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O OUTRO LADO DO ESPELHO - Conto de Terror - David Machado Santos Filho

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O OUTRO LADO DO ESPELHO David Machado Santos Filho Um rosto me encarava do outro lado do espelho. Não era o meu... Pelo menos, não era o meu como eu o conhecia. Era meu reflexo, sim, mas era um estranho. Os olhos, embora da mesma cor, possuíam uma frieza que nunca me pertencia, um brilho calculista que me fez recuar um passo. A boca, uma linha fina e sem emoção, parecia zombar da minha própria expressão de pavor. Fiquei paralisado, o coração batendo descompassadamente contra as costelas. O medo me corroía, um medo visceral de me mover e o reflexo não me acompanhar. E se ele ficasse lá, imóvel, enquanto eu tentava fugir? A ideia de quebrar a simetria, de testar a realidade, era mais aterrorizante do que a própria imagem. Cada segundo de imobilidade era uma aposta, um teste para ver se as leis da física ainda se aplicavam a mim. A respiração ficou presa na garganta. O simples ato de piscar se tornou um risco aterrorizante. Fechei os olhos com força, desejando que a image...

O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA - Conto Clássico Fantástico - Somadeva Bhatta

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O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA Somadeva Bhatta (Séc. XI) Há muito tempo, vivia um grou à beira dum lago repleto de peixes que, aterrorizados com a sua presença, dele fugiam. Já que não conseguia apanhá-los, o grou, ardilosamente, contou-lhe uma história enganadora: — Chegou aqui um homem, com uma rede, que captura e mata os peixes. Ele logo os apanhará com sua rede e, depois, os matará. Portanto, confiem em mim e sigam o meu conselho. Há, num lugar isolado, um lago translúcido, desconhecido dos pescadores destas paragens. Eu os levarei até lá e, um por um, tratarei de infiltrá-los placidamente em suas águas. Sem dúvida, lá vocês poderão viver tranquilamente, a salvo de perigos. Os tolos peixes, amedrontados com notícia propalada pela ave, responderam: — Sim, leve-nos para o novo lago! Nós confiamos em você. Então o traiçoeiro grou levou, um por um, muitos peixes. E, depositando-os sobre uma laje rochosa, os devorou. ​​ Um certo dragão-d’água (makara), que habitava aquele lago, ve...

PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES - Narrativa Classicas Fantásticas e Sobrenaturais - Juan Eusebio Nieremberg

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PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES Juan Eusebio Nieremberg (1595 – 1658) Tradução de Paulo Soriano PARTOS EXTRAORDINÁRIOS Quando o monstro tem uma aparência distinta da da mãe e do pai, deve-se considerar se o parto é principal e com os ritos conhecidos da natureza; então, mesmo que a sua aparência seja muito diferente, poderá, em alguns casos, ser qualificado como da mesma espécie, porque apenas a aparência não convence totalmente e, ordinariamente, o nascituro terá algumas características do que realmente é. Mas, se o parto não for principal, senão acessório ou acidental, então a criatura seria de distinta espécie e deve-se entender que não foi gerada na mãe pelo vigor seminal, senão pela putrefação, como muitos animais são gerados da terra. Em Salerno, quando parem, as mulheres expulsam consigo criaturas muito asquerosas — quais ratos — que estavam hospedadas em seus ventes e ali cresciam. Também uma mulher pariu, em sequência ao parto principal, uma cobra, que se...

ORELHA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio

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ORELHA Lewis Medeiros Custódio Confesso que, após o segundo ou terceiro milénio, torturar pessoas começa a perder a graça. Deixa de ser excitante. Sinceramente, passa até a ser enfadonho. E por fim piora. Começa-se a sentir empatia com as almas que Deus condenou e que o Diabo, meu superior e supremo líder de todos os demónios como eu, ordena castigar. Afinal, não é o Homem tão vítima dos desígnios divinos como nós? Se o divino manda em tudo, seguramente já tinha destinado que eu fosse um demónio antes da primeira faísca da existência. Como posso, então, ter eu culpa? Do mesmo modo pergunto como poderiam os humanos fugir do destino divino — e muitos colegas meus indagam o mesmo na hora da pausa, enquanto bebem sangue na taberna. A típica conversa de café sobre política. Claro que há uma excepção aqui e ali que nos faz o sangue ferver — Calígula, Vlad, Hitler, Bathori… até fazemos fila! Mas são excepções. Parcas excepções em milénios. Hoje, porém, senti as minhas energias redobrare...

A DAMA DA MORTALHA - Conto de Terror - Paulo Soriano

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A DAMA DA MORTALHA Paulo Soriano     O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão  com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço,  mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. João do Rio   — Ah, meu jovem Saul! Você é advogado e sabe muito dessa coisa injusta à qual chamamos Direito — disse-me o velho Roberval, numa Terça-Feira de Carnaval. — Deve ter estudado História do Direito, não é mesmo? — Somente um pouco de Direito Romano, confesso. — Sim, sim! — prosseguiu Roberval. — Os jovens não estudam mais essas coisas enfadonhas e antiquadas. Mas estou certo de que você pouco sabe da real “prática jurídica” de outrora. — Isso é verdade. Mas o que tem isto a ver com o Carnaval? — indaguei. — Bem — prosseguiu o ancião, bebericando a cervejinha —, tudo aconteceu, justamente, numa Terça-Feira Gorda. O bloco descera a Federação e passava, agora, à frente do  Campo Santo, o cemitério mais circu...

DESFILE FÚNEBRE - Conto de Terror - Maycon Guedes

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  DESFILE FÚNEBRE Maycon Guedes     A terra das covas movimenta-se, abrindo passagem para que os pútridos defuntos retornem à superfície depois de anos de sono lúgubre. A população de Franco da Rocha, cidade marcada por inúmeros mistérios, foi avisada sobre uma maldição carnavalesca: jamais festejar o carnaval durante a noite de Quarta-Feira de Cinzas. O problema é que, de geração em geração, a tal lenda foi ficando esquecida, e cá estamos, nesse relato onde a mais fúnebre das festas aconteceu. No centro da cidade, três escolas de samba se preparam para começar o desfile, enquanto que, no cemitério não muito longe dali, defuntos macabros se aprontam para a nefasta folia.      Ninguém poderia imaginar que uma linda noite fresca, de céu tão limpo e repleto de estrelas, reservava um acontecimento amedrontador que faria o mundo virar pelo avesso, trazendo o inferno e seus demônios às ruas para participarem do primeiro dia de Quaresma. Folia na cidade; show de h...

O BEBÊ DE TARLATANA ROSA - Conto Clássico de Horror - João do Rio

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O BEBÊ DE TARLATANA ROSA João do Rio (1881 – 1921)     — Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura... E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade. Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto. — É uma aventura alegre? — indagou Maria. — Conforme os temperamentos. — Suja? — Pavorosa ao menos. — De dia? — Não. Pela madrugada. — Mas, homem de Deus, conta! — suplicava Anatólio. —...