UMA TERRÍVEL VINGANÇA - Conto Clássico de Terror - Giraldus Cambrenis


UMA TERRÍVEL VINGANÇA
Giraldus Cambrenis
(1146 – 1223)
Tradução indireta de Paulo Soriano

O senhor de Chateau-roux, na França, mantinha no seu castelo um homem a quem castrou, e cujos olhos havia perfurado.

Este, por força de um longo hábito, retivera na memória todas as passagens do castelo e os degraus que levavam às torres.

Aproveitando uma oportunidade de vingança, e planejando a aniquilação do jovem rapaz — o único filho e herdeiro do suserano do castelo —,  o cego, após trancar as portas interiores do castelo, levou o garoto ao cimo de uma torre alta, de onde foi visto com grande preocupação pelo povo que se reunira embaixo. Para lá apressou-se o pai do menino e, tomado pelo terror, tentou, por todos os meios possíveis, obter o resgate de seu filho.

O cego respondeu que poderia libertar o garoto, mas com a condição de que o senhor provocasse em si mesmo a mesma mutilação genital que lhe havia infligido.

O pai, tendo em vão implorado misericórdia, por fim acedeu. Então, com ardil, aplicou no próprio corpo um violento golpe. E as pessoas ao seu redor irromperam em gritos e lamentos, como se ele tivesse realmente sofrido a mutilação.

O cego perguntou-lhe onde sentia a maior dor. Quando o senhor respondeu que lhe doíam os rins, o cego disse-lhe que era mentira, e que estava preparado para precipitar o menino torre abaixo.

Um segundo golpe foi dado, e o senhor do castelo assegurou que o que mais lhe doera fora o coração. O cego, expressando sua incredulidade, novamente conduziu o menino à ameia da torre. Na terceira vez, porém, o pai, para salvar o seu filho, realmente se castrou. E quando exclamou que o que mais lhe doíam eram os dentes, disse-lhe o cego:

— Correto. Como um homem que passou por semelhante experiência, vejo que falas a verdade. Mas apenas em parte tu me vingaste os ferimentos. Eu encontrarei a morte com a maior das satisfações; tu, porém, jamais poderás gerar outro filho, nem encontrarás consolo para a desgraça que te sucedeu.

Então, levando consigo o garoto, atirou-se do alto da torre. Ao caírem ao solo, tiveram os membros fraturados, e ambos expiraram instantaneamente.

Pela alma do garoto, o cavaleiro ordenou que, no local, fosse construído um mosteiro, e este, que ainda está em pé, chama-se De Doloribus.[1]


[1] A agonia.

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OS CAMINHOS QUE TOMAMOS - Conto Fantástico - O. Henry



O. Henry
(1862 – 1910)
Tradução de Fernando Pessoa
(1888 – 1935)



O. Henry (1862 — 1910), nascido William Sydney Porter em Greensboro, Carolina do Norte, Estados Unidos, é um dos maiores nomes do conto universal. Muito popular em seu tempo, deixou contos antológicos, ainda hoje muito apreciados, como “O Presente dos Magos” e “A Última Folha”. A tradução, ora apresentada, de “O Caminho que Tomamos” (“The Roads We Take”), conto fantástico, é de autoria do poeta português Fernando Pessoa (1888 — 1935) e foi publicada na revista Athena, vol. I, entre os anos de 1924 e 1925. 


Vinte milhas para oeste de Tucson o rápido[1] parou ao pé de um depósito para tomar água. Além deste líquido, porém, a máquina daquele comboio adquiriu também outras coisas que lhe não convinham.

Enquanto o fogueiro estava baixando a mangueira de alimentação, o Bob Tidball, o Dodson “Tubarão” e um índio de raça cruzada chamado João Cão Grande treparam para a máquina e apresentaram ao maquinista os orifícios de três canos de revólver. As possibilidades desses orifícios a tal ponto impressionaram o maquinista que ergueu logo ambas as mãos num gesto do gênero do que acompanha a exclamação: "Conta lá!”.

À ordem brusca do Dodson Tubarão, que era o comandante da força, o maquinista desceu ao chão e desligou a máquina e o tênder. Então o João Cão Grande, empoleirado no carvão, sorriu por trás de dois revólveres apontados ao ajudante e ao fogueiro, lembrando que corressem a máquina cinquenta metros pela linha abaixo e ali aguardassem novas ordens.

O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, desdenhando proceder à limpeza de minério tão baixo como os passageiros, dedicaram-se ao veio magnífico que era o vagão de valores. Encontraram o guarda envolto na crença firme de que a máquina não estava tomando nada mais forte que água pura. Enquanto o Bob lhe tirava esta ideia da cabeça por meio de uma coronha de revólver, o Dodson Tubarão ocupava-se em ministrar uma dose de dinamite ao cofre do vagão.

O cofre explodiu no sentido de trinta mil dólares, ouro e notas. Os passageiros espreitaram vagamente pelas janelas a ver de onde vinha a trovoada. O condutor puxou a correia que lhe ficou lassa e caída na mão. O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, com o espólio numa saca de lona forte, saíram do vagão e correram pesadamente, com suas botas altas, até a máquina.

O maquinista, amuado mas prudente, correu velozmente a máquina, obedecendo às ordens, para longe do comboio parado. Mas antes que isto estivesse feito, o guarda do rápido, tendo despertado do argumento com que o Bob Tidball lhe tinha imposto a neutralidade, saltou do vagão com uma Winchester e entrou no jogo. O sr. João Cão Grande, empoleirado no carvão, perdeu a vasa pelo processo involuntário de imitar perfeitamente um alvo. O guarda caçou-o. Com uma bala exatamente entre as espáduas, o cavalheiro de cor e indústria caiu para o chão, aumentando assim automaticamente em um sexto o quinhão de cada um dos camaradas.

A duas milhas do depósito deu-se ordem ao maquinista que parasse.

Os ladrões gritaram um adeus de desafio e enfiaram pelo declive abaixo para os bosques que marginavam a linha férrea. Cinco minutos de caminho difícil através de uma mata de chaparral trouxe-os a um bosque mais aberto, onde estavam três cavalos, presos a ramos baixos. Um esperava o João Cão Grande, que nunca mais andaria a cavalo de dia ou de noite. A este animal tiraram os ladrões a sela e o freio, e puseram-no em liberdade. Montaram nos outros dois, estendendo o saco sobre a maçã da sela de um deles, e seguiram depressa, mas discretamente, através da floresta e por uma garganta primitiva e solitária acima. Aqui o animal que levava Bob Tidball escorregou num pedregulho musgoso e partiu uma das pernas dianteiras. Mataram-no com um tiro na cabeça, e sentaram-se para realizar um conselho de fuga. Seguros por enquanto, em virtude do caminho tortuoso que haviam tomado, já a questão de tempo os não apoquentava tanto. Havia já muitas horas e léguas entre eles e a mais rápida perseguição que se pudesse organizar. O cavalo do Dodson Tubarão, de corda arrastada e freio caído, resfolegava e comia com agrado da erva à margem do riacho da garganta. Bob Tidball abriu o saco, tirou às mãos ambos maços de notas e um saco único de ouro, e riu com uma alegria de criança.

— Olha lá, meu grande pirata — disse ele rindo para Dodson —, bem dizias tu que a coisa se conseguia. Tens uma cabeça de financeiro que deixa atrás tudo no Arizona.

— O que é que a gente vai fazer a respeito de um cavalo para ti, Bob? A gente não pode esperar aqui muito tempo. Logo de madrugada, com a primeira luz, os tipos estão na nossa pista.

— Oh, aquele teu bicho tem que levar dois um bocado — respondeu Bob com otimismo. Deitamos a mão ao primeiro bicho que encontrarmos por aí. Caramba, que fizemos bom negócio, hein? Aqui pelos sinais nas cintas e no saco temos trinta mil dólares — quinze mil a cada bico!

— É menos do que eu esperava — disse o Dodson Tubarão, dando pontapés leves nos pacotes. Depois olhou meditativamente para os flancos suados da sua montada.

— O Bolívar, coitado, está quase que não pode mais disse ele devagar. — Que pena que o teu bicho se estropiasse!

— Ninguém tem mais pena do que eu — disse o Bob sem abatimento —, mas o que é que se há de fazer? O Bolívar é rijo, e pode bem com nós dois até arranjarmos outras montadas. Raios me partam, ó Tubarão, mas não me passa da ideia a piada que tem um tipo do Leste como tu vir para aqui ensinar-nos a nós do Oeste a dar cartas no negócio de salteador! De que parte do Leste é que és?

— Estado de Nova York — disse o Dodson Tubarão, sentando-se num toro e mastigando um fio de erva. — Nasci numa herdade do distrito de Ulster. Fugi de casa quando tinha dezessete anos. Foi um acaso eu vir pra Oeste. Eu ia pela estrada fora com a roupa numa trouxa a caminho de Nova York, da cidade. A minha ideia era ir pra lá e ganhar muito dinheiro. Uma tarde cheguei a um ponto onde a estrada fazia garfo, e eu não sabia por que caminho havia de tomar, estive pra aí meia hora a estudar o caso, e depois tomei pelo da esquerda. Nessa noite mesmo fui dar ao acampamento de um circo do Oeste que andava dando espetáculos nas várias terras, e segui para Oeste com eles. Muitas vezes tenho pensado se não teria dado em qualquer coisa muito diferente se tivesse tomado o outro caminho.

— Hum, a minha ideia é que davas mais ou menos no mesmo — disse Bob Tidball, com uma filosofia alegre. — Não são os caminhos que a gente toma, é o que está dentro de nós, que faz que a gente dê no que vem a dar.

O Dodson Tubarão levantou-se e encostou-se a uma árvore.

— Tomara eu que aquela tua montada se não tivesse estropiado, Bob — tornou a dizer, com uma certa tristeza. 

— E dois! — concordou o Bob. — Era um belo bicho. Mas o Bolívar tira-nos aos dois da alhada. Olha lá, e o melhor é a gente ir-se pondo a mexer, hein? Vou meter isto tudo outra vez no saco, e ala para outra terra!

O Bob Tidball repôs o espólio no saco, e apertou a boca deste, com força, com uma corda. Quando levantou a cabeça a coisa mais notável que viu foi o cano da pistola do Tubarão visando-lhe sem tremer o centro da testa.

— Deixa-te de piadas, rapaz — disse o Bob sorrindo. — A gente tem é que se pôr a mexer.

— Está quieto — disse o Tubarão. — Tu não te vais pôr a mexer para parte nenhuma, Bob. Tenho pena de to dizer, mas não há saída senão para um de nós. O Bolívar, coitado, está muito cansado, e não pode levar dois.

— Temos sido camaradas, eu e tu, Tubarão, há uns três anos — disse o Bob com sossego. — Muita e muita vez arriscou a gente a vida juntos. Sempre te tenho tratado às direitas, e julgava que eras um homem. Já ouvi coisas que contavam de ti, de como tinhas matado um ou dois homens de uma maneira esquisita, mas nunca acreditei. Ora agora, se estás a brincar comigo, desvia lá a pistola e vamo-nos embora. Mas se queres atirar, atira, filho de um lacrau!

A cara de Dodson Tubarão tinha uma expressão de profunda mágoa.

— Não imaginas que pena eu tenho — suspirou ele — a respeito daquele desastre que aconteceu ao teu cavalo, Bob. 

A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrouse de repente uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

E, na verdade, nunca Bob Tidball se poria mais a mexer para parte nenhuma. Falou a pistola do amigo falso, enchendo a garganta de um estrondo que os seus muros devolveram indignadamente. E o Bolívar, cúmplice inconsciente, levou depressa para longe o último dos salteadores do rápido sem ter que "levar dois".

Mas à medida que o Dodson Tubarão galopava parecia que os bosques se esfumavam e desapareciam; o revólver na mão direita converteu-se no braço curvo de uma cadeira de mogno; a sela estava extremamente estofada, e ele abriu os olhos e viu seus pés, não em estribos, mas pousados alto na ponta de uma secretária rica.


Estou contando aos senhores que o Dodson, da Dodson & Decker, corretores de Wall Street, abriu os olhos. Peabody, o empregado de confiança, estava de pé a seu lado, hesitando em falar. Lá embaixo havia um ruído confuso de rodas, e ao pé o sussurro acariciador de uma ventoinha elétrica.

— Hum, Peabody — disse o Dodson, piscando os olhos. — Eu devo ter adormecido! Tive um sonho muito curioso. O que é que há?

— É o sr. Williams, sr. Dodson, de Tracy & Williams, que está ali fora. Vem liquidar aquilo daquelas ações. A alta caiu-lhe em cima, lembra-se o sr. Dodson?

— Sim, lembro-me. Como está isso cotado hoje, Peabody?

— Cento e oitenta e cinco, Sr. Dodson.

— Então é isso que ele paga.

— O sr. Dodson dá licença... — disse Peabody, com uma certa hesitação. — Desculpe-me falar nisso, mas estive a falar com o Williams. Ele é um velho amigo seu, e o Sr. Dodson podese dizer que tem na mão todo este papel. Pensei se o Sr...., isto é, pensei que o Sr. talvez se não lembrasse que ele lhe vendeu o papel a noventa e oito. Se ele liquida ao preço do mercado, vai-se-lhe tudo quanto tem e ainda por cima, coitado, tem que vender a casa, e a mobília e tudo, para lhe poder entregar as ações.

A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente como uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

— Cento e oitenta e cinco é que ele paga — disse o Dodson. — O Bolívar não pode levar dois.



[1] Trem de passageiro expresso.

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O MISTERIOSO SR. ETIENNE - Conto Clássico de Horror - Paul Doffus


O MISTERIOSO SR. ÉTIENNE
Paul Doffus
(1867 — 1849)

A senhorita Cabri entrou para a Opera em 1787, pouco mais ou menos. Devia ter quinze anos, e é mesmo de acreditar-se que os tivesse. Em 1793, continuava a figurar, modestamente, nos bailados sem que prometesse chegar à consideração de uma estrela de primeira grandeza. Por isso, a chamada grande tempestade revolucionaria não lhe causou abalo. Cabri dançava no Triunfo da Republica, na Apoteose de Marat ou na Toitlon, submetida do mesmo modo que tinha dançado ou figurado nas Macieiras e o Moinho, nos Pretendidos ou no Feliz Estratagema. O seu sorriso era o mesmo, como as mesmas eram a sua ligeireza e graça.

Encurvar os braços no espaço e saltitar com os pezinhos eram a sua vida, e Cabri punha os braços em meneios circulares, e saltitava do mesmo modo, quer se tratasse de representar a ingenuidade alegre dos burgueses em dia de festa, quer a comoção das virgens republicanas acabrunhadas pela morte do “Amigo do Povo”. E o mais que a seu respeito se sabia era que completara a sua educação artística no Scala, de Milão.

Era o que se sabia ou supunha saber. De todo o tremendo acontecimento revolucionário nada a comovera, ela mesma não se apercebera da transformação por que passaram os habituais dos bastidores. Em lugar de senhores empoados, fazendo bofes e mangas de rendas, bocetas de ouro, espadins de copos encrustados de pedras preciosas, e bengalas de castões cinzelados, senhores que cheiravam a musgo e benjoim, que diziam docemente cousas com pretensões a espirito e que eram gentis, viam-se agora, no foyer, homens propositalmente desleixados, cabelos por pentear, barbas crescidas desmazeladamente, e que pareciam tão apressados de viver e gozar que, dir-se-ia, todos percebiam a aproximação da sua última hora.

Nem isso a turbou! A existência de Cabri continuava a ser a mesma, e o mesmo era o seu amante.

Parecia-lhe conhecê-lo desde longa data, porquanto havia dois anos que ela o via quase todas as noites sentar-se na sua cadeira da orquestra, invariavelmente a mesma cadeira, e sempre atento ao representavam, sempre comovido. Pela música que escutava, ainda que assistindo ao mesmo espetáculo pela décima a vez.

Ele vestia, sempre com a maior correção, uma casaca negra, sob a qual brilhava o linho o mais claro e o mais cuidado que se podia ver; seus botões eram de ônix negro e de ônix negro eram as fivelas dos seus sapatos.  Ao passo que, de semana em semana, se lhe acentuava uma certa negligencia na fisionomia, nada mudara no seu vestuário e por contraste, os linhos de que usava pareciam mais finos.

O seu falar era doce, o gesto sóbrio e calmo, uma palidez digna do antigo regime; em vez de evidenciar-se como todos faziam, procurava recatar-se; a todos tratava na segunda pessoa do plural, e pinçava o seu rapé em uma tabaqueira d’ouro, sobre a qual havia uma miniatura da rainha, e quando no foyer algum importuno, em vez de elogiar a beleza das dançarinas ou das artistas, pretendia conversar sobre os acontecimentos do dia, ele calava-se e tratava de recolher-se ao seu lugar de espectador.

Esse homem jamais fora visto em companhia de outro, andava só, mas parecia que era ele quem desdenhava das camaradagens. No entanto, algumas pessoas o cumprimentavam respeitosamente, e quando chegava atrasado à sala do espetáculo, deixavam-no passar com visível deferência.

Cabri o estimava muito, porque ele não tinha exigências. Duas ou três vezes por semana ele a levava a cear, depois reconduzia a sua pequena dançarina ao domicílio que lhe alugara, e onde ela morava com sua mãe, uma mulher italiana. E isso sem destoar dos seus modos, sempre o mesmo, atencioso e calmo, apenas encantado por ouvi-la, ainda que nas suas puerilidades de moça, que se importava demasiado com as fitas ou as joias de pechisbeque, ou se desfazia em lagrimas queixosas por ter sido preterida em melhor colocação no bailado. Porque Cabri, apesar de tudo, gostava de se mostrar interessada na sua profissão, e na ocasião em que figurou na Apoteose de Marat, sentiu-se desvanecida com a colocação que obteve no cortejo, e de tal sorte que foi consultar com o amante se seria crime tomar um banho nesse dia, porquanto Marat tinha sido assassinado numa banheira.

O polido senhor achou-lhe graça na ingenuidade e, retomando o seu ar grave, respondeu-lhe:

— Há coisas mais simples que são crimes... Mas não falemos nisso, que é política, e a política, minha pequenita Cabri, não foi feita para as moças bonitas. Contai-me, se vos aprouver, a carinha que tínheis durante a grande aria fúnebre.

Ela fez uma careta tão cômica (uma careta de pequerrucha que está a arrebentar de riso sem lhe conhecer a causa e pelo mesmo motivo se contem) que o grave senhor, por sua vez, desatou as gargalhadas até as lágrimas.

Ora, não obstante esse amor de dois anos, e esse viver íntimo, demoisele Cabri só conhecia o amante por seu prenome, que era Étienne, o que, de resto, pouco ou mesmo nada a impressionou porque o Sr. Étienne lhe trazia sempre amêndoas e confeitos, fazendo-se passar por um simples homem de comércio.

Uma noite, porém, Cabri notou no peito do Sr. Étienne um rosário com o crucifixo. Era estranho, porque já ela não ignorava que a república proibira esse uso, considerando-o suspeito. Essa prova de religião a fez temer pela vida do seu bom homem, e também por sua própria vida... Ai, se lhe cortassem, a ela, a sua pequenina e linda cabeça! Que horror! Perder a sua cabecinha, que com tanto amor penteava e ornamentava de cabeleiras diversas, ora brancas, ora louras, ora negras, conforme os tipos a representar... Perder a sua cabecinha! A sua cabecinha de boneca!... Deus, que horror!... E deitou-se com febre, passou uma noite agitada.

Mas, o seu espanto foi maior quando viu o Sr. Étienne, ao levantar-se pela manhã, se ajoelhar junto aos pés da cama e fazer uma longa oração acompanhada de muitos sinais da cruz.

O terror apoderou-se da pequenina Cabri e, a primeira vez que cearam juntos, ela perguntou-lhe, discretamente, se não temia despertar suspeitas trazendo aquele rosário e fazendo orações tão ardentes!

— Sim — respondeu o Sr. Étienne. — É um crime trazer um crucifixo ao pescoço e mais imperdoável de rezar com fervor. Cai-se na suspeição... Mas... eu tenho este direito... O melhor, porém, é não falarmos nisso, minha pequena Cabri, que é política e a política não foi feita para as moças bonitas...

Ela calou-se, mas, desde então, a sua cabecinha de boneca encheu-se com a ideia da morte. Cabri, mau grado seu, não se podia furtar a estes pensamentos negros: volvia-os e revolvia-os sem cessar. E, de quando em quando, um calafrio a arrepiava toda só ao pensar naquela terrível máquina de morte de que ora tanto se falava e cuja imagem seus olhos constantemente viam em berloques e brincos. E obcecada por essa ideia, curiosa de vê-la no seu original, na sua tremenda verdade, Cabri chegou a ter coragem de, um dia, pedir ao Sr. Étienne que a levasse a assistir uma execução.

O Sr. Étienne respondeu-lhe:

— Far-me-eis o favor de vos calar! É indigno de uma moça honesta tal desejo...

Cabri obedeceu, seus lábios se fecharam. Mas, da sua cabecinha de boneca, não saiu aquela ideia. Ao contrário, parece que tomou maior vulto. Uma noite correu pelos bastidores, abalou todo o foyer, a notícia de que, no dia seguinte, iam guilhotinar a que fora Maria Antonieta. Muitas dessas demoiselles, que ali estavam, tiveram, em tempo passado, a honra de cantar e dançar diante da ex-rainha. E, no em tanto, preparavam-se para assistir o triste fim dessa infeliz! Cabri resolveu acompanha-las.

A angústia do que ela ia ver a fez levantar-se muito cedo, e ainda uma vez surpreendeu o Sr. Étienne a rezar devotamente com os repetidos sinais da cruz e beijos fervorosos ao crucifixo do pescoço.
O Sr. Étienne vestiu-se, abraçou-a paternalmente e houve um momento em que ela pareceu-lhe surpreender uma indecisão, uma como vontade de não sair. Isso contrariou a sua resolução da véspera, agitou-lhe os nervos. Por fim o Sr. Étienne partiu.

Cabri correu logo a vestir-se, e foi com surpresa que encontrou sobre um móvel a tabaqueira de ouro, com a miniatura da rainha, que o Sr. Étienne usava. Cabri meteu-a no seu saquitel para a restituir ao amante, se o encontrasse. Devia fazer-lhe falta.

*

Depois de duas longas horas de espera, a carreta fúnebre entrou na praça da República. Da carreta foi retirada uma pobre mulher envelhecida, de cabelos brancos, uma palidez de cera no rosto, e que de momento a momento fazia esforços para se ter aprumada. De repente, um clarão brilhou, um golpe surdo cortou o silencio, a multidão rompeu em uivos, e aclamações estrondaram, enquanto um homem, que estava no cadafalso, se abaixou, agarrou uma cabeça decepada e levantando o braço a expôs à contemplação do imenso povo.

Cabri deu um grito e caiu desmaiada: o homem vestido de negro, que suspendia a cabeça, era o seu amante.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Fon-Fon, edição de 27 de agosto de 2010

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O HORLA - Conto Clássico de Terror - Guy de Maupassant



O HORLA
(Versão de 1886)
Guy de Maupassant
(1850 – 1893)


O doutor Marrande, o mais ilustre e o mais eminente dos alienistas, tinha convidado três de seus colegas e quatro sábios, que se ocupavam com as ciências naturais, para passarem uma hora em sua companhia, na casa de saúde de que ele era o diretor, onde pretendia mostrar-lhes um de seus doentes.

Logo que os amigos chegaram, disse-lhes:

 — Vou mostrar-lhes o caso mais bizarro e mais inquietador que já encontrei.  E nada lhes direi do meu cliente. Ele mesmo falará.

E o doutor tocou a campainha. Um criado fez entrar um homem. Este era muito magro, de uma magreza cadavérica, como são magros certos doidos devorados por um pensamento, porque o pensamento doentio consome a carne do corpo mais que a febre e a tuberculose.

Depois de cumprimentar e sentar-se, ele disse:

— Meus senhores, eu sei que por que estão aqui reunidos, e estou pronto a contar-lhes a minha história, satisfazendo o pedido de meu amigo Marrande.

Durante muito tempo ele considerou-me louco.  Hoje duvida. Daqui a algum tempo, todos os senhores saberão que eu tenho o espírito tão são, tão lúcido, vendo tão claramente quanto os senhores, infelizmente para mim, e para os senhores, e para a humanidade inteira.

Mas eu quero começar pelos fatos em si, pelos fatos em toda a sua simplicidade.

Tenho quarenta e dois anos. Não sou casado e a minha fortuna dá-me para viver com certo luxo.  Eu morava em um imóvel de minha propriedade, às margens do Sena, em Biessard, perto de Rouen. Gosto de caçar e de pescar. Ora, por trás da minha casa, acima dos grandes rochedos que a dominam, tinha eu uma das mais belas florestas da França, a de Roumare, e, em frente, um dos mais belos rios do mundo.

A minha casa é espaçosa, pintada de branco por fora, bonita, antiga, no meio de um grande jardim plantado de árvores magníficas, e que vai ter à floresta, subindo pelos enormes rochedos de que lhes falei há pouco.

O meu pessoal compõe-se — ou antes compunha-se — de um cocheiro, um jardineiro, um criado de quarto, uma cozinheira e uma roupeira, que era uma espécie de governanta. Toda essa gente morava comigo de dez a dezesseis anos, conhecia-me, conhecia a minha casa, a região, tudo o que fazia lugar da minha vida. Eram bons e tranquilos servidores.  Isto tem o seu valor para o que vou dizer.

Acrescento que o Sena, que passa ao longe do meu jardim, é navegável até Rouen, como sem dúvida os senhores sabem, e que todos os dias eu via passar grandes navios, quer a vela, quer a vapor, procedentes de todos os cantos do mundo.

Pelo outono passado fez um ano que, de repente, senti um mal-estar estranho e inexplicável.  A princípio, foi uma espécie de inquietação nervosa que me fazia velar noites inteiras, uma superexcitação tal que o menor ruído me fazia estremecer. Fiquei sujeito a cóleras repentinas inexplicáveis.  Chamei um médico, que me receitou brometo de potássio e duchas.

Tomei as duchas de manhã e à noite; pus-me a beber o brometo. Em breve, com efeito, voltei a dormir, mas o meu sonho era mais terrível que a insônia.  Mal me deitava, fechava os olhos e ficava aniquilado.

É verdade, caía no nada, em um nada absoluto, em uma morte de todo ser, de que era arrancado bruscamente, horrivelmente, pela terrível sensação de um peso a esmagar-me o peito, e de uma boca sobre aminha, a sugar-me a vida pelos meus lábios.  Oh, que sobressaltos! Não conheço coisa mais aterradora!

Imaginem um homem que dorme e que está sendo assassinado, e acorda com uma faca na garganta; que agoniza coberto de sangue, que não pode mais respirar, e vai morrer e não compreende nada — e aí têm o que isso é.

Eu emagreci de um modo inquietador, contínuo; e, de repente, percebi que o meu cocheiro, que era muito gordo, começava a emagrecer como eu!

Por fim, perguntei-lhe:

— O que tens tu, Jean? Tu estás doente?

— Eu creio que apanhei a mesma doença que o patrão. São as noites que passo em claro.

Pensei, portanto, que havia em casa uma influência febril devida à vizinhança do rio, e estava pronto para me afastar por dois ou três meses, apesar de estarmos em plena estação de caça, quando um pequeno fato muito excêntrico, observado por acaso, levou-me a fazer uma tal série de descobertas inverossímeis, fantásticas, aterradoras, que me induziram à decisão de ficar.

Tendo sede uma noite, bebi meio copo d’água, e notei que a garrafa, posta sobre a cômoda, defronte da minha cama, estava cheia até a rolha de cristal.

Durante a noite, tive um despertar terrível como o de que lhes falei. Acendi a vela, cheio de medonha angústia, e, como quis beber outra vez, vi, com espanto, que a garrafa estava vazia. Eu não queria acreditar no que via.  Ou alguém tinha entrado no meu quarto, ou então eu era sonâmbulo.

Na noite seguinte, quis fazer a mesma experiência. Fechei a porta a chave, para ter certeza de que ninguém poderia entrar no meu quarto. Adormeci e acordei como sempre. Tinham bebido toda a água que vira duas horas antes.  Quem tinha bebido essa água? Eu, sem dúvida, e, no entanto, julgava ter a certeza, a certeza absoluta, de que não tinha feito um movimento durante o meu sono profundo e doloroso.

Então recorri a artifícios para convencer-me de que eu não praticava esses atos inconscientes.  Pus à noite, ao lado da garrada d’água, uma outra de Bordeaux velho, uma xícara de leite (de que tenho horror) e bolos de chocolate (de que gosto muito).

O vinho e os bolos ficaram intactos.  O leite e a água desapareceram.  Então, todos os dias, mudei as bebidas e os alimentos. Nunca tocaram nas coisas sólidas, compactas, e, quanto aos líquidos, só beberam leite fresco e principalmente água.

Mas a dúvida pungente ficava-me na alma. Não seria eu que me levantava sem consciência, e que bebia mesmo as coisas de detestava, porque os meus sentidos, entorpecidos pelo sono de sonâmbulo, podiam ser modificados, ter perdido a suas repugnâncias ordinárias e adquirido gostos diferentes?

Servi-me então de um artifício novo contra mim mesmo. Envolvi todos os objetos em que teria infalivelmente que tocar com tiras de musselina branca e cobertos com uma toalha fina.

Depois, no momento de me deitar, sujei as mãos, os lábios e os bigodes com raspadura de lápis.

Quando acordei, todos os objetos estavam perfeitamente limpos, apesar de terem sido tocados, porque a toalha já não estava como eu a tinha deixado, e, além disso, tinham bebido a água e o leite.

Ora, a minha porta, fechada com uma chave de segurança, e as janelas, fechadas a cadeado, não podiam ter deixado entrar ninguém.

Então fiz a mim mesmo esta pergunta: quem andava ali, todas as noites, perto de mim?

Bem vejo, senhores, que estou a contar-lhes isto depressa demais.

Os senhores sorriem, a sua opinião está feita: “é um louco”.

Eu lhes deveria descrever, minudentemente, esta emoção de um homem que, fechado em seu quarto, com o espírito são, vê, através do vidro de uma garrafa, um pouco de água que desapareceu enquanto ele dormia.

Eu deveria ter-lhes feito compreender esta tortura, que se repetia todas as noites e todas as manhãs, e aquele despertar mais assustador ainda.

Mas eu continuo.

De repente, o fenômeno cessou.

Não tocavam mais em coisa alguma no meu quarto. Estava acabado. E eu andava melhor. Voltava-me a alegria, quando eu soube que um dos meus vizinhos, o sr. Legite, achava-se exatamente no estado em que eu me encontrava.

Acreditei de novo numa influência febril no lugar.

O meu cocheiro havia saído de casa, um mês antes, muito doente.

O inverno havia passado, começava a primavera.

Ora, uma bela manhã, eu passeava junto do meu canteiro de roseiras quando vi, distintamente, pertinho de mim, a haste de uma das nossas rosas mais bonitas quebrar-se como se uma mão invisível a colhesse. Depois a flor seguiu a curva que descrevia um braço, levando-a para uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, aterradora, a três passos dos meus olhos.

Possuído por um temor ensandecido, atirei-me a ela, para agarrá-la.

Não achei coisa alguma.

Tinha desaparecido.

Então senti uma cólera furiosa contra mim mesmo.

Um homem ajuizado e sério não pode ter tais alucinações.

Mas, seria realmente uma alucinação?

Procurei a haste.  Achei-a logo no arbusto, recém-quebrada, entre outras duas rosas que tinham ficado no ramo; porque eram três e eu as tinha visto perfeitamente.

Então voltei para casa, com o espírito perturbadíssimo. Senhores, ouçam-me, eu estou calmo. Eu não acreditava no sobrenatural e hoje mesmo ainda não acredito. Mas, a partir desse momento, fiquei certo, como de que há dia e noite, que existia perto de mim um ente invisível que me tinha perseguido, que depois me tinha abandonado, e nessa ocasião retornava.

Pouco tempo depois tive prova disso.

Primeiro, entre os meus criados, havia diariamente discussões furiosas por mil causas aparentemente fúteis, mas, desde então, explicáveis para mim.

Um copo — um belo copo de Veneza — quebrou-se sozinho, no aparador da sala de jantar, em pleno dia.

O criado de quarto acusou a cozinheira, esta a roupeira e esta não sei quem.

Portas que ficavam fechadas à noite estavam abertas de manhã. Roubavam leite, todas às noites, na copa. Ah!

Quem era?  De que natureza? Uma curiosidade nervosa — mistura de cólera e terror — mantinha-me dia e noite em um estado de agitação extrema.

Mas a casa tornou-se outra vez calma; eu pensava de novo que tinham sido sonhos, quando se deu o fato seguinte.

Foi no dia 20 de julho, às oito horas da noite. Fazia muito calor. Eu tinha deixado a janela escancarada, o lampião aceso em cima da mesa, iluminando um volume de Musset[1], aberto nas Noites de maio, e tinha-me estendido em uma grande poltrona, onde adormeci.

Ora, depois de dormir cerca de quarenta minutos, abri os olhos, sem me mexer, despertado por não sei que emoção confusa e extravagante. A princípio, nada vi.  Depois, de repente, pareceu-me que as páginas do livro viravam-se sozinhas.  Nenhum sopro de ar entrava pela janela.  Fiquei surpreso.  Esperei.  Depois de cerca de quarenta minutos, eu vi — vi, sim, meus senhores —, vi com os meus olhos, levantar-se uma página e cair contra a precedente, como se um dedo a folheasse.  A minha cadeira estava vazia, mas eu compreendi que lá estava ele!  De um pulo, atravessei o quarto para apanhá-lo, para tocar-lhe, para apoderar-me dele se fosse possível...Mas a minha cadeira, antes que eu lá chegasse, caiu de costas, como se alguém fugisse diante de mim.  O lampião também caiu, e apagou-se, com o vidro quebrado.  E a janela — bruscamente empurrada, como se um malfeitor, a escapar, tivesse-lhe deitado a mão — foi ter no batente... Ah!

Atirei-me à campainha e chamei.  Quando o criado apareceu, eu lhe disse:

— Derrubei e quebrei tudo. Traga-me luz.

Não dormi mais nessa noite.  E, no entanto, eu podia ter sido ainda vítima de uma ilusão.  Quando a gente acorda, os sentidos estão um tanto perturbados. Não tinha sido eu que tinha atirado ao chão a cadeira e o lampião, precipitando-me como um louco?

Não, não havia sido eu.  Eu sabia disto a ponto de não duvidar por um segundo sequer. E, no entanto, queria quer nisto.
Esperem.  O ente!  Como eu o chamarei? O Invisível.  Não, isto não basta.  Eu o batizei de o Horla. Por quê?  Não sei.  O Horla já quase não me deixava.  Eu tinha dia e noite a sensação, a certeza, da presença desse vizinho implacável, e a certeza também de que ele me sugava a vida, hora a hora, minuto a minuto.

A impossibilidade de vê-lo me exasperava, e eu acendi todos os lampiões do meu aposento, como se pudesse descobri-lo com muita luminosidade.

Por fim, eu o vi.

Os senhores não acreditam em mim.  Mas eu o vi!

Eu estava sentado diante de um livro qualquer, não a ler, mas a espiar, com todos os meus órgãos superexcitados, à espera daquele que eu sentia estar perto de mim.  Com certeza, lá estava ele.  Mas onde? O que fazia?  Como alcançá-lo?

Defronte de mim estava a minha cama, uma antiga cama de carvalho, com colunas. À direita, a lareira.

À direita, a porta, que eu fechara cuidadosamente.

Atrás de mim, um grande armário de porta de espelho, de que eu me servia todos os dias quando fazia a barba, quando me vestia, onde costumava mirar-me dos pés à cabeça toda vez que passava diante dele.

Eu estava, pois, a fingir que lia para enganá-lo, porque ele também me espreitava e, de repente, senti, tive certeza que ele lia por cima de meu ombro, que estava ali, a roçar-me na orelha.

Levantei-me, voltando tão depressa que quase caí.  Pois bem... estava tudo claro como o meio-dia... e eu não me via no espelho!  O espelho estava vazio, claro, cheio de luz.

A minha imagem não estava nele... e eu estava defronte...

Via o vidro límpido, de cima a baixo! E olhava para isso com os olhos de um doido, e não me atrevia a caminhar, sentindo bem que ele estava entre nós — ele —, e que iria me escapar outra vez, mas que seu corpo imperceptível tinha absorvido o meu reflexo.

Como tive medo!  E depois, de repente, comecei a ver-me em uma névoa ao fundo do espelho, como através de uma toalha d’água.  E parecia-me que essa água escorria da esquerda para a direita, lentamente, tornando-se mais definida a minha imagem de segundo em segundo.

Era como o acabar de um eclipse.

O que me escondia não parecia ter contornos claramente delineados, mas uma espécie de transparência opaca, que ia clareando pouco a pouco.

Por fim, eu pude distinguir-me completamente, assim como todos os dias em que me contemplo ao espelho.

Eu o tinha visto. Ficou-me, desde então, o terror, que ainda me arrepia.

No dia seguinte, vim para cá, onde pedi que me deixassem ficar.

E agora, meus senhores, eu vou concluir.

O doutor Marrande, depois de ter duvidado muito tempo, decidiu-se a fazer, sozinho, uma viagem ao lugar em que eu morava.

Três vizinhos meus estão hoje afetados do mesmo mal.

É verdade?

(O médico respondeu:

—É verdade!)

O doutor aconselhou-lhes que deixassem água e leite todas as noites no quarto, para ver se esses líquidos desapareciam. Eles obedeceram. Os líquidos desapareceram, como em minha casa?

(O médico respondeu com uma gravidade solene:

— Desapareceram.)

— Portanto, senhores, um Ente, um Ente novo, que sem dúvida se multiplicará em breve, assim como nós nos multiplicamos, acaba de aparecer sobre a terra.

Ah, os senhores sorriem?  Por quê? Porque esse Ente conserva-se invisível. Mas os nossos órgãos, senhores, são órgãos tão elementares que apenas podem distinguir o indispensável à nossa existência. O que é pequeno demais, escapa-lhes; o que é muito grande, escapa-lhes; o que está muito longe, escapa-lhes também. Eles desconhecem as miríades de pequenos animais que vivem em uma gota d’água. Não conhecem os habitantes, as plantas e o solo das estrelas vizinhas. Não chegam a ver sequer o transparente. Ponham diante deles um espelho sem estanho, perfeito, e eles não o distinguirão e irão nos lançar para cima da lâmina como um pássaro preso em casa, que quebra a cabeça de encontro às vidraças. Portanto, eles não veem o ar quente de que nos alimentamos, não veem o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate edifícios, arranca árvores pela raiz, levanta o mar em montanhas d’água, que derroca as de granito. Que há de admirável em que não vejam um corpo novo, ao qual falta talvez somente a propriedade de deter os raios luminosos?

Os senhores vêm a eletricidade? E, no entanto, ela existe!

Este ente, que eu denominei de Horla, existe, também.
Quem é?  Senhores, é aquele que a terra espera, depois do homem!  Aquele que vem destronar-nos, dominar-nos, escravizar-nos e alimentar-se, talvez, de nós, como nós nos alimentamos dos bois e dos javalis.

Há séculos que é pressentido, receado, anunciado!

O medo do invisível sempre perseguiu os nossos pais.  E ele chegou.

Todas as lendas das fadas, dos gnomos, dos vagabundos do ar, impalpáveis e maléficos, era dele que elas falavam. Dele, já pressentido pelo homem inquieto e trêmulo.

E tudo o que os senhores fazem há alguns anos, o que os senhores chamam hipnotismo, sugestão, magnetismo, é ele que os senhores anunciam, que os senhores profetizam.

Eu digo que ele chegou. Vagueia inquieto ele também, como os primeiros homens, sem conhecer ainda a sua força e o seu poder, que cedo conhecerá... bem cedo.

E aqui está, senhores, para acabar, o fragmento de um jornal que me caiu nas mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio: “Uma espécie de epidemia de loucura parece alastrar-se há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de diversas aldeias têm fugido, abandonando as suas terras e casas, e dizendo-se perseguidos e devorados por vampiros invisíveis, que se alimentam da respiração deles durante o sono, e que só bebem água e às vezes leite.”

Acrescento: dias antes do primeiro ataque do mal de que estive para morrer, lembro-me perfeitamente de ter visto passar uma grande galera brasileira, com sua bandeira posta ao vento... Eu lhes disse que a minha casa fica à margem d’água... toda branca. Sem dúvida, ele estava escondido nesse navio.

Nada mais tenho a acrescentar, meus senhores.

O doutor Marrande levantou-se e murmurou:
— Nem eu.  Não sei se esse homem é louco, ou se somos ambos... ou se... se o Ente que nos há de suceder realmente chegou...


Conto originalmente publicado, sem menção ao tradutor, no “Diário da Tarde”, de Curitiba/PR, entre 31 de janeiro e 3 de fevereiro de 1905.




[1] Alfred de Musset (1810 — 1857), poeta, dramaturgo e novelista romântico francês.

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