntos pela rua, lançava, com um ligeiro estremecimento, um olhar furtivo à alta estatura de Jordán, mudo há uma hora. Este, de sua feita, a amava profundamente, mas sem demonstrá-lo.

Durante três meses ― eles haviam-se casado em abril ― viveram uma felicidade especial.

Sem dúvida houvera ela desejado menor austeridade neste rígido céu de amor, e maior ternura, inocente e expansiva; mas o impassível semblante do marido a tolhia sempre.

A casa em que viviam influía um pouco em seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso ― frisos, colunas e estátuas de mármore ― produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Lá dentro, o brilho glacial do estuque, sem a mais leve ranhura nas altas paredes, confirmava aquela sensação de frio desagradável. Ao cruzar de um cômodo ao outro, os passos ecoavam por toda a casa, como se um grande abandono houvesse tornado mais perceptível a sua ressonância.

Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Não obstante, havia terminado por descer um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia adormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada, até que chegasse o marido.

Não seria de estranhar que emagrecesse.  Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente por dias e dias. Alicia não se restabelecia nunca. Ao fim de uma tarde, pôde sair ao jardim, apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um lado e para outro. De súbito, Jordán, com profunda ternura, passou-lhe a mão pela cabeça, e Alicia, em seguida, rompeu em soluços, lançando-lhe os braços ao pescoço. Chorou profundamente todo o seu horror reprimido, redobrando os prantos à menor tentativa de carícia. Então, os soluços foram-se abrandando, mas ela ainda ficou um bom tempo aninhada ao pescoço do marido, sem mover-se e sem dizer palavra.

Foi esta a última ocasião em que Alicia manteve-se de pé. No dia seguinte, acordou esmorecida. O médico de Jordán examinou-a com grande atenção, ordenando-lhe calma e repouso absolutos.

― Não sei ― disse-lhe, já à porta da casa, com a voz ainda baixa. ― Ela é presa de uma grande debilidade, que não sei explicar, e sem vômitos, sem nada... Se amanhã ela acordar como hoje, chame-me de imediato.

No dia seguinte, Alicia piorou. Veio o médico. Constatou-se uma anemia de agudíssima evolução, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas caminhava visivelmente ao encontro da morte. Durante todo o dia, o quarto permanecia com as luzes acesas e em total silêncio. Passavam-se horas sem se ouvir o menor ruído. Alicia dormitava. Jordán permanecia todo o tempo na sala, também com todas as luzes acesas. Marchava sem cessar de um extremo ao outro, com incansável obstinação. O tapete abafava os seus passos. Às vezes, entrava no quarto e prosseguia o seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para a mulher cada vez que caminhava em sua direção.

Logo Alicia começou a ter alucinações, confusas e flutuantes a princípio, mas que desceram, em seguida, ao rés do chão. A jovem, com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para o tapete, num e noutro lado do encosto da cama. Certa noite, ficou repentinamente com o olhar esgazeado. Num certo momento, abriu a boca para gritar, e suas narinas e seus lábios se encharcaram de suor.

― Jordán! Jordán! ― gritou, rígida de espanto, sem deixar de olhar para o tapete.

Jordán correu ao quarto e, ao ver chegar o marido, Alicia deu um grito de horror.

― Sou eu, Alicia! Sou eu!

Alicia o fitou com olhar enviesado. Olhou para o tapete e novamente para ele, e, depois de um longo tempo de estupefata confrontação, acalmou-se. Sorriu e tomou entre as suas mãos as do marido, acariciando-a, a tremer.

Havia, entre as suas alucinações mais obstinadas, a de um antropoide que, apoiado no tapete sobre os dedos, mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram, inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se extinguia, dessangrando-se dia a dia, hora a hora, sem que eles soubessem absolutamente como. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto os médicos a pulseavam, passando de um para o outro o punho inerte. Observaram-na, silenciosamente, por um longo tempo, e seguiram para a sala de jantar.

― Psit... ― encolheu os ombros, desalentado, o médico. ― É um caso sério... pouco há o que fazer.

― Era só o que me faltava! ― respondeu Jordán. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia seguiu definhando-se em seu delírio de anemia, que ao cair da tarde se agravava, mas que amainava sempre às primeiras horas da manhã. Durante o dia, a enfermidade não progredia. A cada despertar, todavia, Alicia acordava lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente de noite a vida se lhe escapava em novas asas de sangue. Ao despertar, tinha sempre a sensação de esmagar-se na cama com um milhão de quilos sobre si. A partir do terceiro dia, esta prostração não mais a abandonou. Apenas podia mover a cabeça. Não queria que tocassem na cama, nem mesmo que lhe ajeitassem o travesseiro. Seus terrores crepusculares evoluíram em forma de monstros que se arrastavam até o leito e subiam dificultosamente pela colcha.

Depois, perdeu os sentidos. Nos dois dias finais delirou sem cessar, a meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. E no silêncio agônico da casa não se ouvia mais que o delírio monótono que vinha da cama, além do rumor abafado dos eternos passos de Jordán.

Alicia morreu, finalmente. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou por um instante, desconfiada, para o travesseiro.

― Senhor! ― chamou Jordán em voz baixa. ― No travesseiro há manchas que parecem de sangue.

Jordán aproximou-se rapidamente, abaixando-se. De fato, sobre a fronha, de ambos os lados da concavidade deixada pela cabeça de Alicia, viam-se pequenas manchas escuras.

― Parecem picadas ― murmurou a empregada, depois de um momento de imóvel observação.

― Levante-o para a luz ― disse-lhe Jordán.

A empregada ergueu o travesseiro, mas logo o deixou cair, e ficou a mirá-lo, pálida, a tremer. Sem saber por quê, Jordán sentiu que os cabelos se eriçavam.

― O que foi? ― murmurou com a voz rouca.

― É muito pesado ― falou a empregada, sem deixar de tremer.
Jordán o levantou. Pesava extraordinariamente. Levaram-no, e, sobre a mesa da sala de jantar, Jordán, com um talho, cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror, com a boca escancarada, levando as mãos crispadas à cabeça. No fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, jazia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado que somente a boca se lhe sobressaía.

Noite após noite, desde que Alicia adoecera, ele tinha aplicado secretamente a sua boca ― ou, melhor dizendo, a sua tromba ― às têmporas da doente, sugando-lhe o sangue. A mordedura era quase imperceptível. A remoção diária do travesseiro sem dúvida impedira o seu desenvolvimento, mas, desde que a jovem não mais conseguiu mover-se, a sucção tornou-se vertiginosa. Em cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.

Esses parasitas das aves, pequenos em seu meio habitual, chegam a adquirir, em certas condições, proporções enormes. O sangue humano parece ser-lhes particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nos travesseiros de penas.






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ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PGL - A moderna literatura fantástica brasileira: Roberto de Sousa Causo



A MODERNA LITERATURA FANTÁSTICA BRASILEIRA: ROBERTO DE SOUZA CAUSO

Na coluna quinzenal GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO, publicada no Portal Galgo da Língua (pgl), Paulo Soriano bota luz sobre uma das vozes contemporâneas da literatura fantástica do Brasil, Roberto de Sousa Causo.


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QUANDO O AZAR É SORTE - Narrativa Verídica - Anônimo do Séc. XIX



QUANDO O AZAR É SORTE
Anônimo do sec. XIX

Conta um jornal de Madri, em edição de 1866, que um cidadão, enfastiado de viver (talvez porque se sentisse um azarado, já que nada do que fazia dava certo), deliberou suicidar-se.

Para tornar infalível a sua morte, tomou as mais minuciosas medidas. Era ele um suicida precavido.

Inabalável no seu funesto desígnio, encaminhou-se para a praia do mar munido de uma escada de mão, de uma corda, de uma pistola carregada, de um frasco cheio de veneno e de uma caixa de fósforo.

Olhando em volta de si, enxergou uma estaca que, enterrada a poucos passos, elevava a extremidade para fora da água. Nela o suicida encostou a escada e, subindo, amarrou a corda ao topo da estaca. Com a corda, fez um nó em volta do pescoço. Então, tragou o veneno e, acendendo um fósforo, deitou fogo à roupa.

Feito isto, e para ultimar todas as precauções, tornando certa a própria morte, aplicou o cano da pistola ao ouvido e deu um pontapé na escada.

Porém, neste momento supremo, tremeu-lhe a mão quando apertou o gatilho. A bala, em vez de penetrar-lhe a cabeça, cortou a corda. E o desgraçado caiu na água, apagando-se, assim, o fogo que lhe lavrava a sobrecasaca.

A dose de água salgada, que teve de engolir, obrigou-o a vomitar o veneno, que ainda não tinha produzido efeito...

Perdidas as esperanças de morrer, foi-se para casa, convencido de que ainda não era chegada a sua hora fatal.


Fonte: “Correio Mercantil” (RJ), edição de 25 de dezembro de 1866. Fizeram-se adaptações textuais.

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O SEGREDO DO PATÍBULO - Conto Clássico de Horror - Villiers de L’Isle Adam


O SEGREDO DO PATÍBULO
Villiers de L’Isle Adam
(1838 – 1889)
Tradução de Paulo Soriano


Num dos mais macabros episódios de “Um Mil e Um Fantasmas”, Dumas narra a história de um jovem médico que, após salvar, nas ruas da Paris revolucionária, a vida de uma aristocrata fugitiva, é protagonista de uma horripilante experiência científica. No conto “O Segredo do Patíbulo”, Villiers de L’Isle Adam (1838 ― 1889) retoma o mote inaugurado por Dumas e o explora aos últimos limites: um médico condenado à morte por decapitação recebe a visita de um colega cientista que o convida a participar, como cobaia, de um não menos aterrorizante experimento post-mortem

Ao Sr. Edmond de Goncourt[1]

As recentes execuções fizeram-me lembrar de uma história extraordinária. Ei-la:

Na note de 5 de junho de 1864, às sete horas da noite, o Dr. Edmond-Désiré Couty de la Pommerais, recentemente transferido da prisão de Conciergerie[2] para a de Roquette[3], estava sentado, metido numa camisa de presidiário, na cela dos condenados à morte.

Estava taciturno, tinha os olhos fixos e apoiava os cotovelos no encosto da cadeira. Sobre a mesa, uma vela iluminava a palidez de seu rosto frio. A dois passos, um carcereiro, encostado à parede, vigiava-o com os braços cruzados.

Quase todos os prisioneiros são obrigados a um trabalho diário, de cujo salário a Administração deduz, em caso de morte, o preço da mortalha, que jamais é fornecida de graça. Só os condenados à morte não têm que realizar trabalho algum.

O prisioneiro era um dos que não abrem o jogo. Nos olhos dele não se lia medo ou esperança.

Tinha trinta e quatro anos. Moreno. De altura mediana e bom talhe. Nas têmperas, os cabelos começavam a embranquecer. O olhar era nervoso, semioculto; a fronte, meditativa. A sua voz era turva e breve; as mãos, saturninas. Tinha a expressão circunspecta das pessoas silenciosas. Seus modos eram de uma distinção estudada. Tal era a sua aparência.

(Todos se recordam que, nas audiências do Sena, apesar do rigor de sua defesa, o advogado Lachoud não logrou desvanecer da mente dos jurados o efeito produzido pelas conclusões do Dr. Tardieu e pela acusação levada a efeito pelo promotor de justiça Oscar de Vallée. Acusado de haver administrado doses mortais de digitalina a uma senhora amiga sua, com premeditação e intuito de lucro, M. de la Pommerais ouviu a sentença de morte, em razão da aplicação dos artigos 301 e 302 do Código Penal.)

Nessa noite de 5 de junho, ele ainda não sabia do improvimento de sua apelação e da recusa de qualquer audiência de graça solicitada por seus familiares. Somente o seu defensor, mais venturoso, fora ouvido com displicência pelo imperador. O venerável abade Crozes, que antes de cada execução exauria-se em súplicas às Tulherias[4], voltara sem nada conseguir. Comutar a pena de morte em tais circunstâncias não implicava aboli-la? O caso era exemplar. Na opinião do Ministério Público, o improvimento era irretocável e deveria ser prontamente notificado aos executores. O Sr. Hendreich fora encarregado de receber o condenado às nove e cinco da manhã.

De repente, o estrépito das coronhas dos fuzis ressoou no pavimento do corredor. A fechadura rangeu pesadamente. A porta se abriu. As baionetas brilharam na penumbra. O diretor da Roquette, Sr. Beauquesne, assomou à porta, acompanhado de um visitante.

Erguendo a cabeça, o Sr. de la Pommerais reconheceu, a um olhar, naquele visitante, o ilustre cirurgião Armand Velpeau.

A um sinal do seu superior, o carcereiro saiu e o Sr. Beauquesne, após uma muda apresentação, também se retirou, deixando a sós os dois colegas, frente a frente, olhando-se mutuamente.

La Pommerais, em silêncio, indicou ao médico a sua própria cadeira. Depois, sentou-se no catre em que os adormecidos, em sua maioria, são logo despertados da vida num sobressalto. Como mal se viam, o grande médico se aproximou do... paciente para melhor observá-lo e poder conversar em voz baixa.

Volpeau chegava aos seus sessenta anos. No apogeu de sua fama, herdeiro da cátedra de Larrey[5] no Instituto[6], primeiro professor de clinica cirúrgica de Paris e, por suas obras, todas de um rigor de dedução claro e brilhante, era um luminar da atual ciência patológica, um emérito profissional que já se impunha como uma das sumidades do século.

Após um frio instante de silêncio, disse:

― Senhor, entre nós, médicos, as condolências são inúteis. Por outro lado, uma afecção na próstata ― que, com certeza, me matará em dois ou dois anos e meio ― me classifica, também, com uma distância de poucos meses, na categoria dos condenados à morte. Assim, sem rodeios, vamos ao que interessa.

― Então, segundo o senhor, doutor, a minha situação jurídica é... sem esperança? ― interrompeu Le Pommerais.

― Receio que sim ― respondeu simplesmente Velpeau.

― A minha hora está marcada, então?

― Não sei. Mas, como nada há de concreto, o senhor pode decerto contar com alguns dias.

La Pommerais enxugou a manga da camisa de detento sobre a face pálida.

― Que assim seja. Obrigado. Estou pronto. Agora, o quanto antes acontecer, melhor.

― Como o seu recurso não foi denegado, ao menos até agora ― continuou Valpeau ―, a proposta que eu o farei é condicional. Se o senhor for salvo, tanto melhor... Mas se, do contrário...

O grande cirurgião fez uma pausa.

― Do contrário...? - indagou La Pommerais.

Velpeau, sem responder, tirou do bolso um pequeno estojo. Abriu-o, lançou mão do bisturi e, cortando a manga esquerda da camisa de detento, pressionou o dedo médio sobre o pulso do jovem condenado.

― Senhor de La Pommerais ― disse ―, seu pulso revela raros sangue frio e firmeza. A proposta que venho fazer-lhe, e esta deve manter-se em segredo, dirigida que é a um médico cheio de energia, a um espírito temperado nas convicções positivas de nossa ciência, e bem liberto dos terrores fantásticos da morte, pode parecer uma extravagância ou mesmo um escárnio criminal. Mas creio que sabemos quem somos. O senhor a levará, portanto, em consideração, ainda que, no primeiro momento, a proposta possa parecer-lhe inquietante.

― O senhor tem toda a minha atenção ― respondeu La Pommerais.

― O senhor longe está de ignorar ― prosseguiu Velpeau ― que uma das questões mais interessantes da fisiologia moderna consiste em saber se persiste algum verdadeiro lampejo de memória, raciocínio e sensibilidade no cérebro de um homem depois que tem a cabeça decepada.

A esta introdução inesperada, o condenado estremeceu. Depois, recompondo-se, respondeu:

― Quando o senhor entrou, doutor ― respondeu ―, eu estava justamente muito preocupado com este problema. Aliás, duplamente interessante para mim.

― O senhor está a par dos trabalhos escritos sobre esse assunto, desde os de Soemmering, Sue, Sédillot e Bichat[7] até os mais modernos.

― Eu mesmo assisti, certa feita, a uma de suas aulas de dissecação nos restos de um supliciado.
― Ah! Prossigamos, então. O senhor tem noções exatas, do ponto de vista cirúrgico, sobre a guilhotina?

La Pommerais, depois e olhar atentamente para Valpeau, respondeu friamente:

― Não, senhor.

― Hoje mesmo estudei minuciosamente o aparato ― continuou, impassível, o doutor Velpeau. ― Eu o asseguro que é um instrumento perfeito. A lâmina atua ao mesmo tempo como foice e clava. Corta o pescoço do paciente em um terço de segundo. O decapitado, sob o impacto desse golpe fulgurante, não pode sentir mais dor do que experimenta o soldado que, num campo de batalha, tem um braço arrancado por uma bala. A sensação, pela exiguidade de tempo, é nula e obscura.

― Pode ser que haja uma dor posterior. Duas feridas permanecem vivas. Não foi Julia Fontenelle[8] quem, dando os seus motivos, perguntou se esta mesma velocidade não é mais dolorosa que a execução com alfanje ou machado?

― Bérard[9] foi suficiente para fazer justiça a esse devaneio. Pessoalmente, estou convencido, baseado em numerosas experiências e observações particulares, de que a remoção instantânea da cabeça produz, instantaneamente, no indivíduo decapitado, um absoluto efeito anestésico. Somente a síncope provocada pela súbita perda de quatro ou cinco litros de sangue, que irrompem fora dos vasos ― frequentemente com a força de projeção circular de um metro de diâmetro ― bastaria para tranquilizar os mais temerosos. Quanto aos estremecimentos inconscientes da máquina corporal mui repentinamente interrompida em seus processos fisiológicos, estes não apresentam mais indícios de sofrimento que... os frêmitos de, por exemplo, uma perna cortada, cujos músculos e nervos se contraem, mas na qual já não se sente dor alguma. E digo que a febre nervosa da incerteza, a solenidade dos preparativos fatais e o sobressalto do despertar matinal são, nesse caso, o verdadeiro sofrimento. Como a amputação é imperceptível, a dor real é apenas imaginária. Vamos! Um golpe violento na cabeça não apenas não é sentido como não deixa consciência alguma do impacto. A simples lesão das vértebras acarreta a insensibilidade absoluta. A separação da cabeça, o corte da espinha dorsal, a interrupção das relações orgânicas entre o coração e o cérebro não seriam suficientes para paralisar, nas profundezas do ser humano, toda sensação, mesmo a mais tênue, de dor? Impossível, inadmissível! O senhor sabe disto tão bem quanto eu.

― Pelo menos espero que seja assim, e assim o espero ainda mais que o senhor ― respondeu La Pommerais. ― Porém, não é um grande e rápido sofrimento físico ― apenas concebido pela desordem sensorial, mas rapidamente sufocado pela crescente e inevitável ascendência da Morte ― o que eu temo. É outra coisa.

― O senhor poderia me explicar? ― disse Velpeau.

― Escute ― murmurou La Pommerais após um instante de silêncio. ― Em última instância, os órgãos da memória e da vontade ― se estes estão circunscritos nos mesmos lóbulos em que constatamos no... no cão, por exemplo ― não são afetados pela passagem da lâmina. Temos vivenciados tantos diversos equívocos precedentes, tão inquietantes como incompreensíveis, que não me deixo convencer facilmente da inconsciência imediata do decapitado. Conforme as lendas, quantas cabeças não voltaram o olhar para aqueles que falavam a elas? Memória de nervos? Movimentos reflexos? Palavras vazias! Lembre-se da cabeça daquele marinheiro que, na clínica de Brest, uma hora e quinze minutos após a decapitação, com um movimento, que pode ter sido voluntário, das mandíbulas, cortou em dois um lápis colocado entre elas? Para não citar mais outro entre mil exemplos, a questão real seria, pois, saber se fora ou não o “eu” desse homem que, após a cessação da hematose, incitou os músculos de sua cabeça exangue.

― O “eu” reside apenas no todo ― disse Velpeau.

― A medula espinhal prolonga o cerebelo ― respondeu o Sr. de la Pommerais. ― Onde estará o todo sensitivo? Quem poderá revelá-lo? Antes de oito dias, é certo que eu saberei... e esquecerei.

― Depende do senhor, talvez, que toda a humanidade tenha, de uma vez por todas, a resposta ― respondeu lentamente Velpeau, os olhos cravados em seu interlocutor. ― E, falando com franqueza, é por isto que estou aqui. Fui delegado por uma comissão de nossos mais eminentes colegas da Faculdade de Paris, e aqui está a permissão do imperador. Contém amplos poderes, como o de prorrogar, se necessário, a ordem de execução.

― Não estou entendendo... Por favor, explique-se ― respondeu, perplexo, La Pommerais.

― Senhor de la Pommerais, em nome da ciência que ainda nos é cara, e não podemos hoje contar com muitos mártires magnânimos, venho ― na hipótese para mim mais que duvidosa de que seria factível qualquer experimento por nós engendrado ―, reclamar de todo o seu ser a maior soma de energia e coragem que seja possível esperar da espécie humana. Se seu pedido de clemência for denegado, o senhor será, como médico, um sujeito por si mesmo capacitado à suprema operação que deve suportar. Sua cooperação seria, pois, a inestimável na tentativa de... comunicação. É evidente, por maior que seja a sua boa vontade, que tudo parece concorrer de antemão para o mais negativo dos resultados. Mas, enfim, com o senhor ― supondo sempre que esta experiência não seja absurda em princípio ―, é-nos oferecida uma chance em dez mil de iluminar milagrosamente, por assim dizer, a fisiologia moderna. A ocasião deve ser, portanto, aproveitada e, em caso de verificar-se exitosamente um sinal de inteligência depois da execução, o senhor deixaria um nome cuja glória científica apagaria para sempre a memória de sua mácula social.

― Ah! ― murmurou La Pommerais, pálido, mas com um sorriso resoluto. ― Começo a compreender!… De fato, os suplícios revelaram os fenômenos da digestão, disse-nos Michelot. Mas, qual seria a natureza de suas experiências? Estímulos galvânicos? Excitação do ciliar? Injeção de sangue arterial?

― Convém deixar claro que, imediatamente após à triste cerimônia, seus restos mortais irão descansar em paz na terra e nenhum de nossos bisturis o tocarão ― continuou Velpeau. ― Isto mesmo! Quando a lâmina cair, eu, eu estarei lá, de pé, à sua frente, junto à guilhotina. Sua cabeça passará das mãos do executor às minhas o mais rápido possível. Depois ― embora a experiência, por sua simplicidade, não possa ser séria e conclusiva ―, eu gritarei muito claramente em seu ouvido: “Sr. Couty de la Pommarais, em memória do que combinamos em vida, o senhor pode, neste momento, baixar três vezes seguidas as pálpebras de seu olho direito, conservando o outro aberto?” Se neste momento, quaisquer que sejam as demais contrações faciais, o senhor puder, por meio dessas três picadelas, avisar-me de que me ouviu e entendeu, assim provando, pelo emprego da vontade e da memória permanecentes, o controle sobre o músculo palpebral, o nervo zigomático e a conjuntiva ― dominando assim todo horror, toda as ondas de impressões de seu ser ―, esse fato será suficiente para iluminar a ciência e revolucionar as nossas convicções. E eu saberei, não tenha dúvida, propalar o seu nome, de modo que, no futuro, será o senhor lembrado não como um criminoso, mas como um herói.

Em face destas insólitas palavras, o Sr. de la Pommerais pareceu dominado por uma comoção tão profunda que, com as pupilas dilatadas e fixas no cirurgião, permaneceu em silêncio, petrificado, por um minuto. Então, sem dizer uma palavra, levantou-se, deu alguns passos, muito pensativo. Depois, sacudindo a cabeça, disse:

― A horrível violência do golpe irá arrancar-me de mim mesmo. Realizar tal prodígio me parece superior a toda vontade e esforço humanos ― disse. ― Além disso, diz-se que as probabilidades de sobrevida não são as mesmas para todos os guilhotinados. Apesar disto, volte, senhor, na manhã de minha execução. Responderei se me prestarei ou não essa tentativa, a um tempo terrífica, revoltante e ilusória. Se eu disser não, conto com a sua discrição para deixar que a minha cabeça sangre tranquilamente, até a exaustão, no balde de estanho que há de recebê-la.

― Está bem, Sr. de la Pommarais ― disse Valpeau, também se levantando. ― Reflita.

Cumprimentaram-se.

Um instante depois, o doutor Velpeau deixava a cela, o carcereiro retornava, e o condenado, resignado, se estendia no catre para dormir ou pensar.

Quatro dias depois, às cinco e meia da matina, o Sr. Beauquesne, o abate Crozes, o Sr. Claude e o Sr. Potier, escrivão da corte imperial, entraram na cela. Acordado, e à notícia da hora fatal, o Sr. de la Pommerais ergueu-se muito pálido e se vestiu rapidamente. Em seguida, falou dez minutos com o abade Crozes, de quem já havia recebido visitas. Sabe-se que o santo sacerdote estava dotado desta santa unção de inspiração que infunde coragem na hora extrema. Depois, vendo que o doutor Velpeau chegava, disse:

― Eu tenho treinado. Veja!

E, durante a leitura da sentença, conservou fechada a pálpebra direita, olhando fixamente o cirurgião com olho esquerdo completamente aberto.

Volpeau se inclinou demoradamente diante do médico e depois voltou-se para o Sr. Hendreich, que entrava com o seu ajudante, e trocou com o cirurgião um sinal de cumplicidade.

Os preparativos foram rápidos. Com ele, não se verificou o fenômeno do encanecimento dos cabelos sob o corte da tesoura. Uma carta de despedida da esposa ao réu, lida em voz baixa pelo capelão, umedeceu-lhe os olhos com lágrimas que o sacerdote enxugou piedosamente com o retalho tirado de sua camisa. Uma vez de pé, e com o casaco lançado sobre os ombros, tiveram que soltar as amarras de seus pulsos. Em seguida, ele recusou o copo de aguardente e o séquito seguiu pelo corredor. Ao chegar ao portão, estando o colega no limiar, disse-lhe, em voz baixa:

― Até logo! E adeus!

De repente, as grandes abas de ferros se entreabriram e giraram à sua frente.

O vento da manhã invadiu a prisão. Amanhecia. A grande praça se estendia à sua frente, cercada por um duplo cordão de cavalaria. Adiante, a dez passos, num semicírculo de gendarmes montados, que à sua chegada desembainharam os sabres ruidosos, erguia-se o patíbulo. A uma certa distância, entre os enviados da imprensa, alguns tiravam os chapéus.

Mais abaixo, atrás das árvores, ouvia-se o rumor da multidão, enervada pela noite de espera. Nas coberturas das tavernas, nas janelas, jovens dissolutas, pálidas, vestidas com sedas vistosas, algumas ainda segurando garrafas de champanha, assomavam em companhia de tristes ternos negros. No ar da manhã, sobre a praça, as andorinhas voejavam de cá para lá.

Solitária, preenchendo o espaço e limitando o céu, a guilhotina parecia estender até o horizonte a sombra de seus braços erguidos, entre os quais, muito longe, lá em cima, no azul da alvorada, via-se cintilar a derradeira estrela.

Diante desta fúnebre aparição, o condenado estremeceu. Depois, avançou resolutamente em direção ao cadafalso... Subiu as escadas. Agora, a lâmina triangular brilhava sobre a negra estrutura, ocultando a estrela. Sobre a prancha fatal, beijou, depois do crucifixo, uma mecha de seus próprios cabelos, recolhidos durante os aprestos pelo abade Crozes. E, depois de levá-los aos lábios, disse:

—Para ela!...

As cinco personagens se destacavam, em silhueta, sobre o patíbulo. Naquele momento, o silêncio tornou-se tão profundo que um ruído de um galho quebrado, à distância, sob o peso de um curioso, chegou misturado a gritos e risos hediondos até o trágico grupo. Depois, ao soar a hora cujo golpe ele não deveria ouvir, o Sr. de la Pommerais viu à sua frente, do outro lado, o estranho experimentador. Este, com a mão pousada na plataforma, o observava! Pommerais fechou olhos, concentrando-se.

Bruscamente, a báscula se moveu, o jugo caiu, o botão cedeu e o brilho da lâmina despencou. Um terrível choque sacudiu a plataforma. Os cavalos se agitaram ao cheiro magnético do sangue. O eco do ruído ainda vibrava quando a cabeça ensanguentada da vítima fazia-se palpitar entre as mãos impassíveis do cirurgião de Pitié[10], tingindo-lhe de púrpura os dedos, os punhos e as roupas.

Era uma cara lúgubre, terrivelmente branca, com os olhos abertos e absortos, as sobrancelhas retorcidas e ricto crispado: os dentes se entrechocavam. O queixo, na parte extrema do maxilar inferior, havia sido seccionado.

Volpeau inclinou-se rapidamente sobre aquela cabeça e formulou, junto ao ouvido direito, a pergunta combinada. Conquanto inabalável fosse este homem, o resultado o fez estremecer com uma espécie de terror frio: a pálpebra do olho direito havia baixado, enquanto o olho esquerdo, escancarado, o fitava.

Os cílios se separaram, como se por um resultado de um esforço interior, mas a pálpebra não mais se levantou. Aquela fisionomia, de segundo em segundo, tornou-se rígida, gélida, imóvel. Era o fim.

O doutor Vealpau devolveu a cabeça ao Sr. Hendreich que, reabrindo o cesto, a pousou, como era o costume, entre as pernas do tronco já inerte.

O grande cirurgião mergulhou a mão em um dos baldes destinados à lavagem, que já começava, da guilhotina. Em torno dele, a multidão, inquieta, se dispersava, sem reconhecê-lo. O médico enxugou as mãos, sempre em silêncio.

Depois, a passo lento, com a fronte pensativa e grave, dirigiu-se ao coche estacionado numa esquina da prisão. Enquanto subia, viu que o furgão da justiça se afastava em trote em direção a Montparnasse[11].






[1] Edmond- Louis -Antoine Huot de Goncourt (1822 – 1896), escritor francês.
[2] Prisão parisiense que acolheu, dentre outros prisioneiros, a rainha Maria Antonieta.
[3] No século XIX, a Rue de la Roquette abrigava, em cada um dos lados, uma prisão. A Grande Roquette passou a encarcerar, a partir de 1851, os condenados que aguardavam a execução da pena morte.
[4] Palácio onde residia despachava o então imperador da França, Napoleão III. Foi destruído por um incêndio em 1871. Suas ruínas foram demolidas onze anos depois.
[5] Dominique-Jean Larrey (1766 - 1842), médico e cirurgião militar francês.
[6] Institut de France (em português, Instituto da França) é uma instituição acadêmica francesa, fundada em Paris em 25 de outubro de 1795. Abarca várias instituições, dentre elas a famosa Académie des Sciences.
[7] Samuel Thomas von Sömmerring (1755 – 1830), médico e anatomista alemão; Pierre Sue (1739 - 1816), médico e cirurgião francês; Charles-Emmanuel Sédillot (1804 – 1883), médico militar e cirurgião francês; Marie François Xavier Bichat (1771 – 1802), médico, anatomista e fisiologista francês.
[8] Jean-Sébastien-Eugène Julia de Fontenelle (1780 – 1842), médico e químico francês.
[9] August Bérard (1802 – 1846), cirurgião francês.
[10] Hospital parisiense.
[11] Cemitério parisiense.

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OS RASTROS DE CHARLES ASHMORE - Conto Clássico de Terror e Mistério - Ambrose Bierce


OS RASTROS DE CHARLES ASHMORE
Ambrose Bierce
(1842 – 1914?)

A família de Christian Ashmore consistia de sua esposa, sua mãe, duas filhas adultas e um filho de dezesseis anos. Eles moravam em Troy, Nova York, eram pessoas ricas e respeitáveis, e tinham muitos amigos, alguns dos quais, lendo estas linhas, sem dúvida saberão, de primeira mão, o extraordinário acontecimento vinculado ao adolescente. Os Ashmores, mudaram-se, em 1871 ou 1872, para Richmond, Indiana, e, um ou dois anos depois, para os arredores de Quincy, Illinois, onde o Sr. Ashmore comprou uma fazenda e nela se instalou. A uma pequena distância da sede da herdade havia uma nascente dotada de um contínuo fluxo de água limpa e fresca, e desta fonte a família obtinha o suprimento do líquido, para uso doméstico, em todas as estações.

        Na noite de 9 de novembro de 1878, por volta das nove horas da noite, o jovem Charles Ashmore deixou a família reunida em volta da lareira, pegou um balde e saiu em direção à nascente. Como tardava o seu retorno, os familiares ficaram apreensivos, e o pai, indo até a porta pela qual o jovem saíra, chamou por ele, mas não recebeu resposta alguma. Então, acendeu uma lanterna e, com a filha mais velha, Martha, que insistiu em acompanhá-lo, saiu em busca do filho. O caminho estava coberto de neve e, sobre ela, era visível o rastro deixado pelo rapaz. Suas pegadas delineavam-se perfeitamente na trilha aberta à sua passagem. Quando eles já ultrapassavam a metade do caminho que levava à fonte – cerca de 75 jardas – o pai, que seguia na frente, parou bruscamente e ergueu a lanterna. Depois, pôs-se a perscrutar, atentamente, a escuridão que se lhe descortinava.  

        – O que aconteceu, pai? –  perguntou a jovem.

        Aconteceu o seguinte: o rastro do jovem terminava abruptamente e, dali a para frente, a neve estendia-se plana e intacta. As últimas pegadas eram tão evidentes quanto as deixadas para trás: as marcas dos artelhos estavam nitidamente visíveis na neve. O Sr. Ashmore olhou para cima, com o chapéu, encostado à lanterna, protegendo-lhe os olhos da incandescência. Constatou que estrelas brilhavam e não havia uma única nuvem no céu. Isto refutava a explicação, que lhe ocorrera, de que nevara novamente, mas dentro de um limite claramente definido. Tomando um caminho mais longo, que contornava o local onde as pegadas sumiam abruptamente, de modo a deixá-lo intocado para um exame mais aprofundado, o homem rumou para a fonte, seguido pela moça, agora fraca e aterrorizada. Pai e filha não trocaram uma palavra sobre o que haviam visto. A fonte, intocada, estava coberta por uma camada de gelo, evidentemente formada há muitas horas.

       Voltando para a casa, eles contemplaram o percurso do rastro deixado na neve em toda a sua extensão. Nenhuma pegada ia além da trilha estacada a meio caminho entre a casa e a fonte.

         A luz da manhã nada mais revelou. Tenra, impecável, ininterrupta, a neve dominava todo o ambiente.

         Quatro dias depois, a mãe, de espírito em ruínas, foi buscar água na fonte. Quando retornou, contou que, ao passar no local onde as pegadas haviam sumido inopinadamente, ouvira a voz do seu filho. Chamara por ele obstinadamente, vagando de lugar a lugar, conforme imaginava que era de uma outra direção que vinha a voz de seu garoto, até exaurir-se de cansaço e emoção.

Quando lhe perguntaram sobre o que lhe dissera a voz, ela não soube dizer, embora as palavras que ouvira lhe parecessem perfeitamente claras.

        Prontamente, a família correu ao local, mas ninguém ouviu nada e todos consideraram que a voz nada mais era que uma alucinação causada pela grande ansiedade da mãe e pelos seus nervos esfrangalhados.

         Todavia, meses depois, em intervalos irregulares de alguns dias, vários membros da família, e mesmo outras pessoas, escutaram a voz. Todos declararam que aquela era, inequivocamente, a voz de Charles. Todos concordaram que a voz parecia vir de uma grande distância, e por isso chegava-lhes debilitada, mas com total nitidez em sua articulação. No entanto, ninguém conseguia determinar a sua direção, nem repetir o que ela dizia. Os intervalos de silêncio aumentaram cada vez mais e, no verão, a voz, cada vez mais débil e mais distante, não foi mais ouvida.

         Se alguém sabe do destino de Charles Ashmore, esta pessoa é provavelmente a sua mãe. Mas ela está morta.

Versão em português: Paul de Sor.



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