A COLÔNIA - Conto de Terror - Marcos Paulo de Campos

 

A COLÔNIA

Marcos Paulo de Campos

A maioria de nós tem ou deve ter tido avós contadores de histórias assustadoras, não é? Isso é tão clássico quanto as próprias lendas e histórias contadas por eles. Pelo menos era, antes da geração smartphone. Eu tive um avô contista e confesso que dos bons, eu adorava ouvir as histórias dele.

Nós morávamos em uma chácara, meus pais, ele, que era pai de minha mãe e eu. Sempre, quando dava um pé d´água, a energia elétrica parava. Bem, na verdade, ela parava até com um chuvisco, às vezes, mas , apesar dos pesares, eu até que gostava, o que importava mesmo, nesses dias, era a oportunidade de provocar meu avô, pra que ele contasse as histórias que tinha vivido enquanto morava em uma dessas colônias de fazenda do interior.

Meu nome é Pedro e o caso que eu vou relatar aqui foi meu avô Agenor que me contou em um desses dias chuvosos.

Agenor “Pequetico”, como era conhecido na colônia, só era pequeno mesmo em estatura. Mas quem o conheceu sabe da coragem que ele tinha. Aliás, coragem essa que fez com que esses relatos pudessem ser contatos hoje. Digamos que ele enfrentava coisas que nenhum outro morador da pequena vila tinha coragem. Meu avô morava com minha avó, minha mãe, que ainda era criança e meus dois tios em uma casa na vila de trabalhadores de uma antiga usina de açúcar, na qual meus tios trabalhavam, bem na divisa de... bom, acho melhor não dizer as cidades.

Enfim, vamos aos fatos.

Num desses dias sem energia elétrica, eu pedi que ele me contasse algo estranho, de medo, que ele tinha vivido lá na usina.

— Moleque, depois você vai ficar com medo na hora de dormir e sua mãe vai me encher a paciência.

Lembro claramente dele me dizendo isso.

Mas eu, ansioso, como sempre, disse que não, que ele podia contar sem problema.

—Tá, mas se ficar com medo depois, eu não conto mais nada, hein? — disse ele, louco para contar, mas com aquele tom sisudo de sempre. Ele se ajeitou na cadeira e começou o relato:

— Bem, na época que isso aconteceu, muitas pessoas estavam desaparecendo por aquelas bandas, sem deixar rastro. Nem mesmo os investigadores de polícia conseguiam encontrar explicação, nenhuma pista. Os mais céticos juravam que tinha algum maníaco matando e desovando os corpos nas matas densas que havia por lá. Já os mais religiosos e supersticiosos ficavam apavorados, juravam que era coisa de outro mundo desaparecendo com as pessoas.

“Nós morávamos na colônia da usina, mas eu trabalhava na fábrica de uma cerâmica, que ficava a 1 hora e 20 de bicicleta. Como dá pra imaginar, eu saía bem cedo de casa, pra dar tempo de entrar às 6 no serviço. Então pulava cedo da cama, antes das 4, pois, pra partir, ainda tinha que alimentar os porcos que tínhamos e pegar os ovos no galinheiro. E foi nesse ponto que a estranheza, o mal presságio daquele dia começou.

“Quando eu cheguei para apanhar os ovos, vi que Seu Teodoro, um colono que tinha se mudado para a vila há poucos meses, estava parado do lado do galinheiro, aparentava estar bem tranquilo, com um palheiro na boca. Até me espantei e, com o pouco de intimidade que tinha com ele, perguntei em tom debochado se tinha caído da cama, afinal ele trabalhava ali mesmo na usina, não tinha motivo para acordar tão cedo, pelo menos aparentemente não tinha.

“Esse tal Teodoro era um sujeito querido pela vizinhança, apesar de ser novo por ali. Além de ser sobrinho de dona Luzia, mulher muito estimada na vila, ele estava sempre envolvido nos afazeres da comunidade, da igreja do padre Agnaldo, com o qual fez amizade rapidamente, inclusive. Era um rapaz de hábitos normais.

“Mas então, naquele dia, algo estava esquisito. Ele não esboçou nenhuma expressão com a minha brincadeira, nada habitual, para um bonachão.

“— Quer dizer que o senhor, seu Agenor, não tem medo de nada, anda armado por aí e diz que vai atirar, quando ouve coisas estranhas por essas estradas aí?

“Foi isso que ele me disse, antes de eu começar a ficar incomodado com a situação.

“Ele disse isso aí se referindo à supostas maldições e lendas que o povo de lá tinha medo, mas que eu enfrentava, eu era mais cético. Sempre achei besteira isso tudo. É até compreensível esse medo todo que eles tinham. Sem eletricidade, tv, internet (risos). Você não faz ideia, menino. Qualquer coisa lá era assombração. Até meus amigos Tunim e Bastião já tinham tirado sarro comigo, tentando me assustar com um alfange e umas roupas pretas na estrada do canavial (risos).

“Talvez o Teodoro estivesse falando disso, pois foi o que disse aos dois sarristas, e eles, de certo, devem ter contado para o povo ali. 

“Se bem que eu também fiz isso na história da noiva que aparecia de noite, em um trecho da estrada que levava à colônia. Diziam que ela aparecia à noite e fazia ruídos indecifráveis para aqueles que a encaravam. Enfim, vai saber o que se passava na mente daquele sujeito esquisito.

 “— Sim, se o senhor está falando daquela bobagem de história de noiva, sim. Eu fui ver o que era e disse que se fosse alguém tentando me assustar eu ia atirar. Mas, como já devem ter fofocado pro senhor, eu fui adiante e vi que era um arbusto de folhas brancas perto do córrego que desce da fazenda aí do lado.

 “Eu respondi isso já meio estúpido e reforçando que não estava entendendo aquele papo brabo dele às 4 e pouco da manhã.

 “—Tá certo, seu Agenor. O senhor me perdoe o jeito. Eu não dormi hoje. Minha tia Luzia sumiu ontem à noite, ela estava voltando de charrete da fazenda dos compadres dela. Sumiu. A charrete e os cavalos tão aí na minha casa. Só passei pra avisar o senhor. É bom tomar cuidado, nunca se sabe com quem estamos lidando e o senhor sempre anda por essas matas no escuro.

 “Como se eu andasse porque quisesse. Aquele borra-botas aspirante a coroinha tardio tinha me transformado em suspeito debaixo da minha fuça. Vê se pode, moleque.

 “— O senhor fique tranquilo, seu Teodoro, o que quer que seja isso, se vier pra mim, vai encontrar. 

“Só respondi isso e fui saindo para pegar a bicicleta e seguir para o trabalho.

“ — Se souber de alguma coisa, é só me falar, deve ter lobo em pele de cordeiro caçando por aí.

“Falei isso e fui tomando meu rumo.

“Trabalhei normalmente naquele dia, até 6 e pouquinho, não era moleza, não... Bom, depois do turno, peguei a barra forte e, como fazia todos os dias, rumei para casa.

“Era mais ou menos umas 15 pras 7, quando eu já tinha entrado nas estradas de terra da fazenda. O sol já tinha se posto há tempos. Era um breu só. Depois que saía da pista que ligava as duas cidades, onde poucos postes de luz clareavam o caminho, o resto era só mato, cana e escuridão. Só a lua mesmo para não aumentar a cegueira.

“Foi no cruzamento da linha do trem que tudo aconteceu. Perto de lá, na verdade. Esse cruzamento, não sei se ele ainda existe lá, ficava perto de uma igrejinha abandonada, ali tinha uma estação de trem de carga que também tinha sido abandonada.

“Eu diminuí a velocidade da bicicleta para atravessar os trilhos, quando ouvi do meio do mato, perto da igrejinha, um grito estranho e uma luz clareando a parede da igreja. Quem não é curioso, não é?!

“Deixei a bicicleta no chão e fui caminhando devagar para ver o que era.

“Eu ainda gritei se alguém estava precisando de ajuda. Mas ninguém respondeu. Chegando mais perto, vi que a luz, típica de um lampião, agora estava dentro da igreja abandonada e a porta de madeira já caindo aos pedaços começava a se fechar. Enquanto os gemidos, que, a essa altura, já pareciam bem humanos para mim, começaram a se intensificar, percebi que alguém estava jogando pedras em mim e no telhado da igrejinha. Eu me lembro que já tinha notado também pegadas de cavalo na estradinha do lado da capela e foi aí que, quase certo que estavam querendo me assustar, eu gritei:  

“— Se vocês não saírem daí agora, eu vou atirar. Eu já vi que os cavalos estão amarrados atrás da capela. É bom sair. Tunim, Bastião, tão querendo zombar de mim de novo?

“Eu não sei se eu ia atirar, só sei que o Tunim e o Bastião não quiseram pagar para ver. Tunim abriu a porta da capelinha rindo e dizendo:

— Ê, “Pequetico”, hein?... O senhor não é de emendar o bigode mesmo, não!?

“Nisso, o Bastião saiu de trás de um matagal do lado de onde estávamos, igualmente abobalhado e rindo.

“Você deve estar se perguntando se é só isso, né? (Risos irônicos.)

“Quando eu ia começar a dar uma coça neles, pela brincadeira de mal gosto, é que aconteceu uma das coisas mais sinistras que eu já presenciei, Pedrinho. Tem certeza de que quer continuar?

“— Claro, vô. Pode continuar. Eu disse, não tão certo disso.

“— Eu estava com a molesta aquele dia, já era a segunda vez que tentavam me assustar. Acho que eles pensaram que a onda de sumiços ia me fazer cair. Eu encarei as duas vezes.

“Apesar de acreditar em espíritos e coisas que não podemos explicar, até então, eu tinha uma postura cética, achava que assombrações e outros seres não apareciam assim, do nada. Mas, naquele dia, minha mãe, sua bisa, provou que estava certa o tempo todo, quando dizia que fenômenos sobrenaturais só acontecem com quem não tem medo.

“Enfim, como eu estava dizendo, eu fiquei muito irritado com eles e comecei a cuspir fogo, mas fui interrompido pelo barulho dos cavalos que estavam atrás da igrejinha. Todos nós ouvimos um relincho tão alto e ardido que o Tunim, que ainda estava parado no degrau em frente à porta, escorregou e caiu de bunda no mato. O lampião que ele segurava e ajudava a enxergar um pouco naquele breu se apagou. Os cavalos pararam de relinchar pouco antes de ouvirmos um barulho oco no chão, como se algo tivesse sido jogado na terra. Foi aí que, apesar do escuro, vimos uma criatura com cerca de 2 metros de altura sair de trás da capela segurando duas coisas, uma em cada mão; quando se aproximou de nós, vimos que as coisas eram as cabeças dos cavalos. Eu me lembro que fiquei estagnado no local, eu estava a uns 5 metros da porta da igreja, e pude ver com exatidão a hora em que o Bastião e o Tunim foram levados pela besta. Eles iam começar a correr em direção a estrada, perto de onde eu estava, quando aquilo os pegou pelo pescoço, rápido como o bote de uma serpente, e os arrastou para o meio da mata. Mal deu tempo de ouvir os gritos de socorro. Eles simplesmente desapareceram no escuro. Eu estava em choque vendo tudo aquilo, mas ainda consigo me lembrar daquele ser. Além da altura, percebi que tinha um focinho enorme e pelos negros e lisos, como os pelos de cavalo. Andava como homem, mas era muito rápido. Assim que ele saiu detrás da igreja com as cabeças nas mãos ou patas, não sei bem, ele me encarou por uns segundos, antes de soltar as cabeças e dar o bote nos meus pobres amigos. Pareciam olhos de gato, só que do tamanho dos olhos de um boi. A luz da lua foi o suficiente para que aquele brilho medonho ficasse marcado em minha memória até hoje.

“Assim que eles sumiram e o barulho parou, eu meio que retomei os sentidos. Contando pra você, hoje, eu lembro de como me senti. Era como se eu estivesse entorpecido, uma sensação de embriaguez. Lembro também que, assim que sumiram na mata, aquela sensação esquisita de dormência passou e eu puxei o revólver e fui em direção ao mato onde eles desapareceram, gritei pelo nome dos dois, mas não tive resposta. Nada podia fazer sem ajuda, sem iluminação, então fiz o que dava, peguei a bicicleta e pedalei o mais rápido que pude em direção à colônia, queria contar logo e voltar lá para tentar encontrar os dois.

“A primeira pessoa para quem contei foi sua avó. Logicamente ela ficou muito assustada e insistiu comigo para que fossemos à casa do senhor Antônio, um dos encarregados da usina; além dele, só os donos de lá tinham telefone em casa.

“Chegamos no seu Antônio, contamos a história e, apesar de desconfiado, ele ligou para a polícia e falou do ocorrido.

 “— Seu Agenor, eles disseram que vão mandar uma equipe pra cá, pediram para aguardar.

“Assim que o encarregado disse isso, fomos às casas dos dois dar a notícia às famílias. Depois resolvemos reunir os colonos na pracinha da igreja para contar tudo e aguardar a chegada das autoridades. Apesar de todos ali estarem cabreiros e me olhando torto, eu sabia, agora, que o risco era real, era melhor ficar todo mundo junto. Eu era a prova viva de que o assassino que estava amedrontando aquelas bandas não era humano, mas parecia que eu ainda precisava provar.

“Eu gritei, perguntando se estavam todos lá, e me recordo claramente de sua avó me dizendo: ‘Aí, o Teodoro da Luzia, Agenor, coitado, passou em casa de tarde pedindo para cuidar dos cavalos da tia dele e dar uma olhada na casa, pois ia ter que trabalhar essa madrugada na colheita, será que corre risco nesses canaviais aí, o menino acabou de se mudar pra cá, santo Deus?’.

“Eu, sensível como uma mula, dei de ombros. Estava meio engasgado com o sujeito pelo que aconteceu mais cedo.

“Nisso, mais umas três senhoras disseram que os maridos também estavam no batente.

“Eu disse que tudo bem, o importante era ficarmos todos juntos para evitar mais ataques e sumiços e, nesse clima esquisito e cheio de burburinhos que se formou em frente à igreja, apareceu na entrada da vila o Padre Agnaldo em seu cavalo e, bem atrás dele, o carro da polícia. O povo ficou alvoroçado e foi só ruído, mas eu, sempre desconfiado, pensei ‘estranho, não é comum ver o padre sair da colônia e ainda mais incomum vê-lo voltar tão tarde’. Àquela altura o relógio já marcava mais de 10 horas.

“Enquanto o carro da polícia se aproximava da pracinha, o padre passou com o cavalo bem perto de mim e eu notei que o pouco da manga de sua camisa branca, que estava debaixo da batina e dar pra ser vista, tinha uma mancha vermelha perto do punho. O padre Agnaldo percebeu que eu vi e, meio sem jeito, deu uma puxada na parte preta da batina pra esconder me dizendo um ‘boa noite’ fora de contexto.”

 — Caramba, vô. Como você notou isso?

 — Moleque, a essa altura eu ainda vou precisar responder isso?

“Eu fiquei quieto, só observei, cabreiro que só, a situação era estranha, mas não havia de ser nada.

“Eu sempre soube lidar bem com minhas emoções, o meu susto já tinha passado, eu já estava lidando com a coisa toda só com a razão. Tudo o que eu queria era começar logo as buscas; afinal, eles ainda poderiam estar vivos.

“Assim que a poeira começou a baixar, foi feita uma força-tarefa entre os homens da colônia e os oficiais de polícia. Eram duas equipes. Eu fiquei com a equipe que ia rastrear a parte onde eu avistei a coisa e a outra equipe iria nas matas da fazenda ao lado, onde dona Luzia tinha desaparecido na noite anterior.

“Enquanto nos preparávamos para sair, o padre se ofereceu para ficar lá, em vigília, com as mulheres e as crianças, rezando para termos sucesso nas buscas (risos). Apesar de ter ficado incomodado, eu não me opus, apenas sugeri ao seu Antônio que ficasse com mais um homem armado de guarda perto da igreja, pra evitar qualquer imprevisto. Eles consentiram e assim seguimos em direção à igrejinha abandonada.

“No meu grupo, apenas eu e o capitão César tínhamos armas, o resto dos homens estava apenas com facões.

“Já bem perto de lá, ouvimos no meio do mato barulhos de galhos se mexendo, ruídos de mato, tipo rastejo de cobra, só que mais intenso. Nós diminuímos o passo e fomos devagar em direção ao barulho, mas, de repente, tudo ficou silencioso, então paramos também para observar e procurar algo, pois alguma coisa tinha ali, o barulho parou muito abruptamente. À nossa frente, apenas umas touceiras de mato amassado e uma árvore grande. Só conseguíamos ver o que a luz de dois lampiões a gás era capaz de mostrar.

“Eu e o César já estávamos com as armas em punho quando aquele ser demoníaco apareceu de novo, Pedrinho. Ele pulou de cima da árvore bem na nossa frente. Só que dessa vez ele não parecia calculista como antes. Nessa ele urrava alto, mostrando uma fileira de pequenos dentes pontiagudos e babando. Ele tinha sangue pingando daquela fuça comprida. Mas para azar dele, eu também estava diferente dessa vez. Eu sentei o dedo nele. O César também, acho que demos uns 10 tiros no bicho. Enquanto a fera arriava nas balas, ela começou a ficar desfigurada, começou a diminuir de tamanho e a gritar como homem, mas ainda não dava pra enxergar os detalhes, pois mantínhamos certa distância, por precaução.

“Assim que aquilo caiu de vez no chão e só se ouvia uns poucos gemidos abafados, chegamos mais perto e, para nossa surpresa, quando colocamos um lampião perto daquela fuça horrenda , vimos que aquele monstro era o miserável do Teodoro... Aquele maldito ainda tentou dizer alguma coisa antes de voltar para o inferno de onde deve ter saído.

“Lembro que ele disse ‘tem mais...’. Mas nós estávamos tão eufóricos com aquilo que nem demos muita atenção, apenas seguimos, vasculhando o local para ver se ainda tinha alguém vivo por ali. Mas não. Só encontramos corpos. Num barranco perto da árvore de onde ele saltou, encontramos uma espécie de toca onde estavam Tunim, Bastião e a dona Luzia, além de outros quatro corpos de moradores da região.

“Aquilo foi indescritível. Muitas pessoas da colônia se mudaram pra cidade. Depois de algum tempo, até a usina faliu. Ninguém mais queria ficar ali. Foram uns dois anos de declínio total da região. Nós também nos mudamos.

“Mas você deve estar se perguntando sobre a mancha na camisa do padre, não é meio filho?

“Pois bem, uma semana depois do ocorrido, logo após a missa de sétimo dia dos meus amigos, eu fiquei fumando um palheiro perto da porta dos fundos da igreja, esperando o padre Agnaldo sair. A casa dele era bem ali do lado. Quando ele saiu, eu perguntei da mancha e fui além, disse que o enviado do capeta tinha dito  ‘tem mais’ antes de morrer. Ele ficou claramente incomodado.

 “— Seu Agenor, que desconfiança é essa? O que quer que esteja se passando nessa cabeça, suspeitar de um representante de Deus é pecado, homem. Não que eu lhe deva satisfação, mas pode se aquietar, naquele dia eu fui rezar a missa na capela da fazenda Santa Clara, nossos vizinhos. Na hora da comunhão, eu acabei me atrapalhando e derramei a taça de vinho na batina. Só isso. Passar bem, seu Agenor. Se o ‘tem mais’ quer dizer que tem outro monstro, ele ainda está por aí e não sou eu.

“Ele me disse isso e foi virando as costas em direção a sua casa.”

 — Mas, vô... O senhor foi na fazenda Santa Clara perguntar se ele estava realmente rezando a missa lá naquele dia?

Quando meu avô ia começar a responder, a luz voltou e ele me disse:

— Fui, meu filho, mas essa história vai ficar pra outro dia. 

 

Share:

ATAQUE A MÃO ARMADA - Arthur Conan Doyle - Conto Clássico de Crime e Mistério



ATAQUE A MÃO ARMADA

Arthur Conan Doyle

 

Disse a verdade, somente a verdade, quando me prenderam, mas ninguém quis acreditar. Tornei a dizê-la, não sei quantas vezes, durante o processo, repetindo, com absoluto respeito à verdade, tudo quanto se passara, sem alterar um gesto ou uma palavra  minha, um gesto ou uma palavra de lady Mannering... E de que adiantou? Nada. Os jornais me acusaram de ter feito declarações "voluntariamente incoerentes, inadmissíveis nos detalhes, sem ao menor a sombra de uma prova". Mas eu juro que disse o que sei, vi e ouvi sobre esse assassinato, do qual sou tão inocente quanto qualquer dos jurados que me julgaram.

Agora, só me resta o recurso desta petição ao rei, e eu a faço, pedindo a Deus, unicamente, que ela seja lida. Depois, façam  a investigação que lhes pedi. Informem-se sobre o caráter de lady Mannering,  verifiquem se ela conserva o nome com o qual tive a desgraça de conhecê-la. Confiem essa investigação a um homem imparcial e não tardarão a saber o bastante para convencê-los. Lembrem-se de que o crime só aproveitou a essa pessoa. Eu lhes ofereço o fio condutor. Sigam-no e verão onde ele os levará.

Notem bem. Não protesto contra a acusação de roubo; nada reclamo contra a verdade. Eu pratiquei — confesso — um roubo, um assalto, mas um assassinato, não. Se não houver outro remédio, cumprirei minha pena de prisão perpétua, mas, ainda que viva cem anos, hei de protestar, até o último dia de minha vida, contra essa acusação.

Vou explicar — desta vez, por escrito — tudo quanto se passou.

Eu tinha passado todo o verão em Bristol, em busca de trabalho. Um dia, fui informado de que poderia encontrá-lo em Portsmouth, porque sou um bom mecânico. Pus-me a caminho, a pé, pelas estradas do Sul da Inglaterra, fazendo biscates aqui e ali, para meu sustento. Juro-lhes que fiz o possível para só ganhar dinheiro honestamente, porque acabava de cumprir uma pena de um ano, por furto, e não tinha o menor desejo de voltar para um presídio. Mas só Deus sabe como é difícil a um homem obter trabalho compensador quando se tem na carteira de identidade a nota de que já esteve preso como gatuno! O mais que eu conseguia era não morrer de fome. Por fim, depois de ter passado dez dias trabalhando como lenhador, por um salário de fome, cheguei aos arredores de Salisbury, com dois xelins num bolso, e a paciência esgotada. Procurado um lugar para dormir, entrei em uma hospedaria modestíssima e tratei um leito para uma noite. Alegando já ter jantado, pedi apenas uma botija de cerveja e me sentei na sala principal do albergue para fumar um cachimbo, antes de me deitar.

Como eu era o único hóspede, nessa noite, o dono da casa, que era conversador, veio se sentar à minha frente e começou a desfiar tudo quanto sabia sobre os arredores e seus habitantes. E eu o ouvi sem grande interesse, até o momento em que ele falou nos tesouros de Mannering Hall.

Perguntei:

— É aquela grande construção, à direita da estrada, antes de chegar à aldeia? Uma casa cercada por um grande parque?

— Não há outra com essas proporções, na região. É toda branca, com umas colunas na fachada.

Eu a tinha observado ao passar e chegara a dizer a mim mesmo que não devia ser difícil entrar em uma casa assim. Tratara logo de afastar essa ideia de meu cérebro e, agora, vinha aquele homem me tentar com a enumeração de suas riquezas e a descrição de seu proprietário.

— Imagine — dizia ele — que eu ainda era moço e ele já tinha a cabeça grisalha... Pois assim mesmo, graças à sua fortuna, casou-se com uma moça bonita... Uma espécie de beldade.

 

— Ah, os ricos podem tudo! — observei maquinalmente.

O hospedeiro suspirou, reacendeu o cachimbo e disse, com uma espécie de suspiro:

 — Dizem uns que era uma mera atriz principiante; outros dizem que era uma simples datilografa... Coitada! Provavelmente, sujeitou-se a casar com um velho, pensando que ele ia lhe dar uma vida de grande luxo, em Londres, exibi-la na melhor sociedade, levá-la a festas, teatros... Pois, sim!... Mal se casou, lord Mannering veio se meter aqui e a infeliz vive neste buraco, sem ver ninguém e passando até privações, porque o velho é de uma avareza sórdida. Ainda ontem, Stephens, o mordomo da casa, me disse que a pobre lady é privada até de gulodices baratas,  que comprava em Londres.

— E é rico, esse miserável?

— Riquíssimo. Só o que ele tem em casa vale uma fortuna, sem contar navios, propriedades na Irlanda, e na Escócia, títulos de renda.

Esses pormenores não me interessavam. Agora, eu estava ansioso por saber o que haveria em Mannering Hall, algo fácil de carregar e com valor real, que não desse muito trabalho para passar adiante.

Apólices, papéis... Para longe! Ouro, joias, que se podem derreter... Fale-se nisso. Pois sabem em que me falou aquele homem? Na coleção de medalhas que lord Mannering levava não sei quantos anos organizando e era seu maior orgulho.

— Passa por ser a mais valiosa do mundo — continuou o albergueiro. — Chegam a dizer que se as pusesse todas em um saco, o homem mais forte de Salisbury não será capaz de levantá-las.

Não estou inventando uma história. Estou contando o que se passou. É possível imaginar maior tentação? Eu estava, ali, deitado em uma casa inconfortável, sem recursos, sem saber o que seria o dia de amanhã. Tinha me esforçado para ser honesto; os homens honestos tinham-me voltado as costas. A pretexto de que eu furtara uma vez, negavam-me trabalho; negavam-me todos os meios para voltar a uma vida decente. E, de repente, aparecia diante de mim, por assim dizer, ao alcance de minha mão, uma casa cheia de janelas e de medalhas de ouro, tão fáceis de vender... Resisti apenas um momento e deitei-me fazendo um juramento solene a mim mesmo: se tivesse êxito, eu renunciaria para sempre ao crime.

Desci da cama sem rumor, vesti-me e saí pela janela, certo de que voltaria antes do amanhecer, sem que ninguém tivesse dado por minha ausência.

O muro era alto; tinha mais de três metros... Mas eu sou ágil. Do outro lado, o parque mal tratado não apresentava obstáculos. Havia, junto do aparatoso portão, um pavilhão de guarda, mas parecia desabitado. O luar, embora fraco, era suficiente para me deixar ver a casa, muito branca, sob a abóbada das árvores centenárias.

Fiquei um momento imóvel, de joelhos, em uma espécie de vala, procurando com o olhar o ponto de acesso mais fácil e seguro. Em pouco, dei minha preferência a uma janela de canto, do lado esquerdo, porque era a mais obscurecida pela sombra das árvores e, portanto, a menos visível das outras janelas. Aproximei-me devagar. Um cão latiu e agitou a corrente a que estava preso.

Suspirei resignado. Quanto tempo seria preciso esperar para que ele se acostumasse à minha presença e se aquietasse? Há cães que ficam latindo uma hora, hora e meia. Este, porém, se aquietou logo, como se alguém o houvesse tranquilizado. Mais tarde, vim a saber que assim fora, porém, naquela noite, eu estava tão cego pela ambição das medalhas de ouro que não estranhei as facilidades que encontrava.

O fecho da janela era infantil. Com um pedaço de arame, que trouxera e a lâmina de minha faca de bolso, não precisei de grande esforço para abri-la.

Afastei os dois batentes, cautelosamente, com receio de algum rangido indiscreto, e pousei silenciosamente os pés sobre o soalho, já no interior do edifício. Imediatamente, uma voz abafada, mas bastante nítida, murmurou, junto de mim:

—Boa noite. Seja bem-vindo.



Já tenho passado por muitos sustos em minha vida, mas nenhum comparável a este. Voltei a cabeça, trêmulo, enregelado e vi, de pé, junto da janela que eu abrira e, semioculto por ela, o vulto de uma mulher... Quando meus olhos se acostumaram àquela meia luz, vi que era mulher jovem e bonita. Seu rosto muito pálido tinha uma regularidade de estátua, emoldurado por cabelos escuros e ondeados. Estava vestida com um robe que lhe ia até os pés e parecia tão comovida como eu, mas eu sentia principalmente medo: um verdadeiro pavor fazia me tremerem os joelhos.

Não lhe dei as costas e  não fugi porque nem para isso tive forças. Meu pavor era tão visível que a misteriosa mulher sorriu, antes de dizer:

— Não tenha medo. Eu o vi da janela de meu quarto, quando ainda estava galgando o muro. Então desci e ouvi-o forçar a janela. Eu a teria aberto, se me tivesse dado tempo.

Dizendo estas palavras, fechava a janela e puxava-me por um braço. Era demais. Desvencilhei-me com um movimento brusco e, voltando para ela a ponta da faca, que conservara na mão direita, repelia-a brutalmente com a esquerda, dizendo, com voz ameaçadora:

— Não estou gostando disso! Tem todo o aspecto de uma armadilha.

Ela me respondeu, com voz igualmente abafada e na qual havia um ardor febril:

— Não. Não penso em traí-lo. Ao contrário. Se pudesse ajudá-lo...

— Ajudar-me? — repeti, com espanto. — Mas a senhora não é ?...

Hesitei e ela mesma disse:

 —Sim. Sou lady Mannering, mas tenho razões para...

Lembrei-me da narração do hoteleiro e compreendi: lady Mannering odiava o marido a ponto de desejar vê-lo desesperado por um roubo. Queria feri-lo nos pontos mais sensíveis: o bolso e o orgulho. Suas coleções... Se as encontrasse saqueadas... Detive-me, fixando a lady.

Já tenho detestado algumas pessoas neste mundo, mas nunca havia compreendido o que é ter ódio, antes de haver contemplado o rosto de lady Mannering naquela noite.

Meu olhar exprimiu com demasiada clareza o que eu pensava porque ela de novo me segurou por um braço, murmurando:

— Compreendeu? Eu vivo ansiosa por auxiliar todos quantos quiserem fazer mal a esse homem. O senhor, provavelmente, veio atraído por suas medalhas... Não conseguiria deitar-lhes a mão, sem meu auxílio... São protegidas por vários aparelhos de segurança, que só ele e eu conhecemos... porque eu o tenho espionado.

Eu hesitava ainda.

— Venha — insistiu, com uma espécie de impaciência. — Afirmo-lhe que nada tem a temer. Os criados dormem do outro lado do edifício. Os objetos preciosos estão aqui perto.

Empurrou uma porta.... outra, mais outra e, detendo-se no limiar, acendeu um coto de vela, que trouxera escondido.

—Há tanta coisa aqui que vai ser preciso escolher — ciciou a meu ouvido. — Trouxe um pano, um saco... qualquer coisa?

— Não, senhora. Não me lembrei.

À luz do coto de vela, vi que estava em uma sala bastante longa, de teto baixo, com o assoalho coberto por tapetes de valor. Junto das paredes e alinhadas no meio da sala, havia dez ou doze vitrines. As paredes estavam ornadas com armas antigas. Lady Mannering foi até um divã, colocado junto da porta, apanhou uma almofada de seda espessa e disse-me:

— Corte um lado com a faca e terá um saco digno do que vai levar.

A meu ver, o saco era demasiadamente grande, difícil de ocultar debaixo do cinto... Mas eu não podia discutir com uma mulher, que estava, ela mesma, me ajudando a saquear sua própria casa. Havia momentos em que eu tinha a impressão de estar sonhando.

Entretanto, sem dar atenção às "vitrines" daquela sala, lady Mannering abrira a porta da seguinte, que era menor e onde as "vitrines" continham a famosa coleção. Sem dar por isso, adiantei-me, deslumbrado. Lady Mannering deteve-me:

— Não seja tolo. Medalhas... só poderá aproveitar o ouro, e ainda assim, com enorme desconto... Lá em cima — continuou ela, baixando ainda mais a voz — há coisa melhor. Dinheiro em moeda corrente. Esse homem tem a mania de guardar sempre consigo grande quantia em ouro... libras esterlinas...

— Onde as guarda?

— Em uma maleta, que esconde em diversos lugares, variando constantemente... Esta noite, está em seu próprio quarto, metida entre a cabeceira da cama e a parede... Venha.

— Não. Nada disso — protestei com energia. — Entrar no quarto, com o homem lá dentro?... Deus me livre!

— Que tem isso? — perguntou a lady, com um sorriso de mofa.

— Ora, que tem? E se ele acorda?

—Tem medo de um velho? Pensei que você fosse um homem.

Falava-me tom tal rispidez e havia em seu olhar furor tamanho que comecei a compreender o intuito infernal daquela criatura. E, trêmulo, com uma sensação de gelo no peito, balbuciei:

— Não... não. Já tenho roubado, muitas vezes, mas matar... Nunca. Não quero ficar com esse remorso.

Lady Mannering encostou-se à parede, com uma expressão em que havia furor, desprezo, impaciência.

— Quem falou em matar alguém? Então, não há mil meios de imobilizar um velho, sem matá-lo? Você, com todos esses escrúpulos, devia ter escolhido outra profissão. Mas seja feita sua vontade. Eu já lhe disse... O que desejo é gozar a fúria impotente de meu marido, quando descobrir que foi roubado. E.. espere! — exclamou ela, de repente, como se tivesse outra ideia. — Em parte, é melhor. Ele ficará mais desesperado, dando por falta de suas queridas medalhas do que de libras comuns. Vamos tirar essas preciosidades. Comece por essa "vitrine". Para o senhor, tanto valem estas, como outras quaisquer... Porém, estas são mais raras. Para ele, sua perda será mais sensível. Oh! Não é preciso forçar a fechadura. É bastante apertar esse botão de cobre, que aciona uma mola secreta.

Abrira uma das "vitrines" e eu começava a recolher os discos luzentes, quando lady Mannering ergueu uma das mãos, com uma expressão de susto, murmurando:

— Silencio!

Imobilizei-me também e ouvi um rumor surdo, regular. Rumor de passos. Lady Mannering fechou rapidamente o móvel.

— Meu marido... — ciciou ela. — Não se assuste. Eu arranjarei tudo.

Empurrou-me para trás de um reposteiro e, iluminando-se com seu coto de vela, passou para a sala de onde viéramos. Embora escondido, eu podia vê-la, de pé, curvada para uma" "vitrine", com toda a aparência de uma pessoa que está absorta pela contemplação de coisas maravilhosas

Os passos se aproximaram e, empunhando um revólver, lord Mannering apareceu, na meia luz da vela. Só então, a lady ergueu a cabeça e teve a expressão de uma pessoa surpreendida.

— Que está fazendo aí? — perguntou ele, com voz severa. — Quando perderá essa mania de andar pela casa, alta noite, como um fantasma?

Era alto, seco, tinha o nariz adunco, o rosto flácido e seu olhar cintilava com uma fixidez irritante por traz de óculos de ouro muito finos. Lançou em torno de si um olhar circunspecto e continuou:

—Mas, certamente, não foi você quem tocou o sinal de alarme, na sala 2... Oh! A porta está aberta... Foi você quem a abriu?

Adiantou-se rápido. Nesse momento, com enorme susto, eu notei que deixara minha faca em cima da "vitrine" mais próxima. Lady Mannering também deu por isso e, com admirável sangue-frio, colocou a vela entre esse móvel e os olhos de seu marido.

Este curvara-se para outra "vitrine", verificando se o fecho estava perfeito. A lady deu mais um passo. Envolveu a mão direita com uma ponta da longa manga de seu robe, empunhou a faca e, antes que eu pudesse adivinhar seu intuito, cravou-a duas ou três vezes nas costas do marido.

Ele caiu, voltando instintivamente para se defender e ela de novo o feriu com energia furiosa.

Eu fiquei um momento petrificado pela surpresa, pelo horror. Depois, recobrando um pouco de minhas faculdades, só tive uma ideia: fugir, desaparecer.

Dei um salto desatinado. Esbarrei em uma das delicadas "vitrines", atirando-a ao assoalho. O ruído de cristais partidos e de objetos de metal, chocando-se uns  com os outros, ainda mais me assustou. Corri para a janela, que ficara encostada, saltei para o jardim e fui detido por um grito de uma estridência inverossímil, grito de histérica, de louca:

— Socorro!

Era lady Mannering quem gritava. Atônito, alucinado, precipitei-me para o muro... Mas estava cego pelo terror. Não encontrei o lugar onde a caliça gasta pela água da chuva deixara vários tijolos descobertos, facilitando minha escalada. Perdi um tempo precioso, correndo ao longo do muro e ouvindo os gritos ululantes, capazes de despertar um morto:

— Socorro! Assassino!

Foi preciso que os criados, despertados por aquele clamor, soltassem o cão para que eu ganhasse o ímpeto necessário e atingisse, num salto, a orla do muro.

Já alguns vizinhos começavam a aparecer na estrada: mas eu não tinha alternativa diante de mim. Deixei-me cair do muro, saltei a cerca da propriedade fronteira e atravessei um jardim, com a esperança de me perder no labirinto de quintais e hortas da aldeia. Tempo perdido. Havia já dois cães entre meus perseguidores. Não há desvio ou rodeio que engane esses animais. Quando eu tentava passar diante de uma quarta ou quinta casa, fui alcançado.




Aí está. Foi isso o que se passou, e o que eu mais admiro — mais do que o plano infernal com que essa mulher se livrou do marido e a rapidez, a habilidade com que realizou esse plano —, mais do que tudo, eu admiro seu talento de atriz, de cinismo com que me acusou, as atitudes de surpresa, e indignação com que ouviu meus protestos.

Essa moça, bonita, rica, com todo aspecto de uma vítima. Eu maltrapilho, fichado pela polícia como ladrão.

Fui eu o condenado.

 

Tradução de autor desconhecido. 

Ilustração: Sidney Paget.

Fontes: “Eu Sei Tudo”, edição de janeiro de 1940; “Excelsior”, edição de 15 de agosto de 1944. 



Share:

A MORTE DO VELHO MENDIGO - Conto Clássico Cruel - Autor Anônimo do século XIX



A MORTE DO VELHO MENDIGO

Autor anônimo do século XIX

 

À porta de uma das igrejas de Paris, um velho mendigo, conhecido pelo nome de Jacques, vinha todos os dias, há muitos anos, sentar-se em um dos degraus do templo e receber a esmola.

Era triste e sombrio, quase nunca falava, e apenas inclinava a cabeça quando lhe davam alguma coisa. Por entre os andrajos que o cobriam, via-se pendente, ao peito, uma cruz dourada.

 Celebrava habitualmente nesta igreja um jovem eclesiástico chamado Paulin de ****, que nunca deixava de dar esmola ao pobre Jacques. Pertencendo a uma rica e nobre família, Paulin consagrara-se a Deus no sacerdócio, e espalhara todos os seus haveres pela pobreza. O velho Jacques, embora não o conhecesse, gostava muito dele.

Um dia, porém, o padre Paulin não viu no local de costume o pobre mendigo e, como observou esta ausência se prolongava, começou a inquietar-se com o destino do seu velho protegido, e tratou de saber onde ele morava para visitá-lo.

Um dia, depois de haver celebrado a santa missa, dirigiu-se à morada de Jacques.

Subiu uns poucos de lanços de escada e bateu à porta de uma mansarda. Uma débil voz lhe respondeu que entrasse.

O padre deu logo com Jacques. O mendigo estava deitado num pobre colchão de palha, doente, pálido, e a vista quase apagada...

— Ah, é o senhor, padre? — disse ele ao bom sacerdote, quando o viu. — É muita bondade sua visitar um miserável como eu, que não sou digno da sua visita.

— O que está dizendo, meu bom Jacques? — respondeu o Padre. Não sabe que o padre é o amigo dos desamparados? E, além disto — acrescentou ele, sorrindo —, não nos conhecemos há tanto tempo?

— Oh, se o senhor soubesse, padre... Se me conhecesse verdadeiramente, certamente não me falava assim. Não me fale com bondade. Sou um miserável amaldiçoado de Deus.

— Amaldiçoado de Deus?! Está certo disso? Ah, meu pobre Jacques, não fale assim. Se você tem feito mal, arrependa-se. Confesse. Ao contrário desse pobre pároco, Deus é a suma bondade. Ele perdoa tudo àquele que se arrepende e lhe pede perdão.

 — Mas a mim, não há de perdoar".

— E por que não? Não se arrepende de seus pecados?

— Se me arrependo!... — exclamou Jacques, com os olhos esgazeados, fazendo esforço para se sentar. — Se me arrependo!... Oh, arrependido estou eu há trinta anos, mas, ainda assim, sou amaldiçoado por Deus.

O bom padre procurou consolá-lo e animá-lo, mas foi em vão. Um mistério terrível estava escondido no fundo daquele coração, e a desesperança obstava a que o criminoso revelasse o seu crime.

O desgraçado Jacques, vencido finalmente pela doença e pela bondade do padre Paulin, decidiu revelar-lhe o seu segredo e, meio sufocado, proferiu as seguintes palavras:

— Eu era o mordomo do palácio de uma família rica quando rebentou a sanguinolenta revolução de 1789. Os senhores, a quem eu servia, eram a bondade personificada. O senhor conde, a senhora condessa, suas duas filhas e seu filho... Devia-lhes tudo, a minha posição, a minha educação, as comodidades de que eu gozava. Quando veio essa espantosa revolução, atraiçoei-os a todos. Estavam escondidos, e eu sabia onde... Denunciei-os para ficar com os seus bens, que eram prometidos aos denunciantes... Todos foram condenados à morte, exceto Paulin, que era um dos filhos., ainda muito pequenino...

O padre soltou, involuntariamente, um grito, e um suor frio lhe cobriu todo o rosto.

— Meu padre — continuou o velho mendigo, que não tinha dado pela emoção do seu confidente —, meu padre, isto é horrível... Ouvi condená-los à morte... Vi cair-lhes as cabeças sob o cutelo do carrasco. Sou um monstro, meu padre... Desde então, não tive mais sossego. Tenho passado a vida a chorar e a pedir por eles... Estou sempre a vê-los ali, diante de mim. Olhe, eles já estão detrás daquela cortina...

E, dizendo estas palavras, Jacques apontava com a mão trêmula para a cortina que ocultava a parede.

— Esse crucifixo, que aqui vê à minha cabeceira, era o do senhor conde; esta pequena cruz de ouro, que trago ao peito, era a que a senhora trazia sempre consigo. Oh, meu Deus, que crime, que horror... que arrependimento! Senhor padre, tenha compaixão de mim! Não me despreze! Peça a Deus pelo mais criminoso e mais desgraçado dos homens...

O padre estava de joelhos, junto da cama, pálido como um morto. Conservou-se imóvel cerca de meia hora imóvel. Depois, erguendo-se tranquilamente, fez o sinal da cruz e, levantando a cortina da parede, deu com dois retratos.

Jacques deu um grito quando os viu, e caiu desfalecido sobre a cama.

O padre estava chorando e, com uma voz trêmula, disse para Jacques:

— Deus está comigo para perdoá-lo.

E, sentando-se ao pé da cama, confessou o velho Jacques.

Acabada a confissão, proferiu o sacerdote as seguintes palavras:

— Jacques, Deus acaba de perdoar-lhe os pecados... Mas... ainda não é tudo... Devo dizer-lhe que você matou o meu pai, minha mãe e minhas irmãs.

Impossível descrever a impressão produzida por estas palavras no espírito do velho mendigo. Devia perdão não apenas a Deus, mas também àquele bom padre. Tentou articular algumas palavras, mas não conseguiu. Com extremo esforço, implorou o seu perdão com um olhar ansioso, quase desesperado, e um leve aceno de cabeça.

— Deus lhe perdoou; mas eu, não — disse o padre, secamente.

Depois, puxou-lhe o travesseiro puído e, com ele, lentamente o asfixiou.

 

Texto adaptado de autor e tradutor desconhecidos. Fontes: “Nouvelles Étrernes Fribourgeoises”, Fribourg, Suíça, 1869 e “Excelsior”, São Paulo, edição de outubro de 1944. 


Share:

VINGANÇA- Conto Clássico de Horror - Humberto de Campos



VINGANÇA

Humberto de Campos

(1886 – 1934)

 

Quando o caboclo Amâncio tomou por arrendamento as últimas quatro estradas de seringueiras do major Nataniel, Francisco das Chagas, cearense chegado há três anos do Canindé, já se achava estabelecido nas quatro outras que lhe ficavam vizinhas, e que faziam parte, todas, do seringal "Bom Sucesso". As madeiras que ele ia sangrar haviam descansado dois cortes e deviam dar bastante leite naquele verão. Essa vantagem ia custar-lhe, todavia, duplo trabalho inicial, com a limpa dos vãos obstruídos pela vegetação, e com a construção de outra barraca, por haver tombado, já, transformando-se em um monte de palha podre, aquela em que vivera o seu antecessor. Levantá-la-ia, entretanto, no mesmo lugar, para aproveitar o porto e os pés de cará, tornados selvagens pelo abandono. Dois dias de foice, desbastando os arbustos novos, poupar-lhe-iam quatro semanas de machado.

Ao fim de uma quinzena, quando as chuvas deixaram de fustigar a floresta, e o rio começou a baixar, estava o Amâncio na sua barraca de bossu e paxiúba[1], cujas paredes e cobertura de palha nova a transformavam, quando batida de sol, em uma caixa de ouro, arrepiada de arabescos bizarros. Amarrada à frondosa e torta gameleira do porto, a "montaria" dançava ao sabor da correnteza e do vento, afrouxando e esticando a corda. E na barraca, ou no terreiro, a Mariana, cantarolando ininteligivelmente o dia todo, e a encher com a sedução bárbara do sexo aquele verde palmo do Deserto.

A mudança, do seringal "Maranguape" para o "Bom Sucesso", a que se abalançara o Amâncio, fora involuntariamente causada pela rapariga. Legitimamente casada, por um padre em desobriga, com o velho índio Martinho, ficara, quando este morreu, em mãos do mulato Isidoro, que assumira perante o coronel Dondon, proprietário das estradas que o índio ocupava, a responsabilidade da dívida do defunto. Quando o mulato foi assassinado pelo preto Leôncio, o coronel Dondon recolheu a rapariga ao barracão, como garantia da conta do finado. E como ele, Amâncio, possuía saldo na casa, ficou com a Mariana, e, para evitar a continuação das relações estabelecidas entre ela e o coronel, encerrou as suas transações com este, e mudou de patrão, levando a cabocla.

Mariana não era, positivamente, nem bonita, nem moça. Índia de raça pura, era gorda, e baixa, com a mesma largura nos ombros e nos quadris, e devia andar pelos quarenta anos. O rosto redondo, sombreado e gorduroso, apresentava uma testa estreita, coroada de cabelos lisos e luzidios, que lhe desciam até à cintura. Tinha nariz chato, e olhos pequenos e negros, ligeiramente convergentes. A boca, de tamanho regular e lábios finos, deixava em exposição, quando ria, as gengivas arroxeadas, em cuja orla corria uma fieira de dentes pontiagudos, cortados em bico de serra. Vestia, quase sempre, por gosto hereditário, saia e casaco de chita vermelha, os quais, anunciando-a de longe, davam a impressão de um guará de penas rubras, pousando na proa das "montarias" ou pescando à beira do rio. Não tinha beleza nem graça. Mas era mulher, naquelas regiões em que há uma para dois mil homens, e, só por isso era desejada, e, por ser desejada, vivia contente, exprimindo o seu contentamento em melopeias, cujas palavras só ela entendia.

Achava-se o Amâncio instalado, já havia uma semana, na sua barraca nova, quando, uma tarde, o Chagas passou pelo seu porto, remando sozinho. A Mariana estava à margem do rio, de cócoras, lavando roupa, e, como de costume, cantarolando para si mesma. A saia, arregaçada até os joelhos, deixava à mostra as pernas morenas e grossas, iguais e sólidas como dois toros de madeira cortados no mesmo tronco. Ao defrontar o porto, levou o cearense a mão ao chapéu de carnaúba, em sinal de respeito. A cabocla respondeu ao cumprimento, e continuou a esfregar a roupa, mas sem olhar para o sabão. O jacumã do seringueiro roncou forte, rasgando a água. E quando a "montaria" do Chagas desapareceu na curva do rio, em que as margens eram dois muros de vegetação compacta, Mariana ainda esfregava o mesmo punho de camisa. Os seus olhos tortos acompanhavam o remador como dois novelos de linha preta cujas pontas se achassem amarradas à popa da embarcação, a qual, na sua marcha, os fosse pouco a pouco desenrolando.

Nessa tarde, até à noite, Mariana não cantarolou mais. No dia seguinte, porém, ao entardecer, passou a cantar alto, sentiu-se mais contente do que dantes. Soturno e desconfiado, o Amâncio, em quem não haviam desaparecido ainda a agudeza e perspicácia do selvagem primitivo, não custou a adivinhar o que se passava nas horas em que se achava ausente. Rara era a tarde em que não descobria, na ribanceira do porto, marca de uma proa de "montaria". E rara, também, a em que não encontrava a chaleira quente, com os vestígios de que, pouco antes da sua chegada, se tinha feito café. E se os olhos não lhe dissessem essas coisas, a alma lhe teria dito outras equivalentes, pois que, ao chegar à barraca, não encontrava mais as mesmas carícias gulosas, os mesmos abraços vibrantes de animalidade. Antes de descobrir os passos do Chagas na areia molhada do seu porto, ou a terra frouxa do seu terreiro, já o caboclo os havia adivinhado no coração de Mariana. O coração das mulheres que amam em segredo e pecado é como os troncos que têm abelhas: basta que alguém lhes chegue o ouvido para escutar a zoada lá dentro.

Dias depois dessa descoberta, o Amâncio começou a aproximar-se, com boas maneiras, do Francisco das Chagas. Ao encontrá-lo no rio, parava de remar, detinha a marcha da "montaria" e, cofiando no queixo a barbicha escura e rala, punha-se a conversar sobre o tempo, sobre o rendimento das seringueiras, ou sobre a queda crescente do preço da borracha no barracão, dando sinais inequívocos de que lhe era agradável a sua camaradagem. Convidado por mais de uma vez, o cearense começou a frequentar a barraca do Amâncio, com a presença deste, que se mostrava sempre comunicativo e obsequioso, servindo-lhe, conforme a demora, uma xícara de café ou um gole de aguardente. Até que, um dia, ficou combinada entre os dois aquela "espera" aos veados no igarapé dos Mutuns.

— Você vem mesmo, homem de Deus? — indagou o caboclo, como quem duvida.

— Venho, "seu" compadre; eu já não disse? Só se Deus Noss'enhor e São Francisco das Chagas do Canindé não quiserem.

E tocou no chapéu, num sinal de devoção.

Ao entardecer do dia aprazado, armado cada um com o seu rifle e levando a tiracolo a corda com que deviam trazer a caça graúda, meteram-se ambos na "montaria" do Chagas e penetraram, meia légua rio acima, no estreito caminho d’água, remando com lentidão. A floresta começava a mergulhar na noite, e parecia em êxtase para esse mistério. A quietação era absoluta. Ouvia-se o estalar dos ramos secos, a queda dos açaís maduros no espelho d’água, e o ruído dos jacumãs, ferindo a superfície lisa do igarapé. Há uma hora de transição, na selva, em que os animais do dia já se recolheram e em que os da noite ainda não estão acordados. Hora de trégua; hora de armistício dos seres e das coisas selvagens. E era essa hora que soava no relógio imenso da Natureza quando o Chagas e o Amâncio encalharam a "montaria" numa sapopemba[2], e percorreram os cem metros que os separavam da árvore em cuja fronde se deviam esconder, à espera dos veados que aí vinham comer as frutas miúdas caídas durante o dia. Só um pouco mais tarde, com o aparecimento da primeira estrela, os sapos romperam com a sua orquestra, enchendo a noite de milhões de vozes confusas, como se todos os troncos, todos os galhos, todas as raízes, todas as folhas, se transformassem de súbito em bárbaros instrumentos musicais.

Vencendo a vegetação rasteira e luxuriante das terras baixas e quase alagadas, chegaram os caçadores a um lugar mais alto, onde um bacurizeiro erguia a fronde elegante no meio de outras árvores de porte menor, cujo fruto era particularmente procurado pelos veados da região. Subiram, o Amâncio primeiro, o Chagas em seguida. Escolheram, para refúgio, um galho alto e sólido, aberto em forquilha e afogado em folhagem densa de outra árvore que invadia, com as suas ramagens, a sombra do bacurizeiro. E a escuridão envolveu tudo, aumentando os rumores circunstantes.

Escachados no galho escolhido, os dois caçadores trocavam apenas uma ou outra palavra. Sentia-se, porém, que um e outro estendiam por longe os fios do próprio pensamento, à semelhança de cigarras que lançassem o canto através do espaço, levando-o a distâncias que desconhecem. E o pensamento do nordestino errava, às vezes, tão distante dali, que ele nem se apercebia do movimento leve das mãos do companheiro, o qual acabava de amarrar uma das pontas da sua corda ao galho da árvore, e começava a experimentar, entre as folhas, um laço corredio e seguro, que havia na outra extremidade.

Noite alta, já, escutaram, os dois, o urro de uma onça, do lado oposto ao igarapé. E logo duas brasas esverdeadas se acenderam na treva. Duas outras fulgiram, pouco atrás. E a selva como que se calou apavorada, com a presença dos felinos sanguinários e hostis. Aproveitando a atenção com que o companheiro perscrutava a escuridão ameaçadora, o Amâncio aproximou-se dele e, docemente, passou-lhe por um dos pés, apertando-o de leve, o laço que havia feito na corda. De súbito, reunindo toda a sua força nos braços, o caboclo levou as mãos ambas aos peitos do cearense, lançando-o fora do galho. Um berro de surpresa e de dor alarmou a solidão, a corda esticou num estalo, o bacurizeiro estremeceu sacudido, e um corpo ficou bailando no ar, no escuro, a pouco mais de dois metros acima do solo. Ao grito apavorado e apavorante do homem, as onças fugiram, espantadas, em saltos elásticos, entre o estrépito seco de galhos e cipós rebentados na passagem.



— Ai!... Ai!... Ai!... Amâncio... Pelo amor de Deus... me salve!... Ai!... ai!... Amâncio, por que você fez isso?... Que é que eu lhe fiz, Amâncio .... Ai, meu São Francisco do Canindé!...

Quieto, o caboclo conservou-se calado. Os dois rifles, que se achavam entre a folhagem, estavam nas suas mãos. Podia descer, e ir-se embora; a sua vingança ainda não estava, entretanto, terminada. O Chagas soltou alguns gritos estrangulados, pedindo socorro. Compreendendo, porém, a inutilidade desse esforço naquela solidão em que o homem era a mais estranha das sombras, voltou a gemer, espaçadamente. Estava de cabeça para baixo e, com o deslocamento da perna, impossibilitado de alcançar a corda com as mãos, para salvar-se. E gemia há mais de uma hora quando luziram, de novo, a treva, os olhos da onça. Chagas gritou, para afugentá-la; mas a ameaça, em vez de amedrontar, incentivou o felino, que marchou, agachando-se, na direção do bacurizeiro. Outras onças urraram perto. Seis, oito, dez olhos verdes luziram na escuridão. De súbito, a primeira onça deu um salto, alcançando com os dentes e com uma das patas o corpo do seringueiro. Um grito de terror e de angústia espalhou-se pela mata. Mas as feras não fugiram. Pelo contrário, acorreram em bando, como se tivessem adivinhado, pela voz estrangulada da vítima, que ela estava sem defesa. E foi horrível, então, o que Amâncio presenciou, ou, antes, percebeu, imóvel, do seu esconderijo. As onças, em saltos enormes, disputavam os pedaços da carne do Chagas. Numa dança de corpos que se chocavam no ar, e de urros de raiva, estraçalhavam elas, no espaço, os membros do seringueiro. O galho em que se achava o Amâncio era sacudido, abalado pelas feras, quando estas alcançavam a corda, nos seus saltos rápidos e seguros, que se cruzavam na sombra. Segurando-se para não cair, o caboclo ouvia a queda do sangue na terra, como de um pote pequeno cuja água se derrama. Em certo momento, a corda parou de esticar, e o galho de ser agitado pelos felinos. Arrastando membros inteiros para as moitas próximas, as onças devoravam, rosnando, os pedaços que haviam arrebatado umas às outras. O Amâncio ouvia, perfeitamente, o roer dos ossos. Ao fim de algumas horas, os sapos deixaram de coaxar. As onças, satisfeitas, afastaram-se, para beber e dormir. A selva aquietava-se, como se lhe passassem a mão pelo imenso dorso verde, numa grande carícia voluptuosa. Uma claridade tênue varou as folhas. Pipilou o primeiro pássaro. Outros responderam. Com os dois rifles a tiracolo o Amâncio desceu do bacurizeiro. Ao chegar em baixo, olhou a corda.

Da extremidade desta, preso pelo tornozelo, pendia, sangrento e sujo, esfiapando as cartilagens, o pé esquerdo do Chagas, cuja roupa, reduzida a farrapos estraçalhados e sangrentos, jazia espalhada em torno, entre folhas machucadas e empapadas de sangue, de mistura com fragmentos de carne e pedaços de ossos roídos.

 



[1] Espécies de palmeira.
[2] Raiz que se desenvolve a partir dos troncos das árvores.

Share: